Votaram maioritariamente em John Kerry as mulheres, os jovens, os negros, os hispânicos. Votaram maioritariamente en John Kerry as gentes das grandes cidades, dos grandes centros industriais. Mobilizaram-se em favor de John Kerry vastos sectores da intelectualidade. Apelaram ao voto em John Kerry os principais jornais e revistas de difusão nacional e internacional.
Em vão. Impôs-se a chamada "América profunda". Cerca de 85% dos votantes de George Bush declararam que a sua opção foi motivada pelo combate ao terrorismo. Todos os demais argumentos são inúteis. E é este homem que continuará a governar o mundo.
Ele conferencia sobre ética cristã. Ele cavaqueia com as meninas de Odivelas. Ele disserta para os industriais da construção civil. Ele perora na Faculdade de Direito. E, pelo meio, dá um mergulho no Guincho.
Perseguem-no os jornalistas. Chovem perguntas. Sempre as mesmas. Mas, dele, apenas obtêm uma palmadinha nas costas. E um sorriso matreiro.
Depois ele escapa-se. Sempre com o mesmo ar folgazão. De quem não leva isto a sério.
O truque já é conhecido. Mas resulta sempre.
Ele dá a bronca e fica a olhar em redor. Como se nada lhe dissesse respeito. E goza, goza.
Aliás, o caso não é para menos, se tivermos em conta as histórias dos que agora defendem, com arreganho, a liberdade de informação e de expressão e denunciam as pressões governamentais sobre os media: Marques Mendes que, enquanto ministro, telefonava para a RTP fazendo sugestões para o alinhamento do telejornal; Pacheco Pereira que, enquanto comentador do "Público", denunciava os efeitos perversos da "mediocracia"; Mário Soares que, sem a mínima hesitação, apelava às direcções e administrações no sentido de afastar algum jornalista menos cordato; Manuel Alegre que, enquanto secretário de Estado da Comunicação Social, nomeou, para presidente do Conselho de Administração da RTP, Edmundo Pedro, um reconhecido especialista na matéria.
A lista poderia alongar-se...
Há uma quinzena de anos, desencadeou-se um violento debate na Assembleia da República em torno desta mesma questão. Pretexto: a colocação de uma vírgula que deturparia o sentido de uma frase. Esgrimiram-se argumentos. E acusações. Até que Narana Coissoró, de quem discordo políticamente mas a quem reconheço qualidades gastronómicas e noção do ridículo, rematou oportunamento: "Comunistas, socialistas e sociais-democratas, já todos pressionaram os órgãos de comunicação social. Só a nós não foi dada, ainda, essa possibilidade. E lamentamo-lo". O lamento do deputado centrista seria ouvido alguns anos mais tarde.
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Peço desculpa, mas não junto a minha voz ao coro de protestos suscitado pelo "caso Marcelo Rebelo de Sousa". É sempre de reprovar qualquer decisão que afecte a liberdade de informação e expressão. No caso presente, está ainda por provar que o comentador em causa tenha sido efectivamente silenciado. Mas o importante não passa por aí. O importante é verificar que as ameaças mais graves à liberdade de informação e expressão se situam noutro nível. Menos espectacular. Embora mais profundo. Situam-se no anonimato das redações, sobretudo das televisões, pública ou privadas, onde legiões de jovens, recém saídos da Universidade se dispõem a tudo fazer para obter um contrato de trabalho. Por seis meses. Por três meses. Às vezes, podem crer, por um dia. Nenhuma preocupação deontológica os move. Move-os, sim, a vontade de agradar às chefias. E, se possível, de ultrapassar as expectativas das chefias. Estimulados pela mórbida curiosidade dos "pivots", aí vão eles em busca das vítimas e dos culpados. Nada os detem. Nem o escrúpulo, na formulação das perguntas. Nem o rigor, na utilização da linguagem. Daqui resultam narrativas mediáticas como as produzidas em torno da "pequena Joana".
O grave, o mais grave, é que assistimos a isto, diariamente, sem pestanejar. E só nos incomodamos quando alguém pretende, se é que pretende, silenciar o "Professor".
Tem esta mensagem um objectivo: o de anunciar que, enfim, a nobilíssima figura do Diácono dos Remédios encontrou quem a encarnasse. Foram precisos anos para que alguém, devidamente legitimado, rompesse o silêncio e ousasse apontar o dedo à razão principal para o insucesso escolar em Portugal, nomeadamente ao nível do ensino superior. É a "indústria da noite". Devemos este acto de coragem ao preclaro Reitor da Católica. E ao ouvi-lo vem-nos à memória batida como tudo era bom noutros tempos. Nos tempos em que as meninas usavam kilt e meias brancas. Nos tempos dos bailes do bairro, em que as mães se sentavam mesmo por trás das filhas e as seguiam atentamente, com o olhar, por toda a pista de dança. Nos tempos em que nenhuma menina que se prezasse entrava sózinha num café. Nos tempos em que fumar era exclusivo do sexo masculino. Lembro-me até que certo dia fui parar ao posto da polícia de Almada porque um atento sr. agente me viu dar um beijinho numa menina, ali, no jardim que fica mesmo em frente do tribunal. Justíssima e oportuníssima a atitude do sr. agente. Veio a minha mãe buscar-me, mais a mãe da menina. E no ar ficou, ao agente, a promessa de uma reprimenda.
Nessa altura sim. Os jovens deitavam-se cedinho. E cedinho se levantavam. E não esfregavam os olhos no decurso das aulas. E como eles eram bons alunos... Aliás, o mundo inteiro apreciava Portugal, pela anormal quantidade de génios que então gerava.
É óbvio que o Reitor se conteve. Não disse tudo quanto lhe ia na alma. Mas que nós, ao ouvi-lo, adivinhámos. A culpa de tudo isto é da democracia. É da falta de governantes com verdadeira dimensão de estadistas. De estadistas como Salazar.
Chama-se Manuel Braga da Cruz, o Reitor de que falamos, com um entusiasmo e uma admiração incontroláveis. Mas nada de confusões com outro universitário que tem o mesmo nome. Esse outro universitário estudou em Roma vai para quatro décadas. Conviveu de perto com o grupo do Manifesto e inscreveu-se no MES desde que regressou a Portugal. Há já bastante tempo que não sei por onde ele anda. Este, o Reitor, ainda acaba canonizado. Assim Deus e a doença de Parkinson o queiram.
Tendo havido "quem criticasse Vicente Jorge Silva por se ter desfiliado do PS mantendo-se como deputado independente" Vital Moreira entendeu prestar os seguintes esclarecimentos (v. Causa Nossa):
1. "Vicente Jorge Silva foi eleito como independente nas listas do PS e só depois se filiou no partido, voltando agora à situação originária";
2. "Existem outros deputados independentes nas listas do PS que mantêm esse estatuto".
Parece-me que estes "esclarecimentos" passam ao lado da questão fundamental.
Não sendo constitucionalista, ouso dizer que a "independência" de um deputado independente é, em Portugal, muito relativa. Contrariamente ao que sucede em França, a lei portuguesa não permite a candidatura de independentes. Estes apresentam-se integrados nas listas de um partido o que supõe negociação. Vicente Jorge Silva não se apresentou como "independente" por um partido qualquer mas pelo PS. O PS não patrocinou uma candidatura qualquer mas sim a de um cidadão chamado Vicente Jorge Silva. Daqui decorrem compromissos para ambas as partes o que me leva a questionar a legitimidade de um discurso que poderíamos, assim, sumariamente descrever: "O partido não me interessa. A minha adesão foi um equívoco. Adeuzinho. Na Assembleia, assumirei, livremente, as posições que entender"...
Dito de outra forma. Não critico V J S por ter regressado ao anterior estatuto de independente. Reconheço toda a legitimidade na existência de outros deputados independentes eleitos em listas do PS. O que critico em V.J.S., onde não lhe reconheço legitimidade é nas razões que ele alinhou para justificar a sua dupla decisão.
Vicente Jorge Silva saíu do PS. Razão invocada pelo próprio: "Tenho demasiado respeito pelos princípios que norteiam (ou deveriam nortear) a vinculação a um partido político para continuar a representar um papel em que me sinto deslocado, exterior e, finalmente, inútil".
Tudo bem. A pessoa sente-se inútil e, portanto, sai.
Só que, dois parágrafos adiante (estou a ler uma notícia do Público) apercebo-me que o mesmo Vicente Jorge Silva permanecerá na Assembleia da República, agora como deputado independente.
Porque faz um balanço positivo da sua função enquanto parlamentar?
Não! Se a militância partidária foi, para ele "escassa ou totalmente improdutiva", a tarefa de deputado, essa, não se revelou "gratificante".
Em suma: um mesmo desencanto para diferentes ilações.
Vicente Jorge Silva avança uma dupla justificação para a sua permanência na Assembleia:
1ª "Gosto de assumir os meus compromissos até ao fim";
2ª "De facto, neste momento não tenho outra coisa que me apeteça fazer, outra coisa mais interessante".
Donde as minhas conclusões, aparentemente contraditórias:
1ª Vicente Jorge Silva não assumiu compromissos com o PS ao aderir a este partido.
2ª O seu estatuto de deputado não lhe merece o mesmo "respeito pelos princípios que norteiam a vinculação a um partido político". Só assim se compreende que, por falta de "outra coisa mais interessante", Vicente Jorge Silva aceite continuar em São Bento, embora "deslocado", "exterior" e "inútil".
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Deixo um espaço para que os meus amigos bloguistas aí inscrevam outras conclusões.
Sempre me intrigou esta displicência dos portugueses relativamente aos símbolos nacionais. Raros são os que conhecem a letra do hino. Mais raros ainda os que conhecem o significado da iconografia da bandeira cujas cores suscitam, genérica e imediatamente, o qualificativo de foleiras. É de bom tom desvalorizar a condecoração que se recebe e as respectivas insígnias são recatadamente esquecidas no interior de um qualquer estojo. Usá-las? Que parolice...
Influenciado que sou pelas práticas sociais e culturais francesas, dou constantemente comigo a fazer comparações. E verifico o orgulho com que o francês entoa a Marselhesa. Porta a faixa que indica a sua condição de eleito. Usa, no quotidiano, a roseta vermelha da Legião de Honra. Enverga uma "T-shirt" tricolor. Faz do dia nacional uma festa popular.
Porquê tal diferença? Será que os portugueses associam os símbolos nacionais ao salazarismo?
Eis uma explicação que não me satisfaz. Com efeito, a displicência referida está socialmente massificada. E o mesmo não sucede, por mais que isso nos doa, com a rejeição do salazarismo.
A explicação deste aparente desapego é mais profunda. Descobri-la, permitir-nos-ia, talvez, compreender melhor alguns dos episódios mais relevantes da nossa história.
Porquê todo este relambório? Porque fui surpreendido com o número de táxis que, em vésperas do Euro 2004, circulam com uma bandeirinha portuguesa. O que provocou em mim uma sensação mista de ridículo e de incómodo.
Ora eu até gosto de futebol. E acho que urge elevar a auto-estima da lusa gente.
Mas não escapo a esta reacção à portuguesa. Que, ao fim e ao cabo, não sei se criticar se elogiar.
O Congresso do PSD fez-me pensar nesta capacidade inigualável da direita política para preencher a agenda pública em função dos seus interesses. Era vê-los, do cimo da tribuna, a enumerar os sucessos. Dois anos de sucessos e mais sucessos.
O desemprego aumenta? A taxa de cobertura das importações pelas exportações agrava-se? Pouco importa. Que a resposta é imediata. Não fossem as decisões tomadas pelo actual governo e muito mais aumentaria o desemprego. E muito mais se agravaria o déficite da balança comercial. Conclusão: maus resultados são a expressão de políticas acertadas.
E, com a mesma facilidade se esquecem casos de corrupção como o que levou à demissão de Isaltino de Morais. Com o mesmo despudor se resolvem irregularidades fiscais como as praticadas pela própria ministra das Finanças (a sua argumentação, estabelecendo um paralelo com o champô que o jornalista pode ter incluído nas despesas de saúde dedutíveis, é absolutamente estarrecedora). Com o mesmo esgar agastado se afasta aquele que, impertinente, ouse evocar a triste figura que Portugal, pelo seu primeiro ministro, desempenhou a propósito do Iraque. Com a mesma sobranceria se retira do espaço público questões tão nebulosas como a da Galp e a das Águas de Portugal.
As listas de espera nos hospitais são maiores do que nunca. Nunca houve tal descalabro na colocação de professores. Mas, no discurso oficial, multiplicam-se as declarações de orgulho pelos progressos registados na saúde e na educação.
Impante, Durão solicita aos portugueses que renovem a confiança em si. Para que ele possa continuar a sua obra. Aliás quem se desviar da rota por ele superiormente traçada, sobretudo agora, em vésperas do Euro 2004, não é bom português, é comunista ou influenciado pelos comunistas Soa-me a qualquer coisa já ouvida.
Na semana passada o partido socialista francês anunciou a sua intenção de apresentar uma proposta de lei "determinando as condições e as regras para o casamento homosexual". O que, na prática, significa o reconhecimento de tal acto. A 5 de Junho, o deputado ecologista Noël Mamère protagonizará o primeiro casamento entre homossexuais realizado em França. "Quatro barões do PSF apressaram-se a dar-lhe a benção", escreve-se na edição de hoje do "Público": Bertrand Delanoë, presidente da Câmara de Paris; Dominique Strauss-Kahn e Laurent Fabius, respectivamente, antigos ministro das finanças e primeiro ministro; François Hollande, actual leader do partido. Em sentido oposto pronunciou-se Lionel Jospin ao declarar que "é possível desaprovar e combater a homofobia e ser-se, ao mesmo tempo, contra o casamento homosexual, como é o meu caso".
Duas reflexões.
A primeira reflexão para sublinhar a clarividência de Lionel Jospin ao recusar a amálgama que, tantas vezes, é instrumento de estratégias manipulatórias.
A segunda reflexão para assinalar os trilhos do politicamente correcto. De um lado, encontramos quatro personalidades que aspiram, manifestamente, a exercer o poder (no caso de Bertrand Delanoë, acresce a circunstância de se assumir como homosexual). Do outro lado, do lado de quem rema contra a maré, alguém que, desde as famigeradas presidenciais de 2003, se retirou, parece que definitivamente, da política. Daí a ousadia?
Na década de noventa Portugal registou as mais elevadas taxas de reclusão da União Europeia (147 reclusos por 100.000 habitantes). Foi também em Portugal que a duração média das penas de prisão atingiu valores mais importantes. Em 1997, por exemplo, a duração média das penas de prisão, em Portugal, ultrapassou os 22 meses. Na Grã-Bretanha, na Holanda e na Finlândia não atingiu os seis meses. Na Itália, em França e em Espanha situou-se entre os seis e os nove meses. Portugal é, por outro lado, o país onde se verifica a maior taxa de reclusão por crimes relacionados com consumo ou tráfego de estupefacientes: 38% do total dos presos, em 1998, contra 10 a 16% na Bélgica, na Finlândia e na Grã-Bretanha, de 17 a 19% na Holanda, na Suécia e em França. No que respeita à densidade carcerária, apenas somos ultrapassados pela Grécia.
Em vésperas do Euro, e seguindo o exemplo da sua colega das finanças, talvez fosse bom que a ministra Celeste Cardona "trabalhasse" um pouco este números...
Reune-se o Tribunal da Relação e decide: a medida de coacção é exagerada. E o arguido, após quinze meses de prisão, é posto em liberdade. Assim. Sem mais.
Quinze meses para se chegar a tal conclusão...
Indigna-se o arguido?
Não!
Humildemente, o arguido cala-se. Se é que não agradece.
Porque o que lhe aconteceu não prova a incompetência e muito menos a prepotência de um qualquer juiz.
Prova que a justiça funciona.
Se não me engano, isto começou com a Expo-98. Grandes relógios anunciando os meses, os dias, as horas e os segundos que nos separavam do início do acontecimento foram, então, instalados em diversos locais de Lisboa. A moda pegou. Na noite de sexta-feira, a SIC-Notícias lembrava, de trinta em trinta minutos, o tempo que faltava para se atingir as 23 horas, ou seja, 24 horas em Roma: momento em que a Europa passaria de 15 a 25 membros. Hoje, terça-feira, é a Antena 1 da RDP (não sei se outras estações também) que, desde a manhã, procede à contagem decrescente do tempo que falta para o árbitro, um célebre careca italiano chamado Collina, apitar para o começo do jogo Porto/Corunha. Desde o início de Abril que diversos órgãos de informação nos informam sobre o número de dias que teremos, ansiosamente, que ultrapassar para chegarmos, enfim, ao 12 de Junho: data da inauguração do Euro 2004. E no Diário de Notícias, páginas inteiras de publicidade a cores, sobre a parada de estrelas que dá pelo nome de "Rock in Rio", alertam-nos: "Já só faltam 25 dias para o maior festival do Mundo"; "Tem apenas 24 dias para garantir o seu lugar".
E nós lá vamos, embalados por um ritmo que nos é proposto/imposto. Enfrentamos as agruras do quotidiano, situando-nos num tempo que está para vir. O futuro como elixir do presente.
Hoje é que é!
Precisava de um tal "Atestado do direito às prestações em espécie durante uma estada num Estado membro", documento que toda a gente conhece por "E111". Nada melhor que a Loja do Cidadão. Escolhi a dos Restauradores. Entrei. A que balcão deverei dirigir-me? Respondeu-me solícita a recepcionista: "pergunte ali à minha colega". E a colega não menos simpática: "tire uma senha e aguarde". O meu rosto abriu-se num sorriso rasgado. É que, de facto, não estamos habituados a ser tratados como cidadãos. Tirei a senha. Era o Nº 408. Olhei para o mostrador. Ia no 241. Desci à terra. Ou melhor, sentei-me. O resto adivinha-se. Adivinha-se o efeito hipnótico exercido pelos números que se seguem no mostrador e cuja marcha desejamos, ardentemente, que não pare. Adivinha-se a ansiedada provocada pela funcionária que se ausenta para fumar um cigarrinho, para beber um café ou satisfazer qualquer outra necessidade. Adivinham-se os protestos dos que, como eu, para ali estão. Aparece, enfim, o 408. Levanto-me rápido, não vá passar a minha vez. Mas bastam dois minutos para saber que a espera foi vã. Para os beneficiários da ADSE só nas Laranjeiras. Saí. Em pouco mais de duas horas passara da admiração ao desapontamento. Do desapontamento ao desespero. Do desespero ao conformismo.
(P.S. Na Loja do Cidadão, às Laranjeiras, fui atendido rápida e eficazmente. Mas isto é só um aparte. Que não entra na minha estória. Senão estragava-a.)
O PP discorda da atribuição da Ordem da Liberdade à Isabel do Carmo. Por isso, limita a sua representação na cerimónia à ministra Celeste Cardona. No final, a condecorada revela a alguns jornalistas que foi cumprimentada por diversos membros do governo. E por Celeste Cardona? "Não, esclarece Isabel do Carmo, essa não me veio cumprimentar". "Ministra da Justiça não cumprimenta Isabel do Carmo", titula o Público na primeira página do dia seguinte. E no corpo do texto acrescenta: "a ministra da justiça fez questão de não cumprimentar Isabel do Carmo". A partir daí, um comentarista da Antena 1 parte para considerações inflamadas sobre a incapacidade dos populares viverem em democracia. Não é minha intenção analisar, aqui, os pressupostos políticos do PP. Também penso que muitos dos seus dirigentes são incapazes de viver em democracia. O que me interessa, é mostrar como uma "não acção" se converte, mediaticamente, "numa acção efectiva". Assim se constroi a notícia. Assim nasce o acontecimento.
Abriu.
(Assinaturas) Azul. Eduardo Graça. José Rebelo. Marienbad. Nuno Marques. Paulo Godinho. Porfírio Silva. Sempre à coca.

(Foto do Arquivo Electrónico do Centro de Documentação 25 de Abril)