abril 30, 2005

Renascer ou Morrer

Aqui post comando das FFAA. Neste hora em que escrevo as operações estão prestes a ter início. A madrugada ainda vem longe mas tudo está preparado para a acção. Hoje é o último dia da ditadura. O fim de um regime que, imaginem!, durou 48 anos.

de realizar duas comemorações: o 31º aniversário da madrugada libertadora do 25 de Abril e o 1º aniversário da Abébia Vadia. O espaço das comemorações é livre – cada um comemora o que quiser, quando quiser, onde quiser, o que se aplica na perfeição ao 25 de Abril.

(Este post foi inserido no passado dia 25 de Abril e, depois de ter desaparecido, misteriosamente, volta ao seu lugar)

O mesmo não posso dizer deste blog de cujo espaço me acabo de apropriar. A partir de agora considerem este blog ocupado. Todos continuam a nele ter lugar e o debate acerca do seu futuro continua em aberto. Mas vamos fazer o que ninguém pode deixar de fazer quando, de uma forma qualquer, assume responsabilidades púbicas: decidir acerca do futuro da “coisa”!

Este é um belo dia para encetar esse caminho de debate mas, para mim, em homenagem ao25 de Abril, um debate em acção. No caso preenchendo este pequenino espaço púbico com as nossas opiniões ou, em alternativa, decidir pôr-lhe fim ou abandoná-lo individualmente. Viva a Liberdade! Viva Portugal!

Publicado por Eduardo Graça em 07:20 PM | Comentários (2) | TrackBack

janeiro 14, 2005

Caminho a Pé


Ontem subi a Calçada da Estrela a pé. De principio ao fim. Desde a Assembleia da República ao Jardim da Estrela.

Detive-me diante do 183 onde vivi um tempo bom da minha vida. O meu primeiro poiso após desembarcar em Lisboa. Ao alto vi a sacada e a janela do meu quarto. Não sei que é feito da gente que lá vivia. Deveria ter subido a escadaria ao último andar? Não iria encontrar aqueles que queria.

Retomei a marcha. Ao Largo da Estrela reparei que na Basílica a porta das capelas funerárias estava fechada. Estranhei. A esplanada do jardim do meu contentamento estava aberta. Não entrei.

Segui em frente. Tomei o sentido descendente da Infante Santo. A um passo reparei na casa do "gordo". O que será feito dele? Passei defronte ao hospital militar onde me operaram um pólipo nas cordas vocais e me mandaram comer um gelado. Fui comê-lo um pouco mais abaixo.

No cruzamento com a Sant´ana à Lapa, à esquerda, era o caminho da antiga casa dos pais do Ferro. Dobrando a esquina à direita era o caminho da casa da Travessa do Possolo onde vivi com o Mariquito, o Coelho Cardoso e o Elias.

Depois continuei descendo a caminho do meu destino. Meia hora percorrendo lugares da minha juventude.


Um caminho luminoso aos lugares da memória. Retemperador.

Publicado por Eduardo Graça em 07:08 PM | Comentários (2)

janeiro 08, 2005

Um Compromisso Para a Educação


O artigo publicado ontem, com o título em epígrafe, pelo "Semanário Económico" pode ser lido no IR AO FUNDO E VOLTAR que insere ainda um conjunto resumido de indicadores acerca do estado da educação e formação na UE e em Portugal.

Publicado por Eduardo Graça em 04:15 PM | Comentários (2)

dezembro 31, 2004

Receita de Ano Novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre

Carlos Drummond de Andrade


Publicado por Eduardo Graça em 01:11 PM | Comentários (0)

dezembro 24, 2004

Natal


Natal 77

Natal mais uma vez. Setenta e sete.
Há anos já que não escrevia como
por alguns outros sempre me escrevi
do que Natal não foi, não há, nem será nunca,
senão em desejar-se enfim com ele ou não
quanto de humano em nós seja o divino
que humanos nos constrói do nada em que persiste
sem de existir saber mais que pensarmos nós
ou nós querermos sem conhecimento
não de mais além, ou mais aquém,
ou só de nós, mas só conhecimento
deste circunviver a que Natal se chama.
No mundo mais que nunca o sangue corre,
de todos escondido, por todos pago para
que se morra ou se mate em juro dos impérios.
Na pátria as hidras erguem as cabeças
e é perigoso gritar «não passarão»
como na Espanha há mais de quarenta anos,
quando co’a benção das potências todas,
elas passaram cilindrando tudo.
Culpados todos – porque não dizê-lo,
em vez de acusações que nada salvam?
Porque não confessar erros horrendos
que fizeram haver uma Direita
que não houvera nunca além de uns quantos asnos
ou gente ingénua defendendo a pátria
como lhe diziam que ela fora sempre,
ou meia dúzia de malandros que se enchiam
naquelas negociatas que o próprio Salazar
dizia consentir aos mais malandros deles?
Natal setenta e sete. Todos sentem
que foram ou têm sido sabotados,
traídos, ou vendidos. Mas só poucos
podem dizer que, mesmo santamente,
honrando os sonhos ou seus compromissos
até com as ideias que não tinham,
não sabotaram, ou venderam ou traíram,
em nome da liberdade e da democracia.
É triste mas é vero: com essas duas palavras
que juntas desejámos longamente
só é possível ainda o escrever-se
um verso inteiramente errado.


Jorge de Sena


Publicado por Eduardo Graça em 05:28 PM | Comentários (2)

dezembro 17, 2004

O Problema


É bastante improvável que o PS não ganhe as eleições de 20 de Fevereiro.


Dizem as sondagens e o "homem da rua". A expectativa é muito alta.


É esse o problema do PS.

Publicado por Eduardo Graça em 05:38 PM | Comentários (3)

dezembro 15, 2004

(A) normalidade


A notícia deve ser verdadeira. Foi dada, embora sem excessivo destaque, por todos os órgãos de comunicação social.

Não estive presente na Assembleia Municipal de Lisboa onde a maioria (de esquerda) chumbou o orçamento para 2005 apresentado pelo executivo municipal (de direita).

Pergunto eu: não há consequências políticas? É tudo normal? Como vai a Câmara Municipal de Lisboa ser governada em 2005? Com o orçamento de 2004! Em gestão corrente. E os projectos referentes a 2005?

São eleições antecipadas a mais, não é? Não dá para entender esta "normalidade"!


Publicado por Eduardo Graça em 06:11 PM | Comentários (2)

dezembro 13, 2004

Património do Estado, que futuro?


Com a devida vénia se transcreve da rúbrica "Legislação do dia (selecção)" do GRANOSALIS o título de uma elucidativa Resolução do Conselho de Ministros. A mesma pode ser consultada, na íntegra, naquele blog.

Na minha opinião trata-se de um tema que merece a maior divulgação e acompanhamento pela opinião pública.

Não deixa de ser uma curiosa coincidência a data de publicação da presente Resolução em coincidência com os acontecimentos que conduziram à dissolução da AR e posterior demissão do Governo.


O que se vai seguir, no período em que o governo assumiu a natureza de "governo de gestão", para operacionalizar as decisões previstas na presente Resolução?

Resolução do Conselho de Ministros n.º 171-A/2004. DR 288 SÉRIE I-B 1º SUPLEMENTO de 2004-12-10 - Presidência do Conselho de Ministros: Autoriza a alienação ou a constituição de outros direitos reais ou obrigacionais sobre os bens imóveis pertencentes ao património próprio de determinados institutos públicos, bem como o posterior arrendamento desses bens imóveis pelos referidos institutos públicos e a despesa inerente

Publicado por Eduardo Graça em 08:47 PM | Comentários (1)

dezembro 11, 2004

Política


(Em jeito de contributo para a campanha política do PS nas próximas eleições de 20 de Fevereiro)

"Desconfiai daqueles que vos dizem: Nada de discussões políticas que são estéreis; ocupemo-nos só dos melhoramentos materiais do país".

(Alexandre Herculano)

"Aprendemos que, em política, a arte maior é a de exigir a lua
não para tê-la ou ficar numa fúria por não tê-la
mas como ponto de partida para ganhar-se, do compromisso,
uma lâmpada de sala que ilumine a todos
."

(Jorge de Sena)

In "Citações Portuguesas" de Jorge Serrão

Publicado por Eduardo Graça em 12:43 AM | Comentários (1)

dezembro 07, 2004

Para o Zé


Divago, quando o que quero é só dizer
te amo. Teço as curvas, as mistas
e as quebradas, industriosa como abelha,
alegrinha como florinha amarela, desejando
as finuras, violoncelo, violino, menestrel
e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito
para escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo
o teu coração, o que é, a carne do que é feito,
amo sua matéria, fauna e flora,
seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas
perdidas nas casas que habitamos, os fios
da tua barba. Esmero. Pego tua mão, me afasto, viajo
pra ter saudade, me calo, falo em latim pra requintar meu gosto:
"Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentas
o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu não
ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros".
Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama
fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.
Te alinho junto das coisas que falam
uma coisa só: Deus é amor. Você me espicaça como
o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me guarnece,
tira de mim o ar desnudo, me faz bonita
de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega,
me dá um filho, comida, enche minhas mãos.
Eu te amo, homem, exatamente como amo o que
acontece quando escuto oboé. Meu coração vai desdobrando
os panos, se alargando aquecido, dando
a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.
Amo até a barata, quando descubro que assim te amo,
o que não queria dizer amo também, o piolho. Assim,
te amo do modo mais natural, vero-romântico,
homem meu, particular homem universal.
Tudo que não é mulher está em ti, maravilha.
Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos,
a luz na cabeceira, o abajur de prata;
como criada ama, vou te amar, o delicioso amor:
com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso,
me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles
eu beijo.


Adélia Prado

In "Um Jeito e Amor", Bagagem


Publicado por Eduardo Graça em 07:25 PM | Comentários (0)

dezembro 04, 2004

Santana Lopes


"Admito que Santana Lopes - dentro do meu partido - nada tem a ver com a social-democracia".

Alberto João Jardim, Nov. 82

(In "Citações Portuguesas, de Jorge Serrão)

Publicado por Eduardo Graça em 11:50 PM | Comentários (2)

dezembro 02, 2004

Sim vence no referendo à Constituição Europeia no PSF


Este é um assunto muito sério. Podemos alimentar dúvidas e reservas acerca da UE e da Constituição Europeia. A informação acerca do tema "passa" mal.

A crise política actual pode ser favorável a um reforço do processo de esclarecimento público que deverá anteceder o referendo em Portugal.

Que ninguém pense que Portugal possa viver de costas voltadas para a UE. Seria um suicídio estratégico no contexto das relações do país com o mundo. O resultado do referendo interno no PSF é um bom motivo para a reflexão de todos.

"Parti Socialiste: la victoire du "oui" et de François Hollande"

Les militants socialistes ont voté massivement en faveur de la Constitution européenne - près de 59% pour le oui, selon des résultats provisoires -, ce qui renforce l'autorité de François Hollande à la tête de son parti et signe l'échec de Laurent Fabius qui plaidait pour le non.

Le succès du oui lors du référendum interne mercredi consolide le statut de présidentiable de M. Hollande, numéro un du parti, tandis que s'éloigne pour M. Fabius, le numéro deux, la possibilité de représenter son parti dans la course à la présidentielle.

François Hollande devra cependant partager les fruits de ce résultat avec tous les autres ténors du PS qui se sont impliqués à ses côtés dans la campagne, comme Dominique Strauss-Kahn, Jack Lang, Elisabeth Guigou ou Martine Aubry. "

In " Le Figaro "


Publicado por Eduardo Graça em 06:25 PM | Comentários (1)

novembro 30, 2004

Eleições, finalmente!


Já passaram umas horas. Parece que é mesmo verdade. O PR tomou a decisão de dissolver a AR e de convocar eleições antecipadas. Honra lhe seja feita.

Da mesma forma que critiquei a sua lastimável decisão de 9 de Julho aplaudo a decisão de hoje. Teria sido possível adiar mais uma vez mas os custos da persistência do governo Santana Lopes seriam incomensuráveis. Mesmo assim serão muito elevados.

Nas próximas semanas vai travar-se uma batalha política própria da democracia. Os partidos vão apresentar-se aos portugueses e pedir-lhes o seu voto. O nosso sistema democrático, é bom afirmá-lo nestes momentos, é bastante avançado, ao contrário de outros. É transparente, fiável e justo. Não temos de nos envergonhar, antes pelo contrário, do nosso sistema eleitoral. Esta realidade não é nada desprezível pois ninguém tem de perder tempo a preocupar-se com a verdade dos resultados eleitorais.

Quais, em breve síntese, as questões com que se defrontam os partidos com mais hipóteses de eleger deputados:

Como vai o PSD unir-se em torno de Santana Lopes? Operação quase impossível! O tempo e as circunstâncias tornam quase impossível substituir Santana Lopes. Mas nada é impossível no PSD. Vide JPP no Abrupto.

Como vai o PP demarcar-se do PSD? Um dia fiel no governo, no dia seguinte crítico na oposição? Mas a antecipação das eleições é favorável ao PP. Permite-lhe apresentar-se como fiel depositário da estabilidade governativa e campeão da "boa governação". Vão ver, já amanhã, o discurso de Portas!

Como vai o PS surgir como uma verdadeira e credível alternativa ao PSD? O "radicalismo centrista" não basta, pois vai desembocar na tentação do "bloco central" na perspectiva de uma ausência, provável, de maioria absoluta. É mais uma vez o calcanhar de Aquiles da política de alianças da actual liderança do PS que vem à tona.


Como vai o PCP, defendendo o marxismo-leninismo e o centralismo democrático, apresentar-se perante um eleitorado de esquerda tentado, por um lado, pela maioria de governo socialista e, por outro, pela minoria de protesto do BE? A vantagem da nova liderança perde viço face à dura realidade da expectativa do poder que o eleitorado de esquerda alimenta.


Como vai o BE resistir à imagem de juventude de Sócrates, à dinâmica de vitória do PS e à dureza do discurso ortodoxo de Jerónimo? O seu espaço vai estreitar-se.

E, finalmente, como vai o povo português resistir à campanha eleitoral? Qual o grau do seu empenhamento no voto? Vão estas eleições contribuir para o prestígio dos políticos e do regime democrático?


Publicado por Eduardo Graça em 11:17 PM | Comentários (2)

novembro 26, 2004

Serviço Militar Obrigatório - de novo


A respeito do "Serviço Militar Obrigatório" está muita coisa dita. E bem dita, seja qual for o ponto de vista. Tenho pensado acerca do assunto. Escrevi dois pequenos textos que publico. Sou daqueles que defendem o SMO.

Mas não gostaria de cavar uma divisória entre os jovens, que seriam contra, e os velhos que seriam a favor; entre os progressistas que seriam contra e os reaccionários que seriam a favor. Entre os anti-militaristas que seriam contra e os militaristas que seriam a favor; entre os patriotas que seriam a favor e os europeistas que seriam contra (claro que se pode ser patriota e europeista).

I

O Dr. Portas surge, ufano, a proclamar o fim do Serviço Militar Obrigatório (SMO). O acontecimento aparece aos olhos da grande maioria como uma grande conquista civilizacional. Em particular aos olhos da juventude. As juventudes partidárias rejubilam.

O Dr. Portas ostenta um orgulho que está nas antípodas das suas próprias convicções caso fosse um verdadeiro patriota. No momento em que se consagra o fim do SMO quero afirmar que sempre fui a favor da conscrição, ou seja, do "alistamento militar". Acho que o fim do SMO é uma cobardia moral e um sinal de resignação patriótica.

A partir de agora o país ficará a dispor de forças militares profissionais. A maioria dos jovens nunca terá acesso à experiência militar. Nunca saberá manejar uma arma. Nunca terá a mínima noção real do que é a defesa nacional. O país perderá um dos últimos redutos onde se exercitava o sentimento de pertença à comunidade nacional.

Ficam os ex-combatentes para o exercício da demagogia patrioteira. Ficam as compras de armamento para o aumento da despesa pública. Ficam os edifícios e os terrenos militares devolutos para combater o deficit. O patriotismo virou negócio por grosso e a retalho. E negócio chorudo!



II

O pensamento dos defensores do fim do SMO está em linha com um mundo que teria conquistado, em definitivo, o estatuto da concórdia e da paz. Está em linha com a lógica da guerra tecnológica, armamentos sofisticados e serviços de informações dotados de recursos sem freio.


As guerras envolvendo grandes exércitos, legiões ocupando o território a conquistar ou defendendo o território a defender, parecem estar definitivamente fora do horizonte estimável para a vida das novas gerações.


A decisão política de por fim ao SMO é, no essencial, de natureza estratégica. Manter forças armadas em que o recrutamento assentasse na conscrição é demasiado impopular para as novas gerações que se concentram cada vez mais nos grandes centros urbanos. É, por outro lado, demasiado caro para os orçamentos dos Estados nacionais e transnacionais. A "privatização" das forças armadas torna-as mais manejáveis e mais baratas, respectivamente, no plano político e económico. Os equipamentos necessários para umas FFAA, assentes na filosofia do SMO, são demasiados caros, os quartéis e campos de treino são peças valiosas do património que valem bons negócios imobiliários.

No plano demográfico os jovens escasseiam num contexto em que as famílias alargadas deixaram de ser a regra nas nossas sociedades, cedendo o passo às famílias nucleares. A média de filhos por família caminha a passos largos para a unidade - um casal, um filho. O exército profissional corresponde, de forma mais adequada, a este paradigma familiar.

São todas razões de fundo para justificar a decisão político/estratégica de eliminar o SMO. Não estão em causa, no essencial, razões de natureza ideológica. Mas uma conjugação de factores demográficos/sócio/económicos incontornáveis. Perde-se muita coisa com o fim do SMO. É verdade.

Mas estejamos certos que os políticos do nosso tempo ganham, com esta orientação, espaço de manobra tendo em vista conquistar e manter o controle do poder de estado. O SMO era, além de um custo indesejado, um risco escusado. No caso de crise grave resultante da desintegração da UE, ou de um conflito militar generalizado, à escala mundial, sempre se pode lançar mão da mobilização geral reassumindo, em pleno, o conceito de nação.

Resta saber qual o papel e destino das democracias, tal como as conhecemos hoje, neste imaginário "regresso ao passado".


Publicado por Eduardo Graça em 07:43 PM | Comentários (4)

novembro 19, 2004

Democracia


Fui ver a peça em cena no Teatro Aberto. Democracia.

A política no seu patamar mais elevado exposta em todas as suas facetas. A democracia retratada com todos os seus defeitos e virtudes.

A luta de Willy Brandt pela reunificação alemã, pela concórdia entre os homens, pela paz na Europa. Ascende ao governo da RFA em 1969 sendo o primeiro "chanceler" de esquerda depois do nazismo.

O SPD conquista o poder e deposita-o nas mãos deste homem que a certa altura diz: "Tantas pessoas à nossa volta, com tantos pontos de vista diferentes e tantas vozes diferentes. E dentro de nós próprios mais pessoas ainda, todas a lutar para se fazer ouvir" (na contra capa do Programa do espectáculo).

Brandt como sempre, ou quase sempre, acontece na política foi traído não só pelo espião que a RDA infiltrou no seu gabinete como pela intriga e inveja que sempre rodeiam os homens que detêm o poder.

Mas este era um daqueles líderes que tinha um sonho. Um grande desígnio para a Europa e para a Alemanha. Esse sonho foi cumprido. Ainda vivo viu a reunificação da Alemanha e o projecto da UE prosseguiu através do alargamento a leste para o qual, na prática, sempre trabalhou.


Esta encenação de Democracia é um belo exercício de teatro. Teatro do bom independentemente do conteúdo e da mensagem. Uma coisa bem feita que vale a pena ver.


Publicado por Eduardo Graça em 09:31 PM | Comentários (0)

novembro 16, 2004

Gabriela Mistral


"Albano Martins recebe Diploma da ordem de Mérito Gabriela Mistral"

Interessa-me a notícia pela distinção do poeta português e pela poeta chilena, minha leitura recente, que me impressionou. Gabriela Mistral foi diplomata, viveu em Lisboa, nos anos 40, colocava o português ao lado do espanhol e acerca da poesia disse:


" (...) A poesia é em mim simplesmente um resíduo, um sedimento da infância submersa. Embora possa resultar amarga e dura, a poesia que faço lava-me das poeiras do mundo e até dessa maldade essencial semelhante àquilo a que chamamos o pecado original, que trago comigo com angústia. Talvez o pecado original seja apenas a nossa queda na expressão racional e anti-rítmica à qual desceu o género humano e que nos dói mais a nós, mulheres, pelo prazer que perdemos na graça de uma língua de intuição e de música, que iria ser a língua do género humano.

É tudo quanto sei dizer de mim e não se ponham a investigar mais."

(In "Antologia Poética", selecção, tradução e apresentação de Fernando Pinto do Amaral, Toerema)

"Poeta e tradutor para português dos idiomas francês, espanhol, italiano, grego e latim, Albano Martins recebe hoje a Condecoração e o Diploma da Ordem de Mérito Docente e Cultural Gabriela Mistral, no grau de Grande Oficial.
A distinção chilena, considerada o Nobel da América Latina, será entregue a Albano Martins pelo embaixador daquele país em Portugal, Manuel José Matta, durante uma cerimónia a realizar na Universidade Fernando Pessoa, no Porto.
Albano Martins traduziu já diversas obras de Pablo Neruda, caso de "Os Versos do Capitão" (1996), "Canto Geral" (1998, Grande Prémio da Tradução APT/Pen Clube Português), "Cem Sonetos de Amor" e "Cadernos de Temuco" (ambos de 2004 e lançados a propósito do centésimo aniversário do nascimento de Neruda).
A sua obra inclui volumes como "O Mesmo Nome", "O Espaço Partilhado", "Escrito a Vermelho", "O Porto de Raul Brandão", "Assim São as Algas", "Castália e Outros Poemas", "O Espaço Partilhado", "Três Poemas de Amor Seguidos de Livro Quarto", "Do Mundo Grego Outro Sol", "Uma Colina para Os Lábios" e "Vocação do Silêncio 1950-1985"."

Lusa

Publicado por Eduardo Graça em 01:30 PM | Comentários (0)

novembro 07, 2004

"O IRS para os pobres"


Já está disponível no IR AO FUNDO E VOLTAR o artigo, com o título em epígrafe, publicado, na passada sexta feira, no "Semanário Económico"

Publicado por Eduardo Graça em 12:04 PM | Comentários (0)

novembro 01, 2004

O problema é JMB

Não conheço os meandros do funcionamento das instituições europeias. Digo os meandros, ou sejam, as cumplicidades, os jogos de poder, o teor das audições, os fundamentos das escolhas, as agendas políticas e pessoais, etc.
Mas para fazer uma aproximação ao entendimento da crise actual basta reparar num pormenor: qual a razão da preferência por José Manuel Barroso? Um pequeno político de um pequeno e pobre país da UE! A partir desta primeira escolha todas as outras podem ser questionadas. O homem não tem arcaboiço - quer dizer espessura, densidade, carácter, profundidade humana, todos esses ingredientes que fazem os grandes líderes.

Como esperar que os outros tenham as qualidades que o líder não tem? "Um senhor", o italiano, dizem os ideólogos neo-conservadores portugueses, quase todos ex-maoistas, como JMB. "Senhores há muitos", seus palermas. Mas na sua maioria não se ocupam de cargos políticos, infelizmente.


Há uma conspiração jacobina para dificultar a vida a JMB? Há uma conspiração do "lobby gay" para derrubar o candidato, ultra conservador, italiano? (Não vale a pena reproduzir mais, nem o seu nome, nem as suas afirmações). A diversidade é um problema para os neo-conservadores e para todas as mentes pré-totalitárias. As nossas sociedades estão cheias destas mentes, a todos os níveis e escalões, desde o povo pobre até ás mais altas instâncias do poder.

Não vale a pena inverter os valores e colocar os verdadeiros liberais no lugar da defesa das tiranias. Nem chamar, a toda a hora, para a defesa da "filosofia" da guerra preventiva os líderes conservadores que foram heróis das guerras de resistência à tirania nazi-fascista. Não confundam a "pura lã" com a "bombazina".

Para mim a haver alguma conspiração ela está no outro lado: na "invenção" de um líder para a UE com falta da capacidade para ser líder da UE. Esse líder tem um nome: JMB, o desertor. É brutal mas corresponde à realidade nua e crua. Deus queira que esteja enganado.


Para qualquer cidadão de bem senso, e com um mínimo de informação, só resta rezar para que JMB não seja o coveiro da UE. Para isso é preciso que JMB faça a UE voar baixinho para que os EUA possam por e dispor do poder no mundo. É esse o papel que lhe foi atribuído.

O comissário italiano não interessa nada! Se quiserem o lado positivo do caso ele prova que "as instituições da UE funcionam". Se quiserem o lado histriónico do caso (mais divertido) fixem a expressão facial de JMB, no momento da derrota. Se quiserem o lado político do caso, esperem para ver os resultados dos referendos nacionais à constituição europeia e, já agora, os resultados das eleições nos EUA.

Publicado por Eduardo Graça em 12:27 PM | Comentários (1)

outubro 30, 2004

Educação no cinzento


Fui a uma jornadas onde se falou de ensino e, em particular, de ensino profissional. Já tenho escrito acerca do tema por razões que resultam das minhas ligações profissionais ao tema. Ver a este propósito dois artigos disponíveis no IR AO FUNDO E VOLTAR

Não costumo alargar-me muito em considerações críticas acerca do estado da educação em Portugal - nos aspectos que melhor conheço - porque temo ser injusto para com o trabalho dos sucessivos responsáveis políticos e diversificados intervenientes no processo educativo. É assunto demasiado sério para acerca dele se tecerem considerações ligeiras e tecerem juízos definitivos.

Mas fiquei com a sensação bastante viva de que atravessamos uma época cinzenta. As ideias repetem-se, os recursos escasseiam e os protagonistas cansam-se e perdem qualidade. Por outras palavras, no plano político, falta uma ideia credível e mobilizadora para "pilotar" uma verdadeira reforma da educação. Não falo já da continuidade das políticas que deveria ser assegurada, e sustentada, numa visão de longo prazo - 20 anos (?) - mas da simples emergência de uma ideia força mobilizadora da sociedade civil e da comunidade educativa;

por outro lado escasseiam recursos onde há energia criadora, e vontade de mudança, e sobram onde se instalaram as rotinas e há excesso de capacidade instalada;

por fim os protagonistas, em particular, no ensino público, cansam-se, nuns casos, e perdem qualidade de intervenção, noutros, pois se confrontam com mudanças de paradigma inexplicáveis, entropias organizacionais absurdas, medidas avulsas imprevisíveis, rupturas hierárquicas desmoralizadoras, numa palavra, crise e instabilidade permanentes.

Num país que, em 2002, segundo as estatísticas da UE, apresentava um indicador de abandono precoce da escola de 45,5 %, o mais alto de todos os países da União, seria necessário um verdadeiro "choque educacional" para reverter, em prazo razoável, esta situação menos favorável.

É essa a obrigação dos governos. Conceber e por em marcha projectos estruturados, a prazo, cujo sucesso, no caso da educação, dependem absolutamente, de serem alicerçados em acordos de regime, formais ou informais, sob pena de não ser possível regenerar a educação em Portugal. Para isso é necessária uma energia que não encontrei, em geral, nos protagonistas das jornadas.

Salva-se em qualquer circunstância a obra realizada, até ao presente, no âmbito da promoção do ensino profissional, entre muitas outras, pela escola profissional Gustave Eiffel promotora da iniciativa que suscitou este comentário.


Publicado por Eduardo Graça em 12:00 AM | Comentários (1)

outubro 24, 2004

"A semelhança entre o OE e os pastéis de nata"

Para melhor compreender a proposta de OE para 2005 aqui fica este artigo, demolidor, de Manuel Pinho, publicado na última edição do "Expresso".


«O OE-2005 é uma prova adicional de como a política orçamental pode desestabilizar a economia e travar o crescimento»


Em resultado do mau uso da política orçamental, em 2005 o défice orçamental e o «stock» de dívida pública serão, depois de quatro anos de «contenção e rigor», superiores ao registado em 2001, ano em que o «despesismo» teria atingido o zénite.

O OE-2005 é uma prova adicional de como a política orçamental pode desestabilizar a economia e travar o crescimento.

Ao mesmo tempo que as finanças públicas pioraram, entre 2002 e 2005 a economia portuguesa irá crescer, se as previsões se confirmarem, um total acumulado de cerca de 2,8%, o que é equivalente ao que a Espanha cresce normalmente num ano.

Neste artigo, abordarei as duas primeira questões: a situação actual das finanças públicas comparada com 2001 e a desestabilização da economia resultante da forma como tem vindo a ser conduzida a política orçamental.

Primeira questão: a situação actual comparada com 2001.

Os orçamentos são como os pastéis de nata, por fora parecem todos iguais, só depois de provar é que se vê a diferença. Assim, o Governo tem dito que o défice orçamental foi de 2,7 p.c. em 2002, 2,8 p.c. em 2003, 2,9 p.c. em 2004 e, agora, 2,8 p.c. em 2005. Estes valores são resultado de uma cosmética e têm como único propósito não violar formalmente o limite de 3 p.c. do PEC. Para calcular o verdadeiro défice orçamental é necessário somarmos aos valores atrás mencionados as chamadas «operações não-recorrentes» que, naturalmente, apenas se justificam em «circunstâncias excepcionais». Estas operações são viciantes e a desintoxicação é cada vez mais difícil .

Em Portugal, recorreu-se pela primeira vez a estas operações em 2002 com um carácter «excepcional» e, desde então, nunca mais se parou. Todos os anos, inventa-se uma nova desculpa para que seja considerado «excepcional». O valor do défice orçamental, que no que respeita a 2005 é apenas «mais ou menos verdadeiro», (...) revela que, depois de quatro anos de «contenção e rigor orçamental», ainda não conseguimos voltar à estaca zero, neste caso, o ano de 2001.

Digo «mais ou menos», porque uns truques de mágica do tipo Houdini fizeram desaparecer do perímetro de consolidação orçamental verdadeiros sorvedouros de dinheiro, tais como os hospitais, no passado, e agora o Instituto de Estradas de Portugal. Se tal não acontecesse, o défice orçamental seria obviamente muito maior.

Quer o défice orçamental quer o «stock» de dívida pública serão maiores em 2005 do que em 2001, tal como já o eram em 2004, 2003 e 2002 , o que é inexplicável face aos inflamados discursos sobre a falta de rigor na gestão das finanças públicas no anterior ciclo político e não dá razão a quem tinha esperança de que a nomeação deste Governo permitisse «manter o rumo de consolidação orçamental».

Mesmo contando com a intenção da Comissão em rever o PEC no sentido de o tornar mais flexível, é duvidoso que ela continue a fechar os olhos ao valor anormalmente elevado das operações não-recorrentes (2,7 mil milhões de euros em 2004 e 2 mil milhões em 2005), às operações de desorçamentação e à evolução do rácio da dívida em Portugal (cuja trajectória desde 2002 é muito preocupante, pois já ultrapassa o valor crítico de 60 p.c. do PIB).

A opção do OE de tentar satisfazer tudo e todos, mesmo que tal implique continuar a recorrer à desorçamentação, a medidas extraordinárias e a abrandar o controlo sobre o financiamento das autarquias, é tanto mais questionável quanto o cenário no qual se baseia o OE-05 é muito cor-de-rosa: admite que o preço do petróleo vai baixar mais de 20 p.c. relativamente ao nível actual, que a procura externa vai crescer mais do que a própria Comissão parece acreditar e que o nível de endividamento da economia poderá continuar a aumentar.

Segunda questão: o papel desestabilizador da política orçamental.

A política orçamental deve remar contra a corrente e ser restritiva quando a economia cresce rapidamente, neutra em circunstâncias normais e expansionista aquando de uma forte desaceleração. O que sucedeu em Portugal foi o seguinte: em 2002, a política orçamental foi restritiva quando não o devia ter sido e, em 2004, foi expansionista, quando nada a tal aconselhava. Portanto, a política orçamental foi desestabilizadora, como passo a demonstrar.

O saldo orçamental melhora sempre que o crescimento acelera e piora quando o crescimento desacelera, sendo que, em média, varia num sentido meio p.p. sempre que o crescimento varia um p.p. em sentido contrário. Portanto, se a política orçamental tivesse sido neutra em 2002, o saldo orçamental teria sido de cerca de 4.6 p.c. do PIB. Como foi apenas de 4.1 p.c., tal significa que a política orçamental foi pró-cíclica, o que, a somar ao inexplicável discurso pessimista sobre o futuro que na altura foi alimentado, resultou na brutal recessão de 2003, em que o PIB baixou 1,2 p.c. Uma vez chegados ao final desse ano, a economia começou a recuperar, de tal forma que o PIB já deverá crescer 1,2 p.c. em 2004.

Portanto, haverá uma variação positiva de 2,4 p.p. no crescimento da economia. Fazendo as contas, verifica-se que o défice orçamental em 2004 deveria então ser «apenas» de cerca de 4,2 p.c. do PIB, mas que não vai ser: segundo o relatório do OE-05, será de 4,8 p.c.. Tal sucede porque em 2004 tivemos uma política orçamental expansionista.

Um ajustamento orçamental a contra-ciclo tem sempre custos muito elevados para a população, além de um outro efeito sobre os políticos cuja única missão na terra parece ser tentarem ganhar eleições custe o que custar: assusta-os. Assusta-os de tal forma que, à primeira oportunidade, tornam a adoptar políticas expansionistas e o baile recomeça.

Diz-se, com toda a razão, que a grande reforma em Portugal é a das mentalidades. Enquanto não se perceber que a política orçamental deve ser usada como instrumento estabilizador e que não deve ser manipulada para tentar ganhar eleições custe o que custar, não vamos a lado nenhum.

Manuel Pinho

Economista, administrador do BES, actualmente Visiting scholar na Stern School da NYU

Publicado por Eduardo Graça em 12:51 PM | Comentários (1)

outubro 22, 2004

O Nobel de Economia, o Orçamento e o Fórum


O artigo, com o título em epígrafe, publicado no "Semanário Económico", na sua edição de hoje, está disponível no IR AO FUNDO E VOLTAR.

Publicado por Eduardo Graça em 07:09 PM | Comentários (0)

outubro 18, 2004

Os Paraísos Artificiais


Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.

Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.

O cântico das aves - não há cânticos,
mas só canários do 3º andar e papagaios do 5º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.

Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.

A minha terra não é inefável.
A vida na minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.

Jorge de Sena

"Pedra Filosofal" (1950)
Incluído em Poesia I, Moraes Editores
2ª edição, 1977.


Publicado por Eduardo Graça em 11:40 PM | Comentários (1)

outubro 14, 2004

José Gomes da Silva ainda é Ministro?

Vale a pena ler, na íntegra, este artigo de opinião de José António Lima publicado no Expresso on line.


O sequaz santanista inadaptado à vida em democracia, incapaz de conviver com a liberdade de opinião e a abertura crítica, proponente de intervenções censórias de altas autoridades, ainda é ministro? De um Governo da União Europeia em pleno século XXI? Não, provavelmente, já não é. Nunca mais foi visto em circulação desde o seu arrebatamento ao estilo de coronel controleiro do exame prévio.


E se este Presidente da República forçou o afastamento de um outro ministro, Armando Vara, num caso de outros atropelos éticos e abusos de poder, certamente já terá tratado com o primeiro-ministro da substituição deste «apparatchik» que também envergonhou o Governo de Portugal.


Entretanto, Santana Lopes continua a dar sucessivos sinais de instabilidade, cansaço e desnorte. De quem não se sente bem no papel de primeiro-ministro, de quem não consegue vestir, por maior esforço que faça, a pele de chefe do Governo. É o político errado na função errada e no momento errado. O seu tempo de antena travestido de discurso ao país foi o espelho desse mal-estar e desse equívoco.


Vejamos três tópicos - da Imagem, aos Erros de palmatória e à Fuga para a frente - que definem estes menos de três meses de governação de Santana Lopes. Três meses que, tal tem sido a cadência dos disparates, tamanha a amplitude dos problemas criados e o desgaste já acumulado, quase já parecem três anos.


Imagem. Em campanha na Madeira, à entrada da cimeira com Zapatero, à saída de uma reunião com deputados do PSD ou na gravação do tempo de antena ao país, Santana Lopes dá mostras de ter perdido a energia política que o caracterizava, a fluência da oratória, o à-vontade perante as câmaras. Surge com um rosto cansado e distante a dar voz a um discurso atrapalhado e sem vivacidade. Parece transportar sobre os ombros um peso a que não se acomoda e um ritmo de trabalho e exigência para o qual não está vocacionado nem preparado.


E a sua propensão populista de querer resolver tudo através da comunicação mediática leva-o a falar demais e a toda a hora nas televisões (ele são entrevistas, declarações à porta de qualquer evento, pronunciamentos a propósito de tudo e de nada, comunicações ao país, enfim, um virote em que nunca antes se vira metido um primeiro-ministro).


Este frenesim mediático tem inevitáveis consequências negativas. Eis algumas. O «timing» da sua intervenção de segunda-feira era, à vista desarmada, contraproducente, pois ela seria vista, e assim se veio a verificar, como uma tentativa pouco hábil e frustrada para desviar as atenções do «caso Marcelo». As descaradas promessas eleitorais, ao estilo João Jardim, que foi fazer na campanha dos Açores revelam uma desorientação desesperada que não ajuda à ideia de seriedade e isenção que os portugueses esperam de um primeiro-ministro. E as promessas a granel do oásis que chegará com o próximo Orçamento de Estado não são credíveis aos olhos da maioria nem ajustáveis à realidade da evolução económica internacional e do país. Nem conciliáveis com a orientação do Governo de Durão Barroso e Manuela Ferreira Leite, orientação em relação à qual se comprometeu a dar continuidade.


Tudo isto afecta e desacredita a imagem de um chefe de Governo que já suscitava, à partida, as maiores dúvidas e reservas quanto à sua competência.


Erros de palmatória. Além das «gaffes» iniciais sobre a redução (que redundou em crescimento) do número de membros do Governo, da sua proveniência geográfica ou do peso do CDS, Santana Lopes tem somado declarações contraditórias com as dos seus próprios ministros: seja no encerramento da refinaria da Galp, sobre o sistema de colocação de professores, em relação às taxas moderadoras diferenciadas ou no mistério da baixa cumulativa de escalões e impostos no IRS.


A este comportamento errático e desconcertante, somam-se episódios lamentáveis (e verdadeiros tiros no pé) como a colocação de Celeste Cardona na administração da Caixa Geral de Depósitos ou as declarações trauliteiras de Gomes da Silva sobre as crónicas de Marcelo Rebelo de Sousa.


O primeiro-ministro, em sucessivos apartes sobre o «caso Marcelo», acabou por corroborar, um a um, os dislates de Gomes da Silva - seja sobre a necessidade do «exercício do contraditório» (ele, Santana Lopes, que teve, entre muitos outros, um programa «a solo» na SIC…) seja sobre o pronunciamento da Alta Autoridade. Dando cobertura aos ímpetos censórios do ministro e comprovando que eles resultaram de orientação e estratégia superior.


Acresce que, no meio das suas múltiplas intervenções, Santana Lopes deixa ainda cair frases ou ideias perplexizantes. Como a de aconselhar os açorianos a «não votarem nos líderes nacionais» mas nos regionais, sendo ele próprio líder nacional. Ou a de insinuar dúvidas, no seu tempo de antena de segunda-feira, sobre a «estabilidade da coligação» e a conduta do CDS.


São erros a mais e inadvertências em excesso para tão pouco tempo de Governo.


. Como é típico da sua personalidade e do seu percurso político, Santana Lopes tende a ensaiar fugas para a frente quando se vê colocado em situações incómodas ou perante problemas de difícil resolução. Saltou da Figueira da Foz para Lisboa e, na capital, ao fim de pouco tempo estava a autopropor-se para Belém, num «remake» sempre repetido do seu atribulado e inconstante passado.


Agora, a fuga para a frente parece ser já a tentativa de se vitimizar, de provocar o Presidente da República e forçar eleições antecipadas. As suas declarações deselegantes e desafiadoras para com Jorge Sampaio, à saída de uma audiência em Belém ou no discurso gravado desta semana, são sinais claros dessa nova e desaustinada estratégia.


Santana Lopes sabe que o calendário eleitoral não lhe é favorável. As legislativas de Outubro de 2006 vêm depois de umas autárquicas em que o PSD se arrisca a perder várias câmaras e algumas tão emblemáticas como a de Lisboa. E das presidenciais de Janeiro de 2006, que serão disputadas em condições políticas pouco favoráveis para o candidato do centro-direita e - seja Cavaco, Marcelo ou Balsemão - que poucos dividendos político-partidários trarão a Santana. Ou seja, o seu horizonte até às legislativas de 2006 são dois anos de problemas, de desgaste continuado, de eleições intermédias com efeitos potencialmente corrosivos.


Nada melhor, pensará o especialista em fugas para a frente e em processos de vitimização, do que levar o Presidente da República a precipitar eleições Fuga para a frenteantecipadas. Invertendo o adverso calendário eleitoral e aparecendo aos portugueses como vítima perseguida e incompreendida.


Tal é a degradação política a que chegou o Governo e o desnorte em que mergulhou o seu chefe ao fim de três escassos meses.


Em conclusão, faltam a Santana Lopes características básicas para o exercício do cargo de primeiro-ministro: responsabilidade e maturidade política, capacidade de estudo e profundidade de conhecimentos, noção do sentido de Estado inerente à chefia do Executivo. Pior do que as qualidades que lhe faltam: o impreparado líder do PSD reúne algumas características que recomendariam que não assumisse tão exigentes funções - a inconstância, a superficialidade, a visão clientelista do poder, a intolerância para com os críticos e adversários.


A propósito: Gomes da Silva ainda é ministro?


José António Lima, in Expresso online


14 Outubro 2004


Publicado por Eduardo Graça em 07:53 PM | Comentários (1)

outubro 12, 2004

Aconteceu-me


Eu vinha de comprar fósforos
e uns olhos de mulher feita
olhos de menos idade que a sua
não deixavam acender-me o cigarro.
Eu era eureka para aqueles olhos.
Entre mim e ela passava gente como se não passasse
e ela não podia ficar parada
nem eu vê-la sumir-se.
Retive a sua silhueta
para não perder-me daqueles olhos que me levavam espetado
E eu tenho visto olhos!
Mas nenhuns que me vissem
nenhuns para quem eu fosse um achado existir
para quem eu lhes acertasse lá na sua ideia
olhos como agulhas de despertar
como íman de atrair-me vivo
olhos para mim!
Quando havia mais luz
a luz tornava-me quase real o seu corpo
e apagavam-se-me os seus olhos
o mistério suspenso por um cabelo
pelo hábito deste real injusto
tinha de pôr mais distância entre ela e mim
para acender outra vez aqueles olhos
que talvez não fossem como eu os vi
e ainda que o não fossem, que importa?
Vi o mistério!
Obrigado a ti mulher que não conheço.

Almada Negreiros
Publicado em Almada: O Escritor - O Ilustrador, 1993

Publicado por Eduardo Graça em 12:16 AM | Comentários (0)

outubro 08, 2004

Cutileiro na Global Notícias


Vamos lá ver se nos entendemos. Luís Delgado o "comissário para a comunicação social" não admite vacilações. Vejam esta notícia tão pedagógica acerca do modelo adoptado pelo governo para controlar uma boa parte da comunicação social em Portugal. Não há Marcelo que resista. Isto para o Comissário Delgado é mesmo para levar a sério...e viva a democracia liberal!


"O embaixador José Cutileiro vai assumir a presidência do conselho de administração da Global Notícias, empresa da Lusomundo Media para a imprensa, em substituição de José da Silva Peneda, que apresentou a sua demissão por discordar da forma como foi nomeado Luís Delgado, presidente executivo da «holding» de comunicação social do grupo PT.


Silva Peneda pediu hoje para cessar as funções de vogal não executivo no conselho de administração da Lusomundo Media e de presidente não executivo da administração da Global Notícias.


O presidente do conselho de administração da Lusomundo Media é Miguel Horta e Costa, também presidente da comissão executiva da Portugal Telecom (PT). Horta e Costa terá como vice-presidentes, também com funções não executivas, João de Deus Pinheiro, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, e Mário Bettencourt Resendes, até agora director-geral da Lusomundo Media.


O presidente da comissão executiva tanto da Lusomundo Media como da Global Notícias será Luís Delgado, actual administrador executivo da Lusa - Agência de Notícias de Portugal."

Expresso on line



Publicado por Eduardo Graça em 09:30 PM | Comentários (1)

A Imprensa do Governo

"Da intolerável e canhestra pressão do Governo e da TVI sobre Marcelo Rebelo de Sousa já muita gente falou. Até o insuspeito Cavaco Silva. No entanto, o que agora aconteceu a Marcelo pode ser apenas a ponta de um enorme icebergue; uma consequência do formidável peso que o Governo tem na Comunicação Social e que só é comparável aos velhos tempos da imprensa nacionalizada.
Do Estado, propriamente dito, dependem a RTP e a RDP com os seus canais e ainda a agência Lusa. Do grupo da PT, que o Estado dirige através de uma famosa «golden share», já fazem parte o «Diário de Notícias», o «Jornal de Notícias», o «24 Horas» e a TSF só para citar os órgãos mais importantes. E agora, devido a propaladas negociações que envolvem a possível compra, pela PT, do grupo Media Capital (proprietário da TVI) este impressionante bloco de comunicação que, em última análise depende do Estado, ou seja de quem está no Governo, poderia ainda reforçar-se com uma televisão e várias estações de rádio.
Pode pensar-se que nada disto é importante ou significativo, mas a verdade é que o «Diário de Notícias», apesar de vender menos, faz impressionantes campanhas de «marketing», com ofertas sucessivas de produtos, próprias de quem não tem preocupações de dinheiro. Enquanto o «24 Horas» dá corpo a algo de inédito em todo o mundo: um tablóide sensacionalista que é propriedade do «grupo Estado».
Se somarmos esta impressionante presença dos poderes públicos na Comunicação Social a um Governo formado por gente canhestra, populista, alguma dela sem sensibilidade para compreender o que é a liberdade de informação, temos como resultado um panorama verdadeiramente sombrio.
Infelizmente, é o que temos."
Henrique Monteiro, in Expresso on line
Publicado por Eduardo Graça em 07:30 PM | Comentários (1)

outubro 07, 2004

Poema para Galileu

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria...
Eu sei...Eu sei...
As Margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!
Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.


Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar - que disparate, Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação -
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.


Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo de praia?


Esta era a inteligência que Deus nos deu.


Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.


Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas - parece-me que estou a vê-las - ,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai, Galileo!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo
caindo
caindo
caindo sempre,
e sempre.
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.


António Gedeão
Obra Poética
Edições João Sá da Costa
2001

Publicado por Eduardo Graça em 06:51 PM | Comentários (1)

outubro 06, 2004

Acabaram as "conversas em família" na TVI

Perceberam? Não perceberam?

Qual o conceito e alcance para o governo do exercício da liberdade de informação e de crítica. Calaram o Marcelo. Numa estação privada. Privada? Ninguém tem nada a ver com isso. Não é?

Os patrões da comunicação social, seus mandantes e sequazes, assassinam a liberdade todos os dias, a toda a hora, em cada minuto.

À vista de todos. Ninguém tem nada a ver com isso! Não é? Perderam a vergonha. O cortejo das suas malfeitorias é pesado. Para muitos cidadãos e para o regime democrático.

Por este andar isto vai acabar mal!


Publicado por Eduardo Graça em 07:29 PM | Comentários (4)

outubro 03, 2004

Congresso do PS - Encerramento


As maiorias esmagadoras são más conselheiras. Vejo notícias, acerca do Congresso do PS, a realçar essas maiorias. Zapatero ganhou o Congresso do PSOE por um voto (isso mesmo, um voto). Os discursos eficazes, com mensagens perceptíveis por todos, são um bom sinal. José Sócrates é um bom comunicador. Toda a gente já o sabia. Mas o Congresso consagrou essa vantagem.

Homenagear Sousa Franco proclamando as palavras: "amigos, companheiros e camaradas", com as quais abria as suas intervenções é uma provocação, desnecessária, a Manuel Alegre. Todos os que têm a memória da resistência ao fascismo sabem que era Manuel Alegre que abria as emissões da Rádio "Voz da Liberdade", desde Argel, com as palavras: "amigos, companheiros e camaradas". Mau sinal.

A afirmação da vocação europeia do PS é um bom sinal. A criação de um "Fórum Novas Fronteiras", seja qual for o seu formato, é um sinal de abertura à sociedade civil. A marcação de uma data para a sua concretização, 29 de Janeiro de 2005, é uma marca de pragmatismo. Bons sinais. Será para lançar a candidatura de Guterres à Presidência da República?

A "simplificação" da questão da política de alianças, que transpareceu dos discursos de alguns dirigentes da maioria vencedora do Congresso, e as afirmações ideológicas de um centrismo exacerbado, explanadas por outros, são um mau sinal. Se não houver capacidade para flexibilizar os impulsos do "radicalismo centrista", emergente neste Congresso, será muito difícil ao PS obter uma maioria absoluta nas próximas eleições legislativas por erosão do seu eleitorado à esquerda. O futuro o confirmará.


Não conheço os detalhes do debate mas reparei que as moções sectoriais foram, como de costume, remetidas para a próxima reunião da Comissão Nacional. Mau sinal. Os rostos dos derrotados estavam crispados, os dos vencedores cansados (e preocupados?). Mau sinal.


Agora falta definir a política. A tradicional divisão direita/esquerda não ajuda grande coisa a essa definição. Os problemas que bloqueiam o desenvolvimento do país e a sua afirmação na Europa e no Mundo são transversais nos planos económico, social e político. Difíceis de abordar e ainda mais difíceis de verter em políticas aceitáveis pelo eleitorado tradicional da esquerda e mobilizadoras dos sectores mais dinâmicos da sociedade.


É preciso ir ao terreno, ouvir os protagonistas, chamar os melhores à mesa da discussão e formular políticas realistas, aceitáveis pelo maior número, com bom senso e bom gosto. É difícil? É simples? Em política o difícil é fazer os problemas difíceis parecerem simples.

(Este post está também disponível no absorto)


Publicado por Eduardo Graça em 05:31 PM | Comentários (2)

outubro 01, 2004

Imigração - "O Problema Mais Grave da Europa"


Está disponível no IR AO FUNDO E VOLTAR o artigo, com o título em epígrafe, publicado hoje no "Semanário Económico"

Publicado por Eduardo Graça em 06:33 PM | Comentários (0)

setembro 28, 2004

Vicente


Sem desprimor lembro-me logo de um fabuloso futebolista do Belenenses. Vicente Lucas de seu nome cuja eficácia dependia da descrição e por isso era conhecido pelo "pés de lã".


Vicente lembra-me o director de um jornal cor-de-rosa do Funchal, uma das gazetas mais influentes na agonia da ditadura.

Vicente faz-me lembrar Arlindo, candidato presidencial que, em 1958, se não erro, apoiado pelo PCP, tentou evitar o avanço irresistível de Delgado.


Vicente faz-me lembrar Gil, fundador do teatro português, cujas peças tantas vezes representei. Vicente faz-me lembrar muita gente antes de me fazer lembrar o Vicente.

Suspeito que o episódio da saída de Vicente, o do PS, do PS não tem existência real. Ele nunca chegou a entrar. Não tem feitio para a coisa. Aliás a maioria dos militantes dos Partidos da nossa democracia parlamentar não são militantes senão da sua vida particular. E com toda a propriedade.

São militantes independentes salvo os que são funcionários. Aqui é que reside o problema do José Rebelo. Ao ser eleito deputado, o Vicente, teve de se apresentar integrado nas listas de um Partido. Fez um "contrato", pois não era militante, para conciliar a sua independência com o programa político e as regras administrativas do partido em questão.

O mal foi que se entusiasmou e aderiu ao PS. Ficou, assim, militante e deputado. Querendo por irrequietude, cálculo, convicção ou tudo isso, ao mesmo tempo, mudar de estado, das três uma: ou saía de militante e permanecia deputado; ou saía de deputado e permanecia militante, ou saía de deputado e de militante.

Ética? Estética? Sentimento? Razão? Eu por mim falo. Não sou capaz de falar por mais ninguém. Sei que o Rebelo também não. Fui o militante nº 22 do MES (encontrei o cartão um dia destes) e saí com o jantar da sua extinção no Mercado da Ribeira. (Nunca sei muito bem a data ao certo -1980?). Ingressei no PS, em 1986, na qualidade de militante, não na de deputado e espero lá ficar até ao fim. Salvo, claro, se o dito se mudar para a direita (?) ou decidir, um dia destes, por razões que a razão desconhece fazer o tal jantar. Como diz o "Sempre à Coca", "vamos para velhos, tudo nos pode acontecer".

PS: Informo ainda que uma vizinha minha, pessoa de grande qualidade humana, profissional e intelectual, com a qual discuto política numa estrutura informal, à porta de casa, acaba de me pedir a proposta de adesão e que, portanto, dentro de dias, estará colmatada a saída do Vicente. A adesão da minha vizinha, no meu ponto de vista, tem grandes vantagens em relação ao Vicente pois a personalidade em questão não aspira ser deputada e se um dia decidir sair do PS não beneficiará do estatuto de independente, mas tão simplesmente do mais nobre dos estatutos que alguém pode gozar numa sociedade civilizada: o de cidadã.


Publicado por Eduardo Graça em 12:48 AM | Comentários (1)

setembro 26, 2004

Demografia


A diminuição da população em Portugal, e em todo o mundo ocidental, é um dos problemas mais sérios que se colocam ao modelo de civilização do ocidente. No entanto os governos não lhe dão importância e, muito menos, primazia nos seus programas. É um problema difícil. O tempo que resolva.

Mas aqui, como em todo o universo das ciências económicas e sociais, como dizia Keynes, no futuro estaremos todos mortos.


Este é, aliás, o tema do meu artigo a publicar, na próxima 6º feira, no "Semanário Económico".


"Projecções do Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que em 2015 haverá menos um milhão de portugueses (cerca de nove milhões), e que em 2050 a população descerá para os 7,5 milhões. A "única alternativa" para resolver o problema é a imigração, embora "provoque choques e levante problemas, nomeadamente de ordem cultural", afirma o sociólogo Leston Bandeira."


Veja o resto da notícia aqui.


Publicado por Eduardo Graça em 03:09 PM | Comentários (0)

setembro 23, 2004

Saber viver é vender a alma ao diabo


Gosto dos que não sabem viver,
dos que se esquecem de comer a sopa
(Allez-vous bientôt manger votre soupe,
s... b... de marchand de nuages?")
e embarcam na primeira nuvem
para um reino sem pressa e sem dever.

Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.

Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.
Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em "grande parva, que ele há tanto homem!"

(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?..)

Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairros
que passa fomeca mas não perde proa e parlapié...

Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?

Não é viver.
É arte, lazeira, briol, poesia pura!

Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme...)
com gerações perdidas.

Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!

E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...

Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p'ra morrer?

Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés,
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!

Les portugueux...
não pensam noutra coisa
senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
nos pintores, nas aflitas,
no tojé, na grana, no tempero,
nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
... sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes...

Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!

*

Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...

Alexandre O´Neill

Poesias Completas
1951/1981
Biblioteca de Autores Portugueses
Imprensa Nacional Casa da Moeda


Publicado por Eduardo Graça em 12:27 AM | Comentários (2)

setembro 21, 2004

Colocação de Professores


Colocação de professores. Estranha frase. Pensando bem representa a imagem de um contingente que espera ordem de marcha. Mas aos professores não devia ser colada a imagem de um exército aquartelado.

Primeiro porque os exércitos são maioritariamente constituídos por soldados rasos. Depois porque os exércitos aquartelados, salvo os dos impérios, não servem para nada senão para consumir os recursos públicos.

Além do mais os professores não são um contingente de soldados rasos, são uma elite da Nação. Não estou a ser irónico. Seja qual for o sentido da opinião pública acerca dos professores eles são um corpo de elite.

Os episódios do calapso do processo da sua colocação nas escolas servem à desvalorização do ensino público. Expõem perante a opinião pública um grupo profissional (de elite) humilhado e uma administração desorientada.

A quem serve o desprestígio do ensino público? E a humilhação dos professores? A quem serve, afinal, a destruição do ensino público? Os acasos são demasiados. Os discursos são demasiadamente coincidentes:

Utilizador/pagador! Utilizador/pagador! Utilizador/pagador!


Publicado por Eduardo Graça em 06:43 PM | Comentários (1)

Ir ao fundo e voltar


A partir de agora os textos mais extensos, de minha autoria, sejam posts ou artigos publicados na imprensa escrita (contemporâneos ou não), ficarão alojados no IR AO FUNDO E VOLTAR .

Neste novo blog já estão disponíveis os artigos "Imigração - Esquerda e Direita" e "Ministério do Turismo".

Liberto, desta forma, o abébia e o absorto de alguns posts mais longos não deixando de neles assinalar a edição de textos de cada vez que sejam editados neste novo "blog de arquivo".

Publicado por Eduardo Graça em 12:25 AM | Comentários (0)

setembro 18, 2004

O colapso e os "bodes expiatórios"


A manchete do "Expresso", de hoje, é um caso exemplar. O calapso da abertura do ano lectivo precisava de ser explicada e justificada. Assim surgem dois responsáves como "bodes expiatórios". Apresentados pelos nomes. Nomeados pelo Governo socialista. Sugere-se que em 1996.

As informações acerca dos "bodes expiatórios" são vagas e os mesmos não se pronunciaram. Algumas dessas informações posso afiançar que são, pelo menos, inexactas.

Mas mesmo dando de barato que correspondessem à verdade, qual a razão do colapso só ter ocorrido em 2004? A explicação parece fácil. O processo de centralização da "colocação dos professores" foi desencadeao por iniciativa do governo de Durão Barroso em funções desde a primavera de 2002. A condução do mesmo coube ao ex-Secretário de Estado Abílio Morgado que surge no corpo da notícia, mas não surge na manchete.

Mas para que os "bodes expiatórios" não possam fugir às suas responsabilidades ainda se acrescenta à notícia o rumor de conspiração. Os cidadãos já podem ficar descansados. Já foram encontrados os responsáveis pelo colapso. Tudo afinal foi devido a uma sabotagem! Certamente, obra de socialistas e comunistas! Haja Deus!



"Atrasos e erros na abertura das aulas

Rolam cabeças na Educação
A ministra Carmo Seabra vai exonerar altos quadros do Ministério até ao final do mês
A DIRECTORA-GERAL dos Recursos da Educação e o responsável pelos serviços de informática do Ministério - Joana Orvalho e Fernando Correia - vão ser afastados até ao final do mês, na sequência dos erros e atrasos no concurso de professores que, entre outros embaraços políticos, levaram ao adiamento da abertura do ano lectivo em 54% das escolas do país. A substituição destes quadros - que exercem funções desde os anos 90 e foram nomeados pelo Governo de António Guterres - já está em curso. A ministra Carmo Seabra aguarda só oportunidade política e a acalmia nas escolas para os exonerar." (Expresso).

Publicado por Eduardo Graça em 12:52 PM | Comentários (2)

setembro 17, 2004

O colapso


Tenho acompanhado como cidadão, não como técnico, a questão da colocação dos professores. O meu filho frequenta a Escola Alemã. Nessa escola as aulas começaram, em força, no início de Setembro. Os alunos levam, pois, 15 dias de aulas.


No ensino público, no entanto, ocorreu um autêntico colapso na abertura do ano lectivo provocado pela não colocação, em tempo útil, de milhares de professores nas escolas. As razões deviam ser apuradas. Para que se retirem lições de natureza política e técnica.

No que diz respeito às opções políticas interrogo-me acerca da ultra-centralização do processo de "colocação de professores". O caminho da centralização parece-me um profundo contra-senso num mundo que se transforma, a passos de gigante, com as novas tecnologias de informação.

Porque razão não se adoptou um modelo de compromisso entre a necessária imposição de um conjunto de regras, pré-definidas pela administração central, e a liberdade de escolha, por cada escola, dos seus professores ?


Não será mais vantajoso, tendo em vista promover uma maior eficácia do sistema escolar, que os professores sejam, predominantemente, residentes em regiões próximas das escolas onde exercem o seu ministério?


Não será mais vantajoso para todos os protagonistas do processo educativo que os professores, que também são cidadãos e pais, mantenham o máximo de estabilidade familiar e emocional?


Algo de monstruoso se consumou neste processo de colocação de professores. Retirem-se as conclusões e as consequências! Não se trata de penalizar, pura e simplesmente, os responsáveis políticos e técnicos. Trata-se de mudar o conceito e o modelo de gestão na selecção, formação e colocação dos professores do ensino público até ao final do secundário.

Se a educação tem sido proclamada por todos os responsáveis políticos, incluindo o PR, como a prioridade das prioridades políticas do país o colapso do arranque deste ano lectivo é um caso da maior gravidade.

Entretanto o ex-ministro da Educação, David Justino, actual deputado, absteve-se de intervir, acerca deste problema, no debate parlamentar que hoje. Comentários para quê....


Publicado por Eduardo Graça em 12:06 AM | Comentários (2)

setembro 15, 2004

Professores


Uma nota acerca da odisseia da colocação dos professores. Este ano lectivo terá, necessariamente, um início difícil nas escolas públicas de todos os graus de ensino.

Porquê? Desde o início, como cidadão, sempre me interroguei acerca dos fundamentos, políticos e técnicos, da centralização do processo de colocação dos professores.

Se sempre se proclamam as vantagens da descentralização e deslocalização dos serviços públicos, incluindo uma Secretaria de Estado da Educação, qual a razão para não atribuir ás escolas uma fatia significativa da responsabilidade do processo de selecção e colocação dos professores?

Mistérios da descentralização!


Publicado por Eduardo Graça em 05:18 PM | Comentários (2)

"Os pobres que paguem a crise"

Acerca da polémica das "taxas moderadoras" na saúde.


Os anúncios em catadupa oriundos directamente do governo, ou da sua "central de informação", começam a dar coerência às reservas e alertas de muita gente. Estamos perante uma onda populista sem paralelo na nossa história recente.


Veja-se como foi apresentada a questão das "taxas moderadoras" na saúde. A "diferenciação positiva" pode ser aplicada nas mais diversas áreas. É um princípio utilizado para favorecer os mais fracos no acesso aos benefícios sociais. Não é novidade. Quem iniciou a aplicação da "diferenciação positiva", de forma sistemática, foi o governo socialista. Que me lembre foi Ferro Rodrigues que, enquanto Ministro da Solidariedade, desenvolveu, na prática, na área das pensões, este princípio.

Eu próprio o apliquei nos programas de "Turismo Sénior" e "Saúde e Termalismo Sénior", organizados e geridos pelo INATEL. Falo dessa experiência de gestão porque a conheço bem. Ela foi, aliás, auditada e fiscalizada por muitas entidades (públicas e privadas) e estudada como um "caso de sucesso". (Há um estudo muito interessante intitulado "Estudo do Impacto Sócio Económico dos Programas de "Turismo Sénior" e "Saúde e Termalismo Sénior" em Portugal" que não encontro disponível na net.)


A minha experiência diz-me que a "diferenciação positiva" é aplicável e eficaz, na atribuição de pensões, abonos ou outros benefícios. Ou seja, quando o Estado paga aos cidadãos aquilo a que se compromete. O Estado, quando actualiza o valor das pensões, assume favorecer, por exemplo, os pensionistas dos escalões de rendimento mais baixos em desfavor dos de escalões de rendimento mais elevados. Até aqui tudo bem. Mas quando se trata de fixar impostos, taxas ou o preço de um serviço prestado pelo Estado aos cidadãos o caso muda de figura.

Certamente no que respeita aos serviços públicos não essenciais, como, por exemplo, na área do turismo, os cidadãos são livres de aderir e o Estado é livre de fixar os preços. Trata-se de um verdadeiro preço e não de uma taxa. Tudo bem. Não é, obviamente, o caso dos serviços públicos de saúde. Aí o cidadão tem direitos consagrados constitucionalmente. O acesso ao serviço público de saúde é universal e, tendencialmente, gratuito. É o que está consagrado na Constituição. O que a Constituição fez foi consagrar uma conquista própria do estado de bem-estar ou estado social. Consagração, aliás, tardia no nosso país.

Não se trata, pois, de uma bizarria igualitária que alguns iluminados esquerdistas de Abril resolveram colocar na Constituição. Não se trata sequer de uma maldosa artimanha para dificultar a vida dos grupos privados que operam na área da saúde. Trata-se da consagração de uma conquista social própria de um estado moderno sito na Europa Ocidental e plenamente integrado na UE.

Mas o grande problema da aplicação da "diferenciação positiva" na área da, ou em qualquer outra, não está só na lei Fundamental. Está, desde logo, na credibilidade das declarações dos rendimentos de cada cidadão. Toda a gente sabe que, em Portugal, a credibilidade dessas declarações tende para zero. Mesmo em programas em áreas de serviço público não essenciais o risco do acesso indevido ao benefício está sempre presente. Os portugueses não praticam uma cultura da solidariedade no que respeita às obrigações fiscais. O Estado não assegura, por outro lado, a equidade fiscal.


Não é possível aferir o verdadeiro nível de rendimentos dos cidadãos através das declarações do IRS, nem é possível aferir os verdadeiros resultados das empresas, através das declarações do IRC, e por aí fora…. Por isso, para a definição dos escalões de rendimento, nos programas de "Turismo Sénior", eram exigidas as declarações do rendimento das pensões, emitidas pelos serviços da segurança social. Só a título supletivo se exigiam declarações de IRS. Sempre achei que seria desastroso aferir o rendimento, para a determinação do preço a pagar, pelos rendimentos declarados em sede de IRS. No caso daqueles programas foi possível restringir as injustiças porque o "público-alvo" se confina aos cidadãos com 60 anos, ou mais, na sua esmagadora maioria pensionistas.

Se em Portugal existisse equidade fiscal a polémica das "taxas moderadoras" nunca chegaria a existir. Nem se colocaria a necessidade de adoptar o modelo da "diferenciação positiva". O orçamento de estado seria suficiente para assegurar o regular funcionamento de um serviço público de saúde satisfatório. Todos os cidadãos poderiam escolher, em conformidade com o seu poder de compra e com o exercício livre da sua vontade individual, por um serviço público ou privado de saúde. Todas as tentativas para criar preços ou taxas diferenciadas, conforme os rendimentos dos cidadãos, têm, pois, o seu "calcanhar de aquiles" no sistema fiscal iníquo que existe em Portugal.

Estabelecer a "diferenciação positiva" no preço a pagar no acesso aos cuidados de saúde sem cuidar de assegurar que todos os cidadãos e empresas paguem impostos, (em particular os mais poderosos) será introduzir mais um factor de injustiça social. É puro populismo proclamar que, com esta medida, se pretendem beneficiar os pobres. É o lema dos maoistas ao contrário: "os pobres que paguem a crise". Pois são, de facto, os pobres e os remediados que pagam impostos.

Os ricos, em Portugal, por um lado, não pagam impostos e, por outro, não acrescentariam um cêntimo à receita do sistema público de saúde porque não o frequentam. Com a chamada "diferenciação positiva" das "taxas moderadoras" os ricos ficariam sempre a ganhar e os pobres sempre a perder.


Publicado por Eduardo Graça em 01:56 AM | Comentários (0)

setembro 11, 2004

11 de Setembro - aditamentos


No pó dos livros encontrei António Gedeão e Salvador Allende. O primeiro é um grande poeta português. Tardio e estudado, entre outros, por Jorge de Sena. Este primeiro aditamento tem a ver com os resistentes franceses ao nazi-fascismo.

Poema numa esquina de Paris

Dezenas e dezenas de pessoas passam ininterruptamente ao longo do passeio.
Umas para lá.
Outras para cá.
Umas para cá.
Outras para lá.
Mas cada uma que passa
tem de fazer na esquina um pequeno rodeio
para não se esbarrar com o par que aí se abraça.
Olhos cerrados, lábios juntos e ardentes,
tentam matar a inesgotável sede.
Através dos seus corpos transparentes
lê-se na esquina da parede:

DANS CETTE PLACE A ÉTÉ TUÉ
MAURICE DUPRÉ
HÉROS DE A RÉSISTENCE.
VIVE LA FRANCE

António Gedeão, in Linhas de Força - 1967

O segundo não tem a ver com um livro, que também descobri, mas com um detalhe da minha visita à campa de Salvador Allende que descrevi num post editado no absorto. O motorista chileno que me acompanhava é que pediu, comovido, para levar, nas suas mãos, as flores. Assim fez a reconciliação da sua consciência com o passado o que, provavelmente, nunca teria pensado fazer.

O terceiro é um desejo. Apesar do frio que nos percorre o corpo e a alma pelo horror dos atentados terroristas, sejam quais forem as vitimas, os alvos e os autores. Apesar de todas as condenações. Apesar de todas as palavras. Apesar de todas as acções militares. Tenho a convicção que o melhor contributo para o combate ao terrorismo é a derrota de Bush nas próximas eleições americanas.

Publicado por Eduardo Graça em 03:54 PM | Comentários (0)

setembro 10, 2004

Van Gogh IV


Finalmente algumas citações de Van Gogh. Porquê o interesse de Camus pela correspondência de Van Gogh? Porquê o interesse de tantos escritores e poetas pelos grandes pintores (e compositores) e pela sua escrita? E, em particular, pelos pintores (e compositores) "malditos"? Talvez seja uma preocupação comum aos artistas pela busca da perfeição.

""Van Gogh impressionado por um pensamento de Renan : "Morrer para si próprio, realizar grandes coisas, atingir a nobreza e ultrapassar a vulgaridade em que se arrasta a existência de quase todos os indivíduos.""

"Se continuarmos a amar sinceramente o que é verdadeiramente digno de amor e se não desperdiçarmos o nosso amor em coisas insignificantes e nulas e pálidas, conseguiremos obter pouco a pouco mais luz e tornarmo-nos mais fortes."

"Se nos aperfeiçoarmos numa só coisa e se a compreendermos bem, adquiriremos por acréscimo a compreensão e o conhecimento de muitas outras coisas."

"Sou uma espécie de fiel, dentro da minha infidelidade."

"Se faço paisagens, elas revelarão sempre sinais de figuras."

Cita a frase de Doré: "Tenho uma paciência de boi."

(...) O mau gosto dos grandes artistas: iguala Millet e Rembrandt.

"Creio cada vez mais que não devemos estabelecer um juízo sobre Deus a partir deste mundo, que não é senão um esboço que lhe saiu mal."

"Posso decerto, na vida e também na pintura, passar sem Deus, mas o que não posso, eu sofredor, é passar sem qualquer coisa que é maior do que eu, que é a minha vida, o poder de criar."

A longa procura de Van Gogh errando, até aos 27 anos, antes de encontrar o seu caminho e de descobrir que é pintor."


In Caderno n.º 4 (Janeiro de 1942/Setembro de 1945) - Cadernos II, Albert Camus (Edições Livros do Brasil)

Publicado por Eduardo Graça em 11:03 PM | Comentários (0)

setembro 06, 2004

Van Gogh - III


Van Gogh assumiu-se como artista aos 27 anos e pintou, intensamente, até à sua morte, por suicídio, aos 37 anos. Em vida, com o apoio de seu irmão Theo, vendeu um único quadro.


"After having failed as an art dealer and a Protestant evangelist, Van Gogh decided at the age of 27 to become an artist. He received a smattering of formal education, but mostly, with singular feverishness and dedication, studied and practiced on his own. In his 33rd year he moved to Paris, blossoming into a brilliant colorist. Two years later he moved south to Arles, producing bold, bright paintings and drawings at a miraculous rate. He started suffering bouts of insanity. He moved north to Auvers, near Paris, continuing to paint wonderfully. He killed himself at the age of 37. He and his brother Theo who had supported him financially and emotionally throughout his career had been able to sell only one painting while he was still alive."


Pode ver aqui excertos de cartas, em particular, escritas a Theo e algumas reproduções, com muito boa qualidade, de obras de Van Gogh.

Publicado por Eduardo Graça em 11:48 PM | Comentários (0)

setembro 05, 2004

Van Gogh-II


Quando me referi a Van Gogh (Vincent) não estava a brincar. O morticínio na Rússia lembrou-me, de novo, a sua vida e obra.

Ele pintou muito em pouco tempo. Em vida não vendeu quase nada. A sua obra não era popular.

Mas Van Gogh também escreveu. Fiquem, por agora, com uma biografia de Van Gogh. Muitas estão disponíveis em livro e também em variados sites.

As citações ficam para depois.


Publicado por Eduardo Graça em 01:33 PM | Comentários (2)

setembro 03, 2004

Informação e "conversas de café"

A partir do post "Carocho" elaborei o artigo, hoje publicado no "Semanário Económico", que intitulei "Informação e conversas de café".

Um amigo meu, a propósito de citações dos clássicos que me dão prazer, por vezes, invocar, lembrou-me uma época de "desfasamento" na minha vida.

O assunto veio-me à lembrança, em férias, pelo facto de andar com a leitura dos jornais atrasada uma semana. Do género de ainda não ter lido a entrevista com o Dr. Salvado mas já ter lido a entrevista do Eng.º Sócrates.

Este desfasamento temporal faz-me temer que esteja mal preparado para a "rentrée" já que as minhas preocupações, aquelas mesmo que me preocupam, estão desfasadas das manchetes dos tablóides, incluindo o "Expresso".

Isto preocupa-me pois só me aconteceu, a sério, uma vez na vida e, na época em que aconteceu, não haviam tablóides.

Quando eu era adolescente lia, sem preconceitos ideológicos, na biblioteca de uma "Sociedade" da cidade de Faro, de fio a pavio, todos os jornais, desde o "Diário da Manhã", ao "Novidades" a acabar no "República". Era nessa altura que eu andava desfasado.

Tinha, à época, um amigo, muito chegado, que era o "Carocho" - um homem de todas as vidas. Não é gato, não. É mesmo homem.

O "Carocho" sabia tudo. Tinha todas as informações possíveis e imaginárias. E eu, nada. Ele descrevia, com requinte, os factos, das fontes dele, e eu ficava com cara de parvo. Desde os "Ballets Roses", passando pelas manigâncias do "Champas", até aos escândalos da terra, ele sabia tudo.

E eu desfasado, só sabia das informações que vinham na comunicação social que, como é sabido, não correspondiam nada à realidade. É claro que, à época, havia a censura.

Mas eu acreditava que, mesmo assim, devia andar a par das notícias. De tal maneira me actualizava que andava sempre ao lado da realidade verdadeira.

É mais ou menos como agora. Não há censura. Mas o resultado é o mesmo.

A diferença é que agora são as autoridades que não acreditam nas notícias. De que elas próprias são as fontes. O lápis azul foi substituído pelo "não se pode perturbar o inquérito" ou "não se pode descredibilizar a investigação" ou pelo...esquecimento.

A Justiça e a investigação criminal, em Portugal, desceram ao nível da "conversa de café". A justiça ameaça "cair na rua" (se não caiu já!) mas não podemos aceitar que arraste na sua queda a liberdade, em particular a liberdade de informação, de critica e de protesto contra a injustiça, pois isso significaria uma intolerável cedência aos arautos da tirania.

O meu amigo "Carocho", exímio conversador de café, seria o primeiro a assinalar a extrema gravidade desta situação pois ele prezava, acima de tudo, a liberdade de expressão, de crítica e de protesto.

Ele sabia, em suma, como o exercício responsável da liberdade e a aplicação, justa e eficaz, da justiça são a chama que alimenta a auto-estima das sociedades, a estabilidade das instituições e o desenvolvimento das economias.

Ele também era indiferente às notícias que vinham na comunicação social mas era porque tinha acesso às verdadeiras. E não era do CM nem da PIDE.

Que falta me faz o meu amigo "Carocho"!

Publicado por Eduardo Graça em 10:55 PM | Comentários (1)

agosto 30, 2004

Van Gogh


As citações, como todos sabem, foram altamente penalizadas pelo Eng. Sócrates na sua célebre entrevista ao Expresso. A partir daí fazer uma citação trás consigo o ónus da ignorância camuflada. Da vulgaridade. Da encomenda. Só meia dúzia de escribas oficiais, tipo Vasco Graça Moura, aguentam citar sem serem enxovalhados.

Ainda pensei tornear a dificuldade avançando com a citação integral do poema do Guerra Junqueiro, muito do agrado do "Sempre-à-Coca", "A Torre de Babel ou A Porra do Soriano". Seria, pareceu-me, demasiado radical para o ambiente solene das entrevistas dos nossos maiores políticos contemporâneos: Santana e Sócrates.

O primeiro, não ficando atrás do segundo, numa foto encenada, na entrevista à "Visão", mostra o seu apego às leituras de diários estrangeiros de prestígio. Lembrei-me, a propósito, de citar Gomes Leal, por exemplo, o "Anti-Cristo": "Vejo ali dentro a orgia mais devassa e animal que a mente humana cria!..." Mas não me pareceu ajustado desenvolver, para já, o tema. O nosso "primeiro" precisa de tempo (ou do chamado benefício da dúvida) para mostrar, em plenitude, todas as suas potencialidades.

Eu queria, por agora, simplesmente, comentar, de forma educada, o ambiente da nossa vida pública: decadente, doentio, alcoviteiro, assassino ...O ambiente que, porventura, sempre existiu mas que ganhou estatuto social e institucional com a "nova maioria": a justiça feita á medida da denúncia anónima; a investigação feita em amena cavaqueira à mesa do café; o boato, em letra de lei, com direito a publicação na folha oficial; a "tia" assessora; a "corte" dos amigos do "tio"; o desbragamento da gestão da "coisa pública".

A minha ideia, desde o princípio, era uma citação de Van Gogh (não o avançado do Ajax, identificado erradamente pela Senhora Secretária de Estado da Cultura, mas o pintor) e acabei no "Carocho". Aliás, o "Sempre à Coca" não dorme e confirmará, certamente por escrito, que essa figura não é uma criação delirante da minha imaginação.

Nada mudou, entretanto, a respeito do "Corocho". Mandei abrir um inquérito para averiguar do seu paradeiro. Aguardo serenamente os resultados. Assinalo, ainda, que me sobressaltou a memória o "Tó Zé Cabelinho" do qual não tenho notícias. E, por fim, confirmo que, neste final de Agosto, nada mudou a respeito de coisa nenhuma como, aliás, seria de esperar. O governo está de férias e a oposição em Congresso.

Aguardemos, como de costume, por D. Sebastião.

Publicado por Eduardo Graça em 12:26 AM | Comentários (0)

agosto 22, 2004

Estado a menos...


José Cutileiro escreve, no Expresso de ontem, um muito interessante e pedagógico artigo com o titulo em epígrafe. No fundo aborda, com exemplos da administração Bush, as perversões do mercado. Vale a pena a sua transcrição e leitura.


"Se os democratas ganharem em Novembro alguns destes excessos serão corrigidos - se não ganharem, os americanos terão de continuar a viver com eles."


No Inverno de 2000 a 2001, a Califórnia foi atingida por uma gigantesca crise de abastecimento eléctrico. Houve apagões enormes, que causaram muitos e variados danos a particulares e a empresas. A companhia Pacific Gas & Electricity foi levada à falência e os consumidores californianos ainda hoje pagam, e pagarão por muito tempo, preços anormalmente altos pela sua electricidade.


Pouco mais de um ano depois, a Enron, uma das maiores empresas de energia do mundo, que dera nas vistas pelo seu rapidíssimo crescimento e pelas suas ligações à família Bush, faliu fraudulenta e escandalosamente. Nos últimos meses antes do estoiro, quase todos os seus administradores milionários encheram ainda mais os bolsos embora sabendo já que a falência era inevitável, deixando empregados sem fundo de pensões e accionistas com o valor do peso do papel dos títulos. Uma série de investigações judiciais começou logo e, como quando se comem cerejas, uns desmandos foram levando a outros e fez-se também luz sobre a catástrofe energética da Califórnia.


Há dias, John Forney, um antigo empregado do escritório comercial da Enron em Portland, Oregon, confessou ter manipulado preços de electricidade para benefício da sua companhia e prejuízo dos californianos e prontificou-se a contar tudo o que soubesse sobre a questão, em troca do abandono pelo Ministério Público de algumas acusações contra si. Empregados de uma outra companhia foram já acusados de fechar fábricas de produção eléctrica, deliberadamente e sem que tal fosse preciso, para fazerem subir o preço da energia na Califórnia.

O caso da Enron é o mais notório de todos: cobrava serviços que não prestava; comprava electricidade à Califórnia para, a seguir, fomentar escassez e vender-lha a preços muito mais altos, como se viesse de fora; criava congestões nas linhas de transmissão; retirava geradoras do serviço para, mais uma vez, fazer subir os preços. Além disso, troca de "e-mails" e gravações de conversas telefónicas revelam que a gente da Enron se divertia com estes esquemas. Procurava torná-los cada vez mais lucrativos, troçava do incómodo e despesa que causava ao público ("coitadas das avozinhas") e referia-se com apreço às contribuições monetárias chorudas da empresa a políticos, sobretudo à campanha para a presidência de George W. Bush, pois via nelas caminho para negócios ainda mais lucrativos na Califórnia.


Os Estados Unidos são o país da lei, por excelência, e nesta altura a lei está, como esteve em muitas outros casos de abuso de fortes contra fracos na história americana, a procurar meter as coisas na ordem. Mas os Estados Unidos são também um país onde desconfiança sadia do Governo e de regulamentos que deste emanem podem levar a exageros perniciosos. Ronald Reagan desregulara muitas actividades deixando às empresas pulso ainda mais livre do que estas já tinham.


Os desmandos da Enron e quejandos pareceriam recomendar que a prudência de Bush pai e de Clinton se acentuasse e viesse alguma correcção mas George W., pelo contrário, deixa os empresários ainda mais à rédea solta, muitas vezes com consequências graves para o meio ambiente e para as segurança e saúde dos trabalhadores.


A campanha democrática Kerry-Edwards multiplica exemplos: os madeireiros deram mais de 1,5 milhões de dólares a Bush e podem agora cortar árvores escapando a controlos ecológicos; a indústria do carvão deu 300.000 e já não precisa de proteger tanto os pulmões dos mineiros; a indústria química, por 1 milhão, obteve menos exigência na exposição dos operários a produtos perigosos; a indústria automóvel, com mais de 300.000 ganhou autorização para camionistas guiarem 11 horas por dia, etc..

Se os democratas ganharem em Novembro alguns destes excessos serão corrigidos - se não ganharem, os americanos terão de continuar a viver com eles.

Publicado por Eduardo Graça em 01:19 AM | Comentários (0)

agosto 16, 2004

"Carocho"


Dedicado ao "Sempre-à-Coca"

O meu amigo Sempre-á-Coca, na sua deriva "citadora", actividade nobre que tem andado pelas horas da morte com a intelectualidade toda a bater no Sócrates, lembrou-me uma fase de "desfasamento" na minha vida.

Ando com a leitura dos clássicos, da "estação estúpida", atrasada uma semana. Ainda não li o Salvado mas já li o Sócrates.

O que é verdade é que as minhas verdadeiras preocupações, aquelas mesmo que me preocupam, estão desfasadas das manchetes dos tablóides, incluindo o Expresso.

Isto preocupa-me. Pois só aconteceu, a sério, uma vez na minha vida e, na época em que aconteceu, não haviam tablóides. É que eu quando era adolescente lia, quase todos os dias, os jornais todos.

Era na pequena biblioteca de uma "Sociedade" da cidade de Faro e eu "papava", de fio a pavio, sem preconceitos ideológicos, desde o "Diário da Manhã", ao "Novidades" a acabar no "República". Nessa altura andava desfasado.

Tinha, à época, um amigo, muito chegado, que o Sempre-à-Coca é capaz de conhecer, que era o "Carocho" - um homem de todas as vidas. Não é gato, não. É mesmo homem.

O "Carocho" sabia tudo. Tinha todas as informações possíveis e imaginárias. E eu, nada. Ele descrevia, com requinte, os factos, das fontes dele, e eu ficava com cara de parvo. Desde os "Ballets Roses" até aos escândalos da terra, ele sabia tudo.

E eu desfasado. Eu só sabia das informações que vinham na comunicação social que, como é sabido, não correspondiam nada à realidade. É claro que havia a censura.

Mas eu acreditava que, mesmo assim, devia andar a par das notícias. De tal maneira me actualizava que andava sempre ao lado da realidade verdadeira. É mais ou menos como agora. Não há censura. Mas o resultado é o mesmo.

A diferença é que agora são as autoridades que não acreditam nas notícias. De que elas próprias são as fontes. O lápis azul foi substituído pelo "não se pode perturbar o inquérito" ou "não se pode descredibilizar a investigação".

Porra que falta me faz o meu amigo "Carocho". Ele também era indiferente às notícias que vinham na comunicação social mas era porque tinha acesso às verdadeiras. E não era do CM nem da PIDE.

Faço daqui um apelo a quem souber do paradeiro do "Carocho" que lhe dê os meus azimutes. Ele que entre em contacto urgente comigo. Volta "Carocho".

Publicado por Eduardo Graça em 11:47 PM | Comentários (2)

agosto 11, 2004

Pacto de silêncio


Aqui do exílio, mal sentado, e em trânsito, observo o estreitamento do beco em que os conjurados meteram o regime.

Começa a perceber-se, cada vez com mais nitidez, as razões da fuga do Dr. José Manuel Barroso. As razões da decisão do PR. As razões dos gemidos do PGR. As razões do silêncio do Dr. Portas.

As razões da proposta de pacto de regime. Pacto de regime com quem? Com o PS de Ferro Rodrigues? No seu "funeral" político?

Ou pacto de silêncio? É isso, e em italiano tem um nome muito sugestivo.

Publicado por Eduardo Graça em 05:59 PM | Comentários (1)

agosto 10, 2004

Petróleo

A época de verão esconde a importância de algumas notícias. Esta é talvez a mais dramática das notícias:
"O preço do petróleo ultrapassou hoje a barreira dos 45 dólares, em Nova Iorque, devido a cortes de produção no Golfo do México, à eventual penhora dos bens da petrolífera russa Yukos e ao conflito no Iraque.
No mercado nova-iorquino, o preço do barril de petróleo atingiu os 45,04 dólares, o máximo desde 1983."
"Expresso" (Hoje, 10 de Agosto de 2004)
Publicado por Eduardo Graça em 07:08 PM | Comentários (2)

agosto 07, 2004

Ministério do Turismo

O "Semanário Económico", na sua edição de ontem, publicou o meu artigo com o título em epígrafe.

O governo, saído da recente crise política, criou o Ministério do Turismo. Esta decisão merece ser comentada no contexto de uma crise do sector turístico que ninguém esconde e que os números confirmam.
Na actividade turística as notícias são impiedosas. Em 2003 o total de viagens, realizadas por residentes, caiu 16,6%, face a ano anterior. Este é um indicador, entre muitos, que indiciam a crise do sector.
Os resultados da actividade turística nacional, em 2003, foram maus. Por diversas razões de natureza externa e, no essencial, pela "política da tanga". Os de 2004 não deverão ser melhores. Todas as informações apontam, por exemplo, para uma situação desastrosa das taxas de ocupação da hotelaria no Algarve, o maior destino turístico nacional.
A crise na actividade turística não aproveita a ninguém? Certamente que perdem a maioria das empresas (fracos negócios) e os cidadãos (menos qualidade de vida). Mas os preços das viagens, incluindo hotelaria e restauração, subiram, sob os mais diversos pretextos, como se o país vivesse uma época do "ciclo alto" da economia.
Há quem queira ganhar muito em pouco tempo. Muitos esquecem que o turismo não é um negócio especulativo. O turismo é, pelo contrário, uma actividade complexa que suporta cada vez pior os tratos de polé de políticas irrealistas. São os casos, por exemplo, da "diplomacia económica" do anterior governo (quais os seus resultados?) e da falta de medidas, assumidas pelo Estado, que promovam a qualidade e penalizem os "mixordeiros".
O mercado é uma realidade que, no caso da actividade turística, não carece de demonstração. O que está em falta, abarcando um vasto e múltiplo conjunto de segmentos da actividade turística, é a definição - e aplicação - da intervenção reguladora e fiscalizadora do Estado.
A criação o Ministério do Turismo devia ser uma oportunidade para desenvolver e aprofundar essas políticas desmentindo, assim, a ideia de que se tratou de um arranjo político de ocasião destinado a satisfazer o apetite de poder do PP e, já agora, uma velha aspiração da Confederação do Turismo.
Já sublinhei, noutros escritos, a importância estratégica do turismo para o desenvolvimento das economias e sociedades contemporâneas, em contexto de globalização, justificativas da sua valorização institucional.
O caso do nosso país é exemplar. Portugal ocupa um lugar de "potência intermédia" no ranking da actividade turística, cerca do 10 º lugar europeu e 16 º mundial, o que é notável atenta a dimensão física e demográfica do país.
Sustento que, sendo o turismo uma actividade transversal e multidisciplinar, muito relevante na dinâmica do desenvolvimento integrado da sociedade portuguesa, deveria, no governo, integrar um Ministério que exercesse a tutela dos transportes e do ordenamento do território. Aliás esta opinião coincide com a da maioria dos operadores turísticos portugueses e suas associações.
A minha preferência é a do modelo francês (aliás a França é a primeira potência turística mundial) no qual o turismo está integrado, ao nível de secretaria de estado, no "Ministério do Equipamento, Transportes, Ordenamento do Território, Turismo e Mar". (Que diferença em relação à estrutura do governo português actual!)
Aliás, além de Portugal, nos países da União Europeia, só em Malta existe um Ministério do Turismo, desde 2003, integrando também a cultura. Esse é o modelo adoptado nos países do Norte de África e nalguns outros do chamado "terceiro mundo".
Não quer dizer que não possa ser uma originalidade bem sucedida no nosso país. Tudo depende do peso político que alcançar, da competência dos seus titulares e … do tempo que durar.
Publicado por Eduardo Graça em 03:46 PM | Comentários (1)

agosto 06, 2004

José Manuel João


O José é moderno, o Manuel é antigo e o João assim assim. Uma amiga minha, falando a sério, perguntava-me no outro dia:

Quando volta o Eduardo?

Publicado por Eduardo Graça em 09:29 PM | Comentários (0)

agosto 01, 2004

Nivelar por baixo

As estatísticas dos incêndios florestais, à data de hoje, não são conhecidas. Mas todos os dados apontam para a repetição do cenário catastrófico do ano passado.

Nada foi feito, apesar dos estudos e das promessas do governo Barroso, na área da prevenção e do combate aos fogos florestais. Vivemos uma situação paradoxal. Nenhum dos principais responsáveis políticos por esse dossier está já em funções. Os ministros da Agricultura, Ambiente e Administração Interna saíram com José Manuel Barroso.

Fica no ar, além das cinzas, a ideia de que se "safaram" a tempo. Alguns publicistas da direita resolvem o problema da responsabilidade política através do clima e dos incendiários. A responsabilidade pelos incêndios é impessoal. Está do lado da natureza adversa e do crime elementar. É fácil e simples.

Os governos fazem planos para dar que fazer aos técnicos. Contratam meios de combate aos incêndios para dar que fazer às empresas. Fazem promessas para dar que fazer aos jornalistas. O país real não é assunto para os governos! É demasiado difícil abordar os assuntos da economia real, da natureza que herdamos e do povo que constitui a comunidade nacional.

Estes acontecimentos reforçam a ideia de um nivelamento por baixo dos níveis de competência técnica e idoneidade ética dos responsáveis pela "coisa pública". Já ninguém se atreve a antever uma data para a inversão das expectativas.

É sempre a descer.

Publicado por Eduardo Graça em 07:08 PM | Comentários (1)

julho 29, 2004

E, nós?

O arquitecto Saraiva, director do Expresso, cita o Dr. João César das Neves. O autor acusa os cidadãos de cinismo afirmando: o "cinismo do auditório" é a razão de todos os males do país.
Para os ideólogos e publicistas da direita os governos são bons por natureza (desde que sejam de direita). Para eles os cidadãos não se olham ao espelho antes de criticarem os governos da direita. Para eles se os cidadãos são "maus" como podem exigir governos "bons"? Talvez mudar de povo!
Pela parte que me toca cumpro com todas as obrigações indicadas pelo arquitecto, com excepção de "dar sangue" (não sou capaz, pronto!), pelo que julgo estar em condições de criticar os governos todos e, em particular, os governos de direita.
Obrigado, arquitecto! Fico, assim, de consciência tranquila.
Vejam aqui, na íntegra, a prosa do arquitecto. "O principal perigo para a democracia não está na qualidade dos actores mas no cinismo do auditório", escreve João César das Neves no "DN", criticando os ataques feitos a este Governo ainda antes de começar a governar.
Acompanho-o na crítica. Os portugueses são muito exigentes em relação aos outros - a começar pelo Governo - mas serão igualmente exigentes em relação a si próprios?
Todos criticamos os ministros, as suas fraquezas, os seus erros, a sua incompetência. Mas será que cada um de nós é isento de erros e inteiramente competente naquilo que faz? Admitamos que os governantes são maus governantes; mas nós seremos bons cidadãos?
Cumprimos as nossas obrigações? Respeitamos os limites de velocidade nas estradas e auto-estradas e os sinais de trânsito? Declaramos escrupulosamente ao fisco tudo o que ganhamos e não fazemos nenhuma tentativa para pagar menos impostos?
Votamos nas várias eleições? Não deitamos papeis para o chão na via pública, nem despejamos os cinzeiros do carro na rua, nem cuspimos nos passeios?
Preocupamo-nos em colocar o papel, as garrafas e as embalagens nos contentores próprios, para facilitar a selecção do lixo? Damos sangue?
Há países em que os cidadãos começam por ser exigentes em relação a si próprios antes de criticarem o Governo. Em Portugal sucede exactamente o contrário: começamos a criticar o Governo antes de cumprirmos as nossas obrigações de cidadania. É evidente que aqueles países estão muito mais à frente do que nós. (Expresso on line)


Publicado por Eduardo Graça em 01:55 PM | Comentários (1)

julho 26, 2004

Incêndios

Hoje e nos próximos dias o calor será intenso. Os incêncios ressurgiram em força. Muitos e graves. Parece que não há responsáveis políticos para responder pela situação.

Lembram-se dos planos, projectos e medidas anunciados pelo governo? Marcelo Rebelo de Sousa, na sua prédica dominical de hoje, disse que não se pode responsabilizar o governo! Mas este governo não assume os compromissos do anterior?

Onde estão as tropas do Dr. Portas? Onde foram chamados a participar os beneficiários do "Rendimento Social de Inserção"? Onde está a coordenação? Onde estão os meios? Afinal para que serve o governo se não está presente e não dá a cara? A questão dos incêndios não é uma questão essencial de segurança nacional? Não é uma questão económica e social relevante?

Os próximos dias vão ser de calor intenso. Ninguém pode garantir que não haja um agravamento da situação. O governo actual foi empossado e está a exercer funções. Não é um governo virtual.

Ninguém, de boa fé e de perfeito juízo, deseja calamidades púbicas e os incêndios não são bons para fazer "números" mediáticos. Mas o governo que apareça. Como foi executado o plano nacional de prevenção? Que meios e que recursos humanos e materiais foram mobilizados?

Não deixe a responsabilidade pela tragédia dos incêndios para o calor, os incendiáros e os bombeiros.

Publicado por Eduardo Graça em 12:29 AM | Comentários (0)

julho 23, 2004

Citações-16

Hoje José Manuel Barroso foi eleito "Presidente da EU". Os Europeus que se cuidem. A experiência imediatamente anterior de Barroso é de infidelidade aos compromissos.

Deixou o governo de Portugal a Santana que, por sua vez, deixou a Câmara Municipal de Lisboa a Carmona. Na hora de fazer as contas, pela pequena amostra da CML, já se percebeu que, afinal, temos "buraco".

Os incautos ficam espantados. Quem havia de dizer! Vamos esperar, preocupados, pelo resultado final desta operação nacional de "branqueamento de responsabilidades".


Entretanto vejam se conseguem encaixar estas duas citações no contexto.

"C. que procura seduzir, que dá demais a toda a gente e nunca cumpre. Que tem necessidade de adquirir, de conquistar o amor e a amizade e que é incapaz de uma coisa e outra. Bela figura de romance e lamentável imagem de amigo."

"A respeito de um mesmo assunto, não pensamos pela manhã da mesma forma que à noite. Mas onde está a verdade, no pensamento nocturno ou no espírito do meio dia? Duas respostas, duas raças de homens."


Albert Camus, in Cadernos, "Caderno n.º 2 (Setembro de 1937/Abril de 1939) - Edição Livros do Brasil

Publicado por Eduardo Graça em 12:24 AM | Comentários (3)

julho 22, 2004

Citações-15

As trapalhadas do governo Santana Lopes começam na sua própria formação. Constrangedor. O PR empossa em silêncio da mesma forma que, em silêncio, ouviu as atoardas de Alberto João Jardim e, logo depois, os seus elogios.

Será que no Conselho de Estado, o PR, na presença do dito, lhe "puxou as orelhas"? Aposto que não. O PR deixou, no dia 9 de Julho, cair a sua autoridade. Tudo o que se passou, diante dos seus olhos, e sob a sua responsabilidade, nas tomadas de posse, é um exemplo flagrante de falta de autoridade.

É um detalhe do caos que se desenha no horizonte e avivam-se, na minha memória, as citações, radicais e desencantadas, de Camus acerca da política.

"A política e o destino dos homens são organizados por homens sem ideal e sem grandeza. Aqueles que têm uma grandeza neles próprios não se ocupam de política. Assim em todas as coisas. Mas trata-se de criar agora em si próprio um novo homem. Seria preciso que os homens de acção fossem também homens de ideal e poetas industriais. Trata-se de viver os próprios sonhos - de os pôr em movimento. Outrora, renunciávamos ou perdíamo-nos. É necessário não nos perdermos e não renunciarmos."
(Dezembro de 37)


Albert Camus, in Cadernos, "Caderno n.º 2 (Setembro de 1937/Abril de 1939) - Edição Livros do Brasil

Publicado por Eduardo Graça em 12:10 AM | Comentários (0)

julho 20, 2004

Citações-14

A propósito da renúncia de Ferro Rodrigues ao cargo de secretário geral do PS têm sido proferidas opiniões sem fim. Mesmo a direita continua a abordar o tema com uma ganância aparentemente despropositada. Lá terão as suas razões.

O director do Expresso escreveu um texto ignóbil, ou decrépito, acompanhado de uma foto propositadamente descuidada. A abordagem do percurso de Ferro, num trabalho "de fundo", publicado na "Única", seguia o mesmo caminho não tanto no texto mas na escolha das fotos.

Esta voragem para destruir a imagem pública de Ferro é, como todos já entenderam, parte de uma estratégia de fundo da direita. Começou, porventura, ainda antes de Ferro ter ascendido à liderança do PS.

No dia 9 de Julho, de um só golpe, o PR consagrou essa estratégia. Mas a direita não parece estar saciada com o sucesso da operação "destruição de Ferro". O assumido combate ideológico da direita, dirigido pelo PP, é aniquilar a esquerda, fazendo dela uma oposição colaboracionista com os seus objectivos estratégicos.

A direita, dirigida pelo PP, quer o poder absoluto. Ferro era um obstáculo a essa estratégia. Sócrates, se se deixar aprisionar pela "política espectáculo", talvez lhes sirva. Só tempo o dirá.

Mas, por outro lado, em política, os que renunciam nem sempre são os perdedores.

"Ir até ao fim, não é apenas resistir mas também não resistir"

Albert Camus, in Cadernos, "Caderno n.º 1 (Maio de 1935/Setembro de 1937) - Edição Livros do Brasil

Publicado por Eduardo Graça em 12:49 PM | Comentários (0)

julho 18, 2004

Citações-13

O governo de Pedro Santana Lopes tomou posse. Horas de discursos, cumprimentos ... o costume. Sabemos que muitos dos ministros dispensados nem sequer tiveram direito a um cartão de agradecimentos. Foram simplesmente esquecidos.

No novo governo o PP ganha poder. O PSD perde poder. No governo a direita reforça posições, tomando o ministério das finanças, e os dirigentes políticos do PP assumem relevância. Os dirigentes do PSD, por sua vez, apagam-se. Transparece uma enorme perplexidade na área social democrata acerca da natureza deste governo.

Hoje, na sua "crónica dominical", na TVI, Marcelo Rebelo de Sousa foi demolidor. Não deixou pedra sobre pedra. O governo é fraco e mostra que é fraco. Muitos dos ministros têm os papéis trocados e outros nunca serão capazes de entender a sua missão. Os discursos são uma trapalhada.

Terá início, a partir de amanhã, um exercício real, mas doloroso, que demonstrará aos portugueses que a propaganda não basta para governar. Espero que o tempo me dê razão.

Tudo isto me fez lembrar esta citação desencantada que, vinda da pena de um democrata convicto, tem um especial significado.

"Agosto de 37.

Cada vez que oiço um discurso político ou que leio os que nos dirigem, há anos que me sinto apavorado por não ouvir nada que emita um som humano. São sempre as mesmas palavras que dizem as mesmas mentiras. E visto que os homens se conformam, que a cólera do povo ainda não destruiu os fantoches, vejo nisso a prova de que os homens não dão a menor importância ao próprio governo..."

Albert Camus, in Cadernos, "Caderno n.º 1 (Maio de 1935/Setembro de 1937) - Edição Livros do Brasil

Publicado por Eduardo Graça em 11:42 PM | Comentários (1)

julho 17, 2004

Citações-12

Ao meu amigo Eduardo Ferro Rodrigues.

"Maio.

Não nos separarmos do mundo. Não se perde a vida quando a colocamos à luz do dia. Todo o meu esforço, em todas as posições e desgraças, as desilusões, é para recuperar os contactos. E mesmo nesta tristeza que há em mim, que desejo de amar e que enebriamento apenas perante a visão de uma colina na aragem do fim da tarde.

Contactos com o verdadeiro, a natureza em primeiro lugar, e depois a arte daqueles que compreenderam, a minha arte se a consigo alcançar. De contrário, a luz e a água e a embriaguez estão ainda na minha frente, e os lábios húmidos do desejo.

Desespero sorridente. Sem saída, mas que exerce sem cessar um domínio que se sabe inútil. O essencial: não nos perdermos, e não perder aquilo que, de nós, dorme no mundo." (Texto de Maio de 1936)

Albert Camus, in Cadernos, "Caderno n.º 1 (Maio de 1935/Setembro de 1937) - Edição Livros do Brasil

Publicado por Eduardo Graça em 02:28 PM | Comentários (0)

julho 08, 2004

Citações-11


As eleições são, no imediato, um problema para a direita. A expectativa de perda da maioria e, em consequência, do governo, é forte. Mas as eleições serão, a médio prazo, um problema para a esquerda. A expectativa de um arrastamento da crise económica é forte. O consenso social é uma aspiração da esquerda e uma necessidade vital para a sobrevivência de qualquer governo. Mas a margem para o consenso é sempre estreita e ainda mais estreita em épocas de crise.

A direita já está em campanha eleitoral. A esquerda precisa de um golpe de asa. Refiro-me, naturalmente, ao PS. O programa de governo é importante assim como a equipa que o defenda e protagonize. As opções a tomar na reforma do Estado são cruciais.

Mas o PS só ganhará as eleições, se for capaz de combater, de igual para igual, num ambiente de "cruzada" populista. A direita não olhará a meios para atingir os seus fins. Vide, como ilustração impressiva, o post "Ingenuidades", de JPP, hoje, no abrupto. A chantagem exercida pela direita sobre Jorge Sampaio é o primeira passo na chantagem que vai tentar exercer sobre toda a sociedade.


A citação do dia:

A Guilloux: "Toda a infelicidade dos homens vem de não usarem uma linguagem simples. Se o herói do Mal-entendido tivesse dito: "Ora bem. Aqui estou e sou seu filho", o diálogo seria possível e não artificial como na peça. Não haveria tragédia, pois o ponto culminante de todas tragédias está na surdez dos heróis.

Sob esse ponto de vista é Sócrates quem tem razão, contra Jesus e Nietzsche. O progresso e a verdadeira grandeza residem no diálogo à altura do homem e não no evangelho, monologado e ditado do alto de uma montanha solitária. Eis onde cheguei.

O que equilibra o absurdo é a comunidade dos homens em luta contra ele. E se escolhemos servir esta comunidade, escolhemos oa mesmo tempo servir o diálogo até ao absurdo contra toda a política da mentira e do silêncio. É assim que podemos ser livres com os outros.""


Albert Camus, "Cadernos" - Caderno nº 5 - Setembro 1945/Abril de 1948 - Livros do Brasil)

Publicado por Eduardo Graça em 10:07 PM | Comentários (0)

julho 07, 2004

Citações-10


O que está em causa na crise política actual? Sem rodeios: O Primeiro-ministro demissionário, Durão Barroso, fugiu.

Proclamou que tinha aprendido as lições da derrota nas eleições europeias e uns dias depois demitiu-se. Percebe-se que o homem buscou o sucesso de uma carreira profissional.

Mas o povo de direita pensava que tinha votado num político devoto à defesa dos interesses do país e do seu povo. Ao menos pelo período do contrato que estabeleceu, de livre vontade, através da sua apresentação ao sufrágio: 4 anos.

Este episódio não é só uma traição aos seus correligionários. É uma machadada no prestígio do regime democrático. O assunto é sério. De futuro, como já ouvi, é necessário olhar os candidatos tanto pelo lado da sua fidelidade aos compromissos programáticos como pelo lado da garantia da sua permanência no exercício da função todo o tempo do contrato, em exclusividade.

Estes detalhes não são, como se prova, tão despiciendos como poderia parecer. No caso de Santana Lopes não são mesmo nada despiciendos. A inconstância não pode ser elevada à categoria de um valor do Estado Democrático. A não ser que se queira acabar com ele.

A citação do dia:

""Se quer que lhe diga, nunca acreditei na Gestapo. É que nunca ninguém a via. Tomava evidentemente as minhas precauções, mas como que abstractamente. De tempos a tempos, um camarada desaparecia. Noutro dia, diante de Saint-Germain-des-Prés, vi dois tipos altos que obrigavam a soco um homem a entrar para um táxi. E ninguém dizia nada. Um criado de café disse-me: "Cale-se. São eles." Isto levou-me a suspeitar de que efectivamente existiam e de que um dia…Mas eram apenas suspeitas. A verdade é que só poderei acreditar na Gestapo quando receber o primeiro pontapé na barriga. Sou assim. Eis porque não devem ter ilusão quanto à minha coragem, lá porque estou na resistência, como dizem. Não, não posso reclamar qualquer mérito, precisamente porque não tenho imaginação."


Albert Camus, "Cadernos" - Caderno nº 5 - Setembro 1945/Abril de 1948 - Livros do Brasil)



Publicado por Eduardo Graça em 11:49 PM | Comentários (0)

julho 06, 2004

Citações-9

Os discursos e as faces dos dirigentes da direita apresentam sinais de instabilidade. O povo, como diria o Almirante Pinheiro de Azevedo "é sereno". O povo apresenta sinais de estabilidade, apesar do sofrimento.

Lembro-me do que me disse um taxista no Porto, umas semanas atrás: "impressiona-me o que vejo todos os dias - as pessoas a falar sozinhas. Então as crianças!". E outro: "Um dia destes vai haver uma revolta popular". Sinais de crispação crescente. Todos aqueles que ouvem, vêem e sentem, como cidadãos comuns, tiveram experiências de sobra da silenciosa revolta que crescia.

A direita populista não está para nascer com Santana Lopes. Já está instalada no poder há muito. A diferença é que até à demissão de Durão Barroso estava na fase da " guerra de guerrilha". Circunscrita em bolsas preparando o terreno para a ofensiva final.

O objectivo de PP e do seu aliado PSL é a conquista do poder. Absoluto. Neste momento tentam o assalto final. Mas para isso têm que mostrar o seu verdadeiro rosto, a sua verdadeira ideologia, os seus verdadeiros alinhamentos internos e internacionais.

O rosto de Durão Barroso, ontem, á saída de Belém, era o de um derrotado. A fotografia da direita populista, a que conquistou a liderança da direita, qual "polaroid" instantânea, vai ganhando contornos cada vez mais claros: é o "pós- fascismo", à portuguesa. Cuidado...

A citação do dia:

"Novembro - 32 anos.
A inclinação mais natural do homem é a de se aniquilar e toda a gente com ele. Quantos esforços desmedidos para ser apenas normal! ..."


(Albert Camus, "Cadernos" - Caderno nº 5 - Setembro 1945/Abril de 1948 - Livros do Brasil)


Publicado por Eduardo Graça em 06:06 PM | Comentários (0)

julho 05, 2004

Citações-8

A vida quotidiana continua apesar da crise política. As famílias trabalham (as que têm trabalho), transportam-se, tratam da vida o melhor possível.
Os últimos dois anos levaram muitas famílias ao desespero. Quem, por dever de ofício, tem conhecimento das mágoas dos cidadãos, maltratados pelas injustiças das políticas desta maioria, terá uma palavra decisiva no pleito eleitoral.
Ver-se-á então quanta crueldade foi praticada nas políticas sociais; quanta incúria no respeito pelos mais fracos para favorecer os mais fortes; quanta desigualdade foi estimulada por acção ou omissão.
Nunca a tragédia desta política, que não foi mais do que um intervalo, será absolutamente assumida. Digo intervalo porque antevejo os argumentos do novo paladino da governação neo-liberal: antes de nós o dilúvio, depois de nós o inferno. A nós, afinal, "não nos deixam governar".
É a estratégia da vitimização. O Dr. Santana Lopes vai tentar fazer passar-se como vítima de uma "intentona" cujos contornos o oligarca da Madeira, à sua maneira boçal, já enunciou.
É um momento de tragicomédia em que a política pura, a que eleva acima da defesa dos interesses particulares o interesse geral, ameaça ser submersa pela pura traficância de interesses, arremesso de ódios e promessas populistas.
Ver o episódio de hoje, na RTP-1, com a entrevista "oportuna" de Judite de Sousa a Pedro Santana Lopes.
A citação do dia:
"São precisos holocaustos de sangue e séculos de história para provocar uma imperceptível modificação da condição humana. Tal é a lei. Durante anos tombam cabeças em série, reina o Terror, proclama-se a Revolução e consegue-se no fim substituir a monarquia legítima pela monarquia constitucional."
(Albert Camus, "Cadernos" - Caderno nº 5 - Setembro 1945/Abril de 1948 - Livros do Brasil)
Publicado por Eduardo Graça em 06:03 PM | Comentários (0)

julho 04, 2004

Citações-7

"1 de Setembro de 1943.
Aquele que desespera dos acontecimentos é um cobarde, mas aquele que tem esperança na condição humana é um louco."
*
"Em período de revolução, os melhores é que morrem.
A lei do sacrifício faz com que finalmente sejam sempre os cobardes e os prudentes a ter a palavra, já que os outros, ao dar o melhor de si próprios, a perderam."
(Albert Camus, "Cadernos" - Caderno nº 4 - Janeiro 1942/Setembro 1945 - Livros do Brasil)
Publicado por Eduardo Graça em 07:22 PM | Comentários (0)

julho 03, 2004

Pranto pelo dia de hoje

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que não podem sequer ser bem descritas.

Sophia de Mello Breyner Andresen
In "Livro Sexto" - 1962


Publicado por Eduardo Graça em 01:30 AM | Comentários (0)

julho 02, 2004

Citações-6

A convocação de eleições legislativas antecipadas não é, como parece à primeira vista, uma vantagem óbvia para a esquerda. A situação da economia, o caos na administração e o mais que se verá, tornam a tarefa de qualquer futuro governo quase impossível.
Por outro lado Santana Lopes é um candidato temível se o PSD se apresentar às eleições liberto de compromissos com o PP de Paulo Portas. Segundo alguns estrategos, com leituras aprofundadas dos clássicos, incluindo Maquiavel, a esquerda teria muito a ganhar se Jorge Sampaio indigitasse o Dr. Pedro Santana Lopes para formar governo.
Conforme a actual maioria proclama ficava garantida a "tranquilidade pública" (Santana dixi) e o prosseguimento do projecto político aprovado pelo eleitorado em 2002. (Parece, em boa verdade, ter sido já há uns 20 anos!).
Para a direita seria um momento de glória a que se seguiria uma governação de direita populista repleta de contrariedades e contradições no seio do PSD. Para a esquerda seria uma folga para se reorganizar e esclarecer a questão da liderança no PS.
Reparem como a expectativa de eleições, a breve prazo, recriou a unidade no PS em torno de Ferro Rodrigues. Todos sabemos que se trata de uma falsa unidade. Assim como a unidade em torno de Santana Lopes é uma falsa unidade. O "cheiro" do poder torna os "partidos governamentais" túmulos em que os silêncios se oferecem em troca do adiamento das disputam autênticas.
Ao contrário do que parece a não convocação de eleições antecipadas pode ser, a médio prazo, vantajosa para o PS e para a esquerda. Mas os perigos de um populismo sem freio, protagonizado por um governo Santana Lopes + Paulo Portas, sem legitimação eleitoral, farão Jorge Sampaio, muito provavelmente, tomar a opção contrária.
Mas, dizem alguns, que não é nada linear a consideração de que a eventual opção de Jorge Sampaio por eleições antecipadas seja, ao contrário do que possa parecer, um benefício para a esquerda.

As citações do dia:

"Ter a força de escolher o que preferimos e ficarmos nesta posição. Caso contrário mais vale morrer."

"O tempo não corre depressa quando o observamos. Sente-se vigiado. Mas tira partido das nossas distracções. Talvez haja mesmo dois tempos, o que observamos e o que nos transforma."

(Albert Camus, "Cadernos" - Caderno nº 4 - Janeiro 1942/Setembro 1945 - Livros do Brasil)


Publicado por Eduardo Graça em 11:26 PM | Comentários (0)

Citações(5)

Os comentários na imprensa acerca da crise política enfatizam, quase sempre, a questão das ideias (ou a falta delas) dos candidatos a "chefes". Mas o verdadeiro debate está centrado na sua personalidade propriamente dita.
Discutem-se as pessoas não se discutem as ideias e os programas. Não é por acaso. É que a política é, antes de tudo, uma escolha de pessoas. De nada serve um bom programa interpretado por um "chefe" imbecil. Mas um "chefe" honrado e competente pode partir de um programa mediano e chegar a um "bom governo".
Reparem como foi conduzida uma campanha sórdida, mas bem organizada, para liquidar Ferro Rodrigues. É um caso emblemático da importância dos "chefes". Ora Ferro Rodrigues obteve, nas eleições de 2002, um resultado excepcional, levando o PS perto da vitória em condições desvantajosas. Nas eleições seguintes, as europeias, o PS obteve a maior vitória eleitoral de sempre e, no entanto, Ferro Rodrigues é apresentado, por muitos analistas e, mesmo, por alguns dirigentes socialistas como um perdedor.
Ferro Rodrigues é, pois, um "vencedor/perdedor". Paradoxal. Mas essa encruzilhada extrema em que se encontra é o que lhe dá a força. Quem conheça o homem, como eu, sabe que não desistirá, não fará "fretes" e, mais importante, nunca abandonará "o barco". O povo entende.
Vejam, ao contrário, como um "vencedor", o Dr. Durão Barroso, ao abandonar o governo, se transformou num perdedor. O mesmo já tinha acontecido com o Eng.º Guterres. A importância dos "chefes" avulta pela perda que pode assumir dimensões dramáticas: os "chefes são glorificados pela morte em combate, o sacrifício supremo, (Sousa Franco) ou são odiados pela desistência inexplicável, a suprema cobardia. (Durão Barroso). Cito os casos mais recentes.
Na verdade nunca se discute o programa do governo ou do partido (isso é uma ilusão) o que se discute, na "praça pública" é a personalidade do "chefe". As qualidades e os defeitos dos "chefes" são apreciados, até à exaustão, pela opinião pública. Os cidadãos sabem que o programa "está lá" mas que pode ser "outro" conforme o "chefe" que o executa.
Por isso Durão Barroso não pode ser substituído por Santana Lopes mesmo que o programa da coligação PSD/PP seja o mesmo. Santana Lopes nunca cumprirá o que Durão Barroso prometeu aos portugueses nas eleições e ele próprio não cumpriu.
O que no presente os cidadãos querem é participar na criação de um consenso majoritário na sociedade em torno de uma ideia capaz de relançar a esperança no futuro de Portugal. E esse caminho em democracia é, apesar de tudo, o da escolha, em eleições livres, dos homens para governar.

A citação do dia:

""Nietzche. - Nada de decisivo se constrói, a não ser sobre um "apesar de tudo""

(Albert Camus, "Cadernos" - Caderno nº 4 - Janeiro 1942/Setembro 1945 - Livros do Brasil)



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junho 30, 2004

Citações-4

Voltando à questão dos "chefes". A mudança dos homens é a essência da política.
A citação do dia é um pouco mais longa do que tem sido habitual. Mas parece-me que ilustra, com muita acuidade, uma faceta da crise política actual. A mudança do "chefe" da actual maioria representa uma profunda alteração da situação política.

Não é um detalhe que possa encontrar solução num arranjo de bastidores quando todos sabemos que "a própria política é feita da mudança dos homens". E esta mudança é demasiado estruturante da própria política para não ser legitimada pelo mais nobre dos mecanismos da democracia representativa: o voto popular.

"Curioso. Historiadores inteligentes investigando a história de um país empregam todas as suas forças a preconizar tal política, realista por exemplo, a que se devem, segundo lhes parece, as maiores épocas desse país.

Apontam eles próprios todavia que esse estado de coisas não pôde durar porque imediatamente um outro homem de Estado ou um novo regime vieram e tudo estragaram.

Nem por isso deixam de defender uma política que não resiste à mudança dos homens, enquanto se sabe que a própria política é feita da mudança dos homens. É que só pensam ou escrevem para a sua época.

Alternativa para os historiadores: cepticismo ou uma teoria política que não dependa da mudança dos homens (?)."


(Albert Camus, "Cadernos" - Caderno nº 4 - Janeiro 1942/Setembro 1945 - Livros do Brasil)


Publicado por Eduardo Graça em 06:17 PM | Comentários (0)

junho 29, 2004

Citações-3

Claro que o "bom governo" não se reduz às qualidades do "chefe". O "bom governo" exige um bom programa e uma equipa competente. Vejam o caso do governo chefiado por Durão Barroso. É um governo legítimo resultante dos resultados das eleições de Março de 2002.

Mas o governo não integrou, salvo os líderes de ambos os partidos, nenhuma das personalidades que, durante a campanha eleitoral, foram apontadas como futuros ministros. Nem António Borges, nem Dias Loureiro, nem outros que foram insinuados, ou mesmo apresentados, como valores seguros.

O governo de Durão Barroso é fraco e incompetente. A equipa que Durão Barroso reuniu no governo foi fortemente condicionada pela coligação com o PP. Estes dois anos de governo mostraram que o PP é um partido predador. O Dr. Durão Barroso abandonou, à primeira oportunidade, o governo porque percebeu que não seria capaz de o remodelar sem se desembaraçar do PP.

Os quadros social-democratas competentes, que qualificariam um governo de centro direita, nunca integrarão um governo de coligação com o PP do Dr. Paulo Portas. Os governos de coligação PDD/PP, mesmo que resultem de uma inverosímil "iniciativa presidencial", serão sempre governos fracos e incompetentes.

A tendência, no caso da formação de um governo assente na actual maioria, é para a qualidade baixar ainda mais. A competência do governo está na qualidade das mulheres e dos homens que o compõem. Qualidades humanas, políticas e técnicas. O governo de Durão Barroso está repleto de gente sem qualidade humana, sem tacto nem experiência política e eivado de incompetência técnica.

É difícil baixar ainda mais o nível mas Santana Lopes, se for primeiro-ministro, com ou sem eleições, vai conseguir. O primeiro a perceber esta realidade é o Dr. Jorge Sampaio. Durão Barroso não sei se percebe mas, em Bruxelas, não terá que escolher os comissários. O Dr. Santana Lopes tem como tradição escolher equipas fracas e incompetentes. Para ele é-lhe indiferente o governo que chefiar pois pensará sempre "no lugar que se segue".

A citação do dia:

"Montesquieu. "Há imbecilidades de tal quilate, que seria preferível uma imbecilidade ainda maior.""

(Albert Camus, "Cadernos" - Caderno nº 4 - Janeiro 1942/Setembro 1945 - Livros do Brasil)


Publicado por Eduardo Graça em 06:09 PM | Comentários (0)

junho 28, 2004

Citações-2

O "bom governo" o que é? A crise aberta pela nomeação de Durão Barroso para Presidente da Comissão Europeia pode ser uma grande oportunidade para debater o tema do "bom governo".

Não falo de formalidades mas da coisa em si mesma. Tomando em consideração a ideologia de juventude do "putativo futuro" PCE a primeira condição do "bom governo " é a do timoneiro ou, na linguagem mais vernácula do maoismo, a do "grande timoneiro".

O "bom governo" carece de um "bom primeiro-ministro". As suas qualidades intrínsecas não são, no entanto, suficientes pois, em regime democrático, a bondade do líder carece de ser sufragada pelo povo. É a maçada das eleições.

Nas ditaduras um grupo de conjurados impõe, a golpe, o "chefe", enquanto nas democracias representativas, os eleitos são uma emanação do sufrágio popular.

Em democracia as escolhas não resultam das qualidades intrínsecas do "chefe" exaltadas pelo apoio "unânime" dos seus apaniguados. Este é o modelo populista que se aproxima tanto mais da ditadura quanto a democracia é transformada aos olhos das massas numa desnecessidade por "não resolver nada" ou "por não valer a pena votar" (quantas vezes já ouvimos estas palavras nos últimos dias!).

A verdadeira democracia exige a coragem tranquila dos homens que querem ser livres e estão dispostos a correr o risco de lutar pela liberdade.

A citação do dia:

"Há sempre uma filosofia para a falta de coragem."

(Albert Camus, "Cadernos" - Caderno nº 4 - Janeiro 1942/Setembro 1945 - Livros do Brasil)


Publicado por Eduardo Graça em 08:53 PM | Comentários (0)

junho 27, 2004

Citações-1

Nestas alturas de crise política que me afectam o estado de espírito, vá lá saber-se porquê, desde a juventude, ponho-me a ler Camus. Alguém disse que lemos sempre o mesmo livro mesmo quando lemos livros diferentes.

Leio quase sempre os "Cadernos" de Albert Camus mesmo quando leio outro livro qualquer. Nestes dias de descrença na capacidade dos homens para encontrarem as boas soluções de governo nada melhor do que estarmos atentos. Não podemos tomar as medidas que desejamos. Outros as tomarão por nós.

As ditaduras afastam os povos da responsabilidade da tomada das decisões. Lembro-me do discurso da falta de maturidade do povo para votar. Quanto menos for chamado a pronunciar-se acerca das grandes questões nacionais, em particular, as escolhas de governo, mais o povo se sentirá afastado dos desígnios da democracia.

Confiar? Desconfiar? O povo desconfia. Terá razão? O populismo espreita. Delegamos o poder através do voto. Será que nos vão devolver o poder, em tempo útil, para escolhermos de novo? Uma só partícula de poder a cada um de nós. Mas o suficiente para que nos sintamos reconfortados por termos influenciado as escolhas que comprometem toda a comunidade.

Não é o tempo oportuno? Mas se não escolhermos a participação popular, mesmo quando a mesma parece excessiva, estamos a abrir o caminho aos populistas. Os populistas fingem que usam o poder para servir o povo mas servem-se dele para alcançar os seus objectivos particulares.

Aqui estão as citações do dia. A continuar.

""Tudo o que não me mate torna-me mais forte." Sim, mas…E como é duro pensar na felicidade. O peso esmagador de tudo isso. O melhor é calarmo-nos para sempre e voltarmo-nos para o resto."

""Retz: "Com excepção da coragem, o senhor Duque de Orlèans tem tudo quanto é necessário a um homem honesto""


(Albert Camus, "Cadernos" - Caderno nº 4 - Janeiro 1942/Setembro 1945 - Livros do Brasil)


Publicado por Eduardo Graça em 04:40 PM | Comentários (0)

junho 25, 2004

Mistérios

Se Durão Barroso vier a ser presidente da Comissão Europeia, como parece certo, fica desvendado o mistério da não remodelação do governo nestes dias que passaram desde as eleições europeias. É que estava guardada, em segredo, a remodelação do próprio Primeiro-ministro. Agora entendo o dircurso de alguns comentaristas que me tinham parecido algo misteriosos nestas últimas duas semanas.

Fica desvendado, por outro lado, o mistério do "apoio" de Durão Barroso a Vitorino para a Presidência da Comissão Europeia: foi, desde o princípio, um falso apoio. Durão usou habilmente Vitorino como "lebre" para abrir caminho à sua própria candidatura.

Não é possível que esta estratégia não estivesse nos planos do partido popular europeu ou que, ao menos, não tenha amadurecido muito cedo. A conclusão e anúncio do processo careciam de algum tempo afastando, tanto quanto possível, o momento da decisão dos resultados desastrosos da coligação "Força Portugal". Assim ficaria esbatida a ideia de uma "fuga" de Durão Barroso. Foi o que aconteceu.

O PR, em fim de mandato, tudo fará para evitar a abertura declarada de uma crise política. Mas a crise política já está aberta, desde o dia 13 de Junho. Pode disfarçar-se a sua existência mas não se pode iludir a sua realidade.

A não realizações de eleições antecipadas dará origem ao apodrecimento da crise. Basta que diversos altos cargos políticos, que resultam de eleições, venham a ser ocupados por quem nunca se apresentou a sufrágio - em primeira linha - para exercer esses cargos. É uma questão elementar de legitimidade democrática para além dos meros formalismos de uma República de figuras de cera.

Mas se Durão Barroso vier a ser presidente da Comissão Europeia, abandonando as funções de primeiro-ministro, o país só ficaria a ganhar com a realização de eleições legislativas antecipadas.

Se a condição de Durão Barroso para aceitar o convite da presidente da Comissão Europeia for a não realização de eleições antecipadas, em Portugal, estamos conversados acerca da sua relação de confiança com o povo português e o eleitorado que nele votou nas anteriores eleições legislativas.

Qualquer outra alternativa poderá ser formalmente irrepreensível mas deixará a pairar no ar enormes dúvidas acerca da sua real legitimidade democrática. Se for desvendado o mistério e Durão Barroso vier a ser presidente da Comissão Europeia…a "remodelação do primeiro-ministro" deveria ser evitada através da devolução da palavra ao povo, já!

É que há uma enorme diferença entre um governo 100% remodelado e um governo 100% legitimado pelo voto popular.


Publicado por Eduardo Graça em 10:51 PM | Comentários (0)

junho 24, 2004

Música (2)

Bob Dylan galardoado Doutor da Música

O título foi atribuído pela Universidade de Saint Andrews, Escócia. O cantor norte-americano foi um dos 100 galardoados pela mais antiga universidade escocesa. Recebido por um coro de capela que cantou o seu sucesso "Blowing in the wind", Dylan foi agraciado pela contribuição para a cultura e consciência social do século XX.


Esta notícia, que muito me toca, faz-me voltar ao assunto da música. Numa sociedade com um desenvolvimento cultural médio os assuntos da música são, de facto, tratados como assuntos muito sérios. Não sou especialista mas, em Portugal, existem especialistas como, por exemplo, o Rui Vieira Nery que muito já tem dissertado acerca desta matéria.

A escola é o lugar, por excelência, da iniciação e educação musical. Este é um ponto que deveria ser assumido por qualquer programa político no capítulo da reforma da educação.

Existe, em Portugal, uma tradição e, mais importante, uma rede de agrupamentos de natureza associativa que cobre todo o país e que podia ser a inspiração para um projecto nacional de educação musical da juventude. Existem escolas de música e agrupamentos musicais (bandas filarmónicas e não só), maestros, músicos, instrumentos, organização e entusiasmo.

A escola pública está, na prática, afastada deste processo: não o integra, não o aproveita, não o desenvolve, não assume o desafio da educação musical. A comunidade está desinteressada da educação musical? Não creio. O Estado não dispõe de recursos financeiros e materiais? Já se fizeram as contas?

Bob Dylan é um ícone de várias gerações, a Escócia uma sociedade que preza as suas tradições e valoriza o papel da música. Trata-se, claro, de um acto simbólico. Hoje vi a notícia de uma ópera, anunciada em grandes parangonas, que se não realizou, nas ruínas do Convento do Carmo, em Lisboa, pois os cantores italianos se recusaram, em cima da hora, a cantar sem antes receber o "cachet". Trata-se de um acto simbólico de sentido contrário.

Mas não fiquemos tristes pois na China estão referenciados 8 milhões de estudantes de piano (só neste instrumento!) e, destes, meio milhão deverão seguir a carreira profissional de pianista. Um pequeno detalhe para reflectir.


Publicado por Eduardo Graça em 05:59 PM | Comentários (1)

junho 21, 2004

Música

Quando ouço, a bordo, música na antena 2 sofro de um problema quase insolúvel. Sinto necessidade, por vezes, quando o tema me inspira, de tomar um apontamento e a condução torna a tarefa delirante. Em regra aproveito os sinais vermelhos e todas as oportunidades que, em situação comum, dariam para observar o caos urbano, pensar na vidinha ou acelerar.

No outro dia resolvi mesmo parar. É que à súbita necessidade de tomar um apontamento acresceu o toque do telemóvel. Parei cuidadosamente. A rua era estreita e subi ligeiramente o passeio mordendo uma passadeira de peões. Rua das Janelas Verdes. À porta do Comando da Brigada de Trânsito. Um polícia solícito assomou ao vidro com ar de incredulidade. Expliquei. Tudo bem. Pode seguir. Segui.

A missão tinha fracassado. Nesse mesmo local tinha visto estacionado, uns dias antes, para meu espanto, um carro, todo artilhado, da própria B.T. "Em casa de ferreiro espeto de pau". O mesmo se passa com o meu filho que vai ter 1 (a nota máxima na escala da Escola Alemã) na disciplina de "Música" e eu não passei das velhas aulas de "canto coral" e dos primeiros acordes nas lições particulares de piano. É das melhores notícias do ano.

Parece um detalhe mas, para mim, não é. A música devia ser, desde muito cedo, disciplina obrigatória no ensino público. A música é uma das coisas raras do mundo parafraseando o que Camus disse a propósito do vento. Educa o gosto e estimula a aprendizagem das ciências. E ainda mais importante: enquanto a música toca está acesa a luz da esperança no futuro do homem.


Publicado por Eduardo Graça em 01:12 AM | Comentários (0)

junho 15, 2004

A cauda da serpente

Antes de serem conhecidos os resultados das eleições, do passado domingo, estive para escrever uma simulação das duas ou três reacções da direita à mais que provável vitória do PS. Resisti e não escrevi.

Agora observo curioso o rabiar da cauda da serpente esfacelada. As reacções dos representantes da direita (política, intelectual, mediática) à vitória do PS sugerem-me essa imagem que retenho da minha infância.

A serpente esfacelada, de cujos ovos falava Sousa Franco, balbucia palavras vazias de sentido. A sua cauda, separada do corpo, rabeia.

Mas atenção: a serpente ferida, no seu estertor desesperado, torna-se mais perigosa.


Publicado por Eduardo Graça em 07:36 PM | Comentários (0)

junho 14, 2004

Educação profissional - caminho do futuro



Uma notícia recente, publicada pelo "Público" referia que, em França, quase 50% dos alunos do ensino secundário frequentam cursos tecnológicos e profissionais e que, em Portugal, somente um cada três alunos do secundário frequentam esses mesmos cursos.

A notícia depreciava a situação em Portugal suprimindo qualquer informação acerca dos progressos, neste âmbito, realizados pelo nosso país. Nem de propósito publiquei um artigo no "Semanário Económico", no passado dia 9 de Junho, em que tento informar acerca da real situação portuguesa neste domínio.

Afirmo, a este propósito: "Em Portugal (Continente), 30% dos alunos do Ensino Secundário já frequentam cursos de ensino tecnológico e profissional. No ano lectivo de 2003/2004 frequentam o Ensino Secundário Regular 277.883 alunos; destes, 83.469 frequentam o ensino tecnológico e profissional, sendo que, deste universo, 31.702 frequentam as Escolas Profissionais.

O número de alunos, que frequentavam o ensino tecnológico e profissional, em 1989, era quase zero. A meta para 2010 é de 50%. Mas atingir os 30%, em 14 anos, é obra. Não sejamos masoquistas nem cedamos à tentação do "antes de nós o dilúvio"."


Alguns amigos, bem informados, disseram-me, com franqueza, que não faziam a mínima ideia acerca deste dado da situação do ensino secundário em Portugal. Nesta área, como em muitas outras, muito passos já foram dados no sentido de alcançar metas ambiciosas que colocam Portugal nos caminhos do progresso e da modernidade.

Os projectos estruturantes de desenvolvimento económico e social do país carecem de continuidade, coerência e persistência na sua implementação, afectação de recursos suficientes e, quantas vezes, significativos e de uma informação verdadeira e permanente à comunidade educativa e à sociedade no seu conjunto.

No caso do ensino profissional (ou educação profissional) têm sido asseguradas as condições essenciais dessas continuidade e coerência. Por isso, apesar das dificuldades e contradições, se vê uma luz ao fundo túnel.

O artigo, ainda não disponível na versão electrónica do "Semanário Económico", pode ser lido, em três partes, no absorto.


Publicado por Eduardo Graça em 06:02 PM | Comentários (0)

Eleições europeias-notas



Ainda antes de saber os resultados definitivos das eleições europeias, ainda em fase final de apuramento, é certa a vitória do Partido Socialista. Nada que não fosse razoável esperar.

A abstenção andará em torno dos 61% - próxima dos níveis das eleições europeias de 1999 e inferior à que ocorreu, nas mesmas eleições, em 1994. O PSD e o PP coligados obterão um resultado de 33,2 - muito inferior ao somatório dos resultados dos dois partidos nas eleições de 1999.

O PS deverá atingir os 44,5%, o seu melhor resultado de sempre. A esquerda, no conjunto, vence folgadamente obtendo cerca de 58,6% dos votos expressos.

O que estes resultados provam e as suas consequências imediatas:


1) os portugueses estão muito descontentes com o governo;
2) as alternativas credíveis carecem de candidatos credíveis (caso de Sousa Franco);
3) o governo vai ser remodelado muito em breve, ou, menos provável, cairá por erosão dos fundamentos do acordo de coligação que o suporta;
4) o PS é a única alternativa credível de governo alternativo;
5) o regime democrático carece de um PS com capacidade para forjar, com autonomia, uma alternativa de governo realista e credível;
6) Ferro Rodrigues é candidato declarado à liderança do PS no próximo congresso do PS;
7) Ferro Rodrigues será, salvo qualquer acontecimento imprevisível, líder do PS para as próximas batalhas eleitorais: regionais, autárquicas, legislativas e presidenciais;
8) o PCP "aguenta" o seu eleitorado e o Bloco de Esquerda tende a crescer;
9) o que determina o sucesso das alternativas políticas não é o efeito de malabarismos de ocasião mas a persistência dos líderes na apresentação de projectos assentes em ideias claras e convicções fortes.


A partir do discurso de vitória desta noite é isso que a esquerda exige a Ferro Rodrigues: ideias claras e convicções fortes. O voto "de castigo" no governo é, ao mesmo tempo, um endosso de responsabilidades ao PS para forjar um projecto de governo alternativo capaz de assumir o poder, o mais tardar, em 2006.


Publicado por Eduardo Graça em 12:40 AM | Comentários (0)

junho 09, 2004

Sousa Franco - honra à sua memória



Quarta-feira 9 de Junho de 2004. Sousa Franco faleceu. Em campanha. Fui, desde a primeira hora, um entusiasta da sua candidatura.

Era um extraordinário candidato do PS na disputa das eleições europeias. Franco de nome como o meu pai. Franco de convicções como poucos. Um político de parte inteira. Podia não parecer eficaz pela sua imagem austera. Mas era um político fino. Lúcido e forte nas suas convicções e claro nas suas mensagens.

Era demasiado sério para a política portuguesa. Demasiado exigente para o nosso proverbial desleixo. Os adversários temiam o seu desabrimento. Quiseram pô-lo a falar mal do secretário-geral do PS mas ele saiu, com elevação, em sua defesa.

Quiseram pô-lo a falar mal de si próprio quando, no passado, exerceu as funções de Ministro das Finanças, mas ele defendeu a sua acção atacando, frontalmente, a hipocrisia dos seus adversários.

Sousa Franco disse, nesta campanha eleitoral, aquilo que os portugueses precisavam de ouvir: a actual maioria de governo defende os interesses dos poderosos, contra os interesses da maioria do povo. A actual maioria, afirmou, com uma ponta de ironia, faz o país andar para trás, a caminho do "Estado Novo".

Fizeram-lhe ataques miseráveis aos quais respondeu com firmeza. Combateu no terrreno político quando o quiseram arrastar para a lama do insulto pessoal.

Os portugueses não vão esquecer Sousa Franco.Espero que os seus adversários tenham uma iluminação de decência e não venham dizer que perderam as eleições porque Sousa Franco morreu.

Mal sabia eu que hoje diria de Sousa Franco o que ontem disse de Humberto Delgado: honra à sua memória.


Publicado por Eduardo Graça em 06:10 PM | Comentários (1)

junho 08, 2004

General Humberto Delgado


A 8 de Junho de 1958 tiveram lugar, em Portugal, as eleições presidenciais mais importantes dos 48 anos do Estado Novo.

O General Humberto Delgado atreveu-se a desafiar a ditadura.

A campanha eleitoral foi um momento de grande mobilização popular. O candidato do regime, Almirante Américo Tomáz, ganhou as eleições, como seria de esperar, mas o resultado nunca foi aceite pela oposição democrática.

Uma efeméride de que poucos se lembram. É pena. O General Humberto Delgado pagou caro a sua ousadia: foi assassinado pela polícia política da ditadura.

Honra à sua memória.

(Em simultâneo no absorto e na abébia vadia)


Publicado por Eduardo Graça em 06:34 PM | Comentários (0)

junho 07, 2004

Uma colagem infame



Eu sei que a política não é um passeio triunfal. Tão pouco um exercício de bondade e concórdia universais. Eu sei que o princípio dominante na política é : "se não mato, morro" ou, nas palavras de Camus, falando de si próprio: "Não sou feito para a política pois sou incapaz de querer ou de aceitar a morte do adversário."

Por isso a política é um universo cada vez mais reservado aos políticos profissionais. Um ringue no qual o pugilato atropela, quantas vezes, as regras elementares da convivência cidadã. O debate cede, vezes sem conta, o passo ao insulto. Mas também se toma, vezes sem conta, por insulto a verdade mais cristalina.

Sousa Franco tem dito, nesta campanha, as verdades que toda a esquerda tinha vontade de dizer mas que nunca disse de forma tão clara. A comunicação social desespera por uma boa polémica apimentada ou por um escândalo de fazer tremer o regime. Mas fica escandalizada pelas verdades que fogem ao figurino dos interesses "dos senhores do poder".

É sempre assim, dirão os cépticos, seja qual for o governo. Neste caso nem tanto. Olhem que o debate político eleitoral, que alguns consideram de "insultos", dificilmente poderia sobreviver ao insulto subliminar de uma campanha de spots "comerciais" (e não só) que estamos fartos de ver até à náusea.

Um deles, o da TMN, começa com um fundo em que se lê distintamente "Força Portugal". Seguem-se um conjunto de imagens com ressonâncias futebolísticas. Já não falo do cachecol…A canção oficial do Euro-2004, cantada pela Nelly Furtado, chama-se "Força".

Não se trata de publicidade às eleições europeias. Antes fosse. Nem à coligação "Força Portugal". Não podia ser, pois a lei não permite. Esses spots são publicidade ao Euro-2004. A campanha do Euro-2004 e da coligação "Força Portugal" são uma colagem infame. E essa colagem vai intensificar-se até ao dia 12 de Junho.

É triste que ninguém tenha tido a coragem de impor regras de igualdade nesta campanha eleitoral. É a mais completa impunidade dos "chicos espertos". Espero que lhes saia o "tiro pela culatra"!


Publicado por Eduardo Graça em 12:34 AM | Comentários (0)

junho 03, 2004

Futebol



Gosto de futebol. Desde a minha mais tenra infância. De jogar e de ver jogar. É um prazer inexplicável. Uma paixão que está do outro lado do negócio em que o futebol profissional se transformou.

Tudo o que possa acontecer de bom para o futebol português, ao nível de clubes e de selecção, é bom para mim. Logo, na minha visão "distorcida", bom para os portugueses e para o progresso do país. Parece uma visão um bocado redutora, não é? Não há volta a dar.

Por isso compreendo o projecto do Euro-2004 uma das "pesadas heranças" deste governo. O futebol é uma "fileira" da actividade económica em que Portugal é competitivo. No futebol Portugal gera talentos e tem organização. Ganha no cotejo com muitos outros países com mais elevados padrões de desenvolvimento. Dizem alguns: "terceiro mundo". Bom, mas não se pode ser "terceiro mundo" naquilo em que somos maus e "terceiro mundo" naquilo em que somos bons.

Ora vejam só o dia de ontem: selecção nacional de sub-21 - vitória (2-1) contra a Alemanha (na Alemanha), com hipóteses de apuramento para os Jogos Olímpicos; selecção nacional (julgo, de sub-20) - vitória (1-0) contra o Brasil (isso mesmo o Brasil!) no Torneio de Toulon e vitória do Farense contra o F.C. Porto (1-0) na fase final do campeonato nacional de iniciados. Aqui o Farense (o meu verdadeiro clube do coração) emparelha com o Sporting, Boavista e F.C. Porto…e ganha.

Estás a ver José Rebelo como se explicam as bandeiras nacionais que os taxistas desfraldaram. Eu por mim trago sempre uma bandeira desfraldada no meu coração quando está em causa o resultado da minha equipa predilecta. No caso do Euro-2004, a selecção.

O resto é meter golos na própria baliza…


Publicado por Eduardo Graça em 06:27 PM | Comentários (3)

maio 31, 2004

A crise não aproveita a ninguém?



Se fosse preciso encontrar um exemplo de que tal asserção não é verdadeira bastava o caso da requisição e remuneração do novo Director Geral das Contribuições e Impostos. Agora parece que já se sabe o montante da remuneração: cerca de 24.000 euros por mês. Sempre para mais do que para menos.

Vital Moreira no causa nossa já disse quase tudo acerca da natureza desta "contratação" do Estado ao sector privado.

A crise do Estado, neste caso, as conhecidas dificuldades em promover, de forma eficaz, a execução de uma política fiscal credível, conduziu a uma solução muito pouco criativa tratando-se do sector administrativo do Estado. Os quadros técnicos da admistração, todos eles e, em particular, os mais qualificados e experimentados, foram humilhados. Não que não tivessem havido antecedentes.

Mas esta nomeação foi a revelação, a "ponta do iceberg", de uma política de privatização de sectores chave da administração pública que, a meu ver, tem sido promovida por este governo e de cuja dimensão a maioria dos cidadãos ainda se não deu conta.

Um dia a Senhora Ministra das Finanças afirmou que o congelamento das admissões de pessoal na administração pública tinha sido a "mais estúpida das medidas". Na verdade tenho a mesma ideia que, aliás, radica na minha experiência prática. Um dia destes publico um artigo (ou vários) que tenho preparados acerca dessa experiência.

Caso esta nomeação se confirme, receio que a senhora Ministra das Finanças ou, o mais certo, alguém que lhe suceda, seja obrigada(o) a reconhecer que a mesma foi "um desperdício, atentos os resultados alcançados e ilegal, face à legislação aplicável".

Afinal, a crise não aproveita a ninguém?


Publicado por Eduardo Graça em 12:25 AM | Comentários (1)

maio 26, 2004

Se já todos percebemos...



Tem sido discutido na Assembleia da República algo de muito intrigante, pelo menos para mim, que sou pouco versado, por falta de experiência, nestas questões de remunerações acessórias.

Os autarcas são, muitas vezes, ao mesmo tempo autarcas e dirigentes de entidades empresariais criadas, na sua maioria, pelas autarquias. Devem acumular remunerações? Na totalidade? Só em parte? Mas porque razão um Presidente de Câmara ou vereador acumula cargos e remunerações?

Se "ganham mal", na função para que foram eleitos, que haja a coragem de alterar o seu estatuto remuneratório! Que passem a ganhar mais. Mas se querem saber o que toda a gente pensa, menos os interessados, eu digo-vos: não devem acumular coisa nenhuma!

Os ministros acumulam? O PR acumula? O PM acumula? A minha conclusão vale para todo o espectro das remunerações praticadas na administração pública: que haja a coragem de realizar uma reforma tendo em vista atribuir remunerações dignas aos eleitos e aos titulares de cargos dirigentes da Administração Pública.

E que se crie, ao mesmo tempo, um modelo diferenciado, justo, equilibrado e sujeito a uma apertada fiscalização, de enquadramento das nomeações de todas os titulares dos cargos dirigentes não eleitos.

Qualquer reforma, a sério, da administração pública passa por aqui. Se já todos percebemos porque fingimos que não percebemos?


Publicado por Eduardo Graça em 12:38 AM | Comentários (1)

maio 25, 2004

VIVA A "EFICIÊNCIA"

O Dr. Deus Pinheiro entregou o relatório da reforma da administração pública de forma expedita pois tinha que ser apresentado, como cabeça de lista da coligação de direita, às eleições europeias. Esperam-se outros relatórios, entre eles, o da reforma dos institutos públicos.

Entretanto surgem notícias frequentes de nomeações para altos cargos da administração pública. O Director Geral das Contribuições e Impostos, o Presidente do Instituto da Qualidade, etc, etc…Muitos dos nomeados, oriundos da "privada", são pessoas sem experiência nas respectivas áreas da administração pública mas, certamente, competentíssimas.

A nomeação e remuneração do "Director de Impostos" teve, ao menos, o mérito de evidenciar que o actual governo mergulhou numa deriva liberal que atinge a própria dignidade das instituições representativas do Estado Democrático.

Estamos, pois, a assistir a um duplo movimento na privatização do Estado: pela via da alienação de bens e serviços públicos (chamem-lhe o que quiserem) e pela via da entrega dos lugares de topo dos organismos da administração (não privatizáveis) a funcionários dos grandes grupos económicos.

Querem melhor prova de que o património e os cargos públicos, afinal, são atraentes e apetecíveis? O património público é vendido à medida dos interesses privados e da gestão do "déficit", a gestão da "coisa pública" é entregue a gestores privados pagos a preços de mercado e, finalmente, os trabalhadores têm as remunerações "congeladas".

Viva a "eficiência"!



Publicado por Eduardo Graça em 12:53 AM | Comentários (0)

maio 24, 2004

JUSTIÇA

Vi, na 4ª feira passada, na Dois (RTP), um debate acerca do "estado da justiça" em que se fizeram afirmações aterradoras. Não foi um debate qualquer. Os participantes eram actores com protagonismo no palco da justiça, juízes e advogados, maduros e ponderados, com muitas e variadas experiências.

Conclusão breve e, por isso, arriscada: nos últimos 30 anos fizeram-se remendos, e só remendos, na legislação e não se realizou qualquer mudança alicerçada numa verdadeira estratégia de modernização da justiça.

Em trinta anos o mundo mudou, a sociedade mudou, a economia mudou, tudo mudou, menos a justiça. Esta ficou parada no tempo. Os políticos eleitos foram apontados como os principais responsáveis por esta situação catastrófica. Não são eles que fazem as leis, não são eles que as aprovam e promulgam?

Os discursos do PR e do Bastonário da Ordem dos Advogados têm sido exagerados? O bastonário disse, outro dia, que não se importava de fazer, com as suas afirmações acerca do estado da justiça, a figura do "maluquinho da feira"! Quem toma em mãos o processo de realizar uma verdadeira reforma da justiça?

Um dia podemos chegar à triste conclusão que é tarde de demais. O que está em causa são simplesmente as mais importantes questões da vida do homem em sociedade: a justiça e a liberdade!

Para ilustrar vejam uma opinião insuspeita.


Publicado por Eduardo Graça em 12:21 AM | Comentários (0)

maio 17, 2004

Volker Hubers

Morreu Volker Hubers, fundador do Centro Cultural de São Lourenço, em Almancil. Soube da notícia da sua morte pelo jornal. Conheci-o das visitas ao Centro Cultural e sempre apreciei a sua afabilidade e de sua mulher Marie. O espaço criado por eles é magnífico, familiar, com um ambiente amigável, inserido na arquitectura da região.

A obra realizada por este casal de alemães, ao longo de 25 de anos, não é de somenos. As obras apresentadas não são de amadores (como diz a notícia do Público) mas de artistas plásticos, em muitos casos, profissionais reconhecidos. Como, por exemplo, Gunter Grass. E a actividade do Centro não se confina às artes plásticas.

O casal tem realizado uma obra cultural notável no Algarve. Uma obra consistente. Sabemos como é difícil "fazer obra" em Portugal. E ainda mais no Algarve. Conheço do que estou a falar.

As esquinas estão povoadas de gente desconfiada e invejosa. É uma doença nacional. Quem é capaz de se agigantar e realizar obra, em particular, na área cultural, é porque tem muita força interior, vontade e amor pela tarefa.

Espero que o Centro Cultural de Almansil continue. Essa será a melhor homenagem que pode ser prestada a Volker Huberts.


Publicado por Eduardo Graça em 07:29 PM | Comentários (0)

A FÉ NA PROPAGANDA

Nos últimos séculos os militares tiveram um peso desproporcionado na sociedade portuguesa. Mas, para falar só do Século XX, os portugueses participaram, com forças expedicionárias, em diversos conflitos armados, mas sempre fora das suas fronteiras europeias.

Esta é certamente uma perspectiva parcelar de um problema português mais profundo: a fragilidade da sociedade civil, das classes médias, das elites dirigentes e a ausência de um projecto nacional coerente de participação na construção europeia, sem sonhos atlantistas, megalomanias nacionalistas ou patriotismos serôdios.

De facto, há mais de um século que os portugueses não são confrontados com um fenómeno de guerra no Portugal europeu. Os portugueses têm sofrido e morrido em guerras longe do seu território originário: a Europa.

Não é, pois, de estranhar que se tenha criado, entre os portugueses, um estado de espírito de "general de sofá". Toca a todos comandar as tropas imaginárias. E como as guerras, hoje, são perdidas ou vencidas na TV!

Não há pedagogia que se substitua à experiência da guerra com o seu cortejo de misérias e atrocidades. Sem guerra à porta de casa, ao longo de mais de um século, nada nos indigna, a sério, na guerra. A nossa posição de princípio é a indiferença.

Temos a GNR no Iraque. Pois que fiquem! As atrocidades praticadas pelos beligerantes indignam o mundo. As perversidades dos "libertadores" indignam os congressistas dos EUA? É um problema deles! Haja fé! José Manuel Fernandes, dixi!

Se um dia destes acontecer um atentado em Portugal o estado de espírito mudará. Nessa altura entenderemos melhor o 11 de Março em Madrid, as atrocidades em Bagdad, os crimes na Palestina. Aí os portugueses, distraídos de tudo, compreenderão o que Camus escreveu no seu Caderno, em Setembro de 1941 - "Organiza-se tudo: é simples e evidente. Mas o sofrimento humano intervém e altera todos os planos".


Não desejo a guerra mas a guerra não será sempre o sofrimento dos outros e a nossa comoção indiferente e distraída. Não discuto o lado da barricada que nos competirá ocupar. O meu lado é o da democracia e da liberdade. Mas as opções políticas que condicionam o nosso papel no mundo, no Iraque, Médio Oriente ou outro lugar qualquer, são responsabilidade de quem governa. Infelizmente aos defensores das guerras de saque e conquista, de todos os tempos, escasseia a humildade onde sobra a arrogância.

Hoje, como sempre, os defensores do fanatismo, seja encarnado por Bush ou Rumsfeld e seus aliados, seja pelo islamismo radical, estão do lado errado da história. Por mais que gritem, vociferem, ameaçem e, patéticamente, invoquem a fé os arautos das guerras prosseguem objectivos bem mais prosaicos e terrenos que se esgotam na apropriação e controle das matérias primas, tecnologias, mão de obra e rotas mercantis. O resto é a fé na propaganda.

Publicado por Eduardo Graça em 12:40 AM | Comentários (4)

maio 11, 2004

ENVELHECIMENTO ACTIVO

Uma abordagem positiva da questão da imigração leva-nos ao "envelhecimento activo" um dos grandes desafios do mundo ocidental para os próximos decénios. Uma utopia que assumiu a forma de objectivo estratégico adoptado pela "Estratégia de Lisboa". O objectivo é atingir 50% de taxa de emprego, até 2010, para as pessoas do grupo etário dos 55 aos 64 anos. A taxa actual é de 40,1%.

Este é um assunto politicamente relevante. Trabalhar até mais tarde, em boas condições físicas e mentais, é um sinal de progresso. Não é um objectivo conservador. Tem coerência social e económica num contexto de forte envelhecimento demográfico e correspondente aumento da imigração.

Este é, nos nossos tempos, um dos maiores desafios de qualquer política social realista e de progresso. Quem trata desta questão a sério no nosso País?

(Última parte do artigo publicado na edição de 7 de Maio de 2004 do Semanário Económico. Para ter acesso ao artigo completo clice Semanário Económico.)


Publicado por Eduardo Graça em 10:30 PM | Comentários (0)

ALARGAMENTO DA UE E IMIGRAÇÃO

O que a realidade mostra, a quem quiser ver, é que o Ocidente precisa de imigrantes, por duas ordens de razões: pelo envelhecimento das populações que não permite já promover a reposição das gerações: é a questão demográfica; pela consequente incapacidade de dispor de uma massa crítica de mão-de-obra disponível capaz de assegurar o funcionamento da economia: é a questão económica.


O fenómeno da imigração comporta, de facto, riscos para as regiões e países de acolhimento. É óbvio que sim. Mas vejamos, a propósito de um caso concreto e actual, como esses riscos são relativos.

O caso diz respeito ao alargamento da UE. A entrada dos dez novos países, ocorrida no passado dia 1 de Maio, representa um crescimento de cerca de 20% na população da UE que passará dos actuais 380,8 para 454,9 milhões de habitantes.

Um estudo recente da Comissão Europeia aponta para que, mesmo em caso de adopção de um modelo de livre circulação total, os fluxos migratórios provenientes do conjunto dos novos Estados membros, para o conjunto dos anteriores 15 Estados, ao longo dos próximos 5 anos, representariam cerca de 1% da população activa dos novos Estados da EU, ou seja, 220.000 pessoas, por ano, no universo dos cerca de 455 milhões de habitantes da EU.

Mostra-se assim que são infundados os receios de que venha a ter lugar uma "invasão" de imigrantes provenientes dos 10 novos países aderentes.

(2ª parte do artigo publicado na edição de 7 de Maio de 2004 no "Semanário Económico")



Publicado por Eduardo Graça em 12:27 AM | Comentários (0)

maio 10, 2004

IMIGRAÇÃO E DESEMPREGO

As abordagens conservadoras do fenómeno da imigração costumam apontar um paralelismo entre o aumento do desemprego e a imigração.
Há uma relação directa entre o aumento da imigração e o aumento do desemprego? Não está provado. Os indicadores da década de 90, em particular, na sua segunda metade, apontam para taxas de desemprego reduzidas e fluxos de imigração elevados.

O estudo recente "Contributos dos Imigrantes na Demografia Portuguesa", de Maria João Valente Rosa, confirma que o "número de residentes estrangeiros registou, na década de 90, um aumento de 83%, variação que contrasta claramente com os 4% de aumento observado na população com nacionalidade portuguesa."

Esse aumento contribuiu em 22% para o acréscimo do volume populacional observado em Portugal entre 1991 e 2001. E para que não restem dúvidas foram os estrangeiros, em idade activa, dos 20 aos 54 anos, que mais contribuíram para o acréscimo da população estrangeira residente em Portugal.

A tese das correntes da direita ultra conservadora associa desemprego com imigração, e imigração com insegurança, correlações que a maior parte dos estudos sérios desmentem ou, pelo menos, não confirmam.

(1ª parte do artigo publicado na edição de 7 de Maio de 2004 no "Semanário Económico")


Publicado por Eduardo Graça em 12:20 AM | Comentários (1)

maio 09, 2004

O QUE É DEMAIS...

As notícias oriundas da política madeirense são sempre surpreendentes. Essas notícias nunca deixam de assumir características de provocação aos pacatos portugueses do continente. São encaradas como um factor de animação e de diversão. A maior parte dos portugueses já não as levam a sério. Mas a repetição das provocações e o envolvimento de responsáveis políticos da maioria, considerados idóneos, na sua legitimação fazem-nos duvidar das razões de tal desaforo. O DN titula hoje que Alberto João Jardim vai fazer a "revolução cultural" e o Público afirma que Dias Loureiro quer transformar Portugal numa "imensa Madeira" Todo e qualquer um de nós pode "assobiar para o ar" mas o que é demais...
Publicado por Eduardo Graça em 11:03 PM | Comentários (3)

maio 03, 2004

O QUE VALE A PENA

Nestes dias de penumbra o que vale a pena é exercer a liberdade. Não ceder á tentação de renunciar ao exercício da liberdade. Somos um grão de areia na formação da opinião pública que conta com milhões de operadores.
Na sua esmagadora maioria são operadores individuais. O mundo dos blogues é um exemplo extraordinário desta explosão de "fazedores de opinião". Cada vez que perscruto esse mundo, fazendo uma ou outra viagem mais ousada, se me abre a boca de espanto.
Não sou um fanático, nem mesmo um especialista, mas a internet é mesmo muito mais forte do que cada um de nós possa imaginar.
Este é o terreno privilegiado, nos nossos dias, para o exercício da liberdade. Sublinho esta ideia, porventura, desnecessária para muitos daqueles que são mais afeiçoados a esta realidade.
Mas creio que o seu desenvolvimento ainda interessa a muitos mais que dela estão alheios. Não vale a pena tentar passar ao lado. Manuel Castells tem uma abundante reflexão acerca da relação entre Internet e Liberdade que se recomenda aqueles que pretendam aprofunar este tema.
O que vale a pena é desfrutar dos seus benefícios.
Publicado por Eduardo Graça em 12:48 AM | Comentários (1)

abril 29, 2004

SENTIDO DE EQUILÍBRIO

Quando o processo "Valentim Loureiro" - envolvendo uma destacada figura do PSD - chega à curva descendente do "interesse mediático" surge, prestável, a divulgação pública da acusação do processo "Fátima Felgueiras" - envolvendo uma mediana figura do PS.
Após tantos meses de espera a divulgação desta acusação, neste preciso momento, é uma dádiva dos desígnios insondáveis de um inolvidável sentido de equilíbrio.
Ainda dizem que em Portugal não há organização…
Publicado por Eduardo Graça em 08:48 PM | Comentários (0)

abril 25, 2004

Princípios


A criação é uma forma de afirmação das diferenças que não das desigualdades.

Compete-nos, como cidadãos livres, encontrar um sopro de inspiração, na medida das nossas escassas forças, para combater o conformismo e o aviltamento dos valores essenciais que salvaguardam a humanidade da barbárie.

Esses valores são velhas bandeiras do pensamento humanista e liberal dos últimos séculos: direito à vida, defesa da liberdade individual e da democracia. Igualdade de oportunidade para todos no acesso aos benefícios do progresso económico, cientifico, tecnológico e social.

Na vertigem deste caminho muitas interrogações sempre se colocaram aos homens dos tempos modernos: o humanismo é um pensamento limitado? O liberalismo é um pensamento pervertido? O progresso uma aspiração antiquada?

A revolta do homem talvez aconselhasse a adoptar sempre os princípios de um pensamento que tudo tomasse em conta. Sem sublinhados nem os encargos de múltiplas heranças filosóficas ou históricas.

Mas a maioria, salvo os assassinos, que estão sempre prontos a sujar as mãos de sangue e a lançar para a valeta os corpos das suas vitimas, executadas á vista de todos os homens de boa vontade, aceitam certamente, que fiquem de pé, na luta contra a barbárie, os princípios do direito á vida, à liberdade e à justiça.

Julgo que são esses os nossos princípios.

Publicado por Eduardo Graça em 09:43 PM | Comentários (0)

Acto notarial

Abriu.

(Assinaturas) Azul. Eduardo Graça. José Rebelo. Marienbad. Nuno Marques. Paulo Godinho. Porfírio Silva. Sempre à coca.

Publicado por Porfírio Silva em 12:00 AM | Comentários (0)

Um blogue que Abril abriu

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(Foto do Arquivo Electrónico do Centro de Documentação 25 de Abril)

Publicado por Porfírio Silva em 12:00 AM | Comentários (0)