Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre
Carlos Drummond de Andrade
Natal 77
Natal mais uma vez. Setenta e sete.
Há anos já que não escrevia como
por alguns outros sempre me escrevi
do que Natal não foi, não há, nem será nunca,
senão em desejar-se enfim com ele ou não
quanto de humano em nós seja o divino
que humanos nos constrói do nada em que persiste
sem de existir saber mais que pensarmos nós
ou nós querermos sem conhecimento
não de mais além, ou mais aquém,
ou só de nós, mas só conhecimento
deste circunviver a que Natal se chama.
No mundo mais que nunca o sangue corre,
de todos escondido, por todos pago para
que se morra ou se mate em juro dos impérios.
Na pátria as hidras erguem as cabeças
e é perigoso gritar «não passarão»
como na Espanha há mais de quarenta anos,
quando co’a benção das potências todas,
elas passaram cilindrando tudo.
Culpados todos – porque não dizê-lo,
em vez de acusações que nada salvam?
Porque não confessar erros horrendos
que fizeram haver uma Direita
que não houvera nunca além de uns quantos asnos
ou gente ingénua defendendo a pátria
como lhe diziam que ela fora sempre,
ou meia dúzia de malandros que se enchiam
naquelas negociatas que o próprio Salazar
dizia consentir aos mais malandros deles?
Natal setenta e sete. Todos sentem
que foram ou têm sido sabotados,
traídos, ou vendidos. Mas só poucos
podem dizer que, mesmo santamente,
honrando os sonhos ou seus compromissos
até com as ideias que não tinham,
não sabotaram, ou venderam ou traíram,
em nome da liberdade e da democracia.
É triste mas é vero: com essas duas palavras
que juntas desejámos longamente
só é possível ainda o escrever-se
um verso inteiramente errado.
Jorge de Sena
Não estive presente na Assembleia Municipal de Lisboa onde a maioria (de esquerda) chumbou o orçamento para 2005 apresentado pelo executivo municipal (de direita).
Pergunto eu: não há consequências políticas? É tudo normal? Como vai a Câmara Municipal de Lisboa ser governada em 2005? Com o orçamento de 2004! Em gestão corrente. E os projectos referentes a 2005?
São eleições antecipadas a mais, não é? Não dá para entender esta "normalidade"!
Na minha opinião trata-se de um tema que merece a maior divulgação e acompanhamento pela opinião pública.
Não deixa de ser uma curiosa coincidência a data de publicação da presente Resolução em coincidência com os acontecimentos que conduziram à dissolução da AR e posterior demissão do Governo.
O que se vai seguir, no período em que o governo assumiu a natureza de "governo de gestão", para operacionalizar as decisões previstas na presente Resolução?
Resolução do Conselho de Ministros n.º 171-A/2004. DR 288 SÉRIE I-B 1º SUPLEMENTO de 2004-12-10 - Presidência do Conselho de Ministros: Autoriza a alienação ou a constituição de outros direitos reais ou obrigacionais sobre os bens imóveis pertencentes ao património próprio de determinados institutos públicos, bem como o posterior arrendamento desses bens imóveis pelos referidos institutos públicos e a despesa inerente
"Desconfiai daqueles que vos dizem: Nada de discussões políticas que são estéreis; ocupemo-nos só dos melhoramentos materiais do país".
(Alexandre Herculano)
"Aprendemos que, em política, a arte maior é a de exigir a lua
não para tê-la ou ficar numa fúria por não tê-la
mas como ponto de partida para ganhar-se, do compromisso,
uma lâmpada de sala que ilumine a todos."
(Jorge de Sena)
In "Citações Portuguesas" de Jorge Serrão
Divago, quando o que quero é só dizer
te amo. Teço as curvas, as mistas
e as quebradas, industriosa como abelha,
alegrinha como florinha amarela, desejando
as finuras, violoncelo, violino, menestrel
e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito
para escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo
o teu coração, o que é, a carne do que é feito,
amo sua matéria, fauna e flora,
seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas
perdidas nas casas que habitamos, os fios
da tua barba. Esmero. Pego tua mão, me afasto, viajo
pra ter saudade, me calo, falo em latim pra requintar meu gosto:
"Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentas
o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu não
ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros".
Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama
fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.
Te alinho junto das coisas que falam
uma coisa só: Deus é amor. Você me espicaça como
o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me guarnece,
tira de mim o ar desnudo, me faz bonita
de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega,
me dá um filho, comida, enche minhas mãos.
Eu te amo, homem, exatamente como amo o que
acontece quando escuto oboé. Meu coração vai desdobrando
os panos, se alargando aquecido, dando
a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.
Amo até a barata, quando descubro que assim te amo,
o que não queria dizer amo também, o piolho. Assim,
te amo do modo mais natural, vero-romântico,
homem meu, particular homem universal.
Tudo que não é mulher está em ti, maravilha.
Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos,
a luz na cabeceira, o abajur de prata;
como criada ama, vou te amar, o delicioso amor:
com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso,
me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles
eu beijo.
Adélia Prado
In "Um Jeito e Amor", Bagagem
"Admito que Santana Lopes - dentro do meu partido - nada tem a ver com a social-democracia".
Alberto João Jardim, Nov. 82
(In "Citações Portuguesas, de Jorge Serrão)
A crise política actual pode ser favorável a um reforço do processo de esclarecimento público que deverá anteceder o referendo em Portugal.
Que ninguém pense que Portugal possa viver de costas voltadas para a UE. Seria um suicídio estratégico no contexto das relações do país com o mundo. O resultado do referendo interno no PSF é um bom motivo para a reflexão de todos.
"Parti Socialiste: la victoire du "oui" et de François Hollande"
Les militants socialistes ont voté massivement en faveur de la Constitution européenne - près de 59% pour le oui, selon des résultats provisoires -, ce qui renforce l'autorité de François Hollande à la tête de son parti et signe l'échec de Laurent Fabius qui plaidait pour le non.
Le succès du oui lors du référendum interne mercredi consolide le statut de présidentiable de M. Hollande, numéro un du parti, tandis que s'éloigne pour M. Fabius, le numéro deux, la possibilité de représenter son parti dans la course à la présidentielle.
François Hollande devra cependant partager les fruits de ce résultat avec tous les autres ténors du PS qui se sont impliqués à ses côtés dans la campagne, comme Dominique Strauss-Kahn, Jack Lang, Elisabeth Guigou ou Martine Aubry. "
In " Le Figaro "