Da mesma forma que critiquei a sua lastimável decisão de 9 de Julho aplaudo a decisão de hoje. Teria sido possível adiar mais uma vez mas os custos da persistência do governo Santana Lopes seriam incomensuráveis. Mesmo assim serão muito elevados.
Nas próximas semanas vai travar-se uma batalha política própria da democracia. Os partidos vão apresentar-se aos portugueses e pedir-lhes o seu voto. O nosso sistema democrático, é bom afirmá-lo nestes momentos, é bastante avançado, ao contrário de outros. É transparente, fiável e justo. Não temos de nos envergonhar, antes pelo contrário, do nosso sistema eleitoral. Esta realidade não é nada desprezível pois ninguém tem de perder tempo a preocupar-se com a verdade dos resultados eleitorais.
Quais, em breve síntese, as questões com que se defrontam os partidos com mais hipóteses de eleger deputados:
Como vai o PSD unir-se em torno de Santana Lopes? Operação quase impossível! O tempo e as circunstâncias tornam quase impossível substituir Santana Lopes. Mas nada é impossível no PSD. Vide JPP no Abrupto.
Como vai o PP demarcar-se do PSD? Um dia fiel no governo, no dia seguinte crítico na oposição? Mas a antecipação das eleições é favorável ao PP. Permite-lhe apresentar-se como fiel depositário da estabilidade governativa e campeão da "boa governação". Vão ver, já amanhã, o discurso de Portas!
Como vai o PS surgir como uma verdadeira e credível alternativa ao PSD? O "radicalismo centrista" não basta, pois vai desembocar na tentação do "bloco central" na perspectiva de uma ausência, provável, de maioria absoluta. É mais uma vez o calcanhar de Aquiles da política de alianças da actual liderança do PS que vem à tona.
Como vai o PCP, defendendo o marxismo-leninismo e o centralismo democrático, apresentar-se perante um eleitorado de esquerda tentado, por um lado, pela maioria de governo socialista e, por outro, pela minoria de protesto do BE? A vantagem da nova liderança perde viço face à dura realidade da expectativa do poder que o eleitorado de esquerda alimenta.
Como vai o BE resistir à imagem de juventude de Sócrates, à dinâmica de vitória do PS e à dureza do discurso ortodoxo de Jerónimo? O seu espaço vai estreitar-se.
E, finalmente, como vai o povo português resistir à campanha eleitoral? Qual o grau do seu empenhamento no voto? Vão estas eleições contribuir para o prestígio dos políticos e do regime democrático?
Depois de contra tudo e contra quase todos ter designado Santana Lopes como primeiro-ministro, talvez por se sentir co-responsável na ida de Durão Barroso para a presidência da Comissão Europeia, Jorge Sampaio sentiu finalmente que não poderia continuar a pactuar com o verdadeiro atentado à estabilidade – o valor que afirmou pretender defender – que era a manutenção do actual Governo.
No momento em que menos se esperava, face ao seu comportamento passado, Jorge Sampaio avança para a convocação de eleições, escapando, graças à demissão de Henrique Chaves, à quase inevitabilidade de ficar muito mal no retrato da História.
"Aré que enfim! " dirão todos aqueles que se mobilizaram para pedir a dissolução do parlamento e eleições antecipadas. Tê-las agora não é, porém, motivo de regozijo. Tê-las agora só confirma o que antes se reivindicava. Mas significa algo mais: significa pagar o custo deste governo. Qual é, Sr. Presidente? o preço a pagar por estes meses de governo Santana? Qual o custo que o país paga por limpar a consciência do Sr. Presidente da República? Quantas nomeações? Quantas indemnizações? Quantos erros políticos? Qual o "custo" deste orçamento?
Os erros pagam-se...lamentavelmente.
Desde há pelo menos 20 anos que países como a Alemanha ou a Holanda tudo faziam para que os imigrantes muçulmanos não renunciassem à sua cultura. Tudo o que não fosse nesse sentido era considerado racista e xenófobo. Nessa linha, racistas eram os que pugnavam por um esforço de integração por parte dos imigrantes. Os partidos democráticos desinteressaram-se do problema. As elites pregavam a tolerância, mesmo com os intolerantes.
Foi preciso o assassínio de Theo van Ghog para que se afundasse a grande mentira. Na Holanda contam-se já vinte atentados anti-muçulmanos desde aquela morte. Em França, os jovens muçulmanos são a ponta de lança do anti-semitismo europeu. Há pouco tempo o Der Spiegel publicava um dossier acabrunhante sobre os maus-tratos, as torturas e os sequestros que sofrem milhares de mulheres no seio das suas famílias na Alemanha. Em certos países europeus há bairros onde já não se aplica a Constituição, mas a sharia. Tal como em muitos lares.
Seria cruel dizer que merecemos as consequências do nosso relativismo. Mas temos uma responsabilidade evidente: o nosso erro não foi o de exercer os nossos direitos, mas sim o de não os fazer respeitar. Tanto repetimos ao longo dos anos que todas as ideias são boas, que acabámos por convencer disso aqueles que matam e morrem por valores diametralmente opostos aos nossos.
Convém sempre lembrar que a imensa maioria dos imigrados muçulmanos na Europa são gente de bem. E que há muitos indesejáveis “cristãos”. Mas a polícia holandesa calcula que 5% dos imigrantes muçulmanos nesse país são fanáticos preparados para a violência. Isto é: 50.000.
E que tal um combinação inteligente de firmeza e tolerância, a par com a consciência dos perigos que realmente corremos?
Aquando da tomada de posse dos secretários de Estado do Governo de Santana Lopes, Jorge Sampaio teve de aguardar uma hora pela redacção de um novo termo de posse, devido às confusões de última hora quanto à pasta que Teresa Caeiro iria ocupar.
A semana passada, quatro meses após a posse original, Jorge Sampaio esteve novamente presente numa estranha tomada de posse, mais semelhante a uma "dança das cadeiras" do que a uma verdadeira remodelação.
Ontem, menos de uma semana após as recentes mudanças, um dos novos-velhos ministros, ou seja, um dos recém-remodelados, apresentou a sua demissão, deixando como herança uma série de acusações ao primeiro-ministro que abalam seriamente a credibilidade de Santana Lopes.
Será que Jorge Sampaio vai, mais uma vez, prestar-se a empossar um novo ministro como se tudo isto fosse absolutamente normal? Até quando irá Jorge Sampaio desempenhar o papel de "notário da República"?
Num país sem Senado, Portugal não deixa de ter os seus "senadores da República". São reconhecidos como tal boa parte dos ex-Presidentes da República e dos ex-primeiros-ministros mas a categoria inclui ainda outras personalidades que, não fazendo parte desse grupo restrito, tiveram relevância suficiente na nossa vida pública para o merecerem. Freitas do Amaral e Álvaro Cunhal são dois exemplos, oriundos dos dois extremos do espectro político.
Não sei se pela natural tendência de se olhar para o presente e para o futuro com um olhar mais sombrio, à medida que envelhecemos, ou por que efectivamente atravessamos um momento particularmente difícil da nossa História democrática, dois dos mais relevantes "senadores" produziram recentemente declarações susceptíveis de gerar enorme preocupação.
Primeiro foi Mário Soares a declarar que a degradação da vida pública atingiu um tal ponto que Portugal só não passou ainda por um golpe de Estado por estar integrado na União Europeia. Agora é Cavaco Silva quem surge a afirmar ter "chegado o momento de difundir na sociedade portuguesa um grito de alarme sobre a tendência para a degradação da qualidade dos agentes políticos", considerando um dever patriótico das "elites profissionais contribuírem para que na vida partidária portuguesa os políticos competentes possam afastar os incompetentes".
Conhecendo-se a tendência, quase natural, destes dois "senadores" para divergirem quanto ao diagnóstico do "estado da Nação", o que os levará a terem agora posições aparentemente tão convergentes? Será que estão apenas a ficar "velhos e rabugentos" ou passa-se mesmo alguma coisa?
Mas não gostaria de cavar uma divisória entre os jovens, que seriam contra, e os velhos que seriam a favor; entre os progressistas que seriam contra e os reaccionários que seriam a favor. Entre os anti-militaristas que seriam contra e os militaristas que seriam a favor; entre os patriotas que seriam a favor e os europeistas que seriam contra (claro que se pode ser patriota e europeista).
I
O Dr. Portas surge, ufano, a proclamar o fim do Serviço Militar Obrigatório (SMO). O acontecimento aparece aos olhos da grande maioria como uma grande conquista civilizacional. Em particular aos olhos da juventude. As juventudes partidárias rejubilam.
O Dr. Portas ostenta um orgulho que está nas antípodas das suas próprias convicções caso fosse um verdadeiro patriota. No momento em que se consagra o fim do SMO quero afirmar que sempre fui a favor da conscrição, ou seja, do "alistamento militar". Acho que o fim do SMO é uma cobardia moral e um sinal de resignação patriótica.
A partir de agora o país ficará a dispor de forças militares profissionais. A maioria dos jovens nunca terá acesso à experiência militar. Nunca saberá manejar uma arma. Nunca terá a mínima noção real do que é a defesa nacional. O país perderá um dos últimos redutos onde se exercitava o sentimento de pertença à comunidade nacional.
Ficam os ex-combatentes para o exercício da demagogia patrioteira. Ficam as compras de armamento para o aumento da despesa pública. Ficam os edifícios e os terrenos militares devolutos para combater o deficit. O patriotismo virou negócio por grosso e a retalho. E negócio chorudo!
II
O pensamento dos defensores do fim do SMO está em linha com um mundo que teria conquistado, em definitivo, o estatuto da concórdia e da paz. Está em linha com a lógica da guerra tecnológica, armamentos sofisticados e serviços de informações dotados de recursos sem freio.
As guerras envolvendo grandes exércitos, legiões ocupando o território a conquistar ou defendendo o território a defender, parecem estar definitivamente fora do horizonte estimável para a vida das novas gerações.
A decisão política de por fim ao SMO é, no essencial, de natureza estratégica. Manter forças armadas em que o recrutamento assentasse na conscrição é demasiado impopular para as novas gerações que se concentram cada vez mais nos grandes centros urbanos. É, por outro lado, demasiado caro para os orçamentos dos Estados nacionais e transnacionais. A "privatização" das forças armadas torna-as mais manejáveis e mais baratas, respectivamente, no plano político e económico. Os equipamentos necessários para umas FFAA, assentes na filosofia do SMO, são demasiados caros, os quartéis e campos de treino são peças valiosas do património que valem bons negócios imobiliários.
No plano demográfico os jovens escasseiam num contexto em que as famílias alargadas deixaram de ser a regra nas nossas sociedades, cedendo o passo às famílias nucleares. A média de filhos por família caminha a passos largos para a unidade - um casal, um filho. O exército profissional corresponde, de forma mais adequada, a este paradigma familiar.
São todas razões de fundo para justificar a decisão político/estratégica de eliminar o SMO. Não estão em causa, no essencial, razões de natureza ideológica. Mas uma conjugação de factores demográficos/sócio/económicos incontornáveis. Perde-se muita coisa com o fim do SMO. É verdade.
Mas estejamos certos que os políticos do nosso tempo ganham, com esta orientação, espaço de manobra tendo em vista conquistar e manter o controle do poder de estado. O SMO era, além de um custo indesejado, um risco escusado. No caso de crise grave resultante da desintegração da UE, ou de um conflito militar generalizado, à escala mundial, sempre se pode lançar mão da mobilização geral reassumindo, em pleno, o conceito de nação.
Resta saber qual o papel e destino das democracias, tal como as conhecemos hoje, neste imaginário "regresso ao passado".
No campo da investigação sobre programas de simulação nos EUA, sabe-se que foi estabelecida uma parceria entre o Pentágono, Wall Street e Hollyood.
Ora, quando a máquina de guerra, a máquina financeira e a máquina ficcional se juntam, o que daí resulta é, por exemplo, a invasão do Iraque…
Muitos dos que defendem o serviço militar obrigatório têm tendência para esquecer uma das dimensões fundamentais da questão, o facto de ser "obrigatório". Ou seja, o serviço militar obrigatório, a existir, tem de ser para todos – só assim será efectivamente "obrigatório" – abrangendo a totalidade dos jovens de ambos os sexos que não tenham qualquer deficiência grave que os impossibilite totalmente para o seu desempenho (ter o "pé chato" não será, obviamente, suficiente). Ou seja, qualquer modelo de serviço militar obrigatório não poderá ser pensado como sendo para os outros, para os filhos dos outros ou para os netos dos outros, mas sim como sendo para nós próprios – se ainda tivermos idade para isso – para os nossos filhos e para os nossos netos. E esta é a questão fundamental: estaremos dispostos a interromper o curso normal das nossas vidas, ou das vidas dos nossos filhos ou netos, durante um largo período de tempo, para cumprir o serviço militar obrigatório? Será que aqueles que foram obrigados a cumpri-lo sentiram como tendo sido útil para as suas vidas o tempo que lhe dedicaram?
Temos de ter consciência que para as áreas de vanguarda a nível militar – sejam elas a engenharia naval, a engenharia aeronáutica, a investigação espacial ou quaisquer outras – o serviço militar obrigatório é completamente irrelevante. Não é por acaso que os ramos mais técnicos das forças armadas – a aviação e a marinha – há muito tinham dispensado os recrutas do serviço militar obrigatório. Para que o serviço militar obrigatório tivesse alguma relevância para as áreas de vanguarda teria de se prolongar no tempo por diversos anos. Com uma duração relativamente curta os recrutas só podem ser – goste-se ou não da expressão – "carne para canhão". E volto a perguntar: estaria cada um de nós disponível para dar vários anos da sua vida ao serviço militar obrigatório?
Muitos outros aspectos do nosso dia-a-dia poderão beneficiar com o envolvimento dos nossos militares, tornando-os úteis também em tempo de paz, independentemente de serem profissionais ou não. O combate – e sobretudo a prevenção – dos incêndios são já um exemplo. Mas outras tarefas como, por exemplo, o acompanhamento de idosos ou o apoio aos doentes seriam claramente mais compatíveis com um serviço cívico obrigatório – com duração não superior a um ano – do que com a instituição militar. A existência de um serviço cívico obrigatório, onde se realizassem tarefas efectivamente relevantes para a comunidade, poderia ser uma forma alternativa de permitir que todos os nossos jovens dessem o seu contributo para o país que os viu nascer, sem que alguns fossem privilegiados no curso das suas vidas por escapar ao seu cumprimento.
Quanto às implicações políticas do fim do serviço militar obrigatório é melhor que não nos assustemos com elas. Paulo Portas teve apenas a sorte de ser o Ministro da Defesa no momento em que o serviço militar obrigatório terminou. O processo que o permitiu foi iniciado há vários anos pelo primeiro Governo de António Guterres. Quanto ao 25 de Abril, conta-nos a História, teve a sua origem num movimento reivindicativo dos militares de carreira – o movimento dos capitães "profissionais" – sendo pouco provável que a existência ou não do serviço militar obrigatório tivesse tido qualquer relevância fundamental para a sua concretização. Aliás, o serviço militar obrigatório não contribuiu minimamente para evitar um dos maiores desastres militares da segunda metade do século XX: o envolvimento norte-americano na Guerra do Vietname. Curiosamente, o desastre que foi a Guerra do Vietname, com milhares de jovens mortos, contribuiu, decisivamente, para o fim do serviço militar obrigatório nos Estados Unidos da América.
Acerca do fim do serviço militar obrigatório tenho que dizer, que me parece um problema muito mais complexo e de implicações mais profundas do que tem sido avançado. O facto da medida ter sido tomada por PP é muito sintomático.
Parece-me perigosa a profissionalização das forças armadas pelas implicações que essa profissionalização pode ter no âmbito da defesa. Depois, não vejo, francamente, hoje, a defesa como uma guerra clássica, disputa de fronteiras ou defesa contra o ataque do inimigo identificado. A defesa passa, cada vez mais, pela consciência política dos cidadãos, pela tomada de posição de todos. A defesa põe-se antes como garantia do exercício das liberdades de cidadania. Essa tomada de posição colectiva não pode ficar a cargo de um grupo militarizado, privado. Teria o 25 de Abril tido lugar com forças armadas profissionalizadas? O serviço militar pode ser entendido, parece-me, como participação activa na defesa e constituição de uma sociedade mais coesa. Assim, a prevenção e o combate aos fogos, o acompanhamento de idosos, o apoio aos doentes, a segurança das escolas, etc podem e devem hoje fazer parte das tarefas a cumprir pela função militar. A engenharia naval, a engenharia aeronáutica, a investigação espacial, etc, são campos de desenvolvimento imprescindíveis. Os civis que cumprem o serviço militar obrigatório não são, ipso facto, carne para canhão pelo simples facto de que, cada vez mais, a intervenção de um qualquer Estado num conflito deve ter o largo e claramente maioritário apoio popular. A garantia dessa condição está num serviço militar obrigatório e não num profissional. As forças armadas nos Estados modernos devem, e só assim as concebo, ser forças de paz. E a paz diz respeito a todos, sem excepção.
Foi com algum orgulho mas também com alguma tristeza – por acontecer numa altura em que o Ministro da Defesa se chama Paulo Portas – que assisti à entrada para a História do dia 19 de Novembro de 2004 como aquele que marcará o fim do serviço militar obrigatório em Portugal.
Há cerca de dezoito anos dei o meu pequeno contributo para o fim do serviço militar obrigatório no nosso país quando apresentei uma moção nesse sentido a um Congresso Nacional da Juventude Socialista. Não se pense que foi fácil conseguir que esse objectivo passasse a constar da lista das mudanças que a organização dos jovens do PS defendia para a sociedade portuguesa. Muitos dos actuais dirigentes do Partido Socialista, que ao tempo ocupavam lugares de destaque na JS, eram frontalmente contra e foi necessário um apoio claro dos delegados que efectivamente representavam as bases da organização para que a proposta viesse a ser aprovada. Mesmo assim, teve de passar por um adiamento na sua votação, que não se realizou durante o Congresso mas sim mais tarde na primeira reunião da nova Comissão Nacional. Na altura, ter aprovado em Congresso a defesa do fim do serviço militar obrigatório teria ofuscado, em termos mediáticos, todas as restantes decisões do Congresso, incluindo a eleição da nova liderança.
Muitos dos então dirigentes da JS acreditavam convictamente na benigna tese tradicional da esquerda – penso que ainda hoje defendida pelo PCP – de que o serviço militar obrigatório é a forma de ter o “povo em armas”, evitando-se, por essa via, que as forças armadas possam ser instrumentalizadas, o que potencialmente sucederá com a sua profissionalização. Como se uma estrutura hierarquicamente rígida como a das forças armadas, em que todas as suas patentes altas e médias são militares de carreira, pudesse deixar de ser utilizada para fins antidemocráticos apenas pelo facto de nos níveis inferiores da sua hierarquia ter a “carne para canhão”, constituída por uns milhares de jovens tornados em militares à força, durante um período limitado da sua vida.
Felizmente, os dirigentes locais da JS sentiam o problema “na pele”, confrontando-se diariamente com a profunda injustiça de ver muitos jovens serem seleccionados, de forma “quase” aleatória (não podemos esquecer as inúmeras “cunhas”), para desperdiçarem cerca de dois anos da sua vida, num suposto contributo para a defesa da Pátria. Só assim foi possível dar o primeiro passo que conduziria, anos mais tarde, a que o Partido Socialista incluísse o “fim do serviço militar obrigatório” no seu programa político, tendo iniciado, a nível governamental, a reestruturação das forças armadas que hoje foi concluída com o fim do serviço militar obrigatório em Portugal.
A política no seu patamar mais elevado exposta em todas as suas facetas. A democracia retratada com todos os seus defeitos e virtudes.
A luta de Willy Brandt pela reunificação alemã, pela concórdia entre os homens, pela paz na Europa. Ascende ao governo da RFA em 1969 sendo o primeiro "chanceler" de esquerda depois do nazismo.
O SPD conquista o poder e deposita-o nas mãos deste homem que a certa altura diz: "Tantas pessoas à nossa volta, com tantos pontos de vista diferentes e tantas vozes diferentes. E dentro de nós próprios mais pessoas ainda, todas a lutar para se fazer ouvir" (na contra capa do Programa do espectáculo).
Brandt como sempre, ou quase sempre, acontece na política foi traído não só pelo espião que a RDA infiltrou no seu gabinete como pela intriga e inveja que sempre rodeiam os homens que detêm o poder.
Mas este era um daqueles líderes que tinha um sonho. Um grande desígnio para a Europa e para a Alemanha. Esse sonho foi cumprido. Ainda vivo viu a reunificação da Alemanha e o projecto da UE prosseguiu através do alargamento a leste para o qual, na prática, sempre trabalhou.
Esta encenação de Democracia é um belo exercício de teatro. Teatro do bom independentemente do conteúdo e da mensagem. Uma coisa bem feita que vale a pena ver.
Interessa-me a notícia pela distinção do poeta português e pela poeta chilena, minha leitura recente, que me impressionou. Gabriela Mistral foi diplomata, viveu em Lisboa, nos anos 40, colocava o português ao lado do espanhol e acerca da poesia disse:
" (...) A poesia é em mim simplesmente um resíduo, um sedimento da infância submersa. Embora possa resultar amarga e dura, a poesia que faço lava-me das poeiras do mundo e até dessa maldade essencial semelhante àquilo a que chamamos o pecado original, que trago comigo com angústia. Talvez o pecado original seja apenas a nossa queda na expressão racional e anti-rítmica à qual desceu o género humano e que nos dói mais a nós, mulheres, pelo prazer que perdemos na graça de uma língua de intuição e de música, que iria ser a língua do género humano.
É tudo quanto sei dizer de mim e não se ponham a investigar mais."
(In "Antologia Poética", selecção, tradução e apresentação de Fernando Pinto do Amaral, Toerema)
"Poeta e tradutor para português dos idiomas francês, espanhol, italiano, grego e latim, Albano Martins recebe hoje a Condecoração e o Diploma da Ordem de Mérito Docente e Cultural Gabriela Mistral, no grau de Grande Oficial.
A distinção chilena, considerada o Nobel da América Latina, será entregue a Albano Martins pelo embaixador daquele país em Portugal, Manuel José Matta, durante uma cerimónia a realizar na Universidade Fernando Pessoa, no Porto.
Albano Martins traduziu já diversas obras de Pablo Neruda, caso de "Os Versos do Capitão" (1996), "Canto Geral" (1998, Grande Prémio da Tradução APT/Pen Clube Português), "Cem Sonetos de Amor" e "Cadernos de Temuco" (ambos de 2004 e lançados a propósito do centésimo aniversário do nascimento de Neruda).
A sua obra inclui volumes como "O Mesmo Nome", "O Espaço Partilhado", "Escrito a Vermelho", "O Porto de Raul Brandão", "Assim São as Algas", "Castália e Outros Poemas", "O Espaço Partilhado", "Três Poemas de Amor Seguidos de Livro Quarto", "Do Mundo Grego Outro Sol", "Uma Colina para Os Lábios" e "Vocação do Silêncio 1950-1985"."
Lusa
Foi hoje entregue o prémio de tradução científica e técnica, promovendo a publicação de textos científicos em língua portuguesa. A iniciativa parece de um bom senso óbvio, não fora o atropelo constante à fixação e solidificação dos registos em língua nacional, nessas mesmas áreas técnicas e científicas. Trata-se, na verdade de uma medida de ecologia linguística, tendente à preservação das espécies, leia-se, línguas em vias de extinção.
Nada mais actual do que retomarmos o mito de Babel:
Face a uma língua adâmica, originária e perfeita, a babelização trouxe a incompreensão, a incomunicabilidade. Babel aparece como o mito fundador da multiplicidade de línguas e é entendido como castigo. Mas Babel, assumido como diferença não culpabilizante, configura a grande viragem político-linguística, instauradora dos estados.
Por ironia do destino, estamos hoje condenados a uma posbabelização. Quando sabemos a que ritmo vertiginoso morrem as línguas no planeta, quando nos confrontamos com a dominação da língua anglo-americana, versão americanizada do inglês como língua mundial, suspeitamos haver uma outra leitura de Babel: um monolinguísmo que tende a converter-se num monologismo.
Babel dá-nos a incompletude de cada língua a atingir a verdade e o sentido e abre, ainda, a possibilidade ao jogo infinito de transposições. Daí que, para Umberto Eco, o futuro da cultura europeia deva necessariamente passar pelo desenvolvimento generalizado de uma prática poliglota, não tanto exercida pela tradução constante, mas pela aquisição, por parte de cada cidadão, de uma disponibilidade a ouvir e a compreender uma língua diferente.
Aqui fica o convite.
Dizia alguém, há uns dias, que em Português o uso do sufixo -inho releva de uma ternura, de uma afectividade para com os outros e as coisas. Fiquei a pensar se sim…
Ainda estou a pensar….
Queria mesmo, com boa vontade aceitar essa interpretação. Mas não consigo. Vejo logo uma repartição pública: “faz favor de preencher o impressozinho, colar-lhe o selinho e entregar depressinha senão não podemos garantir o prazozinho, z z z z”, um sussurro indistinto mas de mau agoiro a zumbir lá no fundo do ouvido. A burocracia na sua versão afectiva é feita de zinhos. Tudo está limpinho, certinho, arrumadinho, e esses inhos tecem uma teia onde a gente se enreda e fica presa. E depois, ecoam os inhos de um Eça: “oh Menino, a instuçãozinha! a instruçãozinha!”
Nem o Eça imaginava, aquela instruçãozinha da época salazarenta (este sufixo, pelo menos, cheira a bolor!) com que o destino nos brindou! Um Portugal Pequenito (variante linguística de Coimbra) que também recebemos por herança, com as casinhas pobres mas honradas. Este sentimento de desgraça envergonhada, de maleita que se cola ao corpo, de simpatia frustrada, de um inha que esconde erda…
Não, poupem-me os inhos e inhas. Basta-me um sorriso, o silêncio de um sorriso para me reconciliar com o mundo.
A mitologia da Antiguidade está perdida no mar dos tempos. No entanto, algumas das suas figuras povoam o nosso imaginário e constantemente as invocamos. Para consultar a família mitológica grega, aqui fica o enderço Mítico
http://mithos.cys.com.br/
Bons passeios, bons encontros!
Relembro aqui um post sobre comércio justo.
Nem de propósito. Foi lançada uma campanha de compra de um cabaz de Natal pela Latitude, com uma incrível variedade de produtos de múltipla proveniência geográfica, desde chá a açúcar mascavado, compota, etc. A minha ideia do presente natalício adquirido no comércio justo fez-se realidade! Agora é simples, reservem o vosso cabaz antes que esgote. Mas a iniciativa foi tão discreta que o stock vai acabar bem depressa…Por isso, despachem-se! As encomendas estão a cargo da UNICEF e podem ser feitas pela internet.
Vicente Jorge Silva publica em, a aba da causa, um excelente artigo sobre os Estados Unidos onde desenvolve a metáfora da aldeia global de McLuhan aplicada à geografia da votação em Bush. O que se verifica é que a aldeia americana não é global, pelo contrário, é fechada sobre si própria, sobre os seus valores retrógrados. Levar a globalização à América implica talvez rever o próprio sistema mass-mediático que nela funciona. Isto é, voltar a McLuhan. Se o livro abriu fronteiras, ligou espaços geograficamente longínquos, se os mass-media e principalmente a televisão tiveram esse efeito globalizador que a Internet vem potencializar ao máximo, como se compreende que certos canais de televisão estaduais possam fazer passar visões distorcidas do mundo, uma narrativa a preto e branco onde os bons estão, como diz VJS, na aldeia e os maus, de preferência, no mundo árabe? Qual o papel dos média na formação da opinião ou como veículo de acesso à informação? Como conceber o jornalismo embedded, a montagem de imagens, etc.? De que falamos quando falamos de informação: de ficcionalização do real? de performatividade das imagens? Qual o valor e o pacto de leitura que uma imagem, num boletim informativo, estabelece com o público? Importa pois interrogar o estatuto e os efeitos das imagens e dos enunciados produzidos pelos mass-media. Essa é a questão que, justamente através da internet, se torna cada vez mais premente colocar.
Nada há a acrescentar a esta constatação lapidar de José Saramagp:
"A vitóruia de Bush é a prova de que a mentira é uma arma de destruição maciça".
Votaram maioritariamente em John Kerry as mulheres, os jovens, os negros, os hispânicos. Votaram maioritariamente en John Kerry as gentes das grandes cidades, dos grandes centros industriais. Mobilizaram-se em favor de John Kerry vastos sectores da intelectualidade. Apelaram ao voto em John Kerry os principais jornais e revistas de difusão nacional e internacional.
Em vão. Impôs-se a chamada "América profunda". Cerca de 85% dos votantes de George Bush declararam que a sua opção foi motivada pelo combate ao terrorismo. Todos os demais argumentos são inúteis. E é este homem que continuará a governar o mundo.
A noite passada tive um pesadelo terrível: sonhei que George W. Bush tinha sido reeleito para mais quatro anos como Presidente dos Estados Unidos da América. E, como se isso não bastasse, ainda sonhei que a maioria republicana saíra reforçada em eleições parciais, passando a dominar claramente quer a Câmara dos Representantes quer o Senado. Felizmente, tudo não passou de um pesadelo. Os americanos jamais seriam capazes de fazer uma escolha tão absurda...
Não me roubem o Outono, este frio penetrante que chega e se estende e se espraia por todo o Inverno. Não me tirem Novembro e o seu tempo incerto, a chuva que fustiga as janelas e a azáfama de preparar os caloríferos, os cobertores, os casacos e sobretudos; ou aquele calor extemporâneo, dádiva de Deus, se ele existe, que convida ao banco de jardim, nos dias límpidos que tornam tudo tão nítido e rigoroso.
Não me tirem as castanhas e o S. Martinho, aquele cheiro inconfundível que se adivinha antes de vislumbrar o Homem das ditas, com seu arsenal, pelas ruas, vendendo aquela sensação irrecuperável de um tempo perfeito em que a castanha quente coincidia com o mundo e nada mais havia para além do sabor e das mãos sujas .
Não me dêem os enfeites de natal, assim no Outono, porque me retira a vida e o prazer de a viver ao ritmo dos meses. Como era longo o tempo que teimava em não passar e a vida permanecia assim suspensa e leve, na idade da inocência.
Só na infância houve o tempo dos magustos. Só na infância, tempo para esperar (e saborear).
Como esperar que os outros tenham as qualidades que o líder não tem? "Um senhor", o italiano, dizem os ideólogos neo-conservadores portugueses, quase todos ex-maoistas, como JMB. "Senhores há muitos", seus palermas. Mas na sua maioria não se ocupam de cargos políticos, infelizmente.
Há uma conspiração jacobina para dificultar a vida a JMB? Há uma conspiração do "lobby gay" para derrubar o candidato, ultra conservador, italiano? (Não vale a pena reproduzir mais, nem o seu nome, nem as suas afirmações). A diversidade é um problema para os neo-conservadores e para todas as mentes pré-totalitárias. As nossas sociedades estão cheias destas mentes, a todos os níveis e escalões, desde o povo pobre até ás mais altas instâncias do poder.
Não vale a pena inverter os valores e colocar os verdadeiros liberais no lugar da defesa das tiranias. Nem chamar, a toda a hora, para a defesa da "filosofia" da guerra preventiva os líderes conservadores que foram heróis das guerras de resistência à tirania nazi-fascista. Não confundam a "pura lã" com a "bombazina".
Para mim a haver alguma conspiração ela está no outro lado: na "invenção" de um líder para a UE com falta da capacidade para ser líder da UE. Esse líder tem um nome: JMB, o desertor. É brutal mas corresponde à realidade nua e crua. Deus queira que esteja enganado.
Para qualquer cidadão de bem senso, e com um mínimo de informação, só resta rezar para que JMB não seja o coveiro da UE. Para isso é preciso que JMB faça a UE voar baixinho para que os EUA possam por e dispor do poder no mundo. É esse o papel que lhe foi atribuído.
O comissário italiano não interessa nada! Se quiserem o lado positivo do caso ele prova que "as instituições da UE funcionam". Se quiserem o lado histriónico do caso (mais divertido) fixem a expressão facial de JMB, no momento da derrota. Se quiserem o lado político do caso, esperem para ver os resultados dos referendos nacionais à constituição europeia e, já agora, os resultados das eleições nos EUA.