outubro 30, 2004

Educação no cinzento


Fui a uma jornadas onde se falou de ensino e, em particular, de ensino profissional. Já tenho escrito acerca do tema por razões que resultam das minhas ligações profissionais ao tema. Ver a este propósito dois artigos disponíveis no IR AO FUNDO E VOLTAR

Não costumo alargar-me muito em considerações críticas acerca do estado da educação em Portugal - nos aspectos que melhor conheço - porque temo ser injusto para com o trabalho dos sucessivos responsáveis políticos e diversificados intervenientes no processo educativo. É assunto demasiado sério para acerca dele se tecerem considerações ligeiras e tecerem juízos definitivos.

Mas fiquei com a sensação bastante viva de que atravessamos uma época cinzenta. As ideias repetem-se, os recursos escasseiam e os protagonistas cansam-se e perdem qualidade. Por outras palavras, no plano político, falta uma ideia credível e mobilizadora para "pilotar" uma verdadeira reforma da educação. Não falo já da continuidade das políticas que deveria ser assegurada, e sustentada, numa visão de longo prazo - 20 anos (?) - mas da simples emergência de uma ideia força mobilizadora da sociedade civil e da comunidade educativa;

por outro lado escasseiam recursos onde há energia criadora, e vontade de mudança, e sobram onde se instalaram as rotinas e há excesso de capacidade instalada;

por fim os protagonistas, em particular, no ensino público, cansam-se, nuns casos, e perdem qualidade de intervenção, noutros, pois se confrontam com mudanças de paradigma inexplicáveis, entropias organizacionais absurdas, medidas avulsas imprevisíveis, rupturas hierárquicas desmoralizadoras, numa palavra, crise e instabilidade permanentes.

Num país que, em 2002, segundo as estatísticas da UE, apresentava um indicador de abandono precoce da escola de 45,5 %, o mais alto de todos os países da União, seria necessário um verdadeiro "choque educacional" para reverter, em prazo razoável, esta situação menos favorável.

É essa a obrigação dos governos. Conceber e por em marcha projectos estruturados, a prazo, cujo sucesso, no caso da educação, dependem absolutamente, de serem alicerçados em acordos de regime, formais ou informais, sob pena de não ser possível regenerar a educação em Portugal. Para isso é necessária uma energia que não encontrei, em geral, nos protagonistas das jornadas.

Salva-se em qualquer circunstância a obra realizada, até ao presente, no âmbito da promoção do ensino profissional, entre muitas outras, pela escola profissional Gustave Eiffel promotora da iniciativa que suscitou este comentário.


Publicado por Eduardo Graça em 12:00 AM | Comentários (1)

outubro 29, 2004

Uma Família Inglesa:

Leiam este belo trecho com que Sampaio termina uma carta aberta aos jovens da geração dos seus filhos, publicada na Capital:
"Sei que vocês não aguentarão mais. Ouço-vos em toda a parte, por enquanto em surdina, em breve até que a voz vos doa. E por isso vos peço: ajudem a derrubar este governo.
Pela verdade e dignidade da vossa geração. Para que, tal como os vossos pais quando contaram 1974, possam dizer aos vossos filhos: sabes, fizemos um segundo 25 de Abril, só com arte e coragem, e o governo foi--se embora.
Com toda a v(n)ossa força ".
Sampaio, D.
E digam-me lá se esta família se encontra em seu perfeito juízo!

Publicado por Marienbad em 07:26 PM | Comentários (1)

outubro 27, 2004

Triste Feia

Assim, sem mais. Sem direito a avenida ou praça, sequer a rua ou a largo. Assim, sem mais. Um beco? um canto? um cruzamento sem traçado, daqueles que acontecem quando tudo é provisório, sem plano. Lugar de passagem onde nem o trânsito se entende. Desfigurado, sem harmonia volumétrica, ponto de partidas e chegadas, de confluência de transpostes, numa heterogeneidade caótica que se acrescenta já à incaracterística marca do lugar, velho, sem charme , sem nome, incógnito…
Ora se não é rua, se não é praça porque é atribuído a esse beco sujo uma dupla adjectivação disfórica de género, no entanto, feminino?
Tal como o beco, o canto, o lugar sem contornos e sem nome, “triste-feia” é nada mais nada menos do que dois qualificativos atribuídos à rainha D. Catarina, casada com Carlos II de Inglaterra. Tão feia e tão triste que o marido a desprezou, a humilhou, a abandonou. Não deixou descendência, vergonha da natureza que assim incógnita se vem aninhar no beco mais sujo de Lisboa, onde ninguém lhe presta atenção, nessa azáfama de apanhar o autocarro ou o comboio, a passagem desnivelada de peões, ou se embrenhar, sabe-se lá para onde, no princípio do bairro de Santos, mesmo em baixo da Maria Pia. Por mais mal afamada que esta última esteja, na geografia da toponímia lisboeta, sempre se ergue lá para cima, até ao Alto do Carvalhão, determinada, sobranceira à baixa de Alcântara, medindo-se com o relevo do Alvito, do outro lado do largo leito de rio agora esquecido, da Av. de Ceuta.
“Triste -feia” a portuguesa nobre, filha de D. João IV, que, no entanto, está imortalizada em Nova Iorque, em frente a Manhattan, designada pelo seu estatuto - Queens. Imortalizada na very british tea time, como quem diz, o chá das cinco. Introdutora em Inglaterra do gosto pelo chá, da marmelade - doce de laranja amarga -, Catarina levou no seu dote, além de uma autêntica fortuna em ouro, Tânger e Bombaim, que passaram a ser propriedade inglesa.
Tristes feios de nós, que nos apagamos na história, sem nome e sem marca, tal como a rainha, sofrendo da sua fealdade e por isso assim tão silenciosos.

Publicado por Marienbad em 10:12 PM | Comentários (0)

outubro 24, 2004

Urgente: levar a globalização aos EUA!


Afinal a globalização ainda não chegou aos EUA! É verdade. Quem pense que o fenómeno conhecido por globalização partiu dos Estados Unidos, quem se deu ao trabalho de alinhar na contra-globalização e fazer frente à potência americana alerta-se para este facto: a América profunda, a extensão territorial que dá pelo nome de States, não sabe que o mundo é mundo, está numa fase pré-galilaica, julga que o globo vai de costa a costa (entre Atlâtico e Pacífico, entenda-se). E qualquer evocação da opinião pública esclarecida de NY ou da Califórnia só vem demonstrar que a excepção confirma a regra. É verdade, senão vejamos: os americanos confundem a totalidade dos países árabes com os focos terroristas; não fazem a distinção entre um estado laico e um estado confessional, ignorando assim o legado do seu antepassado La Fayette. Da Europa, ouviram falar mas identificam-na apenas com a Inglaterra; da guerra do Iraque têm uma vaga noção através das imagens (e só dessas) que as suas televisões transmitem sobre passatempos nas casernas americanas em Bagdad. Televisões do mundo, desconhecem; idem para o cinema. Para além dos filmes de Hollywood, não sabem que existe cinema. Línguas estrangeiras,desconhecem-nas. E o que existe de planeta para além do seu território, só mesmo a crosta de Marte. Donde, é urgente globalizar os EUA.
A estratégia é simples: tal como fizeram McDonald’s e Coca-Cola em 1989, aquando da queda do muro de Berlim, oferecendo hamburgers e coca-cola aos que de Leste, passavam o muro derrubado, a Europa e o mundo deveriam estar de plantão lá, nas profundezas das floridas, ohios, texas, etc., com cartazes elucidativos sobre o que o mundo pensa dos States e do seu inenerrável bush!

Publicado por Marienbad em 08:27 PM | Comentários (1)

"A semelhança entre o OE e os pastéis de nata"

Para melhor compreender a proposta de OE para 2005 aqui fica este artigo, demolidor, de Manuel Pinho, publicado na última edição do "Expresso".


«O OE-2005 é uma prova adicional de como a política orçamental pode desestabilizar a economia e travar o crescimento»


Em resultado do mau uso da política orçamental, em 2005 o défice orçamental e o «stock» de dívida pública serão, depois de quatro anos de «contenção e rigor», superiores ao registado em 2001, ano em que o «despesismo» teria atingido o zénite.

O OE-2005 é uma prova adicional de como a política orçamental pode desestabilizar a economia e travar o crescimento.

Ao mesmo tempo que as finanças públicas pioraram, entre 2002 e 2005 a economia portuguesa irá crescer, se as previsões se confirmarem, um total acumulado de cerca de 2,8%, o que é equivalente ao que a Espanha cresce normalmente num ano.

Neste artigo, abordarei as duas primeira questões: a situação actual das finanças públicas comparada com 2001 e a desestabilização da economia resultante da forma como tem vindo a ser conduzida a política orçamental.

Primeira questão: a situação actual comparada com 2001.

Os orçamentos são como os pastéis de nata, por fora parecem todos iguais, só depois de provar é que se vê a diferença. Assim, o Governo tem dito que o défice orçamental foi de 2,7 p.c. em 2002, 2,8 p.c. em 2003, 2,9 p.c. em 2004 e, agora, 2,8 p.c. em 2005. Estes valores são resultado de uma cosmética e têm como único propósito não violar formalmente o limite de 3 p.c. do PEC. Para calcular o verdadeiro défice orçamental é necessário somarmos aos valores atrás mencionados as chamadas «operações não-recorrentes» que, naturalmente, apenas se justificam em «circunstâncias excepcionais». Estas operações são viciantes e a desintoxicação é cada vez mais difícil .

Em Portugal, recorreu-se pela primeira vez a estas operações em 2002 com um carácter «excepcional» e, desde então, nunca mais se parou. Todos os anos, inventa-se uma nova desculpa para que seja considerado «excepcional». O valor do défice orçamental, que no que respeita a 2005 é apenas «mais ou menos verdadeiro», (...) revela que, depois de quatro anos de «contenção e rigor orçamental», ainda não conseguimos voltar à estaca zero, neste caso, o ano de 2001.

Digo «mais ou menos», porque uns truques de mágica do tipo Houdini fizeram desaparecer do perímetro de consolidação orçamental verdadeiros sorvedouros de dinheiro, tais como os hospitais, no passado, e agora o Instituto de Estradas de Portugal. Se tal não acontecesse, o défice orçamental seria obviamente muito maior.

Quer o défice orçamental quer o «stock» de dívida pública serão maiores em 2005 do que em 2001, tal como já o eram em 2004, 2003 e 2002 , o que é inexplicável face aos inflamados discursos sobre a falta de rigor na gestão das finanças públicas no anterior ciclo político e não dá razão a quem tinha esperança de que a nomeação deste Governo permitisse «manter o rumo de consolidação orçamental».

Mesmo contando com a intenção da Comissão em rever o PEC no sentido de o tornar mais flexível, é duvidoso que ela continue a fechar os olhos ao valor anormalmente elevado das operações não-recorrentes (2,7 mil milhões de euros em 2004 e 2 mil milhões em 2005), às operações de desorçamentação e à evolução do rácio da dívida em Portugal (cuja trajectória desde 2002 é muito preocupante, pois já ultrapassa o valor crítico de 60 p.c. do PIB).

A opção do OE de tentar satisfazer tudo e todos, mesmo que tal implique continuar a recorrer à desorçamentação, a medidas extraordinárias e a abrandar o controlo sobre o financiamento das autarquias, é tanto mais questionável quanto o cenário no qual se baseia o OE-05 é muito cor-de-rosa: admite que o preço do petróleo vai baixar mais de 20 p.c. relativamente ao nível actual, que a procura externa vai crescer mais do que a própria Comissão parece acreditar e que o nível de endividamento da economia poderá continuar a aumentar.

Segunda questão: o papel desestabilizador da política orçamental.

A política orçamental deve remar contra a corrente e ser restritiva quando a economia cresce rapidamente, neutra em circunstâncias normais e expansionista aquando de uma forte desaceleração. O que sucedeu em Portugal foi o seguinte: em 2002, a política orçamental foi restritiva quando não o devia ter sido e, em 2004, foi expansionista, quando nada a tal aconselhava. Portanto, a política orçamental foi desestabilizadora, como passo a demonstrar.

O saldo orçamental melhora sempre que o crescimento acelera e piora quando o crescimento desacelera, sendo que, em média, varia num sentido meio p.p. sempre que o crescimento varia um p.p. em sentido contrário. Portanto, se a política orçamental tivesse sido neutra em 2002, o saldo orçamental teria sido de cerca de 4.6 p.c. do PIB. Como foi apenas de 4.1 p.c., tal significa que a política orçamental foi pró-cíclica, o que, a somar ao inexplicável discurso pessimista sobre o futuro que na altura foi alimentado, resultou na brutal recessão de 2003, em que o PIB baixou 1,2 p.c. Uma vez chegados ao final desse ano, a economia começou a recuperar, de tal forma que o PIB já deverá crescer 1,2 p.c. em 2004.

Portanto, haverá uma variação positiva de 2,4 p.p. no crescimento da economia. Fazendo as contas, verifica-se que o défice orçamental em 2004 deveria então ser «apenas» de cerca de 4,2 p.c. do PIB, mas que não vai ser: segundo o relatório do OE-05, será de 4,8 p.c.. Tal sucede porque em 2004 tivemos uma política orçamental expansionista.

Um ajustamento orçamental a contra-ciclo tem sempre custos muito elevados para a população, além de um outro efeito sobre os políticos cuja única missão na terra parece ser tentarem ganhar eleições custe o que custar: assusta-os. Assusta-os de tal forma que, à primeira oportunidade, tornam a adoptar políticas expansionistas e o baile recomeça.

Diz-se, com toda a razão, que a grande reforma em Portugal é a das mentalidades. Enquanto não se perceber que a política orçamental deve ser usada como instrumento estabilizador e que não deve ser manipulada para tentar ganhar eleições custe o que custar, não vamos a lado nenhum.

Manuel Pinho

Economista, administrador do BES, actualmente Visiting scholar na Stern School da NYU

Publicado por Eduardo Graça em 12:51 PM | Comentários (1)

outubro 22, 2004

O Nobel de Economia, o Orçamento e o Fórum


O artigo, com o título em epígrafe, publicado no "Semanário Económico", na sua edição de hoje, está disponível no IR AO FUNDO E VOLTAR.

Publicado por Eduardo Graça em 07:09 PM | Comentários (0)

outubro 21, 2004

UM país de doutores

Mário Vieira de Carvalho esclarece, em mais um artigo no Público, a filosofia que sustenta os Acordos de Bolonha e como a aplicação ao nosso sistema universitário está a ser enviesada e deturpada por razões que nos são demasiado familiares. A deturpação consiste, basicamente, numa conversão precipitada dos actuais diplomas universitários nos ciclos propostos por Bolonha. Assim e resumindo: ao sistema 3+2 consensualmente adoptado na Europa, correspondem, em termos de diplomas nacionais, respectivamente o de Bacharel (1º ciclo = 3 anos) e o de Master (2º ciclo = 2 anos). A designação de Licenciatura é inadequada mas está mais perto do segundo diploma que do primeiro. Um primeiro ciclo curto destinado a ser absorvido pelo mercado de trabalho; um segundo ciclo com uma preparação de maior fôlego. E um terceiro ciclo de ensino virado para a investigação e especialização doutoral. Ora o entendimento generalizado em Portugal vai no sentido da conferição da Licenciatura ao fim de três anos o que redunda, para a opinião pública e para o público universitário, num abaixamento da formação universitária. Esta conclusão é, não só totalmente contrária aos chamados Acordos de Bolonha, como ainda por cima perverte o sentido de tais acordos que caminham para um prolongamento da formação superior, a que se acrescenta ainda o modelo da formação ao longo da vida, através de pós-graduações, pós-doutoramentos, etc, e nunca para uma formação massificada e curta para mergulhar de seguida no mercado de trabalho. Acrescente-se a isto a igualização do ensino superior universitário e politécnico e teremos o quadro das futuras assimetrias portuguesas na Europa.
“Para acabar de vez com o juízo” da Licenciatura, propõe-se a conferição pelo Estado português do título de Dr. indiscriminadamente e à nascença, aquando do registo civil que pode ser ou não acompanhado de testemunhas de “padrinhos”. Com a democratização do título de Dr., talvez a seguir, se possa discutir calmamente qual a formação séria e necessária de que o país precisa.

Publicado por Marienbad em 01:36 PM | Comentários (0)

BELMIRO AMIGO/”À COCA” ESTÁ CONSIGO!

“Sempre à Coca” saúda respeitosamente (temos que ter cuidadinho com este tipo de gente) o engenheiro Belmiro de Azevedo, pelos esclarecimentos prestados aos portugueses, em entrevista ao semanário “Expresso”, sobre o Primeiro-Ministro do Presidente da República, Santana Lopes.
Com a frontalidade e coragem próprias de quem não corre perigo de perder o emprego por dizer o que lhe vai na alma (liberdade de expressão de pensamento, segundo a Constituição da República ainda em vigor), o engenheiro teceu as seguintes considerações, sobre o Primeiro-Ministro do Presidente da República, Santana Lopes: “Este regente distrai à brava a oposição, promete e despromete todos os dias a mesma coisa, o que é típico do “entertainer” e não tem nenhuma capacidade para servir o país”.
Convidado a discorrer sobre Marcelo Rebelo de Sousa, o engenheiro, homem habituado a topá-los à légua, garantiu: “É um “entertainer”, não poderia ser primeiro-ministro”.
Percebe-se que o engenheiro tem plena consciência de que Portugal se transformou numa permanente sessão do “Levanta-te e Ri”, onde cada medida governamental assume o estatuto de anedota pindérica, cada declaração ministerial é um hilariante desconchavo, cada falsa promessa faz corar de vergonha o mais empenhado padre de paróquia em vias de extinção.
Eles entretêm-nos: o Primeiro-Ministro do Presidente da República, o Castelo Branco (sem ofensa para o maior Escritor da língua portuguesa), o projecto de ministra da “Educação”, o inenarrável Avelino Ferreira Torres, o inconcebível Bagão Félix (tudo acontece à Igreja Católica e ao Benfica), a platinada Marisa Cruz, o frenético Rui Gomes da Silva, o lacado José Veiga, o beato Portas (Paulo), o elevadíssimo Quim Barreiros, o untuoso Alberto João Jardim, a grande educadora Bobone, o “colonizado” (de água de colónia) Mexia, o irresponsável (sem ofensa para os irresponsáveis) Pinto da Costa… e mais as fátimas felgueiras, os isaltinos morais, os valentins loureiros, os vales e azevedos…
Depois do xarope “Mateus Rosé”, do vinho do Porto, da cortiça, dos moldes e dos jogadores de futebol, eis-nos em condições de exportar “entertainers”.
Engenheiro amigo/”Sempre à Coca” está consigo!

Abébia de Platina para a jornalista Ana Sousa Dias, recentemente galardoada com o Grande Prémio Gazeta de Jornalismo. Uma gota de água pura, no imenso pântano da alegada Comunicação Social.

Abébia da Incontinência (verbal) para o Procurador-Geral da República, Souto Moura, magistrado que se tem distinguido por pensar o que não deve e por dizer o que pensa.


Publicado por Sempre à coca em 11:51 AM | Comentários (1)

outubro 19, 2004

Derrida e a Europa

Derrida deixou-nos… Para além dessa inevitabilidade da morte que tanto o obcecava, deixou-nos um pensamento aporético para toda uma geração futura se confrontar. Mas deixou-nos ainda algumas inquietações políticas à mistura com alguma esperança no papel geopolítico que a Europa poderá vir a desempenhar (a Europa? ou uma outra Europa?).
Talvez nós todos, testemunhas do seu desaparecimento, não tenhamos a alegria de morrer nessa evidência, nem mesmo nessa esperança.
Talvez que utópico, mas, ainda assim, aqui se regista um fragmento da última entrevista concedida ao Le Monde (19.08.04) :
“…hoje, na actual situação geopolítica que é a nossa, a Europa, uma outra Europa mas com a mesma memória, poderia (em todo o caso é o meu voto) unir-se ao mesmo tempo contra a política de hegemonia americana (relatório Wolfowitz, Cheney, Rumsfeld) e contra um teocratismo arabo-islâmico sem Luzes e sem futuro político e (mas não negligenciemos as contradições e heterogeneidades destes dois conjuntos e aliemo-nos àqueles que resistem do interior destes dois blocos). A Europa encontra-se sob a injunção de assumir uma nova responsabilidade. Não falo da comunidade europeia tal como existe ou se desenha na sua maioria actual (neoliberal) e virtualmente ameaçada por tantas guerras internas, mas de uma Europa por vir e que se busca. Na Europa (geográfica) e fora dela. O que se designa algebricamente por “Europa” tem responsabilidades a assumir no futuro da humanidade, no futuro do direito internacional - é a minha fé, a minha crença. E nesse caso, não hesitaria em falar de “nós, os europeus”. Não se trata de desejar a constituição de uma Europa que fosse uma outra superpotência militar, protegendo o seu mercado e fazendo contrapeso aos outros blocos, mas de uma Europa que viria semear o grão de uma nova política alteromundialista. Que é para mim a única saída possível. Essa força está em marcha. Mesmo se os seus motivos são ainda confusos, acho que nada a deterá. Quando digo a Europa é isto mesmo: uma Europa altermundialista, que transforme o conceito e as práticas da soberania e do direito internacional. E que disponha de verdadeiras forças armadas, independentes da NATO e dos EUA, uma potência militar que não seja nem ofensiva nem defensiva, nem preventiva intervindo sem tardar ao serviço das resoluções, enfim, respeitadas por uma Nova ONU (por exemplo, com toda a urgência em Israel, mas também noutros lugares). É também o lugar a partir do qual se pode pensar correctamente certas figuras como a laicidade, por exemplo, ou a justiça social, outras tantas heranças europeias.”

Publicado por Marienbad em 07:58 PM | Comentários (0)

outubro 18, 2004

Os Paraísos Artificiais


Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.

Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.

O cântico das aves - não há cânticos,
mas só canários do 3º andar e papagaios do 5º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.

Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.

A minha terra não é inefável.
A vida na minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.

Jorge de Sena

"Pedra Filosofal" (1950)
Incluído em Poesia I, Moraes Editores
2ª edição, 1977.


Publicado por Eduardo Graça em 11:40 PM | Comentários (1)

Universidades politécnicas:


O assunto está na ordem do dia. A equiparação do ensino politécnico ao universitário não terá por detrás uma política de objectivos que marque bem a vocação de cada uma das instituições, mas antes, políticas internas algo obscuras que só teriam a ganhar em ser largamente discutidas. O politécnico, tal como é agora desenhado, recobrirá as funções da universidade, por mimetismo. É claro que o país necessita de um ensino politécnico, de natureza marcadamente tecnológica e de alta competência para o mercado de trabalho empresarial, laboratorial, etc, etc. Mas esta ideia das grandes escolas técnicas hiperespecializadas não motiva o politécnico português. Este reivindica um estatuto virado para a formação fundamental, para a preparação de doutoramentos, por exemplo, duplicando assim, em cursos e em diplomas, o papel do ensino universitário (dito de formação longa). Por outro lado, como refere Martçal Grilo, num importante artigo no Público da semana passada, atribuir ao politécnico a conferição do grau de doutor é “dispersar recursos inerentes a actividades de investigação em mais de quatro dezenas de instituições, não se conseguindo assim criar as bases para consolidar em Portugal instituições universitárias capazes de competir com as grandes e avançadas "research universities" europeias e norte-americanas.” Além disso, as competências técnicas, por secundarizadas, vão criar lacunas na formação a curto prazo, o que se torna preocupante. Mais uma vez a demagogia impera e a re-estruturação do ensino superior nas suas vertentes politécnica e fundamental, em vez de reforçar a complementaridade e interconexão será, para agrado de todos, homogénea e redutora.

Publicado por Marienbad em 02:23 PM | Comentários (0)

Direita em crise nas eleições regionais

Quando se aguardava uma renhida disputa entre o PS e a coligação PSD/CDS-PP, nos Açores, e mais uma esmagadora vitória de Alberto João Jardim, na Madeira, o apuramento dos resultados das eleições nas duas regiões autónomas acabou por trazer algumas surpresas.
O principal resultado inesperado nestas eleições foi a esmagadora vitória nos Açores do Partido Socialista, que conseguiu bater, por mais de 20%, as listas da coligação de direita que conduz os destinos do país. Quando se pensava que Carlos César poderia ter o seu lugar em risco – parecendo poder aspirar, no máximo, a uma vitória por uma margem mínima – o PS consegue alcançar 57% dos votos (uma subida de 8,1%), reforçando a maioria absoluta e permitindo a Carlos César poder vangloriar-se de ter uma votação claramente superior à alcançada por Alberto João Jardim na Madeira. O resultado da coligação de direita nos Açores fica mesmo a 5% da soma da votação nos dois partidos nas eleições regionais de 2000 (36,8% contra 41,8% – 32,3% do PSD e 9,5% do CDS-PP em 2000).
Na Madeira, mesmo ganhando alguns votos, graças a um aumento do número absoluto de votantes, Alberto João Jardim regista o seu pior resultado eleitoral de sempre, baixando de 56% para 53,7%. No sentido inverso segue o PS, alcançando o seu melhor resultado em eleições na Madeira, com uma subida de 20,9% para 27,5%. O CDS-PP também é penalizado na Madeira, baixando de 9,8% para 7%.
Se Santana Lopes já não seria um grande simpatizante de uma coligação PSD/CDS-PP, em eleições para a Assembleia da República, terá ganho novos argumentos, eventualmente decisivos, para inviabilizar essa hipótese. Resta saber se, num cenário de disputa eleitoral a “solo”, o CDS-PP não regressará aos tempos do “partido do táxi”, em que o todo o seu grupo parlamentar cabia nos lugares disponíveis no mais pequeno dos transportes públicos...

Publicado por Paulo Godinho em 12:17 AM | Comentários (2)

outubro 14, 2004

José Gomes da Silva ainda é Ministro?

Vale a pena ler, na íntegra, este artigo de opinião de José António Lima publicado no Expresso on line.


O sequaz santanista inadaptado à vida em democracia, incapaz de conviver com a liberdade de opinião e a abertura crítica, proponente de intervenções censórias de altas autoridades, ainda é ministro? De um Governo da União Europeia em pleno século XXI? Não, provavelmente, já não é. Nunca mais foi visto em circulação desde o seu arrebatamento ao estilo de coronel controleiro do exame prévio.


E se este Presidente da República forçou o afastamento de um outro ministro, Armando Vara, num caso de outros atropelos éticos e abusos de poder, certamente já terá tratado com o primeiro-ministro da substituição deste «apparatchik» que também envergonhou o Governo de Portugal.


Entretanto, Santana Lopes continua a dar sucessivos sinais de instabilidade, cansaço e desnorte. De quem não se sente bem no papel de primeiro-ministro, de quem não consegue vestir, por maior esforço que faça, a pele de chefe do Governo. É o político errado na função errada e no momento errado. O seu tempo de antena travestido de discurso ao país foi o espelho desse mal-estar e desse equívoco.


Vejamos três tópicos - da Imagem, aos Erros de palmatória e à Fuga para a frente - que definem estes menos de três meses de governação de Santana Lopes. Três meses que, tal tem sido a cadência dos disparates, tamanha a amplitude dos problemas criados e o desgaste já acumulado, quase já parecem três anos.


Imagem. Em campanha na Madeira, à entrada da cimeira com Zapatero, à saída de uma reunião com deputados do PSD ou na gravação do tempo de antena ao país, Santana Lopes dá mostras de ter perdido a energia política que o caracterizava, a fluência da oratória, o à-vontade perante as câmaras. Surge com um rosto cansado e distante a dar voz a um discurso atrapalhado e sem vivacidade. Parece transportar sobre os ombros um peso a que não se acomoda e um ritmo de trabalho e exigência para o qual não está vocacionado nem preparado.


E a sua propensão populista de querer resolver tudo através da comunicação mediática leva-o a falar demais e a toda a hora nas televisões (ele são entrevistas, declarações à porta de qualquer evento, pronunciamentos a propósito de tudo e de nada, comunicações ao país, enfim, um virote em que nunca antes se vira metido um primeiro-ministro).


Este frenesim mediático tem inevitáveis consequências negativas. Eis algumas. O «timing» da sua intervenção de segunda-feira era, à vista desarmada, contraproducente, pois ela seria vista, e assim se veio a verificar, como uma tentativa pouco hábil e frustrada para desviar as atenções do «caso Marcelo». As descaradas promessas eleitorais, ao estilo João Jardim, que foi fazer na campanha dos Açores revelam uma desorientação desesperada que não ajuda à ideia de seriedade e isenção que os portugueses esperam de um primeiro-ministro. E as promessas a granel do oásis que chegará com o próximo Orçamento de Estado não são credíveis aos olhos da maioria nem ajustáveis à realidade da evolução económica internacional e do país. Nem conciliáveis com a orientação do Governo de Durão Barroso e Manuela Ferreira Leite, orientação em relação à qual se comprometeu a dar continuidade.


Tudo isto afecta e desacredita a imagem de um chefe de Governo que já suscitava, à partida, as maiores dúvidas e reservas quanto à sua competência.


Erros de palmatória. Além das «gaffes» iniciais sobre a redução (que redundou em crescimento) do número de membros do Governo, da sua proveniência geográfica ou do peso do CDS, Santana Lopes tem somado declarações contraditórias com as dos seus próprios ministros: seja no encerramento da refinaria da Galp, sobre o sistema de colocação de professores, em relação às taxas moderadoras diferenciadas ou no mistério da baixa cumulativa de escalões e impostos no IRS.


A este comportamento errático e desconcertante, somam-se episódios lamentáveis (e verdadeiros tiros no pé) como a colocação de Celeste Cardona na administração da Caixa Geral de Depósitos ou as declarações trauliteiras de Gomes da Silva sobre as crónicas de Marcelo Rebelo de Sousa.


O primeiro-ministro, em sucessivos apartes sobre o «caso Marcelo», acabou por corroborar, um a um, os dislates de Gomes da Silva - seja sobre a necessidade do «exercício do contraditório» (ele, Santana Lopes, que teve, entre muitos outros, um programa «a solo» na SIC…) seja sobre o pronunciamento da Alta Autoridade. Dando cobertura aos ímpetos censórios do ministro e comprovando que eles resultaram de orientação e estratégia superior.


Acresce que, no meio das suas múltiplas intervenções, Santana Lopes deixa ainda cair frases ou ideias perplexizantes. Como a de aconselhar os açorianos a «não votarem nos líderes nacionais» mas nos regionais, sendo ele próprio líder nacional. Ou a de insinuar dúvidas, no seu tempo de antena de segunda-feira, sobre a «estabilidade da coligação» e a conduta do CDS.


São erros a mais e inadvertências em excesso para tão pouco tempo de Governo.


. Como é típico da sua personalidade e do seu percurso político, Santana Lopes tende a ensaiar fugas para a frente quando se vê colocado em situações incómodas ou perante problemas de difícil resolução. Saltou da Figueira da Foz para Lisboa e, na capital, ao fim de pouco tempo estava a autopropor-se para Belém, num «remake» sempre repetido do seu atribulado e inconstante passado.


Agora, a fuga para a frente parece ser já a tentativa de se vitimizar, de provocar o Presidente da República e forçar eleições antecipadas. As suas declarações deselegantes e desafiadoras para com Jorge Sampaio, à saída de uma audiência em Belém ou no discurso gravado desta semana, são sinais claros dessa nova e desaustinada estratégia.


Santana Lopes sabe que o calendário eleitoral não lhe é favorável. As legislativas de Outubro de 2006 vêm depois de umas autárquicas em que o PSD se arrisca a perder várias câmaras e algumas tão emblemáticas como a de Lisboa. E das presidenciais de Janeiro de 2006, que serão disputadas em condições políticas pouco favoráveis para o candidato do centro-direita e - seja Cavaco, Marcelo ou Balsemão - que poucos dividendos político-partidários trarão a Santana. Ou seja, o seu horizonte até às legislativas de 2006 são dois anos de problemas, de desgaste continuado, de eleições intermédias com efeitos potencialmente corrosivos.


Nada melhor, pensará o especialista em fugas para a frente e em processos de vitimização, do que levar o Presidente da República a precipitar eleições Fuga para a frenteantecipadas. Invertendo o adverso calendário eleitoral e aparecendo aos portugueses como vítima perseguida e incompreendida.


Tal é a degradação política a que chegou o Governo e o desnorte em que mergulhou o seu chefe ao fim de três escassos meses.


Em conclusão, faltam a Santana Lopes características básicas para o exercício do cargo de primeiro-ministro: responsabilidade e maturidade política, capacidade de estudo e profundidade de conhecimentos, noção do sentido de Estado inerente à chefia do Executivo. Pior do que as qualidades que lhe faltam: o impreparado líder do PSD reúne algumas características que recomendariam que não assumisse tão exigentes funções - a inconstância, a superficialidade, a visão clientelista do poder, a intolerância para com os críticos e adversários.


A propósito: Gomes da Silva ainda é ministro?


José António Lima, in Expresso online


14 Outubro 2004


Publicado por Eduardo Graça em 07:53 PM | Comentários (1)

outubro 13, 2004

PRESSÕES, QUEM AS NÃO FAZ...

Ele conferencia sobre ética cristã. Ele cavaqueia com as meninas de Odivelas. Ele disserta para os industriais da construção civil. Ele perora na Faculdade de Direito. E, pelo meio, dá um mergulho no Guincho.
Perseguem-no os jornalistas. Chovem perguntas. Sempre as mesmas. Mas, dele, apenas obtêm uma palmadinha nas costas. E um sorriso matreiro.
Depois ele escapa-se. Sempre com o mesmo ar folgazão. De quem não leva isto a sério.
O truque já é conhecido. Mas resulta sempre.
Ele dá a bronca e fica a olhar em redor. Como se nada lhe dissesse respeito. E goza, goza.
Aliás, o caso não é para menos, se tivermos em conta as histórias dos que agora defendem, com arreganho, a liberdade de informação e de expressão e denunciam as pressões governamentais sobre os media: Marques Mendes que, enquanto ministro, telefonava para a RTP fazendo sugestões para o alinhamento do telejornal; Pacheco Pereira que, enquanto comentador do "Público", denunciava os efeitos perversos da "mediocracia"; Mário Soares que, sem a mínima hesitação, apelava às direcções e administrações no sentido de afastar algum jornalista menos cordato; Manuel Alegre que, enquanto secretário de Estado da Comunicação Social, nomeou, para presidente do Conselho de Administração da RTP, Edmundo Pedro, um reconhecido especialista na matéria.
A lista poderia alongar-se...
Há uma quinzena de anos, desencadeou-se um violento debate na Assembleia da República em torno desta mesma questão. Pretexto: a colocação de uma vírgula que deturparia o sentido de uma frase. Esgrimiram-se argumentos. E acusações. Até que Narana Coissoró, de quem discordo políticamente mas a quem reconheço qualidades gastronómicas e noção do ridículo, rematou oportunamento: "Comunistas, socialistas e sociais-democratas, já todos pressionaram os órgãos de comunicação social. Só a nós não foi dada, ainda, essa possibilidade. E lamentamo-lo". O lamento do deputado centrista seria ouvido alguns anos mais tarde.


Publicado por José Rebelo em 10:50 PM | Comentários (0)

outubro 12, 2004

A CENSURA

.
Peço desculpa, mas não junto a minha voz ao coro de protestos suscitado pelo "caso Marcelo Rebelo de Sousa". É sempre de reprovar qualquer decisão que afecte a liberdade de informação e expressão. No caso presente, está ainda por provar que o comentador em causa tenha sido efectivamente silenciado. Mas o importante não passa por aí. O importante é verificar que as ameaças mais graves à liberdade de informação e expressão se situam noutro nível. Menos espectacular. Embora mais profundo. Situam-se no anonimato das redações, sobretudo das televisões, pública ou privadas, onde legiões de jovens, recém saídos da Universidade se dispõem a tudo fazer para obter um contrato de trabalho. Por seis meses. Por três meses. Às vezes, podem crer, por um dia. Nenhuma preocupação deontológica os move. Move-os, sim, a vontade de agradar às chefias. E, se possível, de ultrapassar as expectativas das chefias. Estimulados pela mórbida curiosidade dos "pivots", aí vão eles em busca das vítimas e dos culpados. Nada os detem. Nem o escrúpulo, na formulação das perguntas. Nem o rigor, na utilização da linguagem. Daqui resultam narrativas mediáticas como as produzidas em torno da "pequena Joana".
O grave, o mais grave, é que assistimos a isto, diariamente, sem pestanejar. E só nos incomodamos quando alguém pretende, se é que pretende, silenciar o "Professor".

Publicado por José Rebelo em 07:21 PM | Comentários (3)

Aconteceu-me


Eu vinha de comprar fósforos
e uns olhos de mulher feita
olhos de menos idade que a sua
não deixavam acender-me o cigarro.
Eu era eureka para aqueles olhos.
Entre mim e ela passava gente como se não passasse
e ela não podia ficar parada
nem eu vê-la sumir-se.
Retive a sua silhueta
para não perder-me daqueles olhos que me levavam espetado
E eu tenho visto olhos!
Mas nenhuns que me vissem
nenhuns para quem eu fosse um achado existir
para quem eu lhes acertasse lá na sua ideia
olhos como agulhas de despertar
como íman de atrair-me vivo
olhos para mim!
Quando havia mais luz
a luz tornava-me quase real o seu corpo
e apagavam-se-me os seus olhos
o mistério suspenso por um cabelo
pelo hábito deste real injusto
tinha de pôr mais distância entre ela e mim
para acender outra vez aqueles olhos
que talvez não fossem como eu os vi
e ainda que o não fossem, que importa?
Vi o mistério!
Obrigado a ti mulher que não conheço.

Almada Negreiros
Publicado em Almada: O Escritor - O Ilustrador, 1993

Publicado por Eduardo Graça em 12:16 AM | Comentários (0)

outubro 11, 2004

Recorte de Imprensa

Santana1.jpg

Publicado por Porfírio Silva em 11:35 PM | Comentários (2)

O comentador político

Jorge Sampaio denunciou ontem a existência de censura em Portugal, avançando com propostas concretas para salvaguardar a liberdade de imprensa, um valor fundamental em democracia. Há cerca de duas semanas, durante a “Semana da Saúde”, apontou diversas falhas ao sistema de Saúde do nosso país, questionando muitas das opções governamentais nessa área.
As críticas de Sampaio surgem aparentemente no quadro de uma “magistratura de influência”, decorrente dos poderes constitucionais do Presidente da República, que o seu antecessor, Mário Soares, utilizou até ao limite.
Mas há uma diferença fundamental: quando um Presidente da República é co-responsável por um Governo, como Sampaio é pelo executivo de Santana Lopes, a figura da “magistratura de influência” perde o seu sentido.
Na presente situação política, quando o Governo não fizer o que o Presidente entender dever ser feito, só lhe restará convocar eleições antecipadas. Até lá, os actos de Sampaio, normalmente enquadráveis na “magistratura de influência”, terão o mesmo valor que qualquer opinião de um comentador político.
Talvez Jorge Sampaio seja um sério candidato a substituto de Marcelo Rebelo de Sousa.

Publicado por Paulo Godinho em 12:47 AM | Comentários (2)

outubro 09, 2004

O contraditório:

Estou descontente com este blogue. É verdade; não só quando escrevo ninguém me contradiz como raramente consigo contradizer aqueles que aqui escrevem, meus combloguistas!
E os leitores? que é feito da diversidade de opiniões? Porque não nos contradizem? Por que estão sempre de acordo?
A verdadeira democracia exerce-se no plano do contraditório. Há um português. Ele fala. Aparece logo outro a dizer que não concorda, que não é nada daquilo, que ele não percebe nada, etc.
Por isso, a minha ideia era tornarmo-nos estrangeiros, cada vez mais outros...
Cada um deverá exercitar o seu íntimo contraditório.
A esquizo-análise está de novo na ordem do dia. Vou começar por dar o exemplo:
Este post é mesmo mau! Quando não se tem ideias, deve-se estar mas é em silêncio. E depois, se são piadinhas de mau gosto, ao menos deveriam ser mais subtis, com alguma ironia! Não esta prosa mole, vazia, batida...

Publicado por José Rebelo em 06:41 PM | Comentários (1)

outubro 08, 2004

Cutileiro na Global Notícias


Vamos lá ver se nos entendemos. Luís Delgado o "comissário para a comunicação social" não admite vacilações. Vejam esta notícia tão pedagógica acerca do modelo adoptado pelo governo para controlar uma boa parte da comunicação social em Portugal. Não há Marcelo que resista. Isto para o Comissário Delgado é mesmo para levar a sério...e viva a democracia liberal!


"O embaixador José Cutileiro vai assumir a presidência do conselho de administração da Global Notícias, empresa da Lusomundo Media para a imprensa, em substituição de José da Silva Peneda, que apresentou a sua demissão por discordar da forma como foi nomeado Luís Delgado, presidente executivo da «holding» de comunicação social do grupo PT.


Silva Peneda pediu hoje para cessar as funções de vogal não executivo no conselho de administração da Lusomundo Media e de presidente não executivo da administração da Global Notícias.


O presidente do conselho de administração da Lusomundo Media é Miguel Horta e Costa, também presidente da comissão executiva da Portugal Telecom (PT). Horta e Costa terá como vice-presidentes, também com funções não executivas, João de Deus Pinheiro, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, e Mário Bettencourt Resendes, até agora director-geral da Lusomundo Media.


O presidente da comissão executiva tanto da Lusomundo Media como da Global Notícias será Luís Delgado, actual administrador executivo da Lusa - Agência de Notícias de Portugal."

Expresso on line



Publicado por Eduardo Graça em 09:30 PM | Comentários (1)

A Imprensa do Governo

"Da intolerável e canhestra pressão do Governo e da TVI sobre Marcelo Rebelo de Sousa já muita gente falou. Até o insuspeito Cavaco Silva. No entanto, o que agora aconteceu a Marcelo pode ser apenas a ponta de um enorme icebergue; uma consequência do formidável peso que o Governo tem na Comunicação Social e que só é comparável aos velhos tempos da imprensa nacionalizada.
Do Estado, propriamente dito, dependem a RTP e a RDP com os seus canais e ainda a agência Lusa. Do grupo da PT, que o Estado dirige através de uma famosa «golden share», já fazem parte o «Diário de Notícias», o «Jornal de Notícias», o «24 Horas» e a TSF só para citar os órgãos mais importantes. E agora, devido a propaladas negociações que envolvem a possível compra, pela PT, do grupo Media Capital (proprietário da TVI) este impressionante bloco de comunicação que, em última análise depende do Estado, ou seja de quem está no Governo, poderia ainda reforçar-se com uma televisão e várias estações de rádio.
Pode pensar-se que nada disto é importante ou significativo, mas a verdade é que o «Diário de Notícias», apesar de vender menos, faz impressionantes campanhas de «marketing», com ofertas sucessivas de produtos, próprias de quem não tem preocupações de dinheiro. Enquanto o «24 Horas» dá corpo a algo de inédito em todo o mundo: um tablóide sensacionalista que é propriedade do «grupo Estado».
Se somarmos esta impressionante presença dos poderes públicos na Comunicação Social a um Governo formado por gente canhestra, populista, alguma dela sem sensibilidade para compreender o que é a liberdade de informação, temos como resultado um panorama verdadeiramente sombrio.
Infelizmente, é o que temos."
Henrique Monteiro, in Expresso on line
Publicado por Eduardo Graça em 07:30 PM | Comentários (1)

outubro 07, 2004

Poema para Galileu

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria...
Eu sei...Eu sei...
As Margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!
Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.


Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar - que disparate, Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação -
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.


Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo de praia?


Esta era a inteligência que Deus nos deu.


Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.


Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas - parece-me que estou a vê-las - ,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai, Galileo!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo
caindo
caindo
caindo sempre,
e sempre.
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.


António Gedeão
Obra Poética
Edições João Sá da Costa
2001

Publicado por Eduardo Graça em 06:51 PM | Comentários (1)

O buraco...

Sim, o buraco, o fosso... Não, não estejam à espera de mais um comentário à política nacional. Não, não falo do rombo de MRS exerceu no actual governo e que está a ser cada vez mais alargado por outras figuras que tentam ir a reboque. O buraco em que o PR se meteu e donde não sabe como saír, talvez içado pelo dito MRS. Não. O buraco de que falo é físico; está lá, sem comentários, há n anos, desde a reconstrução do Chiado e aliás, deu conta do Largo do mesmo nome. Esse buraco é da autoria de um intocável português, chamado Siza Vieira e até agora não fez caír nenhum governo...Trata-se da entrada para o metropolitano, ali mesmo naquilo que dantes, provincianamente, liboetamente era o Largo do Chiado e que hoje está reduzido a um monumental fosso por onde a estátua do poeta se poderá atirar, numa altura em que a depressão nacional seja ainda maior...Quem sobe o Chiado, julga o poeta, à beira de um ataque de nervos, inclinado para o precipício.
Mas ninguém nem ele próprio, alguma vez , teve a coragem de se queixar!

Publicado por Marienbad em 03:16 PM | Comentários (0)

O internacionalismo islâmico

Numa interessante entrevista, Giandomenico Picco – enviado especial de Javier Perez de Cuellar, secretário-geral da ONU, às negociações com o Hezbollah, em Beirute, entre 1989 e 1992, tendo conseguido a libertação de reféns americanos, britânicos e alemães – estabelece uma importante distinção entre o terrorismo da Al-Qaeda, que designa por “terrorismo estratégico”, e o terrorismo praticado por outras organizações – ETA, IRA ou Hezbollah, por exemplo – que qualifica como “terrorismo táctico”.
Para Giandomenico Picco os dois tipos de terrorismo justificam reacções diversas inviabilizando, nomeadamente, a via da negociação quando se lida com o “terrorismo estratégico”. Segundo o diplomata, ao contrário de outras organizações com objectivos políticos precisos (terrorismo táctico), a Al-Qaeda tem um único “objectivo cósmico – a islamização de toda a gente” (terrorismo estratégico).
Infelizmente, temo que a tese de Giandomenico Picco esteja mesmo correcta...

Publicado por Paulo Godinho em 01:40 AM | Comentários (2)

outubro 06, 2004

Acabaram as "conversas em família" na TVI

Perceberam? Não perceberam?

Qual o conceito e alcance para o governo do exercício da liberdade de informação e de crítica. Calaram o Marcelo. Numa estação privada. Privada? Ninguém tem nada a ver com isso. Não é?

Os patrões da comunicação social, seus mandantes e sequazes, assassinam a liberdade todos os dias, a toda a hora, em cada minuto.

À vista de todos. Ninguém tem nada a ver com isso! Não é? Perderam a vergonha. O cortejo das suas malfeitorias é pesado. Para muitos cidadãos e para o regime democrático.

Por este andar isto vai acabar mal!


Publicado por Eduardo Graça em 07:29 PM | Comentários (4)

"Ó meus amigos..."

Tem esta mensagem um objectivo: o de anunciar que, enfim, a nobilíssima figura do Diácono dos Remédios encontrou quem a encarnasse. Foram precisos anos para que alguém, devidamente legitimado, rompesse o silêncio e ousasse apontar o dedo à razão principal para o insucesso escolar em Portugal, nomeadamente ao nível do ensino superior. É a "indústria da noite". Devemos este acto de coragem ao preclaro Reitor da Católica. E ao ouvi-lo vem-nos à memória batida como tudo era bom noutros tempos. Nos tempos em que as meninas usavam kilt e meias brancas. Nos tempos dos bailes do bairro, em que as mães se sentavam mesmo por trás das filhas e as seguiam atentamente, com o olhar, por toda a pista de dança. Nos tempos em que nenhuma menina que se prezasse entrava sózinha num café. Nos tempos em que fumar era exclusivo do sexo masculino. Lembro-me até que certo dia fui parar ao posto da polícia de Almada porque um atento sr. agente me viu dar um beijinho numa menina, ali, no jardim que fica mesmo em frente do tribunal. Justíssima e oportuníssima a atitude do sr. agente. Veio a minha mãe buscar-me, mais a mãe da menina. E no ar ficou, ao agente, a promessa de uma reprimenda.
Nessa altura sim. Os jovens deitavam-se cedinho. E cedinho se levantavam. E não esfregavam os olhos no decurso das aulas. E como eles eram bons alunos... Aliás, o mundo inteiro apreciava Portugal, pela anormal quantidade de génios que então gerava.
É óbvio que o Reitor se conteve. Não disse tudo quanto lhe ia na alma. Mas que nós, ao ouvi-lo, adivinhámos. A culpa de tudo isto é da democracia. É da falta de governantes com verdadeira dimensão de estadistas. De estadistas como Salazar.
Chama-se Manuel Braga da Cruz, o Reitor de que falamos, com um entusiasmo e uma admiração incontroláveis. Mas nada de confusões com outro universitário que tem o mesmo nome. Esse outro universitário estudou em Roma vai para quatro décadas. Conviveu de perto com o grupo do Manifesto e inscreveu-se no MES desde que regressou a Portugal. Há já bastante tempo que não sei por onde ele anda. Este, o Reitor, ainda acaba canonizado. Assim Deus e a doença de Parkinson o queiram.

Publicado por José Rebelo em 12:47 PM | Comentários (1)

outubro 03, 2004

Congresso do PS - Encerramento


As maiorias esmagadoras são más conselheiras. Vejo notícias, acerca do Congresso do PS, a realçar essas maiorias. Zapatero ganhou o Congresso do PSOE por um voto (isso mesmo, um voto). Os discursos eficazes, com mensagens perceptíveis por todos, são um bom sinal. José Sócrates é um bom comunicador. Toda a gente já o sabia. Mas o Congresso consagrou essa vantagem.

Homenagear Sousa Franco proclamando as palavras: "amigos, companheiros e camaradas", com as quais abria as suas intervenções é uma provocação, desnecessária, a Manuel Alegre. Todos os que têm a memória da resistência ao fascismo sabem que era Manuel Alegre que abria as emissões da Rádio "Voz da Liberdade", desde Argel, com as palavras: "amigos, companheiros e camaradas". Mau sinal.

A afirmação da vocação europeia do PS é um bom sinal. A criação de um "Fórum Novas Fronteiras", seja qual for o seu formato, é um sinal de abertura à sociedade civil. A marcação de uma data para a sua concretização, 29 de Janeiro de 2005, é uma marca de pragmatismo. Bons sinais. Será para lançar a candidatura de Guterres à Presidência da República?

A "simplificação" da questão da política de alianças, que transpareceu dos discursos de alguns dirigentes da maioria vencedora do Congresso, e as afirmações ideológicas de um centrismo exacerbado, explanadas por outros, são um mau sinal. Se não houver capacidade para flexibilizar os impulsos do "radicalismo centrista", emergente neste Congresso, será muito difícil ao PS obter uma maioria absoluta nas próximas eleições legislativas por erosão do seu eleitorado à esquerda. O futuro o confirmará.


Não conheço os detalhes do debate mas reparei que as moções sectoriais foram, como de costume, remetidas para a próxima reunião da Comissão Nacional. Mau sinal. Os rostos dos derrotados estavam crispados, os dos vencedores cansados (e preocupados?). Mau sinal.


Agora falta definir a política. A tradicional divisão direita/esquerda não ajuda grande coisa a essa definição. Os problemas que bloqueiam o desenvolvimento do país e a sua afirmação na Europa e no Mundo são transversais nos planos económico, social e político. Difíceis de abordar e ainda mais difíceis de verter em políticas aceitáveis pelo eleitorado tradicional da esquerda e mobilizadoras dos sectores mais dinâmicos da sociedade.


É preciso ir ao terreno, ouvir os protagonistas, chamar os melhores à mesa da discussão e formular políticas realistas, aceitáveis pelo maior número, com bom senso e bom gosto. É difícil? É simples? Em política o difícil é fazer os problemas difíceis parecerem simples.

(Este post está também disponível no absorto)


Publicado por Eduardo Graça em 05:31 PM | Comentários (2)

outubro 01, 2004

Imigração - "O Problema Mais Grave da Europa"


Está disponível no IR AO FUNDO E VOLTAR o artigo, com o título em epígrafe, publicado hoje no "Semanário Económico"

Publicado por Eduardo Graça em 06:33 PM | Comentários (0)

Lisboa – reabilitação:


Ainda não percebi qual o alcance social e urbano da nova lei das rendas. É um problema demasiado complexo, como o demonstra a prolongada ineficácia no sector. Ora, a minha expectativa é grande quanto à dinâmica que a nova lei vem criar. Tem havido um grande equívoco na forma de entender a cidade. Conservar é viver, é habitar, é intervir, é recriar. Numa cidade, as habitações só podem estar conservadas se verdadeiramente habitadas, em condições de higiene e segurança que permitam a livre circulação de pessoas e até de gerações. Habitar as casas de uma cidade é dar-lhes alma, vida, movimento. Face ao imobilismo e deterioração a que chegaram os centros urbanos, a mobilidade, essa, tem-se feito sempre num movimento centrífugo, sobrecarregando as periferias de parques habitacionais de má qualidade. E o centro vai-se esvaziando, vai-se tornando um lugar fantasmagórico, anacrónico, artificial, temático. Até o comércio de bairro, não suportado pelos seus moradores, se transforma numa animação artificial, que funciona em horário útil, como as repartições. É assim a baixa lisboeta. Estarão aí, finalmente, as efectivas medidas para reabilitar o centro urbano? Esperemos para ver…

Publicado por Marienbad em 11:35 AM | Comentários (0)