Seja verdadeira ou falsa, a notícia circula e, portanto, a questão está colocada: deve o santuário católico de Fátima acolher ou não outras religiões?
Falo de fora da Igreja, falo do lugar da laicidade, de um lugar exterior ao culto, à crença, à manifestação religiosa. Há, no entanto, um ponto de confluência, segundo me parece, entre as dimensões cultual e cultural. É que a religião católica é, antes de mais, uma herança cultural. Essa herança está lá, para o bem e para o mal. Quando se visita a velha Sé de Lisboa deparamo-nos com um lugar verdadeiramente sagrado, que foi, nas épocas mais recuadas, cadinho de outras culturas e civilizações. E isso é extremamente reconfortante. Quando pensamos na Inquisição ou na pactuação por omissão, do Papa Pio XII com a política nazi de extermínio judeu, qualquer leigo sente uma culpabilidade não pessoal mas hisórica, social.
Agora, quando as imagens que nos chegam de Fátima são as do acolhimento da diversidade: a de um sacerdote hindú cobrindo com um manto colorido o fato austero de um sacerdote católico, a da passagem do Dalaï Lama, ou ainda a da celebração ecuménica realizada por D. Policarpo em tempos de Natal, aí sim, a racionalidade fria quebra-se por uma inexplicável onda patémica. Uma emoção muito interior, muito do lado da crença, de quase felicidade se exala desse gesto de oferta e do simétrico gesto de acolhimento. Aí sim, tocamos o transcendente, no sentido do que excede, transborda e se tranforma e que está na aceitação do outro enquanto diferente, do outro enquanto Outro.
No “post” intitulado “PS: lições de uma vitória”, publicado no “Causa Nossa”, o recém-desfiliado do Partido Socialista, Vicente Jorge Silva (VJS), procura encontrar alguns argumentos adicionais para a sua decisão de abandonar a condição de militante socialista, tentando demonstrar quão mau é o PS no seu conjunto, como o prova, na opinião de VJS, a eleição de José Sócrates por uma margem tão esmagadora.
No seu “post”, VJS confessa ter sido um dos muitos que se deixaram iludir “sobre a contradição entre o corpo e a alma do partido – entre o funesto e terrível aparelho e os puros e generosos militantes”. Segundo VJS, “essa divisão é um puro produto da nossa imaginação ou das fantasias ideológicas e míticas que projectamos (como fez e insiste em fazer Manuel Alegre)”.
Com o resultado esmagador alcançado por Sócrates, terá ficado provado, para VJS, que o PS, desde os militantes aos dirigentes, não passa de “um partido em que o apelo e a nostalgia do poder e do governo, em que o chão pragmatismo dos objectivos a curto prazo (o comércio de influências e mordomias do «centrão» político) são incomparavelmente mais fortes do que qualquer paixão ideológica ou firmeza de convicções na defesa de um quadro de valores históricos da esquerda democrática”.
Em suma, todos aqueles que não cometeram o acto, de suprema coragem, de pedir a demissão do PS, como VJS, não passam de meros coniventes com muitos milhares de interesseiros (a esmagadora maioria dos militantes do PS) que apenas sonham em recuperar as mordomias próprias, num país como o nosso, de um partido que está no poder.
É pena que não tenha ocorrido a VJS uma outra possibilidade: a de que a esmagadora maioria dos militantes do PS que votaram José Sócrates o possa ter feito, não porque sonhe com as benesses que há-de receber quando o PS regressar ao poder, mas apenas por achar que, dos três candidatos em presença, Sócrates seria o mais bem colocado para afastar do poder, o mais rapidamente possível, um Governo que tem contribuído, como poucos na nossa História, para agravar significativamente as condições de vida da generalidade dos portugueses.
Vicente faz-me lembrar Arlindo, candidato presidencial que, em 1958, se não erro, apoiado pelo PCP, tentou evitar o avanço irresistível de Delgado.
Vicente faz-me lembrar Gil, fundador do teatro português, cujas peças tantas vezes representei. Vicente faz-me lembrar muita gente antes de me fazer lembrar o Vicente.
Suspeito que o episódio da saída de Vicente, o do PS, do PS não tem existência real. Ele nunca chegou a entrar. Não tem feitio para a coisa. Aliás a maioria dos militantes dos Partidos da nossa democracia parlamentar não são militantes senão da sua vida particular. E com toda a propriedade.
São militantes independentes salvo os que são funcionários. Aqui é que reside o problema do José Rebelo. Ao ser eleito deputado, o Vicente, teve de se apresentar integrado nas listas de um Partido. Fez um "contrato", pois não era militante, para conciliar a sua independência com o programa político e as regras administrativas do partido em questão.
O mal foi que se entusiasmou e aderiu ao PS. Ficou, assim, militante e deputado. Querendo por irrequietude, cálculo, convicção ou tudo isso, ao mesmo tempo, mudar de estado, das três uma: ou saía de militante e permanecia deputado; ou saía de deputado e permanecia militante, ou saía de deputado e de militante.
Ética? Estética? Sentimento? Razão? Eu por mim falo. Não sou capaz de falar por mais ninguém. Sei que o Rebelo também não. Fui o militante nº 22 do MES (encontrei o cartão um dia destes) e saí com o jantar da sua extinção no Mercado da Ribeira. (Nunca sei muito bem a data ao certo -1980?). Ingressei no PS, em 1986, na qualidade de militante, não na de deputado e espero lá ficar até ao fim. Salvo, claro, se o dito se mudar para a direita (?) ou decidir, um dia destes, por razões que a razão desconhece fazer o tal jantar. Como diz o "Sempre à Coca", "vamos para velhos, tudo nos pode acontecer".
PS: Informo ainda que uma vizinha minha, pessoa de grande qualidade humana, profissional e intelectual, com a qual discuto política numa estrutura informal, à porta de casa, acaba de me pedir a proposta de adesão e que, portanto, dentro de dias, estará colmatada a saída do Vicente. A adesão da minha vizinha, no meu ponto de vista, tem grandes vantagens em relação ao Vicente pois a personalidade em questão não aspira ser deputada e se um dia decidir sair do PS não beneficiará do estatuto de independente, mas tão simplesmente do mais nobre dos estatutos que alguém pode gozar numa sociedade civilizada: o de cidadã.
Tendo havido "quem criticasse Vicente Jorge Silva por se ter desfiliado do PS mantendo-se como deputado independente" Vital Moreira entendeu prestar os seguintes esclarecimentos (v. Causa Nossa):
1. "Vicente Jorge Silva foi eleito como independente nas listas do PS e só depois se filiou no partido, voltando agora à situação originária";
2. "Existem outros deputados independentes nas listas do PS que mantêm esse estatuto".
Parece-me que estes "esclarecimentos" passam ao lado da questão fundamental.
Não sendo constitucionalista, ouso dizer que a "independência" de um deputado independente é, em Portugal, muito relativa. Contrariamente ao que sucede em França, a lei portuguesa não permite a candidatura de independentes. Estes apresentam-se integrados nas listas de um partido o que supõe negociação. Vicente Jorge Silva não se apresentou como "independente" por um partido qualquer mas pelo PS. O PS não patrocinou uma candidatura qualquer mas sim a de um cidadão chamado Vicente Jorge Silva. Daqui decorrem compromissos para ambas as partes o que me leva a questionar a legitimidade de um discurso que poderíamos, assim, sumariamente descrever: "O partido não me interessa. A minha adesão foi um equívoco. Adeuzinho. Na Assembleia, assumirei, livremente, as posições que entender"...
Dito de outra forma. Não critico V J S por ter regressado ao anterior estatuto de independente. Reconheço toda a legitimidade na existência de outros deputados independentes eleitos em listas do PS. O que critico em V.J.S., onde não lhe reconheço legitimidade é nas razões que ele alinhou para justificar a sua dupla decisão.
Vicente Jorge Silva saíu do PS. Razão invocada pelo próprio: "Tenho demasiado respeito pelos princípios que norteiam (ou deveriam nortear) a vinculação a um partido político para continuar a representar um papel em que me sinto deslocado, exterior e, finalmente, inútil".
Tudo bem. A pessoa sente-se inútil e, portanto, sai.
Só que, dois parágrafos adiante (estou a ler uma notícia do Público) apercebo-me que o mesmo Vicente Jorge Silva permanecerá na Assembleia da República, agora como deputado independente.
Porque faz um balanço positivo da sua função enquanto parlamentar?
Não! Se a militância partidária foi, para ele "escassa ou totalmente improdutiva", a tarefa de deputado, essa, não se revelou "gratificante".
Em suma: um mesmo desencanto para diferentes ilações.
Vicente Jorge Silva avança uma dupla justificação para a sua permanência na Assembleia:
1ª "Gosto de assumir os meus compromissos até ao fim";
2ª "De facto, neste momento não tenho outra coisa que me apeteça fazer, outra coisa mais interessante".
Donde as minhas conclusões, aparentemente contraditórias:
1ª Vicente Jorge Silva não assumiu compromissos com o PS ao aderir a este partido.
2ª O seu estatuto de deputado não lhe merece o mesmo "respeito pelos princípios que norteiam a vinculação a um partido político". Só assim se compreende que, por falta de "outra coisa mais interessante", Vicente Jorge Silva aceite continuar em São Bento, embora "deslocado", "exterior" e "inútil".
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Deixo um espaço para que os meus amigos bloguistas aí inscrevam outras conclusões.
Mas aqui, como em todo o universo das ciências económicas e sociais, como dizia Keynes, no futuro estaremos todos mortos.
Este é, aliás, o tema do meu artigo a publicar, na próxima 6º feira, no "Semanário Económico".
"Projecções do Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que em 2015 haverá menos um milhão de portugueses (cerca de nove milhões), e que em 2050 a população descerá para os 7,5 milhões. A "única alternativa" para resolver o problema é a imigração, embora "provoque choques e levante problemas, nomeadamente de ordem cultural", afirma o sociólogo Leston Bandeira."
Veja o resto da notícia aqui.
“Sempre à Coca” confessa-se à beira da desistência.
A coragem vai-se mantendo e o ímpeto está menos mal. Porém, a incapacidade é grande quando se trata de tentar compreender esta coisa em que se transformou ex-Portugal, uma vez gerido por um grupo de gente desconexa injustamente acusada de “Governo”.
A “estabilidade” imposta pelo Presidente da República (a “nossa” Constituição concede ao PR o privilégio de inventar “governos” definitivos, não legitimados por eleições democráticas) mergulhou as nossas vidas num autêntico pesadelo de consequências imprevisíveis.
Ninguém acredita em ninguém. Ser português é um penoso exercício de resistência, pelo menos para os que querem sobreviver com mínima dignidade moral, social e intelectual.
A nobreza da prática política ideológica (como será possível viver sem ideias e sem ideais?) deu lugar ao poder de corredor, de vão de escada, da “Quinta dos Famosos”, da conferência de imprensa à hora de ponta, do conluio no “T-Club”, do nepotismo na “Casa do Castelo”, do compadrio no local de trabalho, do comadrio na reunião do condomínio, da cunha nos Passos Perdidos, do “pedido” num corredor do Terreiro do Paço, da “gratificação” no átrio de uma autarquia…
A honradez, a solidariedade, a competência, o mérito, a tolerância, a lealdade…já foram. Tudo isso são coisas de tansos, líricos, velhos e similares!
Quem elegeu Lopes ou Portas (o Paulo)? Quem escolheu Bagão ou Álvaro Barreto? Quem votou em Telmo Correia ou Nobre Guedes? Quem sancionou Bustorff ou Aguiar Branco?
A democracia portuguesa atravessa um grave período de abastardamento. O “manobrismo” partidário e a desconfiança instalaram-se, como não há memória, entre as várias instâncias de poder e os diversos órgãos de soberania.
À “estabilidade” anunciada pelo Presidente da República, sobrepôs-se o caos criado por um “Governo” de gente desarticulada, cujos elementos intrigam, se contradizem e desmentem diariamente, perante a incredulidade dos portugueses.
Será possível prolongar esta desesperante agonia por muito mais tempo?
“Sempre à Coca” está convicto de que o Presidente da República não dorme. O cidadão (pelo menos esse!) Jorge Sampaio deve ser, nesta altura da sua exemplar existência, a personificação do remorso. Oxalá actue a tempo e conforme a legitimidade que democraticamente lhe foi conferida pelos portugueses. Não há nada pior do que viver com remorsos.
SUPER ABÉBIA DE PLATINA para o realizador de cinema norte-americano Michael Moore, por ser capaz de narrar factos com rigor e ironia. Quem não aprecia a verdade considera Michael Moore “demagogo”. Viva o “demagogo” Moore!
No mesmo dia em que se inicia a votação que irá conduzir à escolha do novo líder socialista, o PS surge, mais uma vez, claramente destacado nas intenções de voto dos portugueses. Segundo o Barómetro DN/TSF/Marktest, o Partido Socialista encontra-se próximo da maioria absoluta, suplantando em cerca de 10% o conjunto da votação dos dois partidos da actual coligação governamental (46% contra 36,1% - 34,5% para o PSD e 1,6% para o PP).
Os dados desta e de outras sondagens poderão levar a futura direcção socialista a pensar serem “favas contadas” uma eventual disputa eleitoral contra os actuais responsáveis governamentais. Apesar dos números, a cautela parece-me ser a atitude correcta a adoptar pelos novos dirigentes do PS. As sondagens feitas a uma distância considerável dos actos eleitorais tendem a ser enganosas. E Pedro Santana Lopes é um especialista em confrontos eleitorais.
O discurso do primeiro-ministro na Assembleia-Geral das Nações Unidas foi sintomático da subtileza com que Santana Lopes se consegue progressivamente aproximar das posições do seu eleitorado potencial, atingindo o auge dessa proximidade no momento de ir às urnas. Sem alterar um milímetro a política do Governo português, Santana conseguiu distanciar-se da posição oficial norte-americana em relação ao Iraque – impopular em todo o mundo salvo, provavelmente, nos próprios Estados Unidos –, assumir o discurso politicamente correcto da defesa das Nações Unidas como pilar fundamental na regulação dos conflitos internacionais e piscar o olho ao eleitorado com preocupações ambientais, salientando a importância do Protocolo de Quioto para o nosso futuro.
Sem qualquer tipo de mudanças políticas – a GNR continuará no Iraque, eventualmente até por mais tempo do que o já previsto; os Estados Unidos continuarão a comandar a política iraquiana, permanecendo as Nações Unidas num papel claramente secundário; o Protocolo de Quioto manter-se-á em “banho maria”, pelo menos enquanto George W. Bush for Presidente dos Estados Unidos – Pedro Santana Lopes vai produzindo declarações que ajudam a criar as condições psicológicas para que parte do seu eleitorado potencial possa progressivamente regressar à intenção de voto no PSD.
Voltemos ao FÓRUM BARCELONA 2004! Novas propostas urbanísticas que configuram novas cidadanias foram apresentadas na exposição “Cidades-Esquinas”. Do manifesto exibido na exposição ressaltam alguns pontos:
Em primeiro lugar, a ideia de confluência: “1. O ângulo é a geometria elementar da urbanidade. É intersecção e vértice. E são as esquinas construídas que materializam acordos e contrastes entre edifícios, actividades e movimentos.”
Depois, uma perspectiva recticular de cidade: “4. A multiplicação de esquinas forma a cidade. A cidade é a rede de esquinas: espaço articulado para facilitar a intersecção de pessoas e actividades.”
Segue-se a pluralidade de culturas: “6. A urbanidade – diversidade cultural – não é uma questão de concentração ou dispersão. É uma questão de interdependência. É uma questão de densidade de esquinas.”
Ainda a diversidade urbana: “9. Contra a proliferação dos parques temáticos; contra as urbanizações 'exclusivas'; contra os bairros dormitórios e os distritos de escritórios; contra os subúrbios infinitos: as virtudes da intersecção e, inclusive, da promiscuidade, enquanto objectivos de qualquer projecto de cidade.”
Por último, “10. Por um urbanismo de ambiguidade, surpresa e mistura: mais e mais esquinas!”
Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.
Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.
Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em "grande parva, que ele há tanto homem!"
(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?..)
Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairros
que passa fomeca mas não perde proa e parlapié...
Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?
Não é viver.
É arte, lazeira, briol, poesia pura!
Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme...)
com gerações perdidas.
Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!
E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...
Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p'ra morrer?
Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés,
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!
Les portugueux...
não pensam noutra coisa
senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
nos pintores, nas aflitas,
no tojé, na grana, no tempero,
nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
... sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes...
Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!
*
Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...
Alexandre O´Neill
Poesias Completas
1951/1981
Biblioteca de Autores Portugueses
Imprensa Nacional Casa da Moeda
Primeiro porque os exércitos são maioritariamente constituídos por soldados rasos. Depois porque os exércitos aquartelados, salvo os dos impérios, não servem para nada senão para consumir os recursos públicos.
Além do mais os professores não são um contingente de soldados rasos, são uma elite da Nação. Não estou a ser irónico. Seja qual for o sentido da opinião pública acerca dos professores eles são um corpo de elite.
Os episódios do calapso do processo da sua colocação nas escolas servem à desvalorização do ensino público. Expõem perante a opinião pública um grupo profissional (de elite) humilhado e uma administração desorientada.
A quem serve o desprestígio do ensino público? E a humilhação dos professores? A quem serve, afinal, a destruição do ensino público? Os acasos são demasiados. Os discursos são demasiadamente coincidentes:
Utilizador/pagador! Utilizador/pagador! Utilizador/pagador!
Está em debate, no Instituto de Ciências Sociais, a temática: "Cidade, Cidadão, Cidadania". Para Villaverde Cabral, o “efeito-cidade”, como uma maior consciência e participação cívica, teria tendência a revelar-se mais consolidado nos grandes centros urbanos. A cidadania como consciência cívica e política é resultado do viver na cidade, tese contrária ao do americano Robert Putnam, que considera haver efeitos nefastos das grandes periferias urbanas e das fragmenmtações suburbanas. Se é verdade que a cidadania e por conseguinte a consciência dessa pertença é facultada pelo próprio espaço urbano, também se torna incontornável a crise que a cidade atravessa nos seus limites sustentáveis o que acarreta uma consequente crise de cidadania. Robert Putnam é o introdutor do conceito de “capital social”, adoptado na sociologia, e também da sua própria revisão. Quer isto dizer que a sua tese de que existe uma “long civic generation” está a ser por ele revista através da verificação de um desgaste cívico nesse capital social, o que é preocupante.
Aguardemos pelas conclusões da investigação para vermos esclarecidos os tópicos do inquérito e perceber a disparidade de tendências.
A manchete do "Expresso", de hoje, é um caso exemplar. O calapso da abertura do ano lectivo precisava de ser explicada e justificada. Assim surgem dois responsáves como "bodes expiatórios". Apresentados pelos nomes. Nomeados pelo Governo socialista. Sugere-se que em 1996.
As informações acerca dos "bodes expiatórios" são vagas e os mesmos não se pronunciaram. Algumas dessas informações posso afiançar que são, pelo menos, inexactas.
Mas mesmo dando de barato que correspondessem à verdade, qual a razão do colapso só ter ocorrido em 2004? A explicação parece fácil. O processo de centralização da "colocação dos professores" foi desencadeao por iniciativa do governo de Durão Barroso em funções desde a primavera de 2002. A condução do mesmo coube ao ex-Secretário de Estado Abílio Morgado que surge no corpo da notícia, mas não surge na manchete.
Mas para que os "bodes expiatórios" não possam fugir às suas responsabilidades ainda se acrescenta à notícia o rumor de conspiração. Os cidadãos já podem ficar descansados. Já foram encontrados os responsáveis pelo colapso. Tudo afinal foi devido a uma sabotagem! Certamente, obra de socialistas e comunistas! Haja Deus!
"Atrasos e erros na abertura das aulas
Rolam cabeças na Educação
A ministra Carmo Seabra vai exonerar altos quadros do Ministério até ao final do mês
A DIRECTORA-GERAL dos Recursos da Educação e o responsável pelos serviços de informática do Ministério - Joana Orvalho e Fernando Correia - vão ser afastados até ao final do mês, na sequência dos erros e atrasos no concurso de professores que, entre outros embaraços políticos, levaram ao adiamento da abertura do ano lectivo em 54% das escolas do país. A substituição destes quadros - que exercem funções desde os anos 90 e foram nomeados pelo Governo de António Guterres - já está em curso. A ministra Carmo Seabra aguarda só oportunidade política e a acalmia nas escolas para os exonerar." (Expresso).
Uma pequena reportagem da última Visão lembra um quadro lisboeta absolutamente votado ao esquecimento: a rua do bacalhau, que, contrariamente ao que se imagina, não coincide com a Rua dos Bacalhoeiros, mas situa-se antes na Rua do Arsenal. Pois essa rua tem um sortilégio que para muitos pode querer dizer simplesmente atraso. Entre a Praça do Município e o Cais do Sodré, a Rua do Arsenal, topónimo já inscrito na topologia literária portuguesa, por Bernardo Soares entre outros, é uma rua espantosa! E o espanto vem-lhe precisamente desse comércio arcaico, que subsiste nos nossos dias, ainda que reduzidamente: a venda de bacalhau seco, cortado, esquartejado, dividido, aproveitado até à medula (neste caso às tripas, que fazem as delícias dos nipónicos). Temos, porém, inscrita na memória colectiva do olfacto o intenso odor que este peixe seco exala. Pois é: a Rua do Arsenal possui uma atmosfera densa que alia o famoso cheiro a bacalhau com o de certas especiarias também ali vendidas em antigas mercearias, que ainda exibem sacos de serapilheira alinhados, com varidades de leguminosas secas, intercalando com açafrão, caril, chás e outras ervas secas. A Rua do Arsenal é, por isso, um lugar raro, exótico mesmo, só equivalente aos mercados afro-indianos do Martim Moniz, por exemplo. Passear na rua do Arsenal é viajar pelo mundo, numa globalização avant-la-lettre, que hoje, curiosamente, incomoda mais do que deslumbra. Porque o cheiro é o tabú das nossas culturas asseptizadas. O cheiro está do lado oculto do corpo, visível mas não cheirável. A cultura ocidental votou o odor ao encobrimento através, nomeadamente, da indústria do perfume, sobretudo a partir da França do século XVIII. Como recordarão aqueles que leram o Perfume, de Patrick Suskind as cidades fediam. Putrefacção, decomposição, emanação de múltiplos odores dos corpos, humanos como animais, tal era a atmosfera das cidades. O perfume é a sublimação do cheiro. A cultura contemporânea relega o odor natural para o plano do recalcado, do obs-ceno, fora de cena. Embalados, desinfectados, hermeticamente fechados, os produtos que circulam entre nós estão desprovidos da capacidade de despertarem sensações olfactivas. O humano torna-se cada vez mais alérgico à variedade dos odores, inodoro. A Rua do Arsenal é hoje, para o mais requintado snob, um lugar infecto, disgusting! A paleta dos odores limita-se aos odores sublimados. Se, como intui Suskind, o aroma é a alma do sujeito, então descobrimos nos aromas a paleta das almas que nos rodeiam.
No que diz respeito às opções políticas interrogo-me acerca da ultra-centralização do processo de "colocação de professores". O caminho da centralização parece-me um profundo contra-senso num mundo que se transforma, a passos de gigante, com as novas tecnologias de informação.
Porque razão não se adoptou um modelo de compromisso entre a necessária imposição de um conjunto de regras, pré-definidas pela administração central, e a liberdade de escolha, por cada escola, dos seus professores ?
Não será mais vantajoso, tendo em vista promover uma maior eficácia do sistema escolar, que os professores sejam, predominantemente, residentes em regiões próximas das escolas onde exercem o seu ministério?
Não será mais vantajoso para todos os protagonistas do processo educativo que os professores, que também são cidadãos e pais, mantenham o máximo de estabilidade familiar e emocional?
Algo de monstruoso se consumou neste processo de colocação de professores. Retirem-se as conclusões e as consequências! Não se trata de penalizar, pura e simplesmente, os responsáveis políticos e técnicos. Trata-se de mudar o conceito e o modelo de gestão na selecção, formação e colocação dos professores do ensino público até ao final do secundário.
Se a educação tem sido proclamada por todos os responsáveis políticos, incluindo o PR, como a prioridade das prioridades políticas do país o colapso do arranque deste ano lectivo é um caso da maior gravidade.
Entretanto o ex-ministro da Educação, David Justino, actual deputado, absteve-se de intervir, acerca deste problema, no debate parlamentar que hoje. Comentários para quê....
Quem já leu o Público de hoje e tem a possibilidade de escrever num blog sente-se implicado. É que Pacheco Pereira adianta uma série de argumentos a favor de um reforço do espaço público que está a acontecer com e na blogosfera, que ele designa por "media-esfera" dado o enriquecimento do sistema mediático. Por isso, hiperautores da blogosfera, ao trabalho!
Porquê? Desde o início, como cidadão, sempre me interroguei acerca dos fundamentos, políticos e técnicos, da centralização do processo de colocação dos professores.
Se sempre se proclamam as vantagens da descentralização e deslocalização dos serviços públicos, incluindo uma Secretaria de Estado da Educação, qual a razão para não atribuir ás escolas uma fatia significativa da responsabilidade do processo de selecção e colocação dos professores?
Mistérios da descentralização!
Acerca da polémica das "taxas moderadoras" na saúde.
Eu próprio o apliquei nos programas de "Turismo Sénior" e "Saúde e Termalismo Sénior", organizados e geridos pelo INATEL. Falo dessa experiência de gestão porque a conheço bem. Ela foi, aliás, auditada e fiscalizada por muitas entidades (públicas e privadas) e estudada como um "caso de sucesso". (Há um estudo muito interessante intitulado "Estudo do Impacto Sócio Económico dos Programas de "Turismo Sénior" e "Saúde e Termalismo Sénior" em Portugal" que não encontro disponível na net.)
A minha experiência diz-me que a "diferenciação positiva" é aplicável e eficaz, na atribuição de pensões, abonos ou outros benefícios. Ou seja, quando o Estado paga aos cidadãos aquilo a que se compromete. O Estado, quando actualiza o valor das pensões, assume favorecer, por exemplo, os pensionistas dos escalões de rendimento mais baixos em desfavor dos de escalões de rendimento mais elevados. Até aqui tudo bem. Mas quando se trata de fixar impostos, taxas ou o preço de um serviço prestado pelo Estado aos cidadãos o caso muda de figura.
Certamente no que respeita aos serviços públicos não essenciais, como, por exemplo, na área do turismo, os cidadãos são livres de aderir e o Estado é livre de fixar os preços. Trata-se de um verdadeiro preço e não de uma taxa. Tudo bem. Não é, obviamente, o caso dos serviços públicos de saúde. Aí o cidadão tem direitos consagrados constitucionalmente. O acesso ao serviço público de saúde é universal e, tendencialmente, gratuito. É o que está consagrado na Constituição. O que a Constituição fez foi consagrar uma conquista própria do estado de bem-estar ou estado social. Consagração, aliás, tardia no nosso país.
Não se trata, pois, de uma bizarria igualitária que alguns iluminados esquerdistas de Abril resolveram colocar na Constituição. Não se trata sequer de uma maldosa artimanha para dificultar a vida dos grupos privados que operam na área da saúde. Trata-se da consagração de uma conquista social própria de um estado moderno sito na Europa Ocidental e plenamente integrado na UE.
Mas o grande problema da aplicação da "diferenciação positiva" na área da, ou em qualquer outra, não está só na lei Fundamental. Está, desde logo, na credibilidade das declarações dos rendimentos de cada cidadão. Toda a gente sabe que, em Portugal, a credibilidade dessas declarações tende para zero. Mesmo em programas em áreas de serviço público não essenciais o risco do acesso indevido ao benefício está sempre presente. Os portugueses não praticam uma cultura da solidariedade no que respeita às obrigações fiscais. O Estado não assegura, por outro lado, a equidade fiscal.
Não é possível aferir o verdadeiro nível de rendimentos dos cidadãos através das declarações do IRS, nem é possível aferir os verdadeiros resultados das empresas, através das declarações do IRC, e por aí fora…. Por isso, para a definição dos escalões de rendimento, nos programas de "Turismo Sénior", eram exigidas as declarações do rendimento das pensões, emitidas pelos serviços da segurança social. Só a título supletivo se exigiam declarações de IRS. Sempre achei que seria desastroso aferir o rendimento, para a determinação do preço a pagar, pelos rendimentos declarados em sede de IRS. No caso daqueles programas foi possível restringir as injustiças porque o "público-alvo" se confina aos cidadãos com 60 anos, ou mais, na sua esmagadora maioria pensionistas.
Se em Portugal existisse equidade fiscal a polémica das "taxas moderadoras" nunca chegaria a existir. Nem se colocaria a necessidade de adoptar o modelo da "diferenciação positiva". O orçamento de estado seria suficiente para assegurar o regular funcionamento de um serviço público de saúde satisfatório. Todos os cidadãos poderiam escolher, em conformidade com o seu poder de compra e com o exercício livre da sua vontade individual, por um serviço público ou privado de saúde. Todas as tentativas para criar preços ou taxas diferenciadas, conforme os rendimentos dos cidadãos, têm, pois, o seu "calcanhar de aquiles" no sistema fiscal iníquo que existe em Portugal.
Estabelecer a "diferenciação positiva" no preço a pagar no acesso aos cuidados de saúde sem cuidar de assegurar que todos os cidadãos e empresas paguem impostos, (em particular os mais poderosos) será introduzir mais um factor de injustiça social. É puro populismo proclamar que, com esta medida, se pretendem beneficiar os pobres. É o lema dos maoistas ao contrário: "os pobres que paguem a crise". Pois são, de facto, os pobres e os remediados que pagam impostos.
Os ricos, em Portugal, por um lado, não pagam impostos e, por outro, não acrescentariam um cêntimo à receita do sistema público de saúde porque não o frequentam. Com a chamada "diferenciação positiva" das "taxas moderadoras" os ricos ficariam sempre a ganhar e os pobres sempre a perder.
Vital Moreira, em Causa Nossa, refere uma questão que diz respeito à sociedade civil e não tem, entre nós, qualquer expressão. Trata-se da existência de lugares públicos não religiosos para o exercício de certas cerimónias. Como assinala VM, “os não crentes têm direito a exéquias não religiosas em espaços civis”. Acrescentaríamos actos como o casamento civil ou o registo de nascimento. O recurso sistemático a espaços religiosos não só se torna ambíguo por parte daqueles que o fazem, porque misturam senão confundem, as suas convicções cívicas com as religiosas, como, e mais importante até, remete o Estado para compromissos que não deve nem tem de assumir. Num estado laico, tais cerimónias deveriam ser dignificadas e realizadas na sua laicidade, integrando o regime de actos civis formais. O exemplo da França vem a propósito. As câmaras e/ou juntas de freguesia dispõem de um salão nobre e de um espaço funerário onde estes actos têm lugar, concedendo-lhes toda a dignidade. Se a história poderá explicar estas zonas de ambiguidade entre um Estado que se diz laico e a Igreja, a opinião pública deveria, no entanto, fazer pressão para que tal distinção se fizesse.
A notícia é espantosa e aqui fica como sugestão para o próximo Presidente da Câmara de Lisboa: “O arquitecto alemão Helmut Jahn, autor da Praça Sony na Potsdamer Platz em Berlim, desenhou um edifício para os sem-abrigo e dependentes da assistência social em Chicago, cidade onde vive”.
Para além da política levada a cabo pela Câmara de Chicago no alojamento dos sem-abrigo há a ressaltar a própria perspectiva urbanista deste arquitecto que vai no sentido de "mostrar a importância dos projectos bem concebidos na criação de comunidades saudáveis", como ele próprio afirma. É que não se trata mais da construção de alojamentos de renda económica, remetidos para as periferias urbanas, que depressa se transformam em guetos e passam a ser cancros urbanos. A arquitectura e o urbanismo são modos de actuação no tecido urbano com a finalidade de operar modificações no próprio tecido social. De outra forma, transformam-se em medidas decorativas ou, o que é pior, segregacionistas.
Aqui fica uma ideia para as tão faladas Torres de Alcântara!
Poema numa esquina de Paris
Dezenas e dezenas de pessoas passam ininterruptamente ao longo do passeio.
Umas para lá.
Outras para cá.
Umas para cá.
Outras para lá.
Mas cada uma que passa
tem de fazer na esquina um pequeno rodeio
para não se esbarrar com o par que aí se abraça.
Olhos cerrados, lábios juntos e ardentes,
tentam matar a inesgotável sede.
Através dos seus corpos transparentes
lê-se na esquina da parede:
DANS CETTE PLACE A ÉTÉ TUÉ
MAURICE DUPRÉ
HÉROS DE A RÉSISTENCE.
VIVE LA FRANCE
António Gedeão, in Linhas de Força - 1967
O segundo não tem a ver com um livro, que também descobri, mas com um detalhe da minha visita à campa de Salvador Allende que descrevi num post editado no absorto. O motorista chileno que me acompanhava é que pediu, comovido, para levar, nas suas mãos, as flores. Assim fez a reconciliação da sua consciência com o passado o que, provavelmente, nunca teria pensado fazer.
O terceiro é um desejo. Apesar do frio que nos percorre o corpo e a alma pelo horror dos atentados terroristas, sejam quais forem as vitimas, os alvos e os autores. Apesar de todas as condenações. Apesar de todas as palavras. Apesar de todas as acções militares. Tenho a convicção que o melhor contributo para o combate ao terrorismo é a derrota de Bush nas próximas eleições americanas.
Há exactamente três anos todos os que vivem no chamado mundo ocidental – e em particular nos Estados Unidos da América – foram brutalmente despertos para o que o extremismo islâmico seria capaz de fazer na sua campanha contra o Ocidente. O ataque às torres gémeas do World Trade Center de Nova Iorque, com as suas quase três mil vítimas, foi o momento marcante a partir do qual fomos obrigados a rever a nossa forma de olhar o mundo e a repensar o lugar que nele nos cabe.
Pretensamente legitimado por esses ataques, George W. Bush desencadeou duas guerras, uma primeira contra o Afeganistão – aceite pela generalidade da comunidade internacional – e uma segunda contra o Iraque, em que o 11 de Setembro foi um dos vários falsos pretextos a que recorreu para a justificar. Entretanto, manteve o apoio, mais ou menos discreto, a Ariel Sharon, no conflito israelo-palestiniano, contribuindo para não resolver – e até reforçar – aquela que é a principal fonte de legitimação do fundamentalismo islâmico.
As páginas da História destes três anos ficam manchadas por inúmeras marcas de sangue, desde o atentado em Bali ao 11 de Março em Madrid, passando pelo ataque às instalações das Nações Unidas em Bagdade, que vitimou Sérgio Vieira de Melo, ou pela morte de mais de cem espectadores, em conjunto com os seus sequestradores, num teatro de Moscovo, quando as forças russas decidiram intervir. Uma intervenção que teve uma repetição recente, ainda mais trágica, após o ignóbil sequestro de uma escola na Ossétia do Norte que culminou com um número indeterminado de mortes, mas próximo do meio milhar, das quais metade serão crianças. Com menos visibilidade nas páginas dos nossos jornais e nas imagens das nossas televisões estão muitos outros milhares de mortos, grande parte deles entre as populações civis afegãs e iraquianas, vítimas de ataques com bombas pretensamente “inteligentes”, ou palestinianos que tiveram o “azar” de estar no sítio errado, à hora errada, quando se deu mais um dos vários “assassinatos selectivos”.
Há apenas dois dias a embaixada australiana em Jacarta foi parcialmente destruída por um atentado bombista e continua a desconhecer-se a sorte, no Iraque, de dois jornalistas franceses e de duas jovens italianas que trabalhavam para uma organização humanitária. Nos Estados Unidos, em plena campanha para a sua reeleição – que espantosamente poderá vir a alcançar – George W. Bush vai afirmando que hoje o mundo é um lugar mais seguro...
""Van Gogh impressionado por um pensamento de Renan : "Morrer para si próprio, realizar grandes coisas, atingir a nobreza e ultrapassar a vulgaridade em que se arrasta a existência de quase todos os indivíduos.""
"Se continuarmos a amar sinceramente o que é verdadeiramente digno de amor e se não desperdiçarmos o nosso amor em coisas insignificantes e nulas e pálidas, conseguiremos obter pouco a pouco mais luz e tornarmo-nos mais fortes."
"Se nos aperfeiçoarmos numa só coisa e se a compreendermos bem, adquiriremos por acréscimo a compreensão e o conhecimento de muitas outras coisas."
"Sou uma espécie de fiel, dentro da minha infidelidade."
"Se faço paisagens, elas revelarão sempre sinais de figuras."
Cita a frase de Doré: "Tenho uma paciência de boi."
(...) O mau gosto dos grandes artistas: iguala Millet e Rembrandt.
"Creio cada vez mais que não devemos estabelecer um juízo sobre Deus a partir deste mundo, que não é senão um esboço que lhe saiu mal."
"Posso decerto, na vida e também na pintura, passar sem Deus, mas o que não posso, eu sofredor, é passar sem qualquer coisa que é maior do que eu, que é a minha vida, o poder de criar."
A longa procura de Van Gogh errando, até aos 27 anos, antes de encontrar o seu caminho e de descobrir que é pintor."
In Caderno n.º 4 (Janeiro de 1942/Setembro de 1945) - Cadernos II, Albert Camus (Edições Livros do Brasil)
Foi realizada uma investigação científica em bioética, que tem como objecto de estudo o nascimento prematuro de crianças no Hospital Amadora-Sintra, refere o Público on-line. Desse estudo ressalta um mundo de horrores que este governo, a reboque do Ministro da Defesa, teima em esconder. A virtude daqueles que se afirmam contra a despenalização do aborto (porque é de despenalização de uma prática que se trata e não de concordar ou não com ela) esgota-se na cegueira hipócrita às consequências da não legalização. E quais são essas consequências? O estudo refere algumas, por exemplo, o uso de fármacos que provocam reacções abortivas como efeitos secundários:
«"há um número crescente de grávidas que fazem um uso tardio do fármaco, por vezes depois das 24 semanas de gestação (seis meses), não tendo noção da viabilidade daquele feto". O misoprostol isolado é pouco eficaz no primeiro trimestre da gravidez, com expulsão do feto em apenas 9 a 20 por cento dos casos. Nos segundo e terceiros trimestres é mais fácil induzir o parto”, refere. Como se trata de gravidezes não vigiadas, muitas mulheres ignoram quando ficaram grávidas. "Não percebem que "não vão expulsar um embrião mas um feto vivo e viável. Para estas mães o nascimento de um filho vivo é uma surpresa com a qual têm grande dificuldade em lidar", salienta. "Estas mulheres acabam por ficar com uma criança viva cheia de problemas de saúde", por vezes "sequelas neurológicas, como a paralisia cerebral"». Abortos vivos, é disso que se trata. Juntem este dado ao do abandono de recém-nascidos nas maternidades e deparamo-nos com o recalcado desses discursos pseudo-éticos, virtuosos por ingénuidade ou por hipocrisia. É que ter da humanidade uma ideia idealista dispensa de lutar contra as suas fraquezas. Ora o humano não é um super-humano, é, isso sim, “demasiado humano”. É aí que as questões políticas se colocam e nos interpelam.
Àqueles para quem Bertolucci foi tema estival, aqui fica um comentário ao seu último filme, The Dreamers, 2003:
François Truffaut diceva:"avere un'idea sul cinema significa avere un'idea sul mondo". La frase vale per The Dreamers, ultimo film del nostro più grande e famoso cineasta vivente, quel Bernardo Bertolucci che ci regala forse il più bell'atto d'amore della sua carriera. Un atto d'amore verso il cinema, verso la Parigi dei cineclub, della Nouvelle Vague e del Maggio, verso il '68 con tutte le sue illusioni, le sue amarezze, i suoi sognatori, appunto. Tutto questo senza nostalgie, con la consapevolezza di aver vissuto in prima persona quegli indimenticabili anni così turbolenti ed affascinanti da farci un film.
Como con-vive a cidade com o seu lixo? O lixo tem, antropologicamente falando, um estatuto híbrido. Nem sujeito/sub jecto nem objecto/ob-jecto, o lixo entra nessa característica fluída poque ambígua de de/jecto, aquilo que excede e nessa excedência se queda no limiar, entre dois territórios, entre duas categorias. Assim, limpar a casa é pôr o lixo à porta. De portas para fora, o espaço deixa de pertencer ao sujeito; o passeio é, para muitos cidadãos, um lugar fronteiriço, zona de depósito, de dejecto, de descarga do próprio, zona im-própria, portanto.
As cidades do Sul lidam de uma forma mais anárquica, diríamos, ou patémica com os detritos que produzem. O entulho, o cheiro que dele se exala, o amontoado de detritos espalhado pelas ruas e becos, de Nápoles como de Lisboa, demonstram essa não identificação da rua como um espaço colectivo próprio, no duplo sentido que o termo ganha em francês, apropriado e limpo. O próprio aliás, é sempre o resultado de um trabalho de apropriação e limpeza, sendo o sujo impróprio, mas também não-próprio. Resta entender que a rua não é um não-lugar, para usar a terminologia de Marc Augé, mas sim um espaço de vivência colectiva e, nesse sentido, deve estar limpo, organizado. Há uma experiência de vida em comum que é necessário fortalecer. Pintar a casa, deitar o lixo nos caixotes, não estacionar em cima dos passeios, não vandalizar as plantas no jardim, as estátuas nos parques, os candeeiros na rua são comportamentos que relevam de uma consciência de cidadania. Aprender a anular essa dicotomia entre interior e exterior, dentro e fora de casa, é uma aprendizagem lenta e à qual não se atribuíu ainda a importância cívica que ela merece.
Em As cidades invisíveis, Italo Calvino dá-nos essa antevisão apocalíptica do lixo que acabará por deglutir as nossas cidades, ao descrever Leónia:
“A cidade de Leónia refaz-se a si própria cada dia que passa:/…/
“Nos passeios, embrulhados em rígidos sacos de plástico, os restos de Leónia de ontem esperam o carro do lixo. Não só tubos de pasta dentífrica bem apertados, lâmpadas fundidas, jornais, contentores, restos de embalagens, mas também esquentadores, enciclopédias, pianos, serviços de porcelana: mais do que as coisas que dia a dia são fabricadas vendidas compradas, a opulência de Leónia mede-se pelas coisas que dia a dia se deitam fora para dar lugar a novas. De tal modo que há quem se interrogue se a verdadeira paixão de Leónia é realmente como dizem o gozar as coisas novas e diferentes, ou antes o rejeitar, o afastar de si, o limpar-se de uma constante impureza.
“/…/É uma fortaleza de resíduos indestrutíveis que rodeia Leónia, que a domina de todos os lados como um maciço de montanhas.
“Os confins entre as cidades estranhas e inimigas são bastiões infectos em que os detritos de ambas se escoram uns aos outros, se sobrepõem e misturam.”
Lisboa, Teorema, pp. 115, 116
Cada vez mais se impõe saber, tomar consciência do circuito que percorre um produto desde a sua criação até à mão do consumidor. Claro que certas campanhas foram já levadas a cabo no sentido de boicotar a aquisição de determinados produtos fabricados em determinadas partes do mundo. Situar as grandes marcas internacionais e desencadear acções de boicote aos seus produtos, como foi o caso com a Nike fabricando na Indonésia, são acções que podem resultar desde que a causa que as move seja apelativa, no caso tratava-se da dependência de Timor à Indonésia. Mas este tipo de acções é sempre restrito a um caso e determinado no tempo.
No entanto, começa a desenhar-se outra figura de controle do circuito da produção por parte dos consumidores designada por “comércio justo”. Um símbolo mundial pode vir a catalogar os produtos que respeitaram, desde a produção ao consumo, as regras elementares de justiça social. Começam a aparecer lojas no país onde se vendem produtos nestas condições, que, ao que parece, não chegam ao consumidor a preços excessivos. Por isso, há que passar a estar atento, há que começar a exigir a garantia internacional de um comércio justo, uma óptima medida a ser aprovada pela União europeia. Ou estaremos a falar de utopias? Há ONGs que se ocupam desta questão, como seja a francesa Max Havelaar, que propõe algumas acções muito simples:
À pergunta: que posso eu fazer? Responde:
-prefira os produtos com o label “comércio justo”;
-sensibilize os que o rodeiam, fazendo-os provar os produtos;
-introduza o “comércio justo” no seu local de trabalho;
-veja se consegue que a sua cidade se mobilize na introdução do “comércio justo”.
Em Portugal, organizações como o CIDAC e a OIKOS têm levado a cabo acções de sensibilização neste domínio.
A minha sugestão é a seguinte: passar a oferecer aos amigos produtos com essa garantia.
Aqui ficam entre outras moradas a explorar:
Loja de Comércio Justo - Ecos do Sul - Loja do mundo , sita ao Largo Cristóvão da Gama, nº 6 - A, na Damaia , 2720 Amadora (Tel. - 214767750 ; Fax - 214741447).
Loja do Comércio Justo – Associação Reviravolta, Rua Santos Pousada – Central Shopping, 4º piso / loja 211 / 4000-478 Porto
Ou então procurar em: Comércio justo
Quando me referi a Van Gogh (Vincent) não estava a brincar. O morticínio na Rússia lembrou-me, de novo, a sua vida e obra.
Ele pintou muito em pouco tempo. Em vida não vendeu quase nada. A sua obra não era popular.
Mas Van Gogh também escreveu. Fiquem, por agora, com uma biografia de Van Gogh. Muitas estão disponíveis em livro e também em variados sites.
As citações ficam para depois.
A recente vaga terrorista, de que são exemplos concomitantes os dois jornalistas franceses raptados no Iraque, as crianças russas e suas famílias sequestradas por terroristas tchetchenos e o assassinato de nepaleses, mostra o papel avassalador que o terrorismo vem desempenhando nas nossas sociedades contemporâneas. A guerra convencional tem tendência a deslocar-se para micro-teatros de violência que desafiam convenções internacionais, direitos humanos, negociações diplomáticas, etc. A violência que caracteriza estas tomadas de posição por parte de grupos mais ou menos autónomos é uma violência gratuita, sem rodeios nem limites dado que ela infringe o limiar de toda negociação que é a salvaguarda da vida humana. O que a proliferação das redes aos mais diversos níveis provoca nas nossas sociedades é justamente uma mise-en-cause do valor da vida como singularidade, dos princípios individualistas (levados às últimas consequências) que as sociedades ocidentais foram desenvolvendo. O paroxismo com que nos debatemos é justamente esse: face ao individualismo mais exacerbado a anulação do respeito pela vida humana na sua singularidade própria.
Ora a globalização instaura um sistema complexo de redes “paralelas” e paralelas à "rede financeira global" (como lhe chama Manuel Castels) que actuam e adquirem poder intervencional. São elas as redes terroristas, as redes da droga, as redes do tráfego humano, as redes pedófilas, estruturas secretas, mais ou menos clandestinas, espécie de bolsas de actuação disseminadas no sistema, que assolam o social e se cruzam entre si formando uma espécie de hiper-rede com as redes económicas, comunicacionais, políticas, etc. Todas estas redes se inscrevem na rede informacional e beneficiam desta. O universo da comunicação global gerou um deslizamento de conexões infinitas por natureza incontroláveis. O fundamentalismo islâmico, por exemplo, evidencia o obscurantismo mais medievalista aliado ao tecnologismo de ponta, com fins político-económicos determinados (vide, segundo M. Moore, a aliança Bin-Laden/George Bush).
Na verdade, as tecnologias da informação, ao darem azo à proliferação de redes, instauraram por arrastamento, um outro fenómeno que se prende com o lugar do sujeito nessas mesmas redes. O que acontece, é que a rede não entra na categoria de objecto instrumental, no sentido em que não pode mais ser definida como prótese, uma vez que esta, por definição, garante a identidade do sujeito, o que é posto em causa pelas tecnologias digitais que abalam fortemente o lugar identitário dos sujeitos a elas “sujeitos”. A rede captura ou expulsa os sujeitos das suas malhas, tornando-se num agente determinante da própria constituição/desconstrução da identidade. A rede está sempre já lá, são os sujeitos que ora estão ligados, ora desligados. E, nessa medida, ela cria inclusões e exclusões, como os lados positivo e negativo das capturas, de modo a perverter ou inverter as dominações.
A sociedade actual faz prevalecer a rede sobre os lugares. M. Serres, teorizando sobre as redes, constata "a existência de um poder como nunca se viu em nenhuma outra sociedade”, poder que, afirma, “mas não sendo de natureza material, não consigo imaginar que contra-poder se poderá levantar contra ele”.
Ora, esta prevalência significaria não só, a morte do político (em Les enjeux du virtuel, 2001, J.-P. Esquenazi propõe-se demonstrar que a lógica da rede destrói o sistema político das nossas democracias contemporâneas), como ainda, parece-me, a diluição do sujeito enquanto mónada. No entender deste autor, a única possibilidade de não se dar a diluição do sujeito será através da ancoragem das redes aos lugares, ao corpo, que poderíamos traduzir por uma referencialidade das redes (fenómeno que se verifica, por exemplo, na revificação do espaço público). A estratégia de desenvolvimento de uma acção directa no social, ancorando os corpos aos lugares, fortalecendo o local no global, não sujeita a uma lógica binária de aceitação/exclusão é, parece-me, uma solução possível. O marco histórico que se instaura como resposta à globalização é justamente a manifestação, ela também global, contra a guerra do Iraque, a 15 de Fevereiro de 2003, onde uma massa mundial se insurge incorporando e encorpando uma manifestação mundial contra a prepotência americana.
Isto significa ainda que o sistema informacional actual, ao proceder ao apagamento do sujeito, não abole contudo o real que se impõe como retorno. As redes virtuais têm incidências no que chamaríamos o mundo real, assim como a tomada de posição presencial dos sujeitos tem uma força e uma incidência nas redes que poderá vir a fortalecer-se. Não estamos pois na descorporalização do corpo como suplemento ou num devir incorporal do sujeito. Estamos antes perante a carne des-subjectivada, esse grau zero do corpo que sofre, receia, experiencia a dor indizível porque a mais profunda marca da sua natureza de carne. É aí, na ameaça mais gratuita de morte ao corpo que a rede despedaça o real.
Este texto pretende lançar um debate que, penso, se impõe na actualidade.
A partir do post "Carocho" elaborei o artigo, hoje publicado no "Semanário Económico", que intitulei "Informação e conversas de café".
O assunto veio-me à lembrança, em férias, pelo facto de andar com a leitura dos jornais atrasada uma semana. Do género de ainda não ter lido a entrevista com o Dr. Salvado mas já ter lido a entrevista do Eng.º Sócrates.
Este desfasamento temporal faz-me temer que esteja mal preparado para a "rentrée" já que as minhas preocupações, aquelas mesmo que me preocupam, estão desfasadas das manchetes dos tablóides, incluindo o "Expresso".
Isto preocupa-me pois só me aconteceu, a sério, uma vez na vida e, na época em que aconteceu, não haviam tablóides.
Quando eu era adolescente lia, sem preconceitos ideológicos, na biblioteca de uma "Sociedade" da cidade de Faro, de fio a pavio, todos os jornais, desde o "Diário da Manhã", ao "Novidades" a acabar no "República". Era nessa altura que eu andava desfasado.
Tinha, à época, um amigo, muito chegado, que era o "Carocho" - um homem de todas as vidas. Não é gato, não. É mesmo homem.
O "Carocho" sabia tudo. Tinha todas as informações possíveis e imaginárias. E eu, nada. Ele descrevia, com requinte, os factos, das fontes dele, e eu ficava com cara de parvo. Desde os "Ballets Roses", passando pelas manigâncias do "Champas", até aos escândalos da terra, ele sabia tudo.
E eu desfasado, só sabia das informações que vinham na comunicação social que, como é sabido, não correspondiam nada à realidade. É claro que, à época, havia a censura.
Mas eu acreditava que, mesmo assim, devia andar a par das notícias. De tal maneira me actualizava que andava sempre ao lado da realidade verdadeira.
É mais ou menos como agora. Não há censura. Mas o resultado é o mesmo.
A diferença é que agora são as autoridades que não acreditam nas notícias. De que elas próprias são as fontes. O lápis azul foi substituído pelo "não se pode perturbar o inquérito" ou "não se pode descredibilizar a investigação" ou pelo...esquecimento.
A Justiça e a investigação criminal, em Portugal, desceram ao nível da "conversa de café". A justiça ameaça "cair na rua" (se não caiu já!) mas não podemos aceitar que arraste na sua queda a liberdade, em particular a liberdade de informação, de critica e de protesto contra a injustiça, pois isso significaria uma intolerável cedência aos arautos da tirania.
O meu amigo "Carocho", exímio conversador de café, seria o primeiro a assinalar a extrema gravidade desta situação pois ele prezava, acima de tudo, a liberdade de expressão, de crítica e de protesto.
Ele sabia, em suma, como o exercício responsável da liberdade e a aplicação, justa e eficaz, da justiça são a chama que alimenta a auto-estima das sociedades, a estabilidade das instituições e o desenvolvimento das economias.
Ele também era indiferente às notícias que vinham na comunicação social mas era porque tinha acesso às verdadeiras. E não era do CM nem da PIDE.
Que falta me faz o meu amigo "Carocho"!
Paulo Portas tem o mar por destino, o que lhe reforça a portugalidade. Ele já foi o Prestige, que, como se sabe, com a intervenção da Nª Sª de Fátima livrou Portugal do espesso crude que nos ameaçava. Depois seguiu-se aquele episódio surpreendente, em que PP foi bafejado pelos destinos marítimos, in extremis, no acto da sua tomada de posse. O mar tornou-se então para o nosso Ministro da Defesa uma questão de honra, de desígnio. Uma questão transcendente mesmo. Não lhe faltava senão esta invasão das águas territoriais nacionais por ondas de Mulheres (Women on waves)! Aí vai então o nosso ministro, de vento em popa, defender o território marítimo, mas também os mais altos princípios morais da vida, em abstracto (que no concreto aguentam as mulheres).
Valha-nos S. Bartolomeu!
A oposição de José Pacheco Pereira, militante do PSD, à indigitação de Pedro Santana Lopes para primeiro-ministro teve o enorme mérito de nos devolver o José Pacheco Pereira, analista político, em toda a sua plenitude. Não se pode deixar de saudar a forma descomprometida, inteligente, arguta e séria como o “regressado” Pacheco Pereira aborda, no “Público” de hoje, a polémica em torno do chamado “barco do aborto”.
Sem dar razão a ninguém e sem entrar no cerne da questão – a despenalização do aborto – Pacheco Pereira analisa o comportamento das diversas partes envolvidas, salientando, nomeadamente, os riscos para o Governo de um comportamento marcado pelo “estilo PP”.
Um artigo cuja leitura se recomenda.
Post Scriptum: Não resisto a esta. O P.R. diz que vai pedir esclarecimentos ao governo sobre o "barco do aborto". O P.M. diz que informou de tudo com antecedência e que estranha que o P.R. divulgue com antecipação a agenda dos encontros de quinta-feira. Estranha-me a mim que tenham começado tão cedo os diferendos no seio do governo Sampaio-Lopes-Portas... Afinal, para que serve a estabilidade?!?!