julho 30, 2004

CITAÇÕES -1 *

“Sempre à Coca” está de férias. Porém, sempre à coca! Para não perder a mão (na escrita, parar é falecer), seguem junto umas quantas citações plenas de conteúdo, profundidade e nobreza de “carácter”.

“Não vou desistir no Governo, tal como não desisti na oposição, enquanto não fizer de Portugal um País avançado”.
Durão Barroso, 11/03/2002

“Aquilo que está em causa em 17 de Março é saber se o governo deve ser de quatro meses ou de quatro anos”.
Durão Barroso, 15/03/2002

“Mais importante do que qualquer partido é Portugal (…) Portugal pode contar comigo”.
Durão Barroso 15/03/2002

“Pelo meu lado, farei tudo o que estiver ao meu alcance para dar a Portugal uma situação de estabilidade e de segurança”.
Durão Barroso, 17/03/2002

“O desafio é dizer as coisas certas nos momentos adequados”.
José Sócrates, há alguns meses, quando aguardava o “momento adequado”.

“O desafio é não dizer coisas desadequadas nos momentos incertos”.
José Sócrates, algures em 2008, quando desistir de ser Primeiro-Ministro.

* Citações para fazer inveja ao meu amigo e destacado frequentador de “Abébia Vadia” Eduardo Graça.

ABÉBIA “apesar de tudo ainda há gente séria”, para o eterno, lúcido e singular lutador Manuel Alegre.
ABÉBIA “ando a dormir mal porque não tenho a consciência tranquila”, para Jorge Sampaio, PR de Portugal democraticamente eleito pela maioria dos portugueses que nele acreditaram.

Publicado por Sempre à coca em 12:25 AM | Comentários (1)

julho 29, 2004

Proposta de despesa construtiva

Em tempos, discutiu-se muito a introdução no sistema constitucional português da "moção de censura construtiva", através da qual um partido que apresentasse uma moção de censura ao Governo seria simultaneamente obrigado a apresentar uma proposta de Governo alternativo ao que queria demitir.
Talvez inspirado no modelo da "moção de censura construtiva", Santana Lopes aproveitou o debate do programa de Governo para fazer o seguinte desafio aos partidos da oposição: sempre que propuserem uma medida que aumente a despesa pública deverão propor também uma nova fonte de receita que permita pagar essa medida; sempre que propuserem uma medida que implique uma redução de receitas deverão propor também um corte concreto na despesa pública.
Embora a minha proposta não encaixe perfeitamente no modelo avançado por Santana Lopes, inspira-se, pelo menos, na mesma filosofia. É aquilo a que se pode chamar uma "proposta de despesa construtiva".
Com o objectivo de reduzir ao mínimo a possibilidade de continuarmos a ser confrontados regularmente com o espectáculo dantesco de ver o nosso património natural a arder, perante o terror das populações e a relativa impotência dos bombeiros, proponho que sejam adquiridos todos os meios necessários ao combate aos incêndios e à sua prevenção em tempo útil, recorrendo às verbas previstas para pagar os submarinos do ministro Paulo Portas.
Como até a NATO não considera prioritária a aquisição por Portugal dos ditos submarinos, assumo claramente a preferência de ter uns quantos marinheiros em terra em lugar de um país queimado e pintado de negro, de Valença do Minho a Vila Real de Santo António.

Publicado por Paulo Godinho em 11:53 PM | Comentários (0)

E, nós?

O arquitecto Saraiva, director do Expresso, cita o Dr. João César das Neves. O autor acusa os cidadãos de cinismo afirmando: o "cinismo do auditório" é a razão de todos os males do país.
Para os ideólogos e publicistas da direita os governos são bons por natureza (desde que sejam de direita). Para eles os cidadãos não se olham ao espelho antes de criticarem os governos da direita. Para eles se os cidadãos são "maus" como podem exigir governos "bons"? Talvez mudar de povo!
Pela parte que me toca cumpro com todas as obrigações indicadas pelo arquitecto, com excepção de "dar sangue" (não sou capaz, pronto!), pelo que julgo estar em condições de criticar os governos todos e, em particular, os governos de direita.
Obrigado, arquitecto! Fico, assim, de consciência tranquila.
Vejam aqui, na íntegra, a prosa do arquitecto. "O principal perigo para a democracia não está na qualidade dos actores mas no cinismo do auditório", escreve João César das Neves no "DN", criticando os ataques feitos a este Governo ainda antes de começar a governar.
Acompanho-o na crítica. Os portugueses são muito exigentes em relação aos outros - a começar pelo Governo - mas serão igualmente exigentes em relação a si próprios?
Todos criticamos os ministros, as suas fraquezas, os seus erros, a sua incompetência. Mas será que cada um de nós é isento de erros e inteiramente competente naquilo que faz? Admitamos que os governantes são maus governantes; mas nós seremos bons cidadãos?
Cumprimos as nossas obrigações? Respeitamos os limites de velocidade nas estradas e auto-estradas e os sinais de trânsito? Declaramos escrupulosamente ao fisco tudo o que ganhamos e não fazemos nenhuma tentativa para pagar menos impostos?
Votamos nas várias eleições? Não deitamos papeis para o chão na via pública, nem despejamos os cinzeiros do carro na rua, nem cuspimos nos passeios?
Preocupamo-nos em colocar o papel, as garrafas e as embalagens nos contentores próprios, para facilitar a selecção do lixo? Damos sangue?
Há países em que os cidadãos começam por ser exigentes em relação a si próprios antes de criticarem o Governo. Em Portugal sucede exactamente o contrário: começamos a criticar o Governo antes de cumprirmos as nossas obrigações de cidadania. É evidente que aqueles países estão muito mais à frente do que nós. (Expresso on line)


Publicado por Eduardo Graça em 01:55 PM | Comentários (1)

julho 27, 2004

O post-moderno: Portugal a arder


Fogo em Penafiel, fogo em Monchique, fogo na Arrábida, Labaredas a lamber a terra, as casas. Falta de meios humanos e aéreos. A madeira a crepitar. Calor. Vegetação única; mediterrânica, única na Europa, única no mundo. Mão criminosa? Pergunta o repórter a instigar à resposta, tornando fait-divers o que é estrutural. As labaredas em cima das casas. O rebentamento de uma botija de gás. Calor. O incêndio alastra, agora em Monchique, agora na Arrábida, o silvo, o uivo das chamas quando lambem a terra, o horror é o barulho, não o calor. O calor sim, mas aquele silvo, a voragem do vento que se não fosse em chamas era tornado. O betão não arde, Portugal a betão: O que não ardeu no ano passado arde este ano, diz o rapaz à repórter, com ar assustado, horrorizado. A repórter a insinuar: foi fogo posto ? Reduzindo à contingência um problema esssencial. A labareda lambendo a terra que por não ser de betão ainda arde. Para o ano não vai arder, o betão não arde e não haverá mais nada para arder, o fumo a cortar a vista, a entrar pela garganta, num ápice.
O silvo das chamas do inferno dantesco. Preferem o inferno de Dante ao dilúvio de Noé? Porque não se apaga o fogo com o degelo? O icebergue que faz subir o volume das águas. A costa a diminuir e o fogo a comer a terra, a floresta, numa voragem de vento, a madeira a crepitar, o estrondo – uma explosão de botija de gás. Não há meios aéreos suficientes. Os submarinos do Portas para a defesa nacional? Ah! Ah! E o país a arder. Mão criminosa; a polícia judiciária já está a investigar. É incontrolável neste momento. Esperam-se reacendimentos durante a noite. Não há meios humanos. A tropa não apaga incêndios defende a NAÇÃO!
O degelo, porque não a água do degelo? Onde ela falta, onde há demais… Mão criminosa? Transformando o estrutural no acidental, Dante em Noé. As chamas, o cheiro irrespirável. A asfixiar. O terrível dos incêndios é a asfixia, não o silvo, não, as chamas, labaredas enormes, gigantescas, dantescas. Mão criminosa? Tudo aponta para fogo posto. Portugal em betão, o plano para o futuro que não arde, já não há para arder. O que não ardeu no ano passado arde este ano!
- Olha o meu post que assim não é lido, foi o fogo, saltam todos rebentam, o silvo, a voragem da labareda.
O pior é o fumo na garganta, não, o silvo, o ruído que vem por trás da serra. Olha o meu post também não é lido. É o fogo, o posto, incendiário. O fim do mundo.
O fogo dantesco, a encher o post d’Azul, do José Rebelo, do Nuno Marques, há muito espaço para arder.
Mão criminosa? A polícia judiciária, contactada? A devolver em policial o que é estrutural. Não há políticas de ambiente. Náo há meios aéreos. A tropa cá fora a patrulhar? Está, não está? As labaredas mais altas. O estouro seco da madeira a arder. Não há água. Nunca haverá água suficiente onde há fogo. O betão arde? Portugal a betão, então! O degelo, a comer a costa.
O INTERIOR A ARDER. A VORAGEM DA LABAREDA DANTESCA A LAMBER A TERRA NUMA DESOLAÇÃO DE CINZA.
Fogo posto? Basta um animal, coelho entontecido a fugir em chamas. E o/a repórter a transformar o destino em fait-divers. Metade vítimas, metade criminosos,
- Olha o meu post a ser comido pelas chamas. Não faz mal, este é pel’Azul, este pelo Rebelo, este pelo Nuno.
A terra a arder, a doer. A Grécia solidária. Com 40s graus à sombra a mandar meios aéreos. É que o Cannader caíu à margem. Acidente? Sim acidente. Espera um reboque. Não houve vítimas. O socorrente socorrido. Portugal a arder o post a lamber posts. O crepitar. Não, o uivar do fogo é mais dantesco que o próprio calor em brasa. Só o ruído, não as chamas, mas o fumo que cega, o fumo que, pela garganta abaixo, impede a respiração que no entanto é vital. As políticas de ambiente? A reforma do sistema de combate a incêndios? Portugal de betão não arde. A protecção civil? Fogo posto? Pergunta a repórter simplificando a narrativa. A terra em chamas. Não, eram as bombas dos antigos combatentes! Mas essas rebentaram todas no ano passado!
As labaredas por dentro das casas. Não havia gente no interior. O governo a tomar medidas só em Junho. O degelo, o icebergue avançando e não se poder abafar as chamas com tanto gelo que derrete!
- Fogo posto? Madeireiros? Não, a madeira que sobrou do último ano está ainda amontoada, combustível para este ano! A defesa nacional precisa de submarinos!
- Outra vez? Não estará a repetir-se? (é à Lobo Antunes, que querem!)
- O raio do post que não acaba! - Mas não faz mal, são férias, ninguém lê. E depois Portugal a arder é a própria concretização do inferno de Dante, ao vivo, sem efeitos especiais. Nós todos no betão; é que o betão não arde.
- Já li isto lá em cima e estás a estragar o blogue, com tanta repetição. - Mas ‘tá tudo de férias! Ninguém lê isto. E depois os posts d’Azul? Do Rebelo? Do Nuno? Estou no espaço que eles não ocupam, e não há tempo de antena! E se todo o telejornal é ocupado pelos incêndios…
Arrábida, vegetação única. A serra em cinza. Em Monchique chegou às casas de habitação, o gado está a morrer. Penafiel, freguesia de Regadas, que nem o nome a salvou! O betão não arde? Quem disse? E preferem então o degelo, do aquecimento global?
- Quando acabas com esta m…? - É que não sei acabar. Os incêndios não estão extintos, há reacendimentos: mão criminosa. Qualquer coelho incendiado leva as chamas, em chamas de um lado para o outro e é impossível controlar….
Se Portugal em betão, nada disto acontecia. Ou preferem Noé? Ou Dante ou Noé. Não, S. Paulo apocalíptico. A civilização. Portugal a arder. A serra de Sintra também, que pensam? Um fogozito aqui, outro acolá, de pequenas dimensões, mão criminosa, já se vê, comenta a jornalista. Para o ano não há mais. Onde era um pinheiro é eucalípto. O papel. Mas agora é tudo virtual! As fábricas de celulose, já se sabe. Eucaliptais é como o betão. Quer dizer, é o que está a dar. E depois o papel, sempre se gasta. O papel no terceiro mundo, os incêndios no terceiro mundo. Não há meios humanos. Os bombeiros em herois, sem carros: - Estamos a combater este incêndio rural com um carro urbano. - Muito bem! Mão criminosa? - Não posso adiantar, o caso está entregue à judiciária.
- Quando é que isto acaba? Alastra. Pega-se de um lado para o outro. O ribombar do rebentamento da botija. Os festejos das freguesias, os foguetes a seguir aos incêndios, alternando, o fogo das romarias difere do fogo posto, porque o primeiro diverte toda a gente. Mas também pega. A cana caída, ainda acesa: - começou lá atrás naquela moita. - Não senhora, não foi posto, caíu alí, está a perceber? Era de artifício, não era posto. - Mão criminosa? - Não, era o rapaz filho do Presidente da Junta, que andou a ajudar à festa e agora lançou os foguetes. Acidente? Incidente? Não, estrutural. Não tem remédio. Quais políticas de ambiente? Qual ambiente? A labareda a varrer num ápice o que era floresta. Centenária, mediterrânica, única na Europa!
- Sim senhora, acaba aqui, mas já ninguém mais vai ler este blogue. O fogo, as chamas. Ouçam bem: as labaredas dantescas que não são só calor! E o silvo? O estrondo assustador? O uivo? A voragem da terra lambida pelo fogo! Em cinza, tudo em cinza…O silêncio queimado do carvão-tição.

Publicado por Marienbad em 03:38 PM | Comentários (2)

De novo o genocídio: Darfur / Sudão

Periodicamente a humanidade rasga esse seu nome. Comemos os filhos da nossa espécie, como se a biodiversidade das plantinhas fosse mais crucial do que as mulheres e homens de outras etnias, credos, saberes. Acontece de novo em Darfur, perante a nossa passividade criminosa. Não vamos aqui dizer o que outros disseram melhor do que nós poderíamos fazer. Vejam Nunca mais! na Rua da Judiaria; no Aviz, Darfur, a raiva que nos dá é um dos textos sobre o problema; Darfur, no Avatares de um desejo. A uma escala mais global, veja-se o sítio Darfur Genocide e o blogue Sudan: The Passion of the Present. Passem a palavra, falem disto a um amigo, agitem as águas paradas - porque estamos todos a morrer cada dia. Quem puder, que escreva algo mais reflectido do que isto...
Publicado por Porfírio Silva em 11:48 AM | Comentários (0)

julho 26, 2004

Incêndios

Hoje e nos próximos dias o calor será intenso. Os incêncios ressurgiram em força. Muitos e graves. Parece que não há responsáveis políticos para responder pela situação.

Lembram-se dos planos, projectos e medidas anunciados pelo governo? Marcelo Rebelo de Sousa, na sua prédica dominical de hoje, disse que não se pode responsabilizar o governo! Mas este governo não assume os compromissos do anterior?

Onde estão as tropas do Dr. Portas? Onde foram chamados a participar os beneficiários do "Rendimento Social de Inserção"? Onde está a coordenação? Onde estão os meios? Afinal para que serve o governo se não está presente e não dá a cara? A questão dos incêndios não é uma questão essencial de segurança nacional? Não é uma questão económica e social relevante?

Os próximos dias vão ser de calor intenso. Ninguém pode garantir que não haja um agravamento da situação. O governo actual foi empossado e está a exercer funções. Não é um governo virtual.

Ninguém, de boa fé e de perfeito juízo, deseja calamidades púbicas e os incêndios não são bons para fazer "números" mediáticos. Mas o governo que apareça. Como foi executado o plano nacional de prevenção? Que meios e que recursos humanos e materiais foram mobilizados?

Não deixe a responsabilidade pela tragédia dos incêndios para o calor, os incendiáros e os bombeiros.

Publicado por Eduardo Graça em 12:29 AM | Comentários (0)

julho 23, 2004

Citações-16

Hoje José Manuel Barroso foi eleito "Presidente da EU". Os Europeus que se cuidem. A experiência imediatamente anterior de Barroso é de infidelidade aos compromissos.

Deixou o governo de Portugal a Santana que, por sua vez, deixou a Câmara Municipal de Lisboa a Carmona. Na hora de fazer as contas, pela pequena amostra da CML, já se percebeu que, afinal, temos "buraco".

Os incautos ficam espantados. Quem havia de dizer! Vamos esperar, preocupados, pelo resultado final desta operação nacional de "branqueamento de responsabilidades".


Entretanto vejam se conseguem encaixar estas duas citações no contexto.

"C. que procura seduzir, que dá demais a toda a gente e nunca cumpre. Que tem necessidade de adquirir, de conquistar o amor e a amizade e que é incapaz de uma coisa e outra. Bela figura de romance e lamentável imagem de amigo."

"A respeito de um mesmo assunto, não pensamos pela manhã da mesma forma que à noite. Mas onde está a verdade, no pensamento nocturno ou no espírito do meio dia? Duas respostas, duas raças de homens."


Albert Camus, in Cadernos, "Caderno n.º 2 (Setembro de 1937/Abril de 1939) - Edição Livros do Brasil

Publicado por Eduardo Graça em 12:24 AM | Comentários (3)

julho 22, 2004

Homens de todo o mundo, uni-vos!

Tenho de reconhecer: desde ontem, Luís Filipe Pereira, o ex-novo ministro da Saúde, passou a ser um dos meus ídolos.
Quando, há umas semanas, Luís Filipe Pereira avançou com a possibilidade de se criarem quotas para homens nos cursos de medicina, devido à predominância feminina nessa área, foi duramente criticado por uns e olhado com desdém por outros – entre os quais eu próprio – por considerarem uma aberração a hipótese que formulou.
Neste momento, tenho de afirmar, com toda a frontalidade, que o meu juízo sobre o ex-novo ministro da Saúde estava completamente errado. Luís Filipe Pereira revelou uma visão, sobre a forma perigosa como as mulheres estão a ocupar o espaço tradicional dos homens, que apenas ontem se revelou com toda a nitidez e em toda a sua dimensão.
Todos sabemos que raramente um homem empossado em funções governativas, seja como ministro ou secretário de Estado, consegue cumprir essas funções de forma satisfatória, chegando ao fim do seu mandato com saldo positivo. Já se suspeitava que as mulheres, apesar de presentes em menor número nessas mesmas funções, poderiam estar a alcançar resultados médios superiores aos dos homens. Não se suspeitava era de que a diferença já tivesse chegado ao ponto de algumas mulheres conseguirem desempenhar de forma competente funções governativas em três pastas distintas, quando os homens raramente o conseguem em apenas uma.
A notícia de que Teresa Caeiro, ex-secretária de Estado da Segurança Social no Governo de Durão Barroso, esteve apontada, com um intervalo de poucos horas, para funções tão diversas como secretária de Estado adjunta do ministro da Defesa e dos Antigos Combatentes e secretária de Estado das Artes e Espectáculos, revelou-nos, em toda a sua dimensão, a tragédia que se está a abater sobre o sexo masculino.
Enquanto nós, homens, temos imensas dificuldades em desempenhar com competência funções num Governo, mesmo quando trabalhamos na área da nossa especialidade, algumas mulheres, como Teresa Caeiro, conseguem calmamente assumir responsabilidades em áreas tão distintas como a Segurança Social, a Defesa ou a Cultura.
Nós, homens, já sabíamos estar condenados a ser sempre em menor número do que as mulheres, por desígnios estabelecidos pela própria natureza, de forma claramente discriminatória. Não sonhávamos era vir a ser sujeitos à vexatória confrontação com o nível da nossa própria incompetência, quando comparada com a de mulheres como Teresa Caeiro.
Mas não podemos desistir! Se nos empenharmos, se lutarmos, conseguiremos evitar ser marginalizados na sociedade do futuro. Propondo, desde já, Luís Filipe Pereira para nosso líder, lanço daqui o desafio a todos aqueles que, como eu, fazem parte do "novo sexo fraco": Homens de todo o mundo, uni-vos!

Publicado por Paulo Godinho em 01:00 PM | Comentários (2)

O regresso dos Marretas

Lembram-se dos Marretas? Não aqueles bonecos cheios de graça, mas dois galãs da RTP que apareciam frente a frente ao domingo à noite? Pois é. Vão regressar às câmaras, mas já não como comentadores políticos. O protagonismo que a televisão empresta é capitalizado e deslocado para outras funções. É assim na terra onde os “big brothers” preenchem o maior índice de audiências. Os Marretas vão agora dominar a vida política portuguesa, tão populares quanto o foram na televisão. O país transformou-se num imenso espectáculo (triste, é certo)!. Futebol, media e política. Os lugares são intermutáveis. O curriculum político faz-se pelo futebol e/ou pelos écrans de tv. Aliás, o próprio primeiro ministro indigitado, antes de o ser já o tinha sido, na tv, com Artur Albarran. Falta a este último uma pastinha qualquer… a Secretaria de Estado das Obras Públicas, porque não? Passamos de uma democracia representativa à representação da democracia. Os sujeitos políticos confundem-se com as estrelas televisivas.
O voto do cidadão é, na actual estrutura política, dispensável, porque a legitimação se produz no espectáculo público, perante as câmaras, tal como o fez Paulo Portas que deslocou para um canal privado a sua defesa pública no caso Moderna. E resulta. A câmara televisiva não é o grande olho que vigia, como o pensava Orwell (para bem dele, não viu onde se podia chegar); a câmara televisiva provoca no público o “efeito medusa”, a petrificação daqueles que a olham. O poder exerce-se hoje menos pela vigilância, mais pelo efeito anestésico do espectáculo massmediático.
Por isso, daqui para a frente, será vê-los, aos Marretas, nas érretêpêssiquestêvêíís desempenhando o papel de condutores do país, quer no poder, quer na oposição, sempre em diálogo. Elegante.
Publicado por Marienbad em 08:28 AM | Comentários (1)

Citações-15

As trapalhadas do governo Santana Lopes começam na sua própria formação. Constrangedor. O PR empossa em silêncio da mesma forma que, em silêncio, ouviu as atoardas de Alberto João Jardim e, logo depois, os seus elogios.

Será que no Conselho de Estado, o PR, na presença do dito, lhe "puxou as orelhas"? Aposto que não. O PR deixou, no dia 9 de Julho, cair a sua autoridade. Tudo o que se passou, diante dos seus olhos, e sob a sua responsabilidade, nas tomadas de posse, é um exemplo flagrante de falta de autoridade.

É um detalhe do caos que se desenha no horizonte e avivam-se, na minha memória, as citações, radicais e desencantadas, de Camus acerca da política.

"A política e o destino dos homens são organizados por homens sem ideal e sem grandeza. Aqueles que têm uma grandeza neles próprios não se ocupam de política. Assim em todas as coisas. Mas trata-se de criar agora em si próprio um novo homem. Seria preciso que os homens de acção fossem também homens de ideal e poetas industriais. Trata-se de viver os próprios sonhos - de os pôr em movimento. Outrora, renunciávamos ou perdíamo-nos. É necessário não nos perdermos e não renunciarmos."
(Dezembro de 37)


Albert Camus, in Cadernos, "Caderno n.º 2 (Setembro de 1937/Abril de 1939) - Edição Livros do Brasil

Publicado por Eduardo Graça em 12:10 AM | Comentários (0)

julho 21, 2004

E se Durão Barroso não fosse eleito?

Durão Barroso vai sujeitar-se amanhã à votação do Parlamento Europeu, na sua caminhada para Presidente da Comissão Europeia. Apesar de a votação ser realizada por voto secreto, a eleição do ex-primeiro-ministro português parece ter todas as condições para vir a ser pacífica, graças aos acordos, mais ou menos públicos, entre os grandes grupos políticos do Parlamento Europeu.
Contudo, no passado, já houve outros exemplos de eleições semelhantes em que o candidato que parecia ter a eleição garantida acabou "chumbado". Em Outubro de 1981, quando a Aliança Democrática detinha a maioria absoluta no parlamento português, foi acordado entre os partidos da coligação maioritária que o novo Presidente da Assembleia da República seria Oliveira Dias, deputado pelo CDS. Para grande espanto de muitos deputados, quando os votos da primeira votação foram contados, concluiu-se que Oliveira Dias não reunira o número suficiente de votos para ser eleito, apesar de ser apoiado teoricamente por todos os deputados da AD. Como a não eleição, numa primeira votação, não inviabilizava a candidatura, Oliveira Dias acabou mesmo por ser eleito mas ainda hoje reina algum mistério em redor dos motivos que terão levado à sua não eleição à primeira.
Com Durão Barroso não deverá acontecer uma surpresa deste tipo. Mas, a acontecer, seria apenas o culminar de um período de quarenta dias em que Portugal foi sujeito a uma pequena revolução democrática. Há pouco mais de um mês, Durão Barroso era o primeiro-ministro e líder do PSD, Ferro Rodrigues o líder da oposição, Santana Lopes o presidente da câmara municipal de Lisboa, Carmona Rodrigues o ministro das Obras Públicas e António Vitorino o candidato português a Presidente da Comissão Europeia. Hoje, Santana Lopes é o primeiro-ministro e líder do PSD, José Sócrates o provável futuro líder da oposição, Carmona Rodrigues o presidente da câmara municipal de Lisboa, António Mexia o ministro das Obras Públicas e Durão Barroso o candidato português a Presidente da Comissão Europeia.
Para fechar o rol das mudanças de nomes e de cargos, só faltava que Durão Barroso – o principal responsável por esta situação – acabasse a sua incursão europeia como deputado do PSD na Assembleia da República, batendo-se galhardamente na defesa do Governo do seu amigo Santana Lopes.

Publicado por Paulo Godinho em 01:35 AM | Comentários (6)

julho 20, 2004

Citações-14

A propósito da renúncia de Ferro Rodrigues ao cargo de secretário geral do PS têm sido proferidas opiniões sem fim. Mesmo a direita continua a abordar o tema com uma ganância aparentemente despropositada. Lá terão as suas razões.

O director do Expresso escreveu um texto ignóbil, ou decrépito, acompanhado de uma foto propositadamente descuidada. A abordagem do percurso de Ferro, num trabalho "de fundo", publicado na "Única", seguia o mesmo caminho não tanto no texto mas na escolha das fotos.

Esta voragem para destruir a imagem pública de Ferro é, como todos já entenderam, parte de uma estratégia de fundo da direita. Começou, porventura, ainda antes de Ferro ter ascendido à liderança do PS.

No dia 9 de Julho, de um só golpe, o PR consagrou essa estratégia. Mas a direita não parece estar saciada com o sucesso da operação "destruição de Ferro". O assumido combate ideológico da direita, dirigido pelo PP, é aniquilar a esquerda, fazendo dela uma oposição colaboracionista com os seus objectivos estratégicos.

A direita, dirigida pelo PP, quer o poder absoluto. Ferro era um obstáculo a essa estratégia. Sócrates, se se deixar aprisionar pela "política espectáculo", talvez lhes sirva. Só tempo o dirá.

Mas, por outro lado, em política, os que renunciam nem sempre são os perdedores.

"Ir até ao fim, não é apenas resistir mas também não resistir"

Albert Camus, in Cadernos, "Caderno n.º 1 (Maio de 1935/Setembro de 1937) - Edição Livros do Brasil

Publicado por Eduardo Graça em 12:49 PM | Comentários (0)

julho 19, 2004

Portugal a ares!

A primeira operação publicitária de Santana será algo do género: “Passe as férias em Portugal, país onde se respira o melhor e mais elegante ambiente!”.
Portugal vai ficar à frente da Europa em matéria de ambiente! Mas que bom ambiente que vamos ter! Para ministro do ambiente, dificilmente a esquerda arranjaria um nome para competir com Nobre Guedes! Porque Nobre Guedes, já de si, tem muito bom ar, que lhe vem aliás de família, e da frequência seleccionada da melhor atmosfera da Linha. É que ele só frequenta sítios arejados, onde se respira o melhor ar em Portugal. Por exemplo, os campos de golfe. Haverá sítio menos poluído, com ar mais puro que um campo de golfe? O ambiente que lá se respira não podia ser melhor! Você pecebe? Agora não me venham dizer que ele só entende de leis, porque ambiente ou se tem desde pequenino ou nunca mais é possível adquirir o ar, a pureza, a linhagem (nobre, claro). Daí, naturalmente, ele dar-se aqueles ares.
Aqui vai, portanto, uma Abébia de oxigénio para todos aqueles para quem o ar se vai tornando cada vez mais irrespirável.

Publicado por Marienbad em 11:20 PM | Comentários (3)

julho 18, 2004

Citações-13

O governo de Pedro Santana Lopes tomou posse. Horas de discursos, cumprimentos ... o costume. Sabemos que muitos dos ministros dispensados nem sequer tiveram direito a um cartão de agradecimentos. Foram simplesmente esquecidos.

No novo governo o PP ganha poder. O PSD perde poder. No governo a direita reforça posições, tomando o ministério das finanças, e os dirigentes políticos do PP assumem relevância. Os dirigentes do PSD, por sua vez, apagam-se. Transparece uma enorme perplexidade na área social democrata acerca da natureza deste governo.

Hoje, na sua "crónica dominical", na TVI, Marcelo Rebelo de Sousa foi demolidor. Não deixou pedra sobre pedra. O governo é fraco e mostra que é fraco. Muitos dos ministros têm os papéis trocados e outros nunca serão capazes de entender a sua missão. Os discursos são uma trapalhada.

Terá início, a partir de amanhã, um exercício real, mas doloroso, que demonstrará aos portugueses que a propaganda não basta para governar. Espero que o tempo me dê razão.

Tudo isto me fez lembrar esta citação desencantada que, vinda da pena de um democrata convicto, tem um especial significado.

"Agosto de 37.

Cada vez que oiço um discurso político ou que leio os que nos dirigem, há anos que me sinto apavorado por não ouvir nada que emita um som humano. São sempre as mesmas palavras que dizem as mesmas mentiras. E visto que os homens se conformam, que a cólera do povo ainda não destruiu os fantoches, vejo nisso a prova de que os homens não dão a menor importância ao próprio governo..."

Albert Camus, in Cadernos, "Caderno n.º 1 (Maio de 1935/Setembro de 1937) - Edição Livros do Brasil

Publicado por Eduardo Graça em 11:42 PM | Comentários (1)

“SEMPRE À COCA” DEFENDE “INCONTINENTES”

“Sempre à Coca” reflecte, desde há alguns dias, sobre a preocupação manifestada pelo ilustre socialista José Lello, relativamente à “incontinência verbal” de Ana Gomes, que ousou (ficou-lhe do MRPP ousar lutar, ousar vencer) criticar com veemência a incompreensível decisão do PR, Jorge Sampaio, oferecer um Governo ao PSD.
Ficámos a saber que o cuidadoso Lello é um empenhado praticante da obstipação verbal. Digamos que estaremos em presença de alguém politicamente obstipado. Lello defenderá, porventura, um antiquíssimo princípio segundo o qual “a política é a arte de mentir com convicção”. Neste particular, convenhamos que, nos últimos anos, “convicção” é o que não tem faltado à nossa governação…
“Sempre à Coca” declara-se simpatizante de Ana Gomes e respectiva “incontinência”.
Ana Gomes abraça causas, fala também com o coração, emociona-se, resmunga, incomoda “lellos” e colaterais, diz o que uma imensidão de gente pensa, mas não revela por “decoro”, falta de coragem ou obstipação política.
Ela é, portanto e felizmente, destemida, incorrecta, desbragada, frontal, libertária, “incontinente”…
Em definitivo, “Sempre à Coca” condena a obstipação de Lello, enaltece e recomenda a “incontinência” verbal de mulheres como Ana Gomes, Helena Roseta, Odete Santos, Maria José Morgado… Elas são, entre outras, herdeiras honradas e legítimas da saudosa e fantástica praticante de “incontinência” Natália Correia!

Abébia “sempre tive facilidade em pensar uma coisa e dizer outra”, para o discurso de entronização do mais recente Primeiro-Ministro de Portugal.

Abébia “sempre sonhei ser Ministro do Mar”, para o ministro que é ministro de qualquer coisa sem saber.

Abébia “quando estiver de férias na Indochina controlo o Governo por videoconferência”, para o PR, Jorge Sampaio


Publicado por Sempre à coca em 07:19 PM | Comentários (6)

julho 17, 2004

Citações-12

Ao meu amigo Eduardo Ferro Rodrigues.

"Maio.

Não nos separarmos do mundo. Não se perde a vida quando a colocamos à luz do dia. Todo o meu esforço, em todas as posições e desgraças, as desilusões, é para recuperar os contactos. E mesmo nesta tristeza que há em mim, que desejo de amar e que enebriamento apenas perante a visão de uma colina na aragem do fim da tarde.

Contactos com o verdadeiro, a natureza em primeiro lugar, e depois a arte daqueles que compreenderam, a minha arte se a consigo alcançar. De contrário, a luz e a água e a embriaguez estão ainda na minha frente, e os lábios húmidos do desejo.

Desespero sorridente. Sem saída, mas que exerce sem cessar um domínio que se sabe inútil. O essencial: não nos perdermos, e não perder aquilo que, de nós, dorme no mundo." (Texto de Maio de 1936)

Albert Camus, in Cadernos, "Caderno n.º 1 (Maio de 1935/Setembro de 1937) - Edição Livros do Brasil

Publicado por Eduardo Graça em 02:28 PM | Comentários (0)

julho 15, 2004

Como se escolhem os líderes

Com a reunião da sua Comissão Política, o Partido Socialista iniciou ontem o processo que conduzirá à escolha do sucessor de Ferro Rodrigues.
João Soares e José Lamego eram os dois candidatos já conhecidos, o primeiro com alguns apoios que não serão suficientes, pelo menos para já, para chegar ao lugar que já foi do seu pai; o segundo partindo de um nível próximo de zero, em termos de apoios, que inviabiliza por completo uma candidatura credível à liderança.
A reunião da Comissão Política do PS não esclareceu, em definitivo, quais os restantes candidatos mas ajudou, mesmo assim, a clarificar quais os nomes mais prováveis. Tão importante como saber quem se candidata é saber quem não o fará, como sucedeu ontem com António José Seguro. O líder parlamentar preferiu não avançar, juntando-se assim a António Vitorino e Jorge Coelho no grupo dos potenciais que não irão mais além, pelo menos desta vez.
Apesar das reservas do sector mais à esquerda do partido – que poderá ainda desencantar um candidato próprio – José Sócrates vê assim o terreno completamente aberto para avançar. E, para além do banho de beijos das mulheres socialistas à entrada da Comissão Política, já começa a capitalizar o apoio daqueles, que são muitos, que conseguem estar sempre do lado dos vencedores.
O exemplo mais recente deste tipo de comportamento foi dado ontem por Fernando Gomes. Quando confrontado com a quase certa candidatura de Sócrates, o ex-presidente da câmara municipal do Porto não hesitou em afirmar tratar-se de uma candidatura "excessivamente forte" para não ter o seu apoio.
O que José Sócrates pensa ou não pensa, as ideias e as propostas que tem para o partido – e sobretudo para o país – são completamente indiferentes para muitos político-dependentes, como Fernando Gomes. Para esses só importa saber quem vai ganhar, para lhe poderem dar umas palmadinhas nas costas e garantir a sua fatiazinha nas mordomias futuras.

Publicado por Paulo Godinho em 03:37 PM | Comentários (0)

Os gémeos Sampaio

Pois enfim, a explicação está encontrada. Vejam o filme "Café e Cigarros"! Além de apreciar um humor fino, a preto e branco, encontrei finalmente a explicação para a atitude de Sampaio. Sampaio corresponde à teoria dos gémeos Elvis, desenvolvida numa das histórias do filme. Na verdade, Sampaio é um homem íntegro, eticamente irrepreensível, incapaz de traír as suas convicções mais profundas e aqueles que nele depositaram confiança. O que acontece, como a Elvis, é que Sampaio tem um irmão gémeo. E essse Sampaio, em tudo igual ao que conhecíamos, é mauzinho, diverte-se a pregar partidas, goza à sucapa com os efeitos que elas provocam, adora as revistas Caras, e é amigo íntimo (contam-se anedotas à frente das câmaras de televisão) do Santana Lopes. Este Sampaio, amordaçou o outro, que ninguém sabe onde está, etc, etc. Vejam o filme e digam lá se não é plausível...

Publicado por Marienbad em 12:04 AM | Comentários (0)

julho 14, 2004

Anúncio

Anúncio publicado hoje num órgão da imprensa escrita. Não, não foi no "Acção Socialista". Foi em "A Capital". Ele há uns mecânicos com uma queda para a publicidade oportunista!
VitorinoDosEscapes_web.jpg
Publicado por Porfírio Silva em 12:31 PM | Comentários (2)

julho 13, 2004

Há apenas um mês…

13 de Junho de 2004 alguns minutos antes das 23 horas.
Na televisão, Eduardo Ferro Rodrigues recordava a figura de Sousa Franco e dedicava a maior vitória eleitoral de sempre do PS à sua viúva. Logo de seguida, anunciava a sua recandidatura a líder dos socialistas, deixando em maus lençóis todos aqueles que, ao longo dos últimos meses, se haviam posicionado como pré-candidatos ao seu lugar.
Do Hotel Altis, onde se reuniam os socialistas, as imagens da televisão transferiram-se rapidamente para o estúdio da estação televisiva, onde os comentadores de serviço se atropelaram na análise ao discurso de Ferro Rodrigues.
Refastelado no seu sofá de napa preta desbotada, Manuel Bernardino, mais conhecido pelo Manel do Zé da Mula – alcunha herdada do pai – resmungou para a mulher: “Quero lá saber da vitória do PS. O que eu queria era que a selecção tivesse ganho ontem aos gregos e afinal perdemos com aquele bando de nabos que mal sabem dar um pontapé na bola...”
Maria Albertina, crismada pelas vizinhas como a Albertina do Manel do Zé da Mula, por razões óbvias, continuou a lavar a loiça enquanto encolhia os ombros e se recordava dos tempos em que o “mê Manel” andava de bandeira em punho a gritar “socialismo sim, ditadura não”. Agora já nem se dava ao trabalho de ir votar e reduzira as razões da sua existência aos resultados do Benfica e, até ver, aos da selecção nacional.
Apesar de o marido não gostar, quando não estava de serviço às tarefas domésticas, Albertina ganhava algum dinheiro vestindo a sua pele alternativa de Madame Bertina. Mantivera durante anos o seu posto de trabalho na Feira Popular mas agora, com o encerramento da feira decretado pelo Santana Lopes, estava condenada a permanecer em casa, atendendo apenas algumas clientes mais antigas. Madame Bertina tinha um fantástico dom, o de adivinhar o futuro, com o auxílio de uma enorme bola de cristal, que a sua avó Eugénia lhe deixara de herança depois de lhe ensinar os segredos da sua utilização.
“Ó mulher”, gritou o Manel, “já que tens a mania que adivinhas o futuro vai mas é buscar a bola de cristal e vê se me sabes dizer como é que vai acabar a porra da participação da selecção no Euro”.
Diligente como era habitual sempre que o “mê Manel” lhe ordenava fosse o que fosse, Albertina foi à despensa buscar a velha mala de couro onde guardava a preciosa bola de cristal, retirou o pano de veludo negro que a envolvia e colocou-a bem no centro da mesa da sala, a meia dúzia de passos do sofá onde o “mê Manel” permanecia refastelado, envergando orgulhosamente o seu fato-de-treino do “glorioso”.
“Pois bem, queres saber da selecção, não queres?”, questionou a Albertina, agora travestida de Madame Bertina. “Olha, não acreditas em mim e na minha bola de cristal mas posso garantir-te que a nossa selecção vai chegar à final”.
O Manel do Zé da Mula deu um pulo no sofá que abanou a casa toda e, com um entusiasmo nunca visto, quando se tratava de previsões da Madame Bertina, perguntou logo de seguida: “Chegamos à final? E ganhamos ou perdemos? E contra quem?”
Gozando o inusitado interesse do marido pela sua actividade adivinhatória, Albertina respondeu: “Olha, infelizmente não ganhamos a final. Vamos perder com a Grécia e vai ser por um a zero”.
Desta vez, o Manel caiu mesmo do sofá, provocando um pequeno terramoto que teve como consequência mais séria a queda de um pedaço de estuque do tecto no prato da sopa da vizinha de baixo. “Contra a Grécia? Contra a Grécia jogámos nós ontem e perdemos dois a um e não um a zero! Eu bem dizia que essa porra da bola de cristal era uma treta completa”.
Ofendida, Albertina insistia que a bola de cristal não se enganava, jurando a pés juntos que a previsão estava correcta.
“Ai é? Ainda ateimas?”, gozava o Manel, “Então diz-me, andam para aí a falar que aquele tipo que está em Bruxelas, aquele pequenino, o Vitorino, vai ser o futuro presidente da Europa, ou coisa que o valha, diz-me lá então, vai ser ou não vai ser isso que eles dizem?”
“Isso que eles dizem, para mim não é nada”, respondeu irritada a Albertina.
“Presidente da Comissão Europeia, está aqui escrito no jornal, o Vitorino vai ou não vai ser o presidente da Comissão Europeia?”, retorquiu o Manel.
Albertina, passou as mãos pela bola de cristal, como a avó lhe ensinara e respondeu: “Não, não vai ser. Quem vai ser o presidente da Comissão Europeia vai ser o Durão Barroso”.
A gargalhada do Manel deve ter sido ouvida no Campo Grande, apesar de morarem num beco de Alfama. “O Durão Barroso? E o primeiro-ministro vai ser o Paulo Portas não?”
A própria Albertina já começava a achar que a bola de cristal tinha ficado meio tresloucada mas arriscou responder ao marido: “Não. O novo primeiro-ministro vai ser o Pedro Santana Lopes”.
Desta vez o Manel já nem reagiu: “Ó mulher, tu deita-me essa bola fora, de uma vez por todas, que um destes dias ainda te vêm pedir contas pelas patranhas que andas a contar”.

Publicado por Paulo Godinho em 11:24 PM | Comentários (3)

“SEMPRE À COCA” SOLIDÁRIO


“Sempre à Coca” declara-se militantemente solidário com o Presidente da República, Jorge Sampaio.
Ao invés da esmagadora maioria dos portugueses e de uma escassa minoria de articulistas, analistas, actuais e ex-intelectuais de esquerda, de direita, de centro, católicos, protestantes, cavaquistas, guterristas, gonçalvistas, ex-sampaistas e Ana Gomes, “Sempre à Coca” está com o Presidente da República.
É que, tanto quanto nos fomos apercebendo ao longo dos anos, o nosso Presidente é um homem consciencioso, equilibrado, justo, preocupado com os fracos, atento aos necessitados. Ele tem estado no lado certo da vida, junto dos que buscam o melhor para o maior número, dos que sonham com menor desigualdade entre os homens, dos que convivem mal com o abuso, a soberba e a arrogância.
Assim sendo, não há-de ter sido fácil ao nosso Presidente oferecer o Poder aos sucessores de quem, em apenas dois anos, permitiu um aumento assustador do número de desempregados (de 100 mil para meio milhão), encerrou 800 escolas, engrossou as listas de espera para intervenções cirúrgicas (de 115 mil para 160 mil), transformou os funcionários públicos numa espécie de marginais perseguidos pela Justiça, premeditou um “Código do Trabalho” que legaliza regimes de autêntica escravatura e impunidade patronal…
“Sempre à Coca” sabe que o nosso Presidente será incapaz de, directa ou sub-repticiamente, pactuar com os autores de uma política causadora de danos à democracia. Pelo menos à democracia formal.
Ao optar pela legalidade burocrática de meia dúzia de poderosos, em detrimento da legitimidade democrática de eleições, o nosso Presidente fê-lo, certamente, na convicção de que poderá continuar a contar com o apoio implícito de milhões de portugueses masoquistas.
Desde há dois anos que vivemos num País sem sentido. Preparemo-nos, agora, para viver mais dois anos num País também sem esperança.
Mas sob a vigilância atenta, pedagógica (o povo há-de aprender!) e intransigente do nosso Presidente!

Abébia de Platina, de imenso respeito e saudade, para Maria de Lourdes Pintassilgo.

Abébia de Ouro para Ferro Rodrigues. A História, objectiva e desapaixonada, recordá-lo-á pela coerência e verticalidade de carácter.

Abébia “como é possível que isto nos aconteça ao cabo de 30 anos de democracia”, para o paciente e bom povo português.

Publicado por Sempre à coca em 09:53 PM | Comentários (0)

Vitorino, ploff...

Acerca de Vitorino declarar não ser candidato a líder do PS, hesito entre duas posições (ou serão dois sentimentos?) contraditórios:
(A) Cada um deve ter direito a seguir o seu caminho.
(B) O sentido do dever em político é algo que murchou quase até à extinção.
Contudo, a malvada irritação que se apossou de mim há alguns dias leva-me a esta reacção mal-disposta: será que foi a Faculdade de Direito que colocou Vitorino em comissário europeu? ou foi por obra e graça do espírito santo? ou terá sido por ele ser alto e espadaúdo e de olhos azuis, sendo que assim não deve nada a ninguém?
Publicado por Porfírio Silva em 06:43 PM | Comentários (0)

Convite

untitled.jpg
Isto não é um comentário político! É só uma brincadeira que me chegou por correio electrónico.

Publicado por Porfírio Silva em 05:41 PM | Comentários (0)

julho 12, 2004

Um observatório do "governo Sampaio"

1. Manifestámos discordância com a "saída" para a crise encontrada pelo PR. Mantemos essa posição. Além do mais, se o que se passou foi que desde o início, no resguardo dos gabinetes, o PR "abriu demais a boca" e prometeu a Barroso que não criaria problemas, ficando depois sem margem para uma verdadeira decisão política que devia ser tomada em plena liberdade e responsabilidade - isso é muito grave, porque significa(ria) que o PR alienou os seus poderes num momento grave da crise nacional.
2. Mantemos a discordância, isso é claro. Contudo, dou razão àqueles que chamam a atenção para a necessidade de manter o respeito ao PR: enquanto PR, que tinha o direito de fazer aquela opção política; e enquanto homem de esquerda, crédito que o seu passado sobejamente merece e não se evaporou agora por milagre. Até por uma razão política importante: tomada a decisão que está tomada, o mundo não acabou aqui e agora; mais do que antes, é preciso verificar quais eram (são) de facto os pressupostos da grave decisão que tomou. Devemos concentrar-nos, pois, no acompanhamento da sequência que Sampaio dará a esta sua decisão.
3. O que importa agora é: como vai Sampaio, com os instrumentos constitucionais e políticos que detém, concretizar a vigilância da política europeia, da política externa, da defesa, da justiça, das finanças? É sobre isso que temos de concentrar-nos. Precisamos de um "observatório do governo Sampaio", centrado especialmente nessas áreas. Esse observatório deverá continuadamente chamar a atenção da opinião para as práticas governativas nesses sectores. E, caso a caso, pedir contas ao Presidente.
4. Duvido de que Sampaio tenha os meios para fazer o que prometeu. Aliás, o PM indigitado está a empurrá-lo para esse canto, nomeadamente quando exagera no vozeamento da "vontade de cooperação institucional". Como fica o papel de Sampaio quando Lopes faz saber que até aceita de bom grado o veto presidencial a ministros que em concreto não lhe agradem? O sr. Lopes, como seria de esperar, não é tonto e já está a explorar as fraquezas do plano anunciado por Belém. É, por isso, ainda mais importante que funcione bem na opinião o "observatório do governo Sampaio".
Publicado por Porfírio Silva em 06:24 PM | Comentários (3)

A análise política de Luís Afonso

Muitos não o conhecem, ou não lhe dão a devida atenção, mas estou cada vez mais convencido de que alguma da análise política mais acutilante da imprensa portuguesa é feita por um senhor chamado Luís Afonso.
Diariamente, nas páginas do "Público", através do seu "Bartoon", Luís Afonso retrata e crítica a realidade portuguesa com uma mestria incomparável. Espreitem, por exemplo, o "Bartoon" de hoje e não parem por aí: cliquem nos comandos no fundo da página, vejam o que Luís Afonso foi escrevendo sobre a crise política, ao longo das últimas semanas, e digam-me se tenho ou não tenho razão.

Publicado por Paulo Godinho em 03:11 PM | Comentários (1)

A angústia do guarda-redes perante o penalty?

Há comentários que merecem mais do que ficar à mercê dos leitores que, após lerem um "post", decidem, ou não, ler também os respectivos comentários. Este é um deles!

O síndrome do árbitro que teme ser acusado de "caseirismo" ou, na hora da verdade, a angústia do guarda-redes perante o penalty? Hoje, dia 11 já não há reacções a quente. E eu que apostava que havia eleições, todos os sinais (?) para aí apontavam. Honra a quem, em condições difíceis, assumiu posições éticas e pessoais de grande valor. Eduardo Ferro Rodrigues resistiu a quase tudo. Soçobrou porventura pelo lado que nunca imaginou pudesse acontecer. O PS fica devedor. Apesar de tudo, não devemos empurrar mais o Presidente Sampaio para o campo que não é o dele. Optou por ficar mal na fotografia do nosso álbum, é a vida. Critiquemos politicamente a solução, retiremos daí vantagem com uma oposição ao Governo, efectiva e eficaz, sem esquecer o comprometimento do PR, mas concentremo-nos no essencial. Reorganização da oposição sob a liderança do PS, e neste com a escolha de um líder que não seja um Santana Lopes com toques de esquerda no discurso. Até porque as eleições estão aí não tarda. E porque não fomos campeões, não vale a pena voltar à questão Vitor Baía. Até porque, seja ele qual for, haverá sempre uma angústia do guarda-redes perante o penalty. A bola vai estar, inevitavelmente, do nosso lado. Agora é preciso preparar a equipa, os jogadores e o treinador e mobilizar o público.
Porque atrás dos tempos outros tempos hão-de vir, as minhas bandeiras ainda estão nas janelas. E no coração.

Ricardo Roque
julho 11, 2004 05:22 PM

Publicado por Paulo Godinho em 01:46 PM | Comentários (0)

julho 10, 2004

O síndrome do árbitro que teme ser acusado de "caseirismo"

Já todos sabíamos o entusiasmo de Jorge Sampaio pelo futebol. Conhecíamos inclusivamente a sua simpatia clubística pelo Sporting e o seu entusiasmo e a sua emoção pelo desempenho da selecção nacional. Só desconhecíamos era a capacidade de Sampaio para se comportar como um (mau) árbitro de futebol quando colocado perante uma decisão difícil.
Tal como alguns dirigentes desportivos fazem aos árbitros antes dos jogos, durante os últimos dias diversas figuras do PSD aproveitaram as mais diversas ocasiões para pressionar Sampaio, acusando-o de deliberadamente se preparar para abrir as portas do Governo à esquerda, através da convocação de eleições antecipadas. Neste particular, é de aplaudir a visão de Alberto João Jardim pois foi um dos que melhor percebeu como tirar partido dos pontos fracos do Presidente da República.
Honesto como inegavelmente é e temeroso (como também é) das acusações de que seria alvo se optasse por eleições antecipadas, Sampaio comportou-se como os (maus) árbitros de futebol que querem provar à exaustão a sua imparcialidade e que temem ser acusados de favorecer a equipa da casa: em caso de dúvida, acabam a favorecer a equipa visitante.
Sampaio sabe com que votos foi eleito. Sabe e estava avisado de que, caso convocasse eleições antecipadas, não escaparia às críticas de favorecimento deliberado do seu quadrante político. Como não queria ser um árbitro que pudesse ser acusado de "caseirismo", Sampaio seguiu o único caminho possível: "apitou" a favor do "adversário".

Publicado por Paulo Godinho em 04:28 PM | Comentários (1)

Lurdes Pintasilgo faleceu esta madrugada

A única mulher que em Portugal alcançou o cargo de primeiro-ministro faleceu esta madrugada.
Tendo sido consultada pelo Presidente da República, a propósito da crise política que ontem teve o seu desfecho, Maria de Lurdes Pintasilgo manifestou a sua enorme preocupação pelo momento que o país vivia. Temo que a opção seguida por Jorge Sampaio não tenha sido totalmente alheia à crise cardíaca de que foi vítima.
Decididamente, estes dois dias vão ficar na História de Portugal pelas piores razões.

Publicado por Paulo Godinho em 03:09 PM | Comentários (1)

Uma Maioria, Um Governo, Um Presidente

Ficámos ontem a saber que afinal o sonho de Sá Carneiro já se concretizou.

Publicado por Paulo Godinho em 02:40 PM | Comentários (2)

julho 09, 2004

Já chegamos à Madeira!

Cavaco Silva à Presidência!

Publicado por Marienbad em 11:36 PM | Comentários (2)

O governo "Sampaio e outros"

1. Jorge Sampaio falou. E disse: o país vai ter um governo Sampaio-Lopes-Portas. Isto é: quando a Constituição lhe garantia outra opção, decidiu politicamente promover um governo chefiado por Lopes e Portas. Prometeu, até, vigilância para garantir a continuidade das políticas em várias áreas da governação. Ficamos atentos. Vamos ficar a ver se Jorge Sampaio vai vigiar o que quer que seja. Vamos ver se, no mínimo, vigia tanto o governo do sr. Lopes como vigiou os governos de António Guterres. Diz-se por aí que, nesses tempos, até chegou a exigir a demissão de certos ministros. A partir daqui, o julgamento do governo será o julgamento do Presidente.

2. Jorge Sampaio foi eleito PR com os votos da esquerda. Contra os votos da direita. Isso serviu para quê? As eleições presidenciais estão destinadas a ser despolitizadas? Quando os candidatos dizem que vão ser presidentes de todos os portugueses, isso quer dizer que vão marimbar-se nos seus eleitores? Para a próxima temos de ter cuidado: não podemos votar em candidatos que querem os votos da esquerda e os governos da direita.

3. Ferro Rodrigues demitiu-se. Fez bem. Tudo lhe aconteceu. A tentativa de “golpe de Estado” vinda de alguns agentes judiciais (o chamado processo Casa Pia). A morte de Sousa Franco, uma magnífica escolha de Ferro para liderar a candidatura ao PE. Agora, a perda de uma oportunidade soberana para ser primeiro-ministro, devido a uma opção exclusivamente política do seu (ex?) amigo Sampaio, depois de ter obtido uma vitória histórica nas eleições europeias. Ferro não teve sorte.

4. Mas Ferro terá tido também algumas culpas neste final. Imagino que o principal receio de Sampaio tenha sido: vou convocar eleições para quê? para o eleitoralista Santana Lopes derrotar nas urnas um Ferro Rodrigues com falta de ânimo, de força política, de ideias mobilizadoras, fechado no seu núcleo (demasiado) duro? Se Sampaio dissolvesse e Santana ganhasse a Ferro as próximas legislativas, o Presidente passaria o resto do seu mandato sentado a um canto do seu palácio e a esquerda passaria, por longos anos, um mau bocado. Talvez a chave desta decisão de Sampaio esteja no seu receio de que o PS não estivesse preparado. Na verdade, em política é preciso estar sempre preparado. Os últimos acontecimentos foram demasiado rápidos. Apanharam o PS a pensar que tinha tempo para pensar na vida – quando não tinha.

5. O ponto principal dos próximos tempos será: como vai Sampaio tomar as rédeas à comissão eleitoral presidida por Lopes e Portas?

6. Será que a ida de Barroso para Bruxelas resolveu o problema do PS, já que Vitorino tem de voltar?

Publicado por Porfírio Silva em 10:21 PM | Comentários (0)

Abruptamente

O Pacheco Pereira tem por hábito publicar "cartas dos leitores" no Abrupto. No dia 6 de Julho publicou uma carta de Tiago Geraldo, que a certa altura reza assim: Deixe de estudar o comunismo. Acho ridículo. É algo que nunca percebi: um homem que se assume de centro-direita perder tanto tempo a estudar aquilo que mais veementemente critica. Fizesse antes uma biografia séria sobre Sá Carneiro, ao invés daquela que fez sobre Álvaro Cunhal, e teria tido um muito maior reconhecimento. Não sei se se conseque aperceber, mas a esquerda começa a gostar de si. Vê em si um aliado. Em meia dúzia de palavras, que magnífico auto-retrato de certa direita (que talvez não ande muito longe, no esquema mental, de certa esquerda). Cada palavra, um disparate. Que choldra!
Publicado por Porfírio Silva em 04:55 PM | Comentários (1)

julho 08, 2004

Citações-11


As eleições são, no imediato, um problema para a direita. A expectativa de perda da maioria e, em consequência, do governo, é forte. Mas as eleições serão, a médio prazo, um problema para a esquerda. A expectativa de um arrastamento da crise económica é forte. O consenso social é uma aspiração da esquerda e uma necessidade vital para a sobrevivência de qualquer governo. Mas a margem para o consenso é sempre estreita e ainda mais estreita em épocas de crise.

A direita já está em campanha eleitoral. A esquerda precisa de um golpe de asa. Refiro-me, naturalmente, ao PS. O programa de governo é importante assim como a equipa que o defenda e protagonize. As opções a tomar na reforma do Estado são cruciais.

Mas o PS só ganhará as eleições, se for capaz de combater, de igual para igual, num ambiente de "cruzada" populista. A direita não olhará a meios para atingir os seus fins. Vide, como ilustração impressiva, o post "Ingenuidades", de JPP, hoje, no abrupto. A chantagem exercida pela direita sobre Jorge Sampaio é o primeira passo na chantagem que vai tentar exercer sobre toda a sociedade.


A citação do dia:

A Guilloux: "Toda a infelicidade dos homens vem de não usarem uma linguagem simples. Se o herói do Mal-entendido tivesse dito: "Ora bem. Aqui estou e sou seu filho", o diálogo seria possível e não artificial como na peça. Não haveria tragédia, pois o ponto culminante de todas tragédias está na surdez dos heróis.

Sob esse ponto de vista é Sócrates quem tem razão, contra Jesus e Nietzsche. O progresso e a verdadeira grandeza residem no diálogo à altura do homem e não no evangelho, monologado e ditado do alto de uma montanha solitária. Eis onde cheguei.

O que equilibra o absurdo é a comunidade dos homens em luta contra ele. E se escolhemos servir esta comunidade, escolhemos oa mesmo tempo servir o diálogo até ao absurdo contra toda a política da mentira e do silêncio. É assim que podemos ser livres com os outros.""


Albert Camus, "Cadernos" - Caderno nº 5 - Setembro 1945/Abril de 1948 - Livros do Brasil)

Publicado por Eduardo Graça em 10:07 PM | Comentários (0)

Enquanto se espera pelas grandes decisões....

As pequenas ilhas:
Miguel Sousa Tavares manifestava, há algum tempo, o seu desalento pela natureza dos cafés portugueses. E falava de Amsterdão evocando a mesma nostalgia com que Clara Ferreira Alves já havia falado dos cafés de Barcelona ou Pacheco Pereira dos cafés de Viena. Tanto faz, a nostalgia invade-nos quando temos a memória desses lugares tão especiais e tão banais ao mesmo tempo. E a questão não está na sofisticação mas tão só na possibilidade de se poder “ficar até querer, simplesmente bebendo um "expresso" ou um copo de vinho branco”, como referia na sua crónica do Público.
Não vamos insistir num tema tão deprimente (como seria o de caracterizar o estereótipo do café nacional) que a altura não é favorável. A cartografia dos cafés de Lisboa contém, no entanto, algumas ilhas. Ao acaso, cite-se o café-restaurante da Cinemateca, com espaço de esplanada para o tempo ameno e acompanhado de uma livraria de especialidade; o café do Chiado, do Largo do Picadeiro, em que a esplanada, onde as árvores são protectoras, é de uma beleza e de uma quietude raras. Ou aquela casa de chá em frente ao Hospital dos Capuchos, com a sua atmosfera exótica.
Para além da arquitectura ou decoração destes locais, aquilo que é de sublinhar é o ambiente. Não se é obrigado ao horário do género: até às 11h, só café; depois das 11h, só refeições, depois das 3h, fechou a cozinha, etc, etc. Nada disso! O estar é mesmo o importante. Os pedidos são livres, dependem da diversidade dos bio-ritmos dos clientes e não do contracto de trabalho dos empregados ou das licenças camarárias para comércio, etc. Os locais são vividos; com requinte, mas despretenciosos.
Será tão difícil assim entender isto? Será tão difícil encontrar isto?
Procuram-se cafés acolhedores no país.
Sugestões aceitam-se.

Publicado por Marienbad em 08:06 PM | Comentários (2)

As duas faces de Santana

Nos últimos dias, Santana Lopes tem-se esforçado por manter uma pose de Estado, bem visível durante e após a audiência que teve com o Presidente da República e também, embora de forma menos conseguida, ao longo da entrevista que deu à RTP. Mas esta face de Santana – a face falsa – não resiste sequer à pequena prova de um jantar com correligionários, como o realizado ontem com deputados do PSD, ressurgindo de imediato a sua outra face – a face verdadeira – marcada pela demagogia e até pela mentira, típica de quem não olha a meios para atingir fins.
Apesar do evidente pouco entusiasmo revelado por muitos socialistas em relação ao seu líder, Ferro Rodrigues, num passado relativamente recente, este nunca foi abertamente contestado por nenhum outro dirigente de peso e conseguiu mesmo, após se ter desencadeado a actual crise política, uma enorme unidade do PS em torno da defesa de eleições antecipadas e da candidatura do secretário-geral socialista a primeiro-ministro de Portugal. Até os dois militantes socialistas que se haviam perfilado como candidatos alternativos a Ferro Rodrigues, num futuro congresso partidário – João Soares e José Lamego – assumiram o seu apoio à candidatura do actual líder a primeiro-ministro, num cenário de eleições antecipadas que inviabilizasse a realização prévia de um congresso nacional do PS.
Espantosamente, no tal jantar de ontem com os deputados laranja, Santana Lopes conseguiu referir-se ao PS como vivendo um período de "desorientação política", dizendo mesmo que o principal partido da oposição teria entrado em "tumulto", no dia seguinte às eleições europeias, com a "generalidade dos dirigentes a dizer que o líder não servia e que deveria ser imediatamente substituído".
A forma como Santana Lopes conseguiu transformar a reconfirmação da candidatura de João Soares à liderança do PS – com escassos apoios no interior do partido – e o anúncio da candidatura de José Lamego – que não se vislumbra, de todo, com que apoios possa contar – num "tumulto" do PS em que a "generalidade dos dirigentes" contesta Ferro Rodrigues, esclarece bem o grau de honestidade intelectual do novo presidente do PSD.
No momento em que personalidades de relevo da direita portuguesa e do próprio PSD, como Freitas do Amaral e João Salgueiro, aparecem a defender a convocação de eleições antecipadas – para já não referir as muitas reticências a Santana Lopes manifestadas por diversos dirigentes históricos do seu partido, como Manuela Ferreira Leite, Teresa Patrício Gouveia, Marques Mendes, Pacheco Pereira, Marcelo Rebelo de Sousa e, aparentemente, o próprio Cavaco Silva – é preciso, no mínimo, "muita lata" para vir agitar publicamente o "espantalho" da contestação interna ao líder socialista.

Publicado por Paulo Godinho em 11:52 AM | Comentários (0)

julho 07, 2004

Citações-10


O que está em causa na crise política actual? Sem rodeios: O Primeiro-ministro demissionário, Durão Barroso, fugiu.

Proclamou que tinha aprendido as lições da derrota nas eleições europeias e uns dias depois demitiu-se. Percebe-se que o homem buscou o sucesso de uma carreira profissional.

Mas o povo de direita pensava que tinha votado num político devoto à defesa dos interesses do país e do seu povo. Ao menos pelo período do contrato que estabeleceu, de livre vontade, através da sua apresentação ao sufrágio: 4 anos.

Este episódio não é só uma traição aos seus correligionários. É uma machadada no prestígio do regime democrático. O assunto é sério. De futuro, como já ouvi, é necessário olhar os candidatos tanto pelo lado da sua fidelidade aos compromissos programáticos como pelo lado da garantia da sua permanência no exercício da função todo o tempo do contrato, em exclusividade.

Estes detalhes não são, como se prova, tão despiciendos como poderia parecer. No caso de Santana Lopes não são mesmo nada despiciendos. A inconstância não pode ser elevada à categoria de um valor do Estado Democrático. A não ser que se queira acabar com ele.

A citação do dia:

""Se quer que lhe diga, nunca acreditei na Gestapo. É que nunca ninguém a via. Tomava evidentemente as minhas precauções, mas como que abstractamente. De tempos a tempos, um camarada desaparecia. Noutro dia, diante de Saint-Germain-des-Prés, vi dois tipos altos que obrigavam a soco um homem a entrar para um táxi. E ninguém dizia nada. Um criado de café disse-me: "Cale-se. São eles." Isto levou-me a suspeitar de que efectivamente existiam e de que um dia…Mas eram apenas suspeitas. A verdade é que só poderei acreditar na Gestapo quando receber o primeiro pontapé na barriga. Sou assim. Eis porque não devem ter ilusão quanto à minha coragem, lá porque estou na resistência, como dizem. Não, não posso reclamar qualquer mérito, precisamente porque não tenho imaginação."


Albert Camus, "Cadernos" - Caderno nº 5 - Setembro 1945/Abril de 1948 - Livros do Brasil)



Publicado por Eduardo Graça em 11:49 PM | Comentários (0)

“SEMPRE À COCA” ATACA COM POEMA DISLÉXICO


Viscolente e repeloso *
Invertebrado de origem
Alforreca praticante
Urticária feita gente
Mente com a verdade
Com todos os dentes que tem
Com ademanes de amiba
Alvar tosco e untuoso

Viscolente e repeloso *
Tem andamento canejo
Sorriso camaleónico
Calvície sub-reptícia
E séquito cacarejante.
Moribundo faz-se vivo
Para enganar os incautos
Os fracos e os ignorantes

Viscolente e repeloso *
Sobrevive na intriga
Faz da mentira certeza
Porque odeia a igualdade.
Mesmo pútrido e fétido
Será sempre rastejante
Insolente contumaz
Espécie de ser oleoso

Viscolente e repeloso *
Invoca deus em vão
É a anti-vida!
É o complexo de inferioridade da Humanidade!

*Versão disléxica de viscoso e repelente

Abébia Finjo que Penso, logo Finjo que Existo, para o ainda ministro Paulo Portas.

Abébia Um Dia Serei tão Considerado como o Alberto João Jardim, para o ainda ministro Paulo Portas.

Abébia de Ouro para Maniche, pela seguinte constatação em conferência de Imprensa: “O País andava triste, algo desconfiado”.

Publicado por Sempre à coca em 10:07 PM | Comentários (0)

António Rodrigues ou Ferro Guterres?

1. À saída de Belém, o secretário-geral do PS, Ferro Rodrigues, perguntado acerca da presumível disponibilidade do BE para uma "maioria de esquerda", respondeu o que já é clássico no PS: se houver eleições, vamos pedir maioria absoluta para governar. É curto. Muito curto. Temo que o PS esteja prestes a cometer de novo o erro fatal de Guterres.
2. O grande erro de António Guterres não foi ter "fugido", porque não fugiu (tomou uma atitude política, que alguns míopes parece que ainda não perceberam). O grande erro de António Guterres foi não ter percebido que numa democracia representativa moderna não é possível governar com visão de futuro sem uma maioria. Tentou, durante tempo demais, governar sem maioria. A certa altura confundiu "maioria" com "voto conjuntural de um deputado isolado". Inevitavelmente, caiu. Voltamos agora à mesma história?
3. Sou dos que pensam que o PS e o PSD têm afinidades fundamentais no que toca à estruturação profunda do sistema democrático. Não é o PCP, e muito menos o BE, que pode fazer com o PS o "bloco constitucional" de garantia da democracia representativa - quanto mais não seja por razões históricas, mas também por razões ideológicas. Um entendimento estratégico entre o PS e o PSD, em questões que designo genericamente por "constitucionais", é necessário ao país.
4. Coisa muito diferente é fazer funcionar o sistema de alternativas dentro do regime. Se o PS e o PSD não garantirem que o eleitorado tenha por onde escolher, constituindo verdadeiros projectos políticos alternativos, de que serve haver eleições? O PS tem, pois, obrigação de oferecer uma alternativa de governação, sendo diferente (nesse plano) do PSD. Não podendo exigir ao eleitorado uma maioria absoluta (embora possa pedi-la), que fazer? Voltar ao erro do governo minoritário? Penso que não. Havendo eleições, o PS deve dizer claramente ao país que, se não tiver maioria para governar, fará as alianças necessárias. À esquerda, pois claro.
5. A pergunta seguinte é: que políticas pode o PS fazer se levar consigo para o governo o PCP, o BE ou ambos? Isso é outro problema, essencial. O PS tem de colocar esse debate à esquerda. Mas colocá-lo como debate público, debate de políticas responsáveis para um país mais desenvolvido e mais solidário, a fazer à luz do dia. Para que o eleitorado possa escolher e saiba o que escolhe. Sobre os temas centrais desse debate, voltaremos aqui noutro dia.
Publicado por Porfírio Silva em 03:59 PM | Comentários (2)

julho 06, 2004

Citações-9

Os discursos e as faces dos dirigentes da direita apresentam sinais de instabilidade. O povo, como diria o Almirante Pinheiro de Azevedo "é sereno". O povo apresenta sinais de estabilidade, apesar do sofrimento.

Lembro-me do que me disse um taxista no Porto, umas semanas atrás: "impressiona-me o que vejo todos os dias - as pessoas a falar sozinhas. Então as crianças!". E outro: "Um dia destes vai haver uma revolta popular". Sinais de crispação crescente. Todos aqueles que ouvem, vêem e sentem, como cidadãos comuns, tiveram experiências de sobra da silenciosa revolta que crescia.

A direita populista não está para nascer com Santana Lopes. Já está instalada no poder há muito. A diferença é que até à demissão de Durão Barroso estava na fase da " guerra de guerrilha". Circunscrita em bolsas preparando o terreno para a ofensiva final.

O objectivo de PP e do seu aliado PSL é a conquista do poder. Absoluto. Neste momento tentam o assalto final. Mas para isso têm que mostrar o seu verdadeiro rosto, a sua verdadeira ideologia, os seus verdadeiros alinhamentos internos e internacionais.

O rosto de Durão Barroso, ontem, á saída de Belém, era o de um derrotado. A fotografia da direita populista, a que conquistou a liderança da direita, qual "polaroid" instantânea, vai ganhando contornos cada vez mais claros: é o "pós- fascismo", à portuguesa. Cuidado...

A citação do dia:

"Novembro - 32 anos.
A inclinação mais natural do homem é a de se aniquilar e toda a gente com ele. Quantos esforços desmedidos para ser apenas normal! ..."


(Albert Camus, "Cadernos" - Caderno nº 5 - Setembro 1945/Abril de 1948 - Livros do Brasil)


Publicado por Eduardo Graça em 06:06 PM | Comentários (0)

Expectativas na saída de um PM

metropolis2.jpg

Publicado por Porfírio Silva em 09:22 AM | Comentários (0)

A isto se chama formar governo democraticamente...

Depois de ouvir PSL na RTP-1 não há nada para dizer. Estou assustado, só isso. Retrato fiel do que ele considera "ser responsável" é ir para a televisão discutir critérios para a formação do "seu governo"... isso, claro, ao mesmo tempo que jura a pés juntos que a decisão acerca de quem será PM está (de)pendente da decisão do PR. Deduz-se que ele seria capaz de discutir na TV os ministros de outro PM. Já não lhe basta discutir os "seus" ministros na praça pública... Sugiro aos tablóides que façam já uma votação (se possível on line) para escolher ministros para o Sr. Lopes: certamente não sairá daí pior do que ele próprio escolheria. Contudo, afinal, talvez a Judite tenha feito um jeito ao país: deixar o Sr. Lopes falar é capaz de ter ajudado à ponderação de Sexa o PR.
Publicado por Porfírio Silva em 12:06 AM | Comentários (0)

O mal menor?

A entrevista dada a noite passada por Santana Lopes a Judite de Sousa, na RTP, serviu pelo menos para esclarecer uma dúvida: Santana Lopes é definitivamente candidato a primeiro-ministro.
Quem ainda elaborava sobre a hipótese de o PSD poder indicar um outro nome para chefiar o Governo – apesar de Santana Lopes já ser o presidente do partido – ficou a saber, pela boca do próprio, que, quer haja eleições quer não, o nome do PSD para primeiro-ministro será sempre o de Santana Lopes.
Claro está que Santana não o afirmou com uma certeza absoluta, refugiando-se na necessidade de o partido ainda se ter de pronunciar sobre a matéria, mas esclareceu que discorda da hipótese de o PSD poder ter um primeiro-ministro que não seja simultaneamente o presidente do partido. Aliás, numa "farpa" a Marcelo Rebelo de Sousa, disse mesmo que terá sido o actual comentador da TVI quem o convenceu a alterar a opinião oposta que terá tido no passado.
Jorge Sampaio passa assim a ter uma das peças importantes que pareciam faltar no "puzzle" da sua tomada de decisão: se conceder a possibilidade ao PSD de indicar um novo primeiro-ministro já sabe com quem conta.
Curiosamente – vindo provavelmente baralhar a cabeça do Presidente da República com um novo dado – Santana Lopes também afirmou que, caso seja nomeado primeiro-ministro por Sampaio, irá cumprir os cerca de dois anos que faltam para o fim da legislatura e recandidatar-se para mais quatro anos à frente do Governo, em próximas eleições legislativas. Ficaria assim posta de parte a hipótese de Santana se candidatar a Belém e de, potencialmente, poder vir a ser o sucessor de Jorge Sampaio no mais alto cargo da nação.
Só espero que o temor de Sampaio de poder vir a ter Santana Lopes como Presidente da República não o leve a oferecer-lhe de bandeja o lugar de primeiro-ministro, pensando que será o mal menor.

Publicado por Paulo Godinho em 12:05 AM | Comentários (0)

julho 05, 2004

O contra golpe de Estado de Alberto João

Quem se espantou com o conteúdo do meu "post" intitulado "Últimas do PSD-Madeira" terá ficado hoje mais esclarecido sobre a dimensão do nível de loucura reinante para as bandas do Funchal, perante as declarações de Alberto João Jardim ao Telejornal da RTP.
O presidente do governo regional da Madeira apareceu a defender um "contra golpe de Estado" – a protagonizar pelo PSD e pelo CDS-PP através da recusa em apresentar candidaturas – como resposta ao "golpe de Estado" que constituirá a eventual convocação de eleições antecipadas.
É esclarecedor o conceito de democracia que paira em algumas mentes distorcidas, como a de Alberto João Jardim, em que a devolução ao povo da decisão sobre os destinos de um país, através da realização de eleições, pode ser equiparada a um "golpe de Estado".
Não sei o que irá fazer o Presidente da República para ultrapassar a crise política em que nos encontramos mas há um facto que é inegável: existem limites para tudo, até para os dislates de Alberto João. E, desta vez, esses limites já foram claramente ultrapassados.
A proposta de "contra golpe de Estado" de Alberto João Jardim bate aos pontos, em nível de absurdo, tudo o que o seu duplo Adalberto João Jardim, do Contra Informação, disse até hoje.

Publicado por Paulo Godinho em 08:53 PM | Comentários (4)

Citações-8

A vida quotidiana continua apesar da crise política. As famílias trabalham (as que têm trabalho), transportam-se, tratam da vida o melhor possível.
Os últimos dois anos levaram muitas famílias ao desespero. Quem, por dever de ofício, tem conhecimento das mágoas dos cidadãos, maltratados pelas injustiças das políticas desta maioria, terá uma palavra decisiva no pleito eleitoral.
Ver-se-á então quanta crueldade foi praticada nas políticas sociais; quanta incúria no respeito pelos mais fracos para favorecer os mais fortes; quanta desigualdade foi estimulada por acção ou omissão.
Nunca a tragédia desta política, que não foi mais do que um intervalo, será absolutamente assumida. Digo intervalo porque antevejo os argumentos do novo paladino da governação neo-liberal: antes de nós o dilúvio, depois de nós o inferno. A nós, afinal, "não nos deixam governar".
É a estratégia da vitimização. O Dr. Santana Lopes vai tentar fazer passar-se como vítima de uma "intentona" cujos contornos o oligarca da Madeira, à sua maneira boçal, já enunciou.
É um momento de tragicomédia em que a política pura, a que eleva acima da defesa dos interesses particulares o interesse geral, ameaça ser submersa pela pura traficância de interesses, arremesso de ódios e promessas populistas.
Ver o episódio de hoje, na RTP-1, com a entrevista "oportuna" de Judite de Sousa a Pedro Santana Lopes.
A citação do dia:
"São precisos holocaustos de sangue e séculos de história para provocar uma imperceptível modificação da condição humana. Tal é a lei. Durante anos tombam cabeças em série, reina o Terror, proclama-se a Revolução e consegue-se no fim substituir a monarquia legítima pela monarquia constitucional."
(Albert Camus, "Cadernos" - Caderno nº 5 - Setembro 1945/Abril de 1948 - Livros do Brasil)
Publicado por Eduardo Graça em 06:03 PM | Comentários (0)

julho 04, 2004

Um país feliz

O título deste "post" estava escolhido antes de saber o desfecho da final do Campeonato da Europa. E não foi alterado pois, apesar da derrota de hoje, espelha o estado de espírito da esmagadora maioria dos portugueses, ao longo das três semanas em que Portugal foi a sede do futebol mundial.
A prestação da selecção nacional de futebol proporcionou enormes alegrias a milhões de portugueses, contribuindo para fazer esquecer as dificuldades vividas por muitos e para devolver o orgulho de ser português a centenas de milhares de emigrantes espalhados pelo mundo. Nos países de língua oficial portuguesa reforçaram-se os laços que unem as antigas colónias a Portugal, numa demonstração espantosa da força do futebol como fenómeno global.
A partir de amanhã regressamos todos ao mundo menos alegre da nossa vida real. Um mundo – e sobretudo um país – onde podem suceder coisas muito estranhas e verdadeiramente decisivas para a nossa vida futura como, por exemplo, a demissão de um primeiro-ministro, em circunstâncias conhecidas mas pouco justificáveis, ou, pior ainda, a ascensão ao lugar que fica vago de alguém sem o mínimo de legitimidade para o ocupar.
Mas esses são problemas que vamos ter de enfrentar a partir de amanhã. Hoje importa celebrar a forma brilhante como Portugal foi capaz de organizar um evento com a dimensão do Euro 2004 e, claro, dar os parabéns a todos os elementos da selecção portuguesa, agradecendo-lhes as três semanas de felicidade que concederam a tantos milhões de portugueses, nos quatro cantos do mundo.

Publicado por Paulo Godinho em 11:21 PM | Comentários (5)

Citações-7

"1 de Setembro de 1943.
Aquele que desespera dos acontecimentos é um cobarde, mas aquele que tem esperança na condição humana é um louco."
*
"Em período de revolução, os melhores é que morrem.
A lei do sacrifício faz com que finalmente sejam sempre os cobardes e os prudentes a ter a palavra, já que os outros, ao dar o melhor de si próprios, a perderam."
(Albert Camus, "Cadernos" - Caderno nº 4 - Janeiro 1942/Setembro 1945 - Livros do Brasil)
Publicado por Eduardo Graça em 07:22 PM | Comentários (0)

julho 03, 2004

Últimas do PSD-Madeira

A política consegue atingir sempre novos níveis de absurdo quando o tema é o PSD-Madeira. Um dos noticiários da RTP do arquipélago – caso não saibam a RTPi retransmite pelo menos dois diferentes por dia – abriu a sua edição de hoje com a notícia de que teria sido defendida, na reunião do Conselho Regional do PSD-Madeira, a não comparência às eleições do PSD e do CDS-PP, caso o Presidente da República decida convocar eleições antecipadas.
Segundo o referido conselheiro – que teria feito a sua intervenção perante a concordância do presidente e do vice-presidente do governo regional e do líder parlamentar do PSD, na Assembleia da República, Guilherme Silva – Sampaio estaria deliberadamente a tentar entregar o Governo à esquerda, à semelhança do que fez Mário Soares em situação semelhante.
Independentemente da originalidade da proposta quanto ao comportamento a adoptar pelos dois partidos da coligação, caso sejam convocadas eleições antecipadas, só me lembro de Mário Soares ter dissolvido a Assembleia da República uma única vez – tendo recusado um possível Governo de coligação PS/PRD e convocado as eleições antecipadas que levaram Cavaco Silva de uma maioria relativa à primeira maioria absoluta – mas admito que possa ter estado distraído e ter deixado escapar uma qualquer outra dissolução da AR, durante os dois mandatos de Mário Soares como Presidente da República.

Publicado por Paulo Godinho em 06:31 PM | Comentários (3)

Pranto pelo dia de hoje

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que não podem sequer ser bem descritas.

Sophia de Mello Breyner Andresen
In "Livro Sexto" - 1962


Publicado por Eduardo Graça em 01:30 AM | Comentários (0)

julho 02, 2004

Citações-6

A convocação de eleições legislativas antecipadas não é, como parece à primeira vista, uma vantagem óbvia para a esquerda. A situação da economia, o caos na administração e o mais que se verá, tornam a tarefa de qualquer futuro governo quase impossível.
Por outro lado Santana Lopes é um candidato temível se o PSD se apresentar às eleições liberto de compromissos com o PP de Paulo Portas. Segundo alguns estrategos, com leituras aprofundadas dos clássicos, incluindo Maquiavel, a esquerda teria muito a ganhar se Jorge Sampaio indigitasse o Dr. Pedro Santana Lopes para formar governo.
Conforme a actual maioria proclama ficava garantida a "tranquilidade pública" (Santana dixi) e o prosseguimento do projecto político aprovado pelo eleitorado em 2002. (Parece, em boa verdade, ter sido já há uns 20 anos!).
Para a direita seria um momento de glória a que se seguiria uma governação de direita populista repleta de contrariedades e contradições no seio do PSD. Para a esquerda seria uma folga para se reorganizar e esclarecer a questão da liderança no PS.
Reparem como a expectativa de eleições, a breve prazo, recriou a unidade no PS em torno de Ferro Rodrigues. Todos sabemos que se trata de uma falsa unidade. Assim como a unidade em torno de Santana Lopes é uma falsa unidade. O "cheiro" do poder torna os "partidos governamentais" túmulos em que os silêncios se oferecem em troca do adiamento das disputam autênticas.
Ao contrário do que parece a não convocação de eleições antecipadas pode ser, a médio prazo, vantajosa para o PS e para a esquerda. Mas os perigos de um populismo sem freio, protagonizado por um governo Santana Lopes + Paulo Portas, sem legitimação eleitoral, farão Jorge Sampaio, muito provavelmente, tomar a opção contrária.
Mas, dizem alguns, que não é nada linear a consideração de que a eventual opção de Jorge Sampaio por eleições antecipadas seja, ao contrário do que possa parecer, um benefício para a esquerda.

As citações do dia:

"Ter a força de escolher o que preferimos e ficarmos nesta posição. Caso contrário mais vale morrer."

"O tempo não corre depressa quando o observamos. Sente-se vigiado. Mas tira partido das nossas distracções. Talvez haja mesmo dois tempos, o que observamos e o que nos transforma."

(Albert Camus, "Cadernos" - Caderno nº 4 - Janeiro 1942/Setembro 1945 - Livros do Brasil)


Publicado por Eduardo Graça em 11:26 PM | Comentários (0)

Falta de nível

Durão Barroso fez a escolha pessoal de abandonar o cargo de primeiro-ministro de Portugal, para aceitar o de presidente da Comissão Europeia, mas teima em sobrevalorizar a relevância do lugar que vai ocupar em Bruxelas e em tentar desresponsabilizar-se pela opção que tomou.
Há dias, estranhou a reacção daqueles que disseram que o cargo que vai ocupar na União Europeia não teria importância que justificasse o seu abandono do Governo, desencadeando uma crise política de consequências ainda imprevisíveis. Procurou demonstrar a incoerência de alguns discursos, afirmando que não compreendia como era possível terem afirmado que ser presidente da Comissão Europeia era da maior importância para Portugal, quando o candidato era António Vitorino, e agora virem criticá-lo por ter aceitado exactamente o mesmo cargo. Obviamente, Barroso esquecia o "pequeno detalhe" de que uma eventual eleição de Vitorino não desencadearia nenhuma crise política em Portugal, para já não falar da clareza de posições do ex-ministro socialista sobre questões europeias – que permitiam esperar um desempenho de Vitorino relevante para o futuro da Europa – enquanto se desconhece, quase por completo, o que Barroso pensa sobre a evolução desejável para o espaço actualmente partilhado por vinte cinco países.
Ontem, em pleno Conselho Nacional do PSD, resolveu alijar responsabilidades no passo que deu, procurando comprometer o Presidente da República nas razões que o terão levado a aceitar a presidência da Comissão Europeia. Segundo Durão Barroso, Sampaio tê-lo-á encorajado a aceitar o lugar em Bruxelas e ter-lhe-á inclusivamente dado a entender que excluiria a possibilidade de convocar eleições antecipadas, na sequência da sua demissão de primeiro-ministro. Afirmou mesmo que só aceitou o novo cargo depois de estar "íntima e plenamente convencido" de que não haveria eleições antecipadas.
Como é evidente, o Presidente da República já esclareceu que não assumiu qualquer compromisso com Barroso, quanto aos passos que daria após a sua demissão. Mas o comportamento do (quase) ex-primeiro-ministro é esclarecedor do nível do homem que os europeus vão ter à frente da sua Comissão Europeia, durante os próximos cinco anos.

Publicado por Paulo Godinho em 09:10 PM | Comentários (1)

Sampaio convocará eleições!

Muito se tem especulado sobre a decisão do PR relativamente à crise política aberta por Durão Barroso. E há, nessas especulações, uma suspeita de que, apesar de tudo, o PR perfere a via da substituição à via da eleição. Ora o PR tem um curriculum conhecido dos Portugueses o que, aliás, o levou a assumir o cargo que ocupa. Ele é o garante da democracia, sem demagogias, sem jogos de interesses, sem abandalhamentos. Suspeitar que estas garantias possam estar em causa é pensar que se podia ter eleito, em vez de Sampaio, o Sr. X, Y ou Z, numa equivalência niveladora e neutralizante. Sampaio tem a seu cargo uma decisão individual mas que é fruto de uma responsabilidade assumida perante os Portugueses. Face à rejeição que os jogos partidários provocam numa opinião pública alargada, Sampaio só pode ser o garante do pilar da democracia que é a salvaguarda da própria dignidade das instituições. Por isso confio em Sampaio.

Publicado por Marienbad em 03:34 PM | Comentários (0)

Citações(5)

Os comentários na imprensa acerca da crise política enfatizam, quase sempre, a questão das ideias (ou a falta delas) dos candidatos a "chefes". Mas o verdadeiro debate está centrado na sua personalidade propriamente dita.
Discutem-se as pessoas não se discutem as ideias e os programas. Não é por acaso. É que a política é, antes de tudo, uma escolha de pessoas. De nada serve um bom programa interpretado por um "chefe" imbecil. Mas um "chefe" honrado e competente pode partir de um programa mediano e chegar a um "bom governo".
Reparem como foi conduzida uma campanha sórdida, mas bem organizada, para liquidar Ferro Rodrigues. É um caso emblemático da importância dos "chefes". Ora Ferro Rodrigues obteve, nas eleições de 2002, um resultado excepcional, levando o PS perto da vitória em condições desvantajosas. Nas eleições seguintes, as europeias, o PS obteve a maior vitória eleitoral de sempre e, no entanto, Ferro Rodrigues é apresentado, por muitos analistas e, mesmo, por alguns dirigentes socialistas como um perdedor.
Ferro Rodrigues é, pois, um "vencedor/perdedor". Paradoxal. Mas essa encruzilhada extrema em que se encontra é o que lhe dá a força. Quem conheça o homem, como eu, sabe que não desistirá, não fará "fretes" e, mais importante, nunca abandonará "o barco". O povo entende.
Vejam, ao contrário, como um "vencedor", o Dr. Durão Barroso, ao abandonar o governo, se transformou num perdedor. O mesmo já tinha acontecido com o Eng.º Guterres. A importância dos "chefes" avulta pela perda que pode assumir dimensões dramáticas: os "chefes são glorificados pela morte em combate, o sacrifício supremo, (Sousa Franco) ou são odiados pela desistência inexplicável, a suprema cobardia. (Durão Barroso). Cito os casos mais recentes.
Na verdade nunca se discute o programa do governo ou do partido (isso é uma ilusão) o que se discute, na "praça pública" é a personalidade do "chefe". As qualidades e os defeitos dos "chefes" são apreciados, até à exaustão, pela opinião pública. Os cidadãos sabem que o programa "está lá" mas que pode ser "outro" conforme o "chefe" que o executa.
Por isso Durão Barroso não pode ser substituído por Santana Lopes mesmo que o programa da coligação PSD/PP seja o mesmo. Santana Lopes nunca cumprirá o que Durão Barroso prometeu aos portugueses nas eleições e ele próprio não cumpriu.
O que no presente os cidadãos querem é participar na criação de um consenso majoritário na sociedade em torno de uma ideia capaz de relançar a esperança no futuro de Portugal. E esse caminho em democracia é, apesar de tudo, o da escolha, em eleições livres, dos homens para governar.

A citação do dia:

""Nietzche. - Nada de decisivo se constrói, a não ser sobre um "apesar de tudo""

(Albert Camus, "Cadernos" - Caderno nº 4 - Janeiro 1942/Setembro 1945 - Livros do Brasil)



Publicado por Eduardo Graça em 12:50 AM | Comentários (0)

julho 01, 2004

Petição em linha por eleições agora

Eu não acredito na "democracia electrónica", mas acredito que as novas tecnologias fazem parte da democracia. Pode assinar-se em linha uma petição ao Presidente da República para que devolva a palavra aos eleitores. Está aqui.
Publicado por Porfírio Silva em 06:54 PM | Comentários (0)

Também é importante salvar o PSD

Não estou a brincar.
Um dos aspectos centrais a ponderar na actual crise política tem a ver com a necessidade de salvaguardar o papel do PSD na democracia portuguesa. Entregar o PSD de mão beijada, por via de um malabarismo formalista, ao Sr. Lopes, significa prescindir de uma força central do regime. Interessa à democracia a saúde do PSD e seria um sinal de alto alarme que esse partido, depois de ter deixado de ser social-democrata, deixasse pura e simplesmente de ser democrata para passar a ser populista. Sobre esse ponto recomenda-se o artigo de Pacheco Pereira no Público de hoje.
Aliás, só assim se compreende que distintos sociais-democratas, menos obcecados com as minudências da pequena política, façam declarações que visam favorecer a convocação de eleições antecipadas. É que preferem correr o risco de uma vitória do PS no país, a entregar o seu partido a um salteador de estrada.
Assim, além do mais, se o PR fizer o gosto ao Sr. Lopes, ficará associado à destruição do PSD como partido democrático e à sua conversão em máquina de serviço para populistas. E, note-se, que o Sr. Lopes certamente não será o último populista da dinastia: na sua esteira outros virão e a lógica das coisas diz que o seguinte será sempre pior. Basta ter dado o primeiro passo no mau caminho.
Publicado por Porfírio Silva em 10:11 AM | Comentários (4)