junho 30, 2004

A Nossa Senhora, a toalha e a gravata

Finalmente, após três ocasiões perdidas – o Campeonato do Mundo de 1966 e os Campeonatos da Europa de 1984 e 2000 – a selecção portuguesa de futebol consegue alcançar a final de uma grande competição internacional.
Curiosamente, apesar de todo o valor que os jogadores portugueses têm revelado em campo, esta é de todas as vezes em que se chegou a uma meia-final aquela em que a intervenção do sobrenatural parece estar mais presente: o seleccionador nacional afirma não abdicar da sua Nossa Senhora de Caravaggio e revelou mesmo que Figo não lhe fica atrás, invocando a portuguesíssima Nossa Senhora de Fátima; Eusébio não larga a sua toalha da sorte que se terá revelado decisiva, nomeadamente nos penáltis contra a Inglaterra; e hoje, pela boca do próprio, ficámos a saber que o (ainda) primeiro-ministro Durão Barroso também tem a sua gravata da sorte, com as cores nacionais, que apenas não terá funcionado no jogo contra a Grécia porque o (quase) novo presidente da Comissão Europeia se esqueceu de a usar durante a primeira partida da selecção.
Temo, infelizmente, que a gravata venha a perder as suas capacidades sobrenaturais com a formalização do pedido de demissão do seu proprietário das funções de primeiro-ministro de Portugal.
Se Durão Barroso apresentar a demissão antes de domingo e nós perdermos a final já sabemos de quem é a culpa!

Publicado por Paulo Godinho em 11:46 PM | Comentários (0)

Santana Lopes continua na Câmara de Lisboa

Santana Lopes afirmou hoje que mesmo que seja eleito presidente do PSD isso não implicará a sua saída da Câmara Municipal de Lisboa. Imagino que com estas declarações Jorge Sampaio vai parar com as suas consultas a diversas personalidades e declarar inequivocamente que não convocará eleições antecipadas e que irá convidar o PSD a indicar o novo primeiro-ministro. Basta recordarmos que há sensivelmente uma semana Durão Barroso também garantia aos portugueses que não era candidato à presidência da Comissão Europeia.

Publicado por Paulo Godinho em 11:36 PM | Comentários (0)

Citações-4

Voltando à questão dos "chefes". A mudança dos homens é a essência da política.
A citação do dia é um pouco mais longa do que tem sido habitual. Mas parece-me que ilustra, com muita acuidade, uma faceta da crise política actual. A mudança do "chefe" da actual maioria representa uma profunda alteração da situação política.

Não é um detalhe que possa encontrar solução num arranjo de bastidores quando todos sabemos que "a própria política é feita da mudança dos homens". E esta mudança é demasiado estruturante da própria política para não ser legitimada pelo mais nobre dos mecanismos da democracia representativa: o voto popular.

"Curioso. Historiadores inteligentes investigando a história de um país empregam todas as suas forças a preconizar tal política, realista por exemplo, a que se devem, segundo lhes parece, as maiores épocas desse país.

Apontam eles próprios todavia que esse estado de coisas não pôde durar porque imediatamente um outro homem de Estado ou um novo regime vieram e tudo estragaram.

Nem por isso deixam de defender uma política que não resiste à mudança dos homens, enquanto se sabe que a própria política é feita da mudança dos homens. É que só pensam ou escrevem para a sua época.

Alternativa para os historiadores: cepticismo ou uma teoria política que não dependa da mudança dos homens (?)."


(Albert Camus, "Cadernos" - Caderno nº 4 - Janeiro 1942/Setembro 1945 - Livros do Brasil)


Publicado por Eduardo Graça em 06:17 PM | Comentários (0)

junho 29, 2004

Citações-3

Claro que o "bom governo" não se reduz às qualidades do "chefe". O "bom governo" exige um bom programa e uma equipa competente. Vejam o caso do governo chefiado por Durão Barroso. É um governo legítimo resultante dos resultados das eleições de Março de 2002.

Mas o governo não integrou, salvo os líderes de ambos os partidos, nenhuma das personalidades que, durante a campanha eleitoral, foram apontadas como futuros ministros. Nem António Borges, nem Dias Loureiro, nem outros que foram insinuados, ou mesmo apresentados, como valores seguros.

O governo de Durão Barroso é fraco e incompetente. A equipa que Durão Barroso reuniu no governo foi fortemente condicionada pela coligação com o PP. Estes dois anos de governo mostraram que o PP é um partido predador. O Dr. Durão Barroso abandonou, à primeira oportunidade, o governo porque percebeu que não seria capaz de o remodelar sem se desembaraçar do PP.

Os quadros social-democratas competentes, que qualificariam um governo de centro direita, nunca integrarão um governo de coligação com o PP do Dr. Paulo Portas. Os governos de coligação PDD/PP, mesmo que resultem de uma inverosímil "iniciativa presidencial", serão sempre governos fracos e incompetentes.

A tendência, no caso da formação de um governo assente na actual maioria, é para a qualidade baixar ainda mais. A competência do governo está na qualidade das mulheres e dos homens que o compõem. Qualidades humanas, políticas e técnicas. O governo de Durão Barroso está repleto de gente sem qualidade humana, sem tacto nem experiência política e eivado de incompetência técnica.

É difícil baixar ainda mais o nível mas Santana Lopes, se for primeiro-ministro, com ou sem eleições, vai conseguir. O primeiro a perceber esta realidade é o Dr. Jorge Sampaio. Durão Barroso não sei se percebe mas, em Bruxelas, não terá que escolher os comissários. O Dr. Santana Lopes tem como tradição escolher equipas fracas e incompetentes. Para ele é-lhe indiferente o governo que chefiar pois pensará sempre "no lugar que se segue".

A citação do dia:

"Montesquieu. "Há imbecilidades de tal quilate, que seria preferível uma imbecilidade ainda maior.""

(Albert Camus, "Cadernos" - Caderno nº 4 - Janeiro 1942/Setembro 1945 - Livros do Brasil)


Publicado por Eduardo Graça em 06:09 PM | Comentários (0)

Vamos chumbar Durão na Comissão

Perguntaram a Ferro Rodrigues se os eurodeputados do PS votariam Durão para Presidente da Comissão no Parlamento Europeu. Ferro, temendo que venham a dizer que o PS na Europa se opõe a um português, respondeu qualquer coisa diplomática. Discordo. O que há que dizer é: se o Durão na Comissão for tão incompetente como o Durão no governo, e se defender as mesmas políticas, devemos votar contra ele em qualquer lado. Ou o que é mau para nós feito em Lisboa torna-se bom feito em Bruxelas? Ou "para que saibam o que nós amargámos, agora os outros que o aturem"? Acabemos com os falsos patriotismos. Só é possível pensar de outro modo se Durão for para Bruxelas fazer tudo o contrário do que fez e disse em Portugal. Caso contrário, a minha palavra de ordem é: vamos chumbar Durão na Comissão!
Publicado por Porfírio Silva em 02:26 PM | Comentários (1)

E que tal uma batalha campal?

Se se realizam duas manifestações, no mesmo local e à mesma hora, uma contra e outra a favor de Lopes, a coisa pode tornar-se numa batalha campal. Voltamos aos bons velhos tempos em que as disputas políticas se resolviam terçando armas? Talvez fosse conveniente que se compreendesse que esta luta política não se vai resolver na base do "quem grita mais alto". Prefiro os argumentos. O SG do PS deu um bom, a seu favor: da última vez que a questão se colocou (demissão de A. Guterres), o PS preferiu eleições, sabendo que podia perdê-las, em vez de tentar aguentar-se no poder a qualquer preço.
Publicado por Porfírio Silva em 02:13 PM | Comentários (0)

Vamos sair da União Europeia?

Parece que íamos ter um referendo sobre o Tratado Constitucional da União Europeia. Se viermos a ter um governo Sampaio-Lopes-Portas, quem vai protagonizar em nome da direita a batalha do referendo? Lopes e Portas? Lopes só quer ouvir falar em facilidades e, mesmo que quisesse algo mais, não saberia como explicar qual a razão para partilharmos a soberania com outros 24. Portas, agora à vontade com o seu amigo Lopes (e talvez como ministro dos estrangeiros), daria largas ao seu anti-europeísmo militante.
Pensam que exagero? Vejam como, ainda há pouco tempo, Portas tentou boicotar uma política europeia de defesa e segurança que pudesse não andar sempre a reboque dos americanos. Fez isso bloqueando um acordo sobre a agência europeia de desarmamento. A ministra dos estrangeiros, a doce Teresa, queria votar a favor, mas o nacionalista pró-americano-conservador aproveitou ser ministro da defesa e não deixou. Podemos vir a ter mais disso no futuro próximo. Num cenário desses, pode perfeitamente acontecer que Lopes e Portas nos levem para o magnífico cenário de sermos colocados à porta da UE. Com coisas sérias não se brinca.
Publicado por Porfírio Silva em 11:59 AM | Comentários (0)

junho 28, 2004

SIGAMOS A DEMOCRACIA

“Sempre à Coca”, tal como todo o praticante da desgastante arte de ser português, tem qualquer coisa de esquizóide. Nesta disfunção do foro psíquico, euforia e depressão sucedem-se em catadupa e a velocidade estonteante.
Por exemplo: à alegria provocada pela debandada de Durão Barroso, sobrepôs-se a neurose motivada pela hipotética chegada a S. Bento de Santana Lopes. Tudo nos acontece!
Após dois anos de caos meticulosamente estabelecido em sectores fundamentais da sociedade (entre os mais atingidos encontram-se a saúde, a educação, o emprego e a segurança social), eis-nos confrontados com o “golpista” Lopes, segundo a designação que lhe é atribuída comummente por correligionários insignes.
E como um mal sempre se faz acompanhar, “Sempre à Coca” teme pela renitente persistência de Portas (Paulo) que, tudo indica, se prepara para uma recaída, desta vez na área dos Negócios Estrangeiros. O moço merece, sobretudo se se tiver em conta a empolgante política cometida no Ministério da Defesa (esta aqui é mesmo brejeira e por isso dedicada ao Porfírio), por contraposição à sedosa actuação de Teresa Gouveia.
“Sempre à Coca” confessa-se muito e benevolente apreciador de Teresa, bela representante da mulher e da diplomacia portuguesas, por contraposição a Portas (Paulo) péssimo exemplar do homem luso. Ou, como diria o saudoso João César Monteiro, “tiram a Mona Lisa, para pôr um mono luso”…
Se Guterres se ausentou sabe-se lá para onde, se Barroso vai por essa Europa afora sem dar “cavaco”, se o País se prepara para enfrentar um primeiro-ministro “nascido” de um “golpe de estado”, se o mundo corre o perigo de construir uma imagem de Portugal em função de Portas (Paulo) … porque não pode o povo português mudar o país, através, por exemplo, de eleições democráticas?
Ao fundo do imenso túnel em que Santana gostaria de transformar o País, poderá surgir a luz do Presidente da República, Jorge Sampaio, cidadão eleito por sufrágio directo e universal. Com o cherne de partida, sigamos a democracia.

Super Abébia de Platina para o cidadão anónimo que se lembrou de convocar por telemóvel uma manifestação para Belém, em defesa de elementaríssimos direitos da democráticos.

Super Abébia de baquelite para os partidos da oposição, pela contumaz incapacidade de se unirem, para unanimemente exigirem eleições legislativas antecipadas.

Publicado por Sempre à coca em 11:37 PM | Comentários (0)

Citações-2

O "bom governo" o que é? A crise aberta pela nomeação de Durão Barroso para Presidente da Comissão Europeia pode ser uma grande oportunidade para debater o tema do "bom governo".

Não falo de formalidades mas da coisa em si mesma. Tomando em consideração a ideologia de juventude do "putativo futuro" PCE a primeira condição do "bom governo " é a do timoneiro ou, na linguagem mais vernácula do maoismo, a do "grande timoneiro".

O "bom governo" carece de um "bom primeiro-ministro". As suas qualidades intrínsecas não são, no entanto, suficientes pois, em regime democrático, a bondade do líder carece de ser sufragada pelo povo. É a maçada das eleições.

Nas ditaduras um grupo de conjurados impõe, a golpe, o "chefe", enquanto nas democracias representativas, os eleitos são uma emanação do sufrágio popular.

Em democracia as escolhas não resultam das qualidades intrínsecas do "chefe" exaltadas pelo apoio "unânime" dos seus apaniguados. Este é o modelo populista que se aproxima tanto mais da ditadura quanto a democracia é transformada aos olhos das massas numa desnecessidade por "não resolver nada" ou "por não valer a pena votar" (quantas vezes já ouvimos estas palavras nos últimos dias!).

A verdadeira democracia exige a coragem tranquila dos homens que querem ser livres e estão dispostos a correr o risco de lutar pela liberdade.

A citação do dia:

"Há sempre uma filosofia para a falta de coragem."

(Albert Camus, "Cadernos" - Caderno nº 4 - Janeiro 1942/Setembro 1945 - Livros do Brasil)


Publicado por Eduardo Graça em 08:53 PM | Comentários (0)

Ferreira Leite recusa Santana Lopes

A vida de Santana Lopes começa a complicar-se dentro do próprio PSD.

Publicado por Paulo Godinho em 10:59 AM | Comentários (0)

junho 27, 2004

Um governo Sampaio-Lopes-Portas?

1. Aquilo que muitas vezes se diz ser a crescente instabilidade (e até volatilidade) das democracias representativas tem, a meu ver, uma explicação: cada vez mais a "legalidade" é insuficiente para a "legitimidade". Cada vez mais, "o povo" condena soluções políticas que, mesmo que sejam perfeitamente conformes aos códigos, não se conformam com o contrato difuso que tornou aceitável determinada solução num dado momento. Um dos desafios das democracias representativas é encontrar uma resposta para esta mutação - coisa de que, aliás, não têm sido capazes.
2. Esta busca constante, casuística e desordenada de legitimação de cada reviravolta política faz com que os seus actores não se possam esconder atrás da mera legalidade dos seus actos. Um acto político apreciado à luz de considerações de legitimidade não permite a remissão para o plano da mera legalidade. Em democracia saudável, todos os actos legítimos são legais, mas nem todos os actos legais são legítimos. Assim, quem confere legitimidade a um acto que não a teria de outro modo, torna-se co-obreiro político desse mesmo acto, em toda a extensão da responsabilidade inerente.
3. É assim que, se o Presidente da República se apoiar na legalidade constitucional para permitir, para a crise que se avizinha, uma solução política que os portugueses consideram torta, o PR ficará inelutavelmente vinculado a essa solução. Se o PR der, a um governo liderado por gente que os portugueses não sintam ter sufragado, um apoio que viabilize um aborto que de outro modo se evitaria, o PR será parte integrante dessa solução. Isto é: o PR tem de pensar se quer que o próximo governo se deva chamar, para todos os efeitos políticos, o governo Sampaio-Lopes-Portas.
Publicado por Porfírio Silva em 08:52 PM | Comentários (1)

Portugal ganha por ter o presidente da Comissão?

Não se pode menosprezar a importância de um português ocupar um alto lugar nas instituições da União Europeia, onde os pequenos países têm mais dificuldades em colocar peões. Se Durão Barroso vier a ser presidente da Comissão Europeia, isso terá importância para Portugal. Mas dizer que "será importante" é diferente de dizer que "será bom". Se ele se revelar tão mau presidente como foi Jacques Santer, por exemplo, isso será desastroso para Portugal. Se Durão Barroso não revelar, como presidente da Comissão, dotes que vão muito para além dos que revelou com primeiro-ministro de Portugal, isso será desastroso para o peso do nosso país no concerto europeu. É por isso que ter António Vitorino como presidente (desejado pelas suas qualidades) ou ter Durão Barroso (desejado pelo seu apagamento), são coisas completamente diferentes para os interesses de Portugal. Digo, pois: espero bem que Durão Barroso saiba coisas e tenha qualidades que nunca revelou na política portuguesa. Caso contrário, vamos ser bem gozados...
Publicado por Porfírio Silva em 08:50 PM | Comentários (0)

Citações-1

Nestas alturas de crise política que me afectam o estado de espírito, vá lá saber-se porquê, desde a juventude, ponho-me a ler Camus. Alguém disse que lemos sempre o mesmo livro mesmo quando lemos livros diferentes.

Leio quase sempre os "Cadernos" de Albert Camus mesmo quando leio outro livro qualquer. Nestes dias de descrença na capacidade dos homens para encontrarem as boas soluções de governo nada melhor do que estarmos atentos. Não podemos tomar as medidas que desejamos. Outros as tomarão por nós.

As ditaduras afastam os povos da responsabilidade da tomada das decisões. Lembro-me do discurso da falta de maturidade do povo para votar. Quanto menos for chamado a pronunciar-se acerca das grandes questões nacionais, em particular, as escolhas de governo, mais o povo se sentirá afastado dos desígnios da democracia.

Confiar? Desconfiar? O povo desconfia. Terá razão? O populismo espreita. Delegamos o poder através do voto. Será que nos vão devolver o poder, em tempo útil, para escolhermos de novo? Uma só partícula de poder a cada um de nós. Mas o suficiente para que nos sintamos reconfortados por termos influenciado as escolhas que comprometem toda a comunidade.

Não é o tempo oportuno? Mas se não escolhermos a participação popular, mesmo quando a mesma parece excessiva, estamos a abrir o caminho aos populistas. Os populistas fingem que usam o poder para servir o povo mas servem-se dele para alcançar os seus objectivos particulares.

Aqui estão as citações do dia. A continuar.

""Tudo o que não me mate torna-me mais forte." Sim, mas…E como é duro pensar na felicidade. O peso esmagador de tudo isso. O melhor é calarmo-nos para sempre e voltarmo-nos para o resto."

""Retz: "Com excepção da coragem, o senhor Duque de Orlèans tem tudo quanto é necessário a um homem honesto""


(Albert Camus, "Cadernos" - Caderno nº 4 - Janeiro 1942/Setembro 1945 - Livros do Brasil)


Publicado por Eduardo Graça em 04:40 PM | Comentários (0)

Só nos faltava o Alberto João...

A edição de ontem do Telejornal da RTP-Madeira abriu com a notícia de que o novo quadro político, decorrente da ida de Durão Barroso para presidente da Comissão Europeia, poderá abrir novas perspectivas na carreira política de Alberto João Jardim.
A primeira hipótese será uma dupla Santana Lopes/Alberto João Jardim a nível governamental – sem que seja explicado o papel concreto a desempenhar por Alberto João – com o propósito de "ambos meterem o país na ordem" (sic). As duas restantes hipóteses serão a ida de Alberto João para comissário europeu ou, com a retirada de Santana Lopes da corrida presidencial, a candidatura de Jardim à sucessão de Jorge Sampaio.
Se dúvidas houvesse sobre o estado de loucura quase generalizada a que estão a chegar as coisas para as bandas do PSD, esta notícia é mais um bom exemplo de como só a convocação de eleições antecipadas poderá devolver alguma dignidade à vida política portuguesa.

Publicado por Paulo Godinho em 01:43 AM | Comentários (3)

Prestigiar a democracia

Jorge Sampaio encontra-se provavelmente face à mais difícil decisão dos seus dois mandatos como Presidente da República. Caso Durão Barroso deixe o Governo e vá ocupar o cargo de presidente da Comissão Europeia, deve ou não deve o PR dissolver a Assembleia da República e convocar eleições antecipadas?
Do ponto de vista formal parece não ser a isso obrigado pois, em qualquer eleição para a Assembleia da República, os eleitores limitam-se a votar para eleger os deputados do respectivo círculo eleitoral – que se encontram em pleno exercício dos seus mandatos – não votando directamente para eleger o primeiro-ministro. Mas esta é "apenas" a situação formal. Quantos eleitores, ao votarem numa eleição para a Assembleia da República, conhecem o cabeça-de-lista do partido em que votam, no seu círculo eleitoral? Se permitimos que as campanhas eleitorais sejam estruturadas e disputadas tendo como quase únicas referências para os eleitores as propostas eleitorais e os candidatos a primeiro-ministro de cada partido, será legítimo esquecer este facto quando nos encontramos face a uma situação como a que Jorge Sampaio enfrenta neste momento?
Nunca nos trinta anos de história da democracia portuguesa se verificou um tão grande desfasamento entre o que um partido prometeu ao eleitorado e o que efectivamente realizou à frente do Governo, como sucedeu com o PSD presidido por Durão Barroso. Será razoável que Jorge Sampaio permita que aumente ainda mais o desfasamento entre o que levou os eleitores a escolherem o PSD para governar e o que efectivamente aconteceu após as eleições, permitindo que não só sejam ignoradas as promessas eleitorais como que até o primeiro-ministro seja um outro, não sujeito ao sufrágio popular?
Jorge Sampaio tem expressado inúmeras vezes a sua preocupação com a participação democrática dos portugueses. Se permitir – refugiando-se nos argumentos formais – este pequeno "golpe palaciano" Sampaio ficará indelevelmente associado a mais uma machadada no já fraco prestígio da nossa democracia.

Publicado por Paulo Godinho em 12:01 AM | Comentários (1)

junho 25, 2004

Mistérios

Se Durão Barroso vier a ser presidente da Comissão Europeia, como parece certo, fica desvendado o mistério da não remodelação do governo nestes dias que passaram desde as eleições europeias. É que estava guardada, em segredo, a remodelação do próprio Primeiro-ministro. Agora entendo o dircurso de alguns comentaristas que me tinham parecido algo misteriosos nestas últimas duas semanas.

Fica desvendado, por outro lado, o mistério do "apoio" de Durão Barroso a Vitorino para a Presidência da Comissão Europeia: foi, desde o princípio, um falso apoio. Durão usou habilmente Vitorino como "lebre" para abrir caminho à sua própria candidatura.

Não é possível que esta estratégia não estivesse nos planos do partido popular europeu ou que, ao menos, não tenha amadurecido muito cedo. A conclusão e anúncio do processo careciam de algum tempo afastando, tanto quanto possível, o momento da decisão dos resultados desastrosos da coligação "Força Portugal". Assim ficaria esbatida a ideia de uma "fuga" de Durão Barroso. Foi o que aconteceu.

O PR, em fim de mandato, tudo fará para evitar a abertura declarada de uma crise política. Mas a crise política já está aberta, desde o dia 13 de Junho. Pode disfarçar-se a sua existência mas não se pode iludir a sua realidade.

A não realizações de eleições antecipadas dará origem ao apodrecimento da crise. Basta que diversos altos cargos políticos, que resultam de eleições, venham a ser ocupados por quem nunca se apresentou a sufrágio - em primeira linha - para exercer esses cargos. É uma questão elementar de legitimidade democrática para além dos meros formalismos de uma República de figuras de cera.

Mas se Durão Barroso vier a ser presidente da Comissão Europeia, abandonando as funções de primeiro-ministro, o país só ficaria a ganhar com a realização de eleições legislativas antecipadas.

Se a condição de Durão Barroso para aceitar o convite da presidente da Comissão Europeia for a não realização de eleições antecipadas, em Portugal, estamos conversados acerca da sua relação de confiança com o povo português e o eleitorado que nele votou nas anteriores eleições legislativas.

Qualquer outra alternativa poderá ser formalmente irrepreensível mas deixará a pairar no ar enormes dúvidas acerca da sua real legitimidade democrática. Se for desvendado o mistério e Durão Barroso vier a ser presidente da Comissão Europeia…a "remodelação do primeiro-ministro" deveria ser evitada através da devolução da palavra ao povo, já!

É que há uma enorme diferença entre um governo 100% remodelado e um governo 100% legitimado pelo voto popular.


Publicado por Eduardo Graça em 10:51 PM | Comentários (0)

Malditas regras do futebol

Os senhores do futebol insistem em fazer-nos sofrer. Inventam "golos de ouro" e "golos de prata" que parecem especialmente concebidos para os jogos da selecção portuguesa.
Em 1984, quando Portugal chegou pela primeira vez a uma meia-final de um Campeonato da Europa, contra a França, o jogo foi para prolongamento, após 1 a 1 no tempo regulamentar. Na primeira parte do prolongamento Rui Jordão marcou para Portugal aos oito minutos. A seis minutos do final do prolongamento a França empatou e a apenas um minuto dos pontapés da marca de grande penalidade fez o 3 a 2 que arredou Portugal do sonho de chegar à final. Na altura não existiam "golos de ouro" ou "golos de prata" pois, se existissem, a vitória teria sido portuguesa, quer porque Portugal foi a primeira equipa a marcar no prolongamento (golo de ouro) quer porque também chegou ao final da primeira parte do prolongamento em vantagem (golo de prata).
Há quatro anos Portugal chegou novamente à meia-final do Campeonato da Europa e, mais uma vez, contra a França. O 1 a 1 no final dos noventa minutos repetiu-se e o prolongamento foi inevitável mas, desta vez, com a regra do "golo de ouro" a vigorar. Na primeira metade do tempo extra nada se alterou mas quando decorriam doze minutos da segunda parte do prolongamento o árbitro assinalou uma grande penalidade contra Portugal e Zidane concretizou o "golo de ouro" que nos arredou novamente da final. Se as regras fossem as de 1984 ou a do "golo de prata", aplicada este ano no Euro 2004, teríamos tido pelo menos três minutinhos para tentar inverter o resultado negativo.
Ontem, mais uma vez, jogámos um jogo a eliminar de um Campeonato da Europa e lá voltámos a repetir o 1 a 1 no final do tempo regulamentar. No prolongamento, tal como em 1984, fomos os primeiros a marcar mas, em apenas quatro anos, as regras voltaram a mudar. Se vigorasse o "golo de ouro", do Euro 2000, teríamos ganho o jogo no momento em que Rui Costa marcou o seu fabuloso golo. Mas não, agora o que conta é o "golo de prata" e lá tivemos que sofrer com o golo do empate inglês e com o suplício das grandes penalidades.
Consta que em futuras competições internacionais se irá regressar ao sistema que vigorava em 1984, esquecendo definitivamente os "golos de ouro" e os "golos de prata". Não tenho a certeza se será mesmo assim mas peço encarecidamente aos senhores da FIFA e da UEFA que se decidam de uma vez por todas: os corações portugueses já não aguentam muitas mais emoções como as que se viveram a noite passada...

Publicado por Paulo Godinho em 12:01 AM | Comentários (4)

junho 24, 2004

Música (2)

Bob Dylan galardoado Doutor da Música

O título foi atribuído pela Universidade de Saint Andrews, Escócia. O cantor norte-americano foi um dos 100 galardoados pela mais antiga universidade escocesa. Recebido por um coro de capela que cantou o seu sucesso "Blowing in the wind", Dylan foi agraciado pela contribuição para a cultura e consciência social do século XX.


Esta notícia, que muito me toca, faz-me voltar ao assunto da música. Numa sociedade com um desenvolvimento cultural médio os assuntos da música são, de facto, tratados como assuntos muito sérios. Não sou especialista mas, em Portugal, existem especialistas como, por exemplo, o Rui Vieira Nery que muito já tem dissertado acerca desta matéria.

A escola é o lugar, por excelência, da iniciação e educação musical. Este é um ponto que deveria ser assumido por qualquer programa político no capítulo da reforma da educação.

Existe, em Portugal, uma tradição e, mais importante, uma rede de agrupamentos de natureza associativa que cobre todo o país e que podia ser a inspiração para um projecto nacional de educação musical da juventude. Existem escolas de música e agrupamentos musicais (bandas filarmónicas e não só), maestros, músicos, instrumentos, organização e entusiasmo.

A escola pública está, na prática, afastada deste processo: não o integra, não o aproveita, não o desenvolve, não assume o desafio da educação musical. A comunidade está desinteressada da educação musical? Não creio. O Estado não dispõe de recursos financeiros e materiais? Já se fizeram as contas?

Bob Dylan é um ícone de várias gerações, a Escócia uma sociedade que preza as suas tradições e valoriza o papel da música. Trata-se, claro, de um acto simbólico. Hoje vi a notícia de uma ópera, anunciada em grandes parangonas, que se não realizou, nas ruínas do Convento do Carmo, em Lisboa, pois os cantores italianos se recusaram, em cima da hora, a cantar sem antes receber o "cachet". Trata-se de um acto simbólico de sentido contrário.

Mas não fiquemos tristes pois na China estão referenciados 8 milhões de estudantes de piano (só neste instrumento!) e, destes, meio milhão deverão seguir a carreira profissional de pianista. Um pequeno detalhe para reflectir.


Publicado por Eduardo Graça em 05:59 PM | Comentários (1)

junho 23, 2004

Os resultados eleitorais do CDS/PP

O CDS/PP reuniu a sua Comissão Política para analisar os resultados das eleições para o Parlamento Europeu e chegou à seguinte conclusão: mesmo que tivesse concorrido separado do seu parceiro de coligação o CDS/PP teria alcançado, sem margem para dúvidas, os mesmos dois deputados que conseguiu através das listas conjuntas com o PSD.
Não sei que instrumentos de análise terão sido utilizados pelos dirigentes do CDS/PP – particularmente pelo líder parlamentar Telmo Correia que revelou uma enorme convicção nas suas afirmações – mas, mesmo supondo que as percas dos dois partidos do Governo seriam proporcionais às sofridas pela coligação, tendo como referência os resultados alcançados pelos dois partidos nas eleições para o Parlamento Europeu de 1999, o partido de Paulo Portas correria o sério risco de perder o segundo deputado em favor do décimo terceiro do PS, como será fácil de verificar por quem se der ao trabalho de fazer os cálculos.
Se em lugar de proporcional aos resultados de há cinco anos o desgaste dos dois partidos da coligação fosse proporcional ao peso de cada um no Governo então o CDS/PP correria o sério risco de não eleger sequer um deputado.

Publicado por Paulo Godinho em 11:33 PM | Comentários (0)

Os passes sociais e os transportes públicos

O grau de urbanidade das cidades contemporâneas mede-se pela capacidade que elas possuem de permitir a mobilidade dos cidadãos, quer no seu interior quer para o exterior. Assim, qualquer política que actue no sentido de aumentar os fluxos, de os tornar mais céleres, mas também mais maleáveis, é bem-vinda. A gestão dos fixos e dos fluxos agiliza as cidades, torna-as mais ou menos habitáveis e, sobretudo, mais conviviais. Daí que desde há muito se imponha uma medida de integração dos bilhetes dos transportes colectivos urbanos e suburbanos que permita potencializar a mobilidade, aproximar espaços, levar os utentes a operar variações e ligações entre transportes com o mínimo de esforço e de custo. Hoje, porém, a notícia é outra: descobriu-se que a justiça ainda não tinha chegado aos transportes públicos e o ministro da tutela inventou esta coisa brilhante que é a “discriminação do preço do passe social em função do rendimento do utente”, tal como se anuncia na imprensa.
E pergunta-se: será esta uma forma encapotada de subir o preço dos passes sociais? Trocando por miúdos, que donos de Mercedes irão pagar a tarifa máxima convivendo fraternamente com aqueles que, por não possuírem automóvel, estão mesmo condenados aos passes sociais? Ou o Governo tem dúvidas sobre o leque de rendimentos dos utentes dos passes sociais?
Tanta demagogia e tamanha incompetência deprimem!


Publicado por Marienbad em 05:48 PM | Comentários (2)

junho 21, 2004

O "jogador"

Finalmente percebi porque é que o senhor primeiro-ministro dizia ontem às televisões, depois de Portugal ter ganho um jogo de futebol à Espanha, que estava num dos seus dias mais felizes em termos desportivos. Percebi isso quando passou por mim na rua um rapazinho com uma camisola "da selecção nacional", com o número 12, em que o nome do "jogador" era D. Barroso. A falta de vergonha só não ultrapassa o descaramento maoísta de sua excelência. Felizmente, para passar esta fase não foi preciso ganhar à Grécia na véspera das eleições. Fomos, assim, sem prejuízo, poupados aos arraiais de campanha eleitoral proibida pelo espírito de todas as leis, mas que a "letra" do facto consumado tornaria inoperantes perante o truque de querer ganhar disputas eleitorais nos relvados.
Publicado por Porfírio Silva em 07:42 PM | Comentários (0)

Música

Quando ouço, a bordo, música na antena 2 sofro de um problema quase insolúvel. Sinto necessidade, por vezes, quando o tema me inspira, de tomar um apontamento e a condução torna a tarefa delirante. Em regra aproveito os sinais vermelhos e todas as oportunidades que, em situação comum, dariam para observar o caos urbano, pensar na vidinha ou acelerar.

No outro dia resolvi mesmo parar. É que à súbita necessidade de tomar um apontamento acresceu o toque do telemóvel. Parei cuidadosamente. A rua era estreita e subi ligeiramente o passeio mordendo uma passadeira de peões. Rua das Janelas Verdes. À porta do Comando da Brigada de Trânsito. Um polícia solícito assomou ao vidro com ar de incredulidade. Expliquei. Tudo bem. Pode seguir. Segui.

A missão tinha fracassado. Nesse mesmo local tinha visto estacionado, uns dias antes, para meu espanto, um carro, todo artilhado, da própria B.T. "Em casa de ferreiro espeto de pau". O mesmo se passa com o meu filho que vai ter 1 (a nota máxima na escala da Escola Alemã) na disciplina de "Música" e eu não passei das velhas aulas de "canto coral" e dos primeiros acordes nas lições particulares de piano. É das melhores notícias do ano.

Parece um detalhe mas, para mim, não é. A música devia ser, desde muito cedo, disciplina obrigatória no ensino público. A música é uma das coisas raras do mundo parafraseando o que Camus disse a propósito do vento. Educa o gosto e estimula a aprendizagem das ciências. E ainda mais importante: enquanto a música toca está acesa a luz da esperança no futuro do homem.


Publicado por Eduardo Graça em 01:12 AM | Comentários (0)

junho 18, 2004

A minha linda padaria!

Todos em geral e cada um em particular tem orgulho, tem brio na sua padaria, digo, a padaria do seu bairro, da sua rua, aquela que fabrica um pão inimitável, que recordamos com água na boca quando nos ausentamos do nosso cantinho e que nos faz sentir aquela inexplicável e tão portuguesa saudade (é que percorrendo outros países nos damos conta de quão diferentes são as outras padarias; daí o ditado: “cada qual tem o pão que merece”)! Sabem a importância do pão na formação das nossas mentalidades. O pão consegue ser ao mesmo tempo metáfora e metonímia do universo nacional. Os políticos apregoam que a educação é o “pão prá boca” da juventude; nós sabemos que os construtores civis são o “pão prá boca dos autarcas” e por aí fora. Mas o pão é ainda metonímia de outro qualquer alimento "o pão nosso de cada dia!". Assim constatamos quanta poesia existe no pão, para já não falar na sua diversidade lexical, da carcaça ao papo-seco (termo também muito usado para caracterizar saídas intempestivas, abandonos à má fila, e por aí fora).
Mas voltemos à minha padaria! A padaria do meu bairro é inconfundível, embora pertença, como disse, ao género bem nacional. Tem uma atmosfera alva, essa pureza que lhe dá o mármore antigo, só avivado pelas grades metálicas que sustentam a enorme variedade de pão. Mas não se fica por aqui a sedução que ela exerce sobre mim. Houve um tempo em que a minha padaria aliava a venda do pão a outros géneros (alimentícios, claro) que vão sempre bem com o dito, como seja, embalagens de óleo fula, garrafas de vinagre cristal, latas de feijão branco e frade e também de atum general que, discretamente arrumadas a um canto, serviam aquele cliente mais precisado, para já não nomear a clássica planta. De bolos, nem se fala: a minha padaria tem um exemplar de cada qualidade, fora os outros, os da véspera, já em tabuleiro devidamente separado. A montra exibe um cesto em plástico, forrado a guardanapo de papel, com biscoitos da categoria dos últimos bolos atrás mencionados.
Ao balcão, a padeira da minha padaria não se limita a servir clientes, que os fluxos não são sempre certos. Não, junto à máquina registadora, ela guarda ciosamente o seu livrinho de palavras cruzadas, que, como todos sabemos, aumenta o vocabulário dos portugueses, colocando os termos em contexto, dimensão que nem todos os dicionários fornecem.
À tarde, quando me dirijo à minha padaria, o meu coração está sempre suspenso desta incógnita: estará aberta? Porque nem sempre abre… Um dia, perguntei à padeira qual, afinal, o horário de abertura vespertina. Manifestando uma grande admiração, ela respondeu-me: Depende! Depende das sobras! Quer dizer que se o pão for todo vendido de manhã, será desnecessário abrir as portas à tarde. Assim se regula o mercado das ofertas e das procuras. Quem precisar de pão pode dirigir-se à loja de conveniência mais próxima! Já viram maior propriedade do que uma loja chamar-se de conveniência? Ela está lá no exacto ponto das nossas necessidades!

Publicado por Marienbad em 02:28 PM | Comentários (5)

PATRIOTISMO AFOGA “SEMPRE Á COCA”…

“Sempre à Coca” está afogado pela onda de patriotismo que varre o País. Coisa vagamente idêntica apenas ocorreu nos idos de 60 do século passado, com a perda de “território português” na Índia. O povo “vindo de todo o País” concentrou-se, então e salvo o erro, no Terreiro do Paço (naquele tempo o povo pouco mais ocupava do que aquele espaço…), para demonstrar “patriotismo” à criatura que então “conduzia os destinos da Nação”.
Hoje, felizmente, os tempos são outros, o patriotismo é democrático, exibe-se com Bandeira Nacional desfraldada no postigo de um casebre serrano, ainda sem saneamento básico, ou hasteada em requintado mastro lacado, estrategicamente colocado em elegante terraço da Quinta da Marinha, uma vez ouvido o conselho de um decorador diplomado, ou com fama e proveito adquiridos na “Caras”.
“Sempre à Coca” comunga, com convicção, do patriotismo que assola o País.
“Sempre à Coca” sabe que Figo, quando marca um golo fantástico, não esquece mais de 500 mil portugueses desempregados.
“Sempre à Coca” sabe que Fernando Couto, quando atentamente evita um golo, se interroga sobre o encerramento de mais de 800 escolas, nos últimos dois anos.
“Sempre à Coca” sabe que Cristiano Ronaldo, quando executa uma finta de pasmar, não ignora a existência de milhares de compatriotas que há anos aguardam uma intervenção cirúrgica, num qualquer hospital público.
“Sempre à Coca” sabe que Rui Costa, quando concretiza um passe certeiro, fica constrangido perante a miséria de quase dois milhões de idosos portugueses, que aguardam a morte em silenciosa e vergonhosa pobreza.
“Sempre à Coca” sabe que o “mágico” Deco, quando deixa para trás dois ou três adversários, pensa de imediato na falência fraudulenta de milhares de empresas, para engrandecimento de alegados “empresários” e desgraça da economia nacional.
“Sempre à Coca” sabe que Maniche (ou Manique?), quando “transforma” um livre quilométrico, pensa nas dezenas de milhar de processos judiciais que se arrastam anos e anos nos tribunais, transformando o exercício da legalidade num penoso acto de injustiça.
“Sempre à Coca” sabe, em suma, que a Selecção Nacional de Futebol está ao lado da Nação, nesta patriótica ânsia de vencer a Europa, com simples ou inauditos pontapés na bola.
Viva a Nossa Selecção!
Viva a Nossa Abébia!
Viva a Nossa Vadia!
Viva o Nosso Portugal!

Abébia vocês-não-merecem-a-sorte-que-têm, para a divisão instalada no Partido Socialista, menos de oito dias após a obtenção de um excelente resultado eleitoral.

Abébia “onde está o Wally”, para Eurico de Melo, “militante histórico” do PSD, “referência social-democrata”, que nem no Congresso apareceu. Vá lá saber-se porquê.

Publicado por Sempre à coca em 09:04 AM | Comentários (4)

junho 16, 2004

Re-pensar a questão do “Mundo árabe”

Podia ler-se no Público de ontem que “o secretário-geral da Organização da Conferência Islâmica (OCI), Abdelwahed Belkeziz, denunciou o que definiu como o profundo atraso do mundo islâmico”. Estas notícias caem sempre bem quando os ânimos estão acesos e tanto se fala de guerra de culturas VS guerra de civilizações. É claro que a política desastrosa de Bush, aliada à política desastrosa de Sharon para isso muito contribuíram. É claro que o terrorismo é, a todos os títulos, condenável, embora fosse preciso aplicar uma grelha de análise mais fina, que permitisse distinguir entre o terrorismo gratuito e fundamentalista (talvez seja um paradoxo) do assim denominado terrorismo palestiniano que é manifestamente de outra ordem, parecendo-se mais com movimentos espontâneos e incontroláveis de guerrilha tendo por finalidade a defesa e apropriação de um território, a independência e a formação de um estado.
Mas a questão ainda não é essa. Para aqueles que, na Europa, criticam as posições do estado americano, e do estado israelita, que aproximação têm feito ao mundo árabe? Que diligências, que diálogo se tem procurado estabelecer? Que força poderia surgir de um encontro de ideias, de uma comunhão de pensamento que permitisse outras clivagens que não essa, já gasta, de Ocidente VS Mundo árabe? Estaremos adormecidos ao ritmo da América busheana? Quem ouviu o que, por exemplo, Amin Malouf tem para dizer? Não continuaremos a ser ainda e sempre, do alto da bem-aventurança de esquerda, eurocêntricos? Não seremos todos, antes de mais, cidadãos do mundo?

Publicado por Marienbad em 01:04 PM | Comentários (2)

EUA pretendem ocupar P.S. sem mandato da ONU

1. Um dos exercícios que aprecio na observação dos processos democráticos consiste em olhar para os partidos políticos nos processos de ajustamento a modificações de ambiente. É o que se passa neste momento no PS. Último desenvolvimento: candidatura de José Lamego.
2. Se eu algum dia viesse a ser militante de um partido político liderado por um ex-administador de uma ocupação ilegal de um país, proporcionada por uma guerra ilegal e ilegítima, pintava a cara de preto. Que José Lamego anuncie que se candidata a secretário-geral do PS, é prenúncio de uma de duas coisas: ou ele não percebeu o que as pessoas pensam da guerra do Iraque ou acredita que os militantes do PS são desmemoriados.
3. Mas há sempre uma hipótese mais interessante: a proliferação de candidatozinhos a chefes do PS contra Ferro Rodrigues destina-se apenas a abrir as portas a um verdadeiro candidato dos chamados "moderados". Se aparecer, por exemplo, um Sócrates, apenas terá de dizer: bom, já que todos dão a sua bicada, porque não hei-de eu dar também a minha?
Publicado por Porfírio Silva em 08:54 AM | Comentários (1)

junho 15, 2004

A cauda da serpente

Antes de serem conhecidos os resultados das eleições, do passado domingo, estive para escrever uma simulação das duas ou três reacções da direita à mais que provável vitória do PS. Resisti e não escrevi.

Agora observo curioso o rabiar da cauda da serpente esfacelada. As reacções dos representantes da direita (política, intelectual, mediática) à vitória do PS sugerem-me essa imagem que retenho da minha infância.

A serpente esfacelada, de cujos ovos falava Sousa Franco, balbucia palavras vazias de sentido. A sua cauda, separada do corpo, rabeia.

Mas atenção: a serpente ferida, no seu estertor desesperado, torna-se mais perigosa.


Publicado por Eduardo Graça em 07:36 PM | Comentários (0)

Do "natural" em política

Há um aspecto curioso dos comentários às recentes eleições para o Parlamento Europeu. É o dizer-se, como se isso explicasse tudo: na generalidade dos Estados Membros os governos foram penalizados, qualquer que fosse a sua cor e as suas opções políticas concretas. Não deixa de haver um grão de verdade nessa análise, que aliás revela algo preocupante: é que a Europa, no seu conjunto, tem uma política que os cidadãos ou não compreendem ou não apoiam. Havemos de voltar aqui a esse ponto. Mas essa análise, no tocante a Portugal, faz sorrir. Porque revela uma amnésia súbita.
Quando Ferro Rodrigues anunciou a candidatura de Sousa Franco, não faltou quem a criticasse duramente, considerando-a alguns até disparatada. Parece que convinha esconder o que alguns socialistas mais permeáveis a propagandas adversas consideravam a pesada herança guterrista. Alguns consideravam Sousa Franco muito à direita. Enfim: como de costume, quando o secretário-geral do PS faz alguma coisa, eleva-se um coro de iluminados ululando "que horror!". (Eu, pelo meu lado, horrorizo-me mais quando ele não faz nada...)
Agora, todos acham que a vitória era natural ! Mas é claro que uma vitória, especialmente com a dimensão que teve, não foi nada natural. Foi o fruto de uma aposta política acertada. Isto apesar de termos de reconhecer que Sousa Franco foi melhor na batalha política de terreno do que se podia esperar de qualquer um nas actuais circunstâncias. Mas isso não retira mérito à escolha de Ferro Rodrigues. E aponta, ao próprio Ferro Rodrigues, caminhos que ele tem de trilhar. A isso voltaremos depois.
De momento gostaria que aqueles dirigentes socialistas que, se o PS tivesse perdido (ou ganho mal) estas eleições estariam agora a pedir a cabeça de Ferro Rodrigues, tenham de momento um pingo de decência e deixem de reclamar para si uma quota da vitória. O que em nada diminui, é claro, que tenham todo o direito - e talvez até o dever - de propor alternativas de políticas e de pessoas para o PS. Para que, no congresso de Novembro, o País fique a saber com o que conta (desse lado) para o próximo ciclo eleitoral.
Publicado por Porfírio Silva em 08:47 AM | Comentários (0)

junho 14, 2004

Educação profissional - caminho do futuro



Uma notícia recente, publicada pelo "Público" referia que, em França, quase 50% dos alunos do ensino secundário frequentam cursos tecnológicos e profissionais e que, em Portugal, somente um cada três alunos do secundário frequentam esses mesmos cursos.

A notícia depreciava a situação em Portugal suprimindo qualquer informação acerca dos progressos, neste âmbito, realizados pelo nosso país. Nem de propósito publiquei um artigo no "Semanário Económico", no passado dia 9 de Junho, em que tento informar acerca da real situação portuguesa neste domínio.

Afirmo, a este propósito: "Em Portugal (Continente), 30% dos alunos do Ensino Secundário já frequentam cursos de ensino tecnológico e profissional. No ano lectivo de 2003/2004 frequentam o Ensino Secundário Regular 277.883 alunos; destes, 83.469 frequentam o ensino tecnológico e profissional, sendo que, deste universo, 31.702 frequentam as Escolas Profissionais.

O número de alunos, que frequentavam o ensino tecnológico e profissional, em 1989, era quase zero. A meta para 2010 é de 50%. Mas atingir os 30%, em 14 anos, é obra. Não sejamos masoquistas nem cedamos à tentação do "antes de nós o dilúvio"."


Alguns amigos, bem informados, disseram-me, com franqueza, que não faziam a mínima ideia acerca deste dado da situação do ensino secundário em Portugal. Nesta área, como em muitas outras, muito passos já foram dados no sentido de alcançar metas ambiciosas que colocam Portugal nos caminhos do progresso e da modernidade.

Os projectos estruturantes de desenvolvimento económico e social do país carecem de continuidade, coerência e persistência na sua implementação, afectação de recursos suficientes e, quantas vezes, significativos e de uma informação verdadeira e permanente à comunidade educativa e à sociedade no seu conjunto.

No caso do ensino profissional (ou educação profissional) têm sido asseguradas as condições essenciais dessas continuidade e coerência. Por isso, apesar das dificuldades e contradições, se vê uma luz ao fundo túnel.

O artigo, ainda não disponível na versão electrónica do "Semanário Económico", pode ser lido, em três partes, no absorto.


Publicado por Eduardo Graça em 06:02 PM | Comentários (0)

Estados Unidos da Europa

1. Não seria ilegítimo (como fazem quase todos) falar das eleições europeias como se de eleições nacionais se tratasse. Contudo, opto hoje por considerar um aspecto efectivamente europeu do assunto.
2. José Manuel Fernandes escrevia ontem no seu jornal: «se qualquer eleitor europeu quiser, nas eleições que estão a decorrer, "votar" contra Verhofstadt e, por exemplo, a favor de Vitorino [para presidente da Comissão Europeia], como é que deve fazer? E se esse eleitor for português, como deve comportar-se hoje? Esta pergunta não tem resposta, nem podia ter.» Esta afirmação mostra a gravidade da (recorrente) ignorância (não acredito que seja má fé...) de algumas das pessoas com responsabilidades políticas e/ou cívicas na nossa praça.
3. Em primeiro lugar, actualmente, Vitorino (sendo socialista) só pode aspirar a ser presidente da Comissão Europeia se os socialistas europeus tiverem um papel importante na solução para o próximo ciclo Parlamento/Comissão a nível da União. Por isso, "votar seguramente Vitorino" seria, goste-se ou não (parece que JMF não gosta), votar socialista. O facto de o PSD ter votado, no seio do PPE, contra a exigência dos seus parceiros europeus de terem o presidente da Comissão no caso de ganharem as eleições, nada muda a esse facto: pela simples razão de que o PSD (mesmo que seja sincero no apoio a Vitorino) não tem, no seio do PPE, força para contrariar aquela pretensão.
4. Em segundo lugar, o que JMF escreve ignora que há uma luta política especificamente europeia e que é nesse xadrez próprio que se joga (também) o papel de Vitorino. O PPE venceu as eleições a nível europeu, mas, por um lado, não tem maioria absoluta e, por outro lado, o PPE está bastante dividido acerca de muitas questões importantes para a Europa. Por isso continua em aberto a questão de saber que maioria dominará a próxima legislatura europeia. Uma hipótese é voltar ao antigo esquema: um acordo entre os socialistas e o PPE para garantir uma gestão "centrista" e europeísta de todos os assuntos e poderes nos próximos anos.
5. Outra hipótese (que Isabel Arriaga e Cunha explica hoje no Público) é que se forme uma aliança entre os socialistas e alguns dos seus aliados, mais os liberais e uma parte do PPE (descontente com o peso dos antieuropeístas nesse partido europeu). Teríamos, assim, uma nova maioria política no PE. As declarações de Vitorino, ontem à noite, apontando a necessidade de se formar uma coligação de progresso para a União, são um claro apelo a uma solução desse tipo. Vitorino mostra assim que é um político a sério: isto é, que joga a sua voz na construção de soluções políticas para os problemas, em vez de ficar sentado à espera de que lhe caiam no colo (por obra e graça do benevolente destino) os lugares cimeiros.
6. Resta alguma esperança à Europa quando se vê que ainda há política na Europa. Fico orgulhoso de ver Vitorino (um socialista português) jogar um papel na procura de soluções políticas, ao arrepio dos que pensam que a política é a gestão corrente do que já se sabia antes. A única escapatória para a decadência é essa mesma: mais política (e não menos) e melhores políticos (em vez de melhores publicitários). Na Europa como em Portugal. Mas disso falaremos depois.
Publicado por Porfírio Silva em 08:52 AM | Comentários (0)

Eleições europeias-notas



Ainda antes de saber os resultados definitivos das eleições europeias, ainda em fase final de apuramento, é certa a vitória do Partido Socialista. Nada que não fosse razoável esperar.

A abstenção andará em torno dos 61% - próxima dos níveis das eleições europeias de 1999 e inferior à que ocorreu, nas mesmas eleições, em 1994. O PSD e o PP coligados obterão um resultado de 33,2 - muito inferior ao somatório dos resultados dos dois partidos nas eleições de 1999.

O PS deverá atingir os 44,5%, o seu melhor resultado de sempre. A esquerda, no conjunto, vence folgadamente obtendo cerca de 58,6% dos votos expressos.

O que estes resultados provam e as suas consequências imediatas:


1) os portugueses estão muito descontentes com o governo;
2) as alternativas credíveis carecem de candidatos credíveis (caso de Sousa Franco);
3) o governo vai ser remodelado muito em breve, ou, menos provável, cairá por erosão dos fundamentos do acordo de coligação que o suporta;
4) o PS é a única alternativa credível de governo alternativo;
5) o regime democrático carece de um PS com capacidade para forjar, com autonomia, uma alternativa de governo realista e credível;
6) Ferro Rodrigues é candidato declarado à liderança do PS no próximo congresso do PS;
7) Ferro Rodrigues será, salvo qualquer acontecimento imprevisível, líder do PS para as próximas batalhas eleitorais: regionais, autárquicas, legislativas e presidenciais;
8) o PCP "aguenta" o seu eleitorado e o Bloco de Esquerda tende a crescer;
9) o que determina o sucesso das alternativas políticas não é o efeito de malabarismos de ocasião mas a persistência dos líderes na apresentação de projectos assentes em ideias claras e convicções fortes.


A partir do discurso de vitória desta noite é isso que a esquerda exige a Ferro Rodrigues: ideias claras e convicções fortes. O voto "de castigo" no governo é, ao mesmo tempo, um endosso de responsabilidades ao PS para forjar um projecto de governo alternativo capaz de assumir o poder, o mais tardar, em 2006.


Publicado por Eduardo Graça em 12:40 AM | Comentários (0)

junho 12, 2004

Bandeiras nacionais

Bandeiras de Portugal por todo o lado. Acho muito bem. Não que eu seja particularmente atreito a símbolos nacionais, que não sou. Nem isso me parece necessário para ser patriota. Que sou. E não me distraio de um pormenor que ninguém quer lembrar: é que a esmagadora maioria das bandeiras que por aí andam foram oferecidas ou compradas à pressa. Não estavam guardadas em casa, em permanência, como coisa natural. Mas, enfim, há duas coisas que me agradam nesta revoada de bandeiras nacionais. A primeira, é que ela chegou ao terreno por ideia de um brasileiro. Mais irmão ou menos irmão, um estrangeiro. Para os que desconfiam dos estrangeiros, enfiem o barrete. A segunda, é que a vaga de bandeiras portuguesas começou a ter como resposta – minoritária, mas mesmo assim, bonita de se ver – uma pequena onda de outras bandeiras: dos países de alguns dos imigrantes que enriquecem a nossa comunidade e que esperam que umas vitórias das suas equipas amaciem um pouco os dias difíceis. Digo, pois: vivam as bandeiras empunhadas! Todas elas!
Publicado por Porfírio Silva em 04:04 PM | Comentários (1)

junho 11, 2004

Um momento de lucidez

O Euro 2004 está a apenas algumas horas do seu início. Depois de nos habituarmos a medir a distância, até ao arranque do Euro 2004, em anos, depois em meses, a seguir em semanas e mais recentemente em dias, chegou agora a vez de o fazermos apenas em horas.
Por todo o país esvoaçam milhares de bandeiras da República Portuguesa, numa demonstração de patriotismo nunca vista em Portugal. Muitos portugueses, que vivem neste momento uma fase pouco positiva das suas vidas, sentindo na pele a situação económica e social do país, foram levados a fazer dos bons resultados da selecção portuguesa de futebol a razão suprema da sua existência, durante as próximas três semanas. O que resta de capital de esperança, de auto-estima e de capacidade para enfrentar as adversidades, de milhares e milhares de portugueses, está neste momento depositado à guarda de uns quantos jogadores de futebol que compõem a selecção nacional.
Tal como o apostador que vai a um casino arriscar as suas poupanças, numa tentativa de tentar resolver os problemas da sua vida numa jogada de sorte, também os portugueses olham para os resultados da selecção como a razão quase última da sua existência. Numa altura em que a capacidade organizativa de Portugal poderia ser um justo motivo de orgulho – comparada, por exemplo, com as enormes dificuldades da Grécia em por de pé os próximos Jogos Olímpicos – preferimos deixar a nossa realização pessoal à mercê da bola que bate no poste ou do penálti que é, ou não, marcado.
Quando o primeiro jogo começar, o Portugal – Grécia, também eu estarei colado ao televisor torcendo pela vitória da equipa portuguesa. Mas recuso-me a perder a lucidez de saber que estou apenas perante um jogo de futebol e não face a um momento fundamental para a minha vida futura.

Publicado por Paulo Godinho em 11:14 PM | Comentários (0)

junho 10, 2004

Chut!

..."Fazemos por vezes como se as pessoas não se pudessem exprimir. Mas, de facto, não páram de se exprimir./.../ A estupidez nunca é muda nem cega. De tal maneira que o problema já não é fazer com que as pessoas se exprimam, mas de lhes proporcionar vávuolos de solidão e de sil~encio a partir dos quais pudessem ter enfim qualquer coisa a dizer".


..................................................................................Gilles Deleuze

Publicado por Marienbad em 05:15 PM | Comentários (2)

junho 09, 2004

Sousa Franco - honra à sua memória



Quarta-feira 9 de Junho de 2004. Sousa Franco faleceu. Em campanha. Fui, desde a primeira hora, um entusiasta da sua candidatura.

Era um extraordinário candidato do PS na disputa das eleições europeias. Franco de nome como o meu pai. Franco de convicções como poucos. Um político de parte inteira. Podia não parecer eficaz pela sua imagem austera. Mas era um político fino. Lúcido e forte nas suas convicções e claro nas suas mensagens.

Era demasiado sério para a política portuguesa. Demasiado exigente para o nosso proverbial desleixo. Os adversários temiam o seu desabrimento. Quiseram pô-lo a falar mal do secretário-geral do PS mas ele saiu, com elevação, em sua defesa.

Quiseram pô-lo a falar mal de si próprio quando, no passado, exerceu as funções de Ministro das Finanças, mas ele defendeu a sua acção atacando, frontalmente, a hipocrisia dos seus adversários.

Sousa Franco disse, nesta campanha eleitoral, aquilo que os portugueses precisavam de ouvir: a actual maioria de governo defende os interesses dos poderosos, contra os interesses da maioria do povo. A actual maioria, afirmou, com uma ponta de ironia, faz o país andar para trás, a caminho do "Estado Novo".

Fizeram-lhe ataques miseráveis aos quais respondeu com firmeza. Combateu no terrreno político quando o quiseram arrastar para a lama do insulto pessoal.

Os portugueses não vão esquecer Sousa Franco.Espero que os seus adversários tenham uma iluminação de decência e não venham dizer que perderam as eleições porque Sousa Franco morreu.

Mal sabia eu que hoje diria de Sousa Franco o que ontem disse de Humberto Delgado: honra à sua memória.


Publicado por Eduardo Graça em 06:10 PM | Comentários (1)

Homenagem à Política

Morreu um cidadão. Sousa Franco era insusceptível de um rótulo. Insusceptível de ser acantonado em qualquer lugar pré-marcado de uma bancada de espectadores. Irredutível a uma marca. Sem medo de ter ideias. Sem medo de ter mau feitio (quando a alguns apenas interessa o feitio do fato). Descobrindo-se agora de novo, perante o país, na alegria da luta política. Dizendo, com a simplicidade da inteligência, as coisas que passam pelo meio da banalidade dos slogans sem se sujarem. Sousa Franco estava a mostrar que a coragem dos políticos democratas não passa pela fanfarronada, pelo chavão fácil, pelo falso heroísmo - mas sim pela humildade de ser lúcido, de saber que o caminho estreito só se descobre atendendo aos pequenos detalhes das coisas bem feitas. Que Sousa Franco tenha morrido a fazer política, na alegria (e nas dificuldades) da coisa pública, é uma homenagem à Política. Mas, certamente, não a todos os políticos.
Publicado por Porfírio Silva em 02:12 PM | Comentários (1)

Homenagem

É preciso chegar ao acontecimento sublime, a morte de Sousa Franco, para pôr termo à mediocridade de uma campanha e da forma de fazer política em geral.
Resta o silêncio e que nele se repense a cidadania.

Publicado por Marienbad em 01:12 PM | Comentários (0)

junho 08, 2004

General Humberto Delgado


A 8 de Junho de 1958 tiveram lugar, em Portugal, as eleições presidenciais mais importantes dos 48 anos do Estado Novo.

O General Humberto Delgado atreveu-se a desafiar a ditadura.

A campanha eleitoral foi um momento de grande mobilização popular. O candidato do regime, Almirante Américo Tomáz, ganhou as eleições, como seria de esperar, mas o resultado nunca foi aceite pela oposição democrática.

Uma efeméride de que poucos se lembram. É pena. O General Humberto Delgado pagou caro a sua ousadia: foi assassinado pela polícia política da ditadura.

Honra à sua memória.

(Em simultâneo no absorto e na abébia vadia)


Publicado por Eduardo Graça em 06:34 PM | Comentários (0)

O entendimento de ocasião PSD/CDS-PP

Se as questões “específicas” europeias (sublinho específicas, porque não alinho muito no discurso simplista de que se estão a discutir as questões nacionais e não as europeias, a não ser que me expliquem onde está a fronteira…) forem colocadas na agenda, o CDS/PP e o PSD vão divergir ainda mais!

O Publico de hoje referia «CDS diverge de Deus Pinheiro sobre as ‘raízes cristãs’ ». É evidente que diverge; sobre esta e sobre muitas outras questões, bem mais importantes do que meras divergências pontuais e/ou sem interesse. O CDS procurou esconder a coisa, dizendo que era Eurocalmo. Um novo conceito, mas que ninguém compreende. João de Deus Pinheiro, em entrevista há dias ao Jornal de Notícias, esforçou-se, procurou explicar, dizendo que o conceito de Eurocalmo tem a ver com o facto de a Europa estar mais agradável (?!). “Europa agradável” … um conceito novo para (não) percebermos o que significa “Eurocalmo”…
Diverge sobre “as raízes cristãs”, porque ainda não aprendeu o que é a negociação europeia, porque não quer aceitar que a democracia europeia existe e faz-se no respeito da diferença, na procura de posições comuns.
Diverge, porque ….; diverge, porque … , diverge finalmente, na escolha de grupos parlamentares bem diferentes: um pró-europeu; outro anti-europeu!

Publicado por Azul em 09:26 AM | Comentários (1)

junho 07, 2004

SARAVÁ MEDINA!

“Sempre à Coca” está de volta, para saudar fervorosamente o nosso irmão brasileiro Roberto Medina, industrial da caridade que, nas horas vagas, organiza espectáculos musicais destinados à elevação da auto-estima de povos acocorados.
O País estava descrente, sem arrojo nem audácia, socialmente abúlico, politicamente abstinente, economicamente nas mãos da banca.
Medina chegou, diagnosticou e venceu, proporcionando à Nação o “Rock in Rio – Lisboa”, uma espécie de “Festa do Avante!” do “Bloco Central”, com “hambuguers” em vez de pézinhos de coentrada, com coca-cola em vez de tinto, com pacíficos lenços brancos em vez de aguerridas bandeiras vermelhas, com “Sala VIP” em vez de “Ponto de Encontro”, com discurso de presidente de câmara municipal em vez de “ponto da situação política” lido por secretário-geral.
Santana Lopes, candidato de oposição a Cavaco Silva, anunciou, na modalidade de presidente da CML, que em 2006, por acaso ano de eleições presidenciais, Medina estará de regresso, para soerguer de novo a alegria dos “irmãos” portugueses.
Saravá Medina, Portugal agradece e Lopes aproveita!
Continuemos a festa com o Euro 2004!
Saravá Deco, Portugal rejubila e uns quantos construtores civis agradecem!

Abébia de Ouro para Rui Rio que, em entrevista a um semanário, demonstra que também à direita se pode exercer política com dignidade.

Abébia “desculpe lá ó Sousa Franco, mas tenho que ganhar vida conforme posso”, para João de Deus Pinheiro.

Publicado por Sempre à coca em 09:38 PM | Comentários (0)

Igual a si próprio

A cabeça-de-lista da CDU, nas eleições para Parlamento Europeu, Ilda Figueiredo, foi entrevistada ontem, em directo, no Telejornal da RTP, por José Rodrigues dos Santos. Perante as inúmeras críticas à União Europeia, feitas pela candidata comunista, o entrevistador colocou a questão que se impunha: "Acredita com sinceridade que Portugal estava melhor antes da adesão à União Europeia?" Ilda Figueiredo torneou a pergunta e respondeu: "Não se trata disso. A nossa questão não é essa..." Mas Rodrigues dos Santos não desistiu: "Para si é absolutamente claro que Portugal tem de estar integrado na União Europeia?" Mais uma vez, a candidata comunista fugiu à pergunta: "Portugal está na União Europeia..." "E deve continuar, na sua opinião?", insistiu Rodrigues dos Santos. À terceira, Ilda Figueiredo engasgou-se durante um ou dois segundos mas retomou o que dizia anteriormente, ignorando novamente a questão.
A entrevista foi esclarecedora. Para os que pensavam que o percurso feito por Portugal na UE e, sobretudo, as profundas transformações positivas sofridas pelo nosso país, desde a adesão às comunidades europeias, tinham obrigado o Partido Comunista a rever a sua oposição à presença de Portugal na União Europeia, ficou claro que não é bem assim. Ou seja, não vale a pena ter ilusões: mesmo que não pareça, o PCP continua igual a si próprio.

Publicado por Paulo Godinho em 01:19 AM | Comentários (1)

Uma colagem infame



Eu sei que a política não é um passeio triunfal. Tão pouco um exercício de bondade e concórdia universais. Eu sei que o princípio dominante na política é : "se não mato, morro" ou, nas palavras de Camus, falando de si próprio: "Não sou feito para a política pois sou incapaz de querer ou de aceitar a morte do adversário."

Por isso a política é um universo cada vez mais reservado aos políticos profissionais. Um ringue no qual o pugilato atropela, quantas vezes, as regras elementares da convivência cidadã. O debate cede, vezes sem conta, o passo ao insulto. Mas também se toma, vezes sem conta, por insulto a verdade mais cristalina.

Sousa Franco tem dito, nesta campanha, as verdades que toda a esquerda tinha vontade de dizer mas que nunca disse de forma tão clara. A comunicação social desespera por uma boa polémica apimentada ou por um escândalo de fazer tremer o regime. Mas fica escandalizada pelas verdades que fogem ao figurino dos interesses "dos senhores do poder".

É sempre assim, dirão os cépticos, seja qual for o governo. Neste caso nem tanto. Olhem que o debate político eleitoral, que alguns consideram de "insultos", dificilmente poderia sobreviver ao insulto subliminar de uma campanha de spots "comerciais" (e não só) que estamos fartos de ver até à náusea.

Um deles, o da TMN, começa com um fundo em que se lê distintamente "Força Portugal". Seguem-se um conjunto de imagens com ressonâncias futebolísticas. Já não falo do cachecol…A canção oficial do Euro-2004, cantada pela Nelly Furtado, chama-se "Força".

Não se trata de publicidade às eleições europeias. Antes fosse. Nem à coligação "Força Portugal". Não podia ser, pois a lei não permite. Esses spots são publicidade ao Euro-2004. A campanha do Euro-2004 e da coligação "Força Portugal" são uma colagem infame. E essa colagem vai intensificar-se até ao dia 12 de Junho.

É triste que ninguém tenha tido a coragem de impor regras de igualdade nesta campanha eleitoral. É a mais completa impunidade dos "chicos espertos". Espero que lhes saia o "tiro pela culatra"!


Publicado por Eduardo Graça em 12:34 AM | Comentários (0)

junho 05, 2004

Celibato para os médicos, já !

Parece que o Ministro da Saúde, Luís Filipe Pereira, terá considerado que a dedicação exigida pela profissão de médico é incompatível com as responsabilidades da vida familiar e doméstica. Daí que a ideia de proteger a profissão de médico com quotas para homens aparecesse como não sendo de descartar completamente.
Eu, pessoalmente, não acredito que ele tenha dito isso. De certeza que a culpa dessa atoarda é de algum estagiário de jornalista um pouco verde. Se um ministro de um governo de um país civilizado tivesse dito realmente tal coisa, certamente seria demitido de imediato por qualquer primeiro-ministro com uma pinga de vergonha na cara. Não acredito, pois, que ele tenha dito isso.
Contudo, se o ministro da saúde disse tal coisa, isso revela - além de um desprezo deslocado pelo papel da mulher na sociedade - uma concepção inaceitável do papel do homem na família. Ou será que a lógica dele é que não há qualquer problema que o homem-médico não possa dar toda a sua presença à vida familiar?
A única saída possível, sugerimos nós, é exigir o celibato eterno para qualquer médico! E, já agora, para que não haja qualquer confusão, seria preferível mesmo acabar com os "médicos de família"...
Publicado por Porfírio Silva em 02:24 PM | Comentários (2)

junho 04, 2004

"Deus" em greve na blogosfera (Hipertexto 5)

O e deus tornou-se visível... (II) entrou em greve contra a guerra, tal como declara neste post.
Além das reacções que estão acessíveis nos comentários que lá se encontram, eu escrevi o seguinte ao autor em causa: Que se pode fazer para convencê-lo a outra forma de expressão? Não conhece o conceito de greve de zelo? Na greve de zelo todos trabalham, mas seguem rigorosamente todos os regulamentos. Contrariamente ao que os distraídos hiper-racionalistas poderiam pensar, nas organizações humanas reais se toda a gente cumprir escrupulosamente todos os regulamentos - nada funciona! Este tipo de greve caiu um pouco em desuso, pelo menos em Portugal. Mas porque não "Deus" optar por essa forma em vez de "desaparecer"?
Para além da questão de fundo que coloca a atitude de e deus tornou-se visível... (II) - e essa questão de fundo é o mais importante -, há outro aspecto que atrai a minha curiosidade. É como se isto fosse uma espécie de experiência: até que ponto deixar de escrever é mais interventivo do que continuar a escrever? Ou até, numa versão cínica, até que ponto deixar de escrever é melhor para as audiências do que continuar a escrever?
(Esta série "Hipertexto" é publicada simultaneamente na Turing Machine e na Abébia Vadia.)
Publicado por Porfírio Silva em 03:17 PM | Comentários (0)

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Publicado por Porfírio Silva em 10:32 AM | Comentários (2)

O novo século americano e o Iraque

Num discurso perante mil cadetes da força-aérea norte-americana, George W. Bush voltou a insistir na relação directa entre o 11 de Setembro e a intervenção no Iraque. Conseguiu, inclusivamente, estabelecer uma comparação entre o motivo que levou os norte-americanos a entrar na II Guerra Mundial, o ataque a Pearl Harbor, e o que terá levado à guerra no Iraque, o 11 de Setembro, ou seja, dois ataques de que os Estados Unidos da América foram vítimas.
A completa falsidade da relação causal 11 de Setembro/Guerra no Iraque e as verdadeiras motivações da intervenção militar são talvez o melhor exemplo de como a consulta ao sítio na Internet do "Project for the New American Century", referido no meu "post" anterior, pode ser esclarecedora. A opção de atacar o Iraque, para afastar Saddam Hussein do poder, era uma clara obsessão de política externa da extrema-direita norte-americana, muito anterior à eleição de George W. Bush, que apenas necessitou de aguardar pela ascensão à presidência de um dos seus para se concretizar.
A 26 de Janeiro de 1998 – mais de três anos e meio antes do 11 de Setembro – 18 membros do "Project for the New American Century", entre os quais Donald Rumsfeld e Paul Wolfowitz, dirigiram uma carta ao então presidente, Bill Clinton, sobre o Iraque. Nessa carta, os subscritores referiam o "discurso do estado da união", que Bill Clinton iria proferir dentro de pouco tempo, como uma oportunidade para o presidente democrata mudar o rumo da sua política externa, fazendo do afastamento de Saddam Hussein do poder o principal objectivo: "We urge you to seize that opportunity, and to enunciate a new strategy that would secure the interests of the U.S. and our friends and allies around the world. That strategy should aim, above all, at the removal of Saddam Hussein’s regime from power".
Embora referissem o risco do Iraque possuir armas químicas ou biológicas, os subscritores reconheciam expressamente a quase impossibilidade de confirmar a sua produção: "...experience has shown that it is difficult if not impossible to monitor Iraq’s chemical and biological weapons production". Assumiam mesmo que, num prazo não muito distante, seria completamente impossível confirmar a existência, ou não, dessas armas: "...in the not-too-distant future we will be unable to determine with any reasonable level of confidence whether Iraq does or does not possess such weapons".
A alternativa era, portanto, a guerra preventiva, garantindo, por essa via, que nunca se correria o risco de Saddam usar as suas armas químicas e biológicas, independentemente de as possuir ou não: "In the near term, this means a willingness to undertake military action as diplomacy is clearly failing. In the long term, it means removing Saddam Hussein and his regime from power. That now needs to become the aim of American foreign policy". O que Clinton deveria fazer parecia, portanto, óbvio: "We urge you to articulate this aim, and to turn your Administration's attention to implementing a strategy for removing Saddam's regime from power".
Para quem ainda hoje discute a opção dos norte-americanos de atacar o Iraque à margem das resoluções das Nações Unidas fica igualmente evidente que esse era um cenário há muito previsto: "We believe the U.S. has the authority under existing UN resolutions to take the necessary steps, including military steps, to protect our vital interests in the Gulf. In any case, American policy cannot continue to be crippled by a misguided insistence on unanimity in the UN Security Council".
Em suma, era claro, já no início de 1998, que um ataque ao Iraque era a prioridade número um da agenda de política externa da extrema-direita norte-americana. Já nessa altura, Rumsfeld e Wolfowitz sabiam ser impossível ter certezas sobre a existência de armas de destruição maciça no Iraque. No entanto, isso não os impediu, cinco anos mais tarde, de organizar toda a argumentação para o início da guerra em torno da comprovada existência desse mesmo tipo de armas. Da mesma forma, o desprezo pelas resoluções das Nações Unidas era já uma opção política assumida.
Quem ainda acreditava que o ataque norte-americano ao Iraque nasceu como retaliação pelas ligações de Saddam Hussein aos terroristas que perpetraram o 11 de Setembro, e que o principal objectivo era o de proporcionar um regime democrático aos iraquianos, ficará certamente um pouco mais esclarecido sobre os reais motivos que moveram os senhores de Washington.

Publicado por Paulo Godinho em 12:56 AM | Comentários (1)

junho 03, 2004

O novo século americano

Existe nos Estados Unidos da América uma interessante organização, que muitos europeus parecem desconhecer, designada "Project for the New American Century". Como o seu "chairman", William Kristol, explica num pequeno texto introdutório, no sítio da organização na Internet, o projecto para o Novo Século Americano baseia-se em algumas convicções fundamentais, nomeadamente em que "a liderança americana é boa para a América e para o mundo; em que essa liderança necessita de capacidade militar forte, energia diplomática e empenho nos princípios morais; e em que, nos nossos dias, poucos líderes políticos estão empenhados numa liderança global".
As crenças sobre o que deve reger o destino da América e do mundo, promovidas pelo "Project for the New American Century", não teriam nenhuma relevância em particular se não reparássemos nos nomes de alguns dos 25 subscritores da sua Declaração de Princípios, datada de 3 de Junho de 1997. Entre vários nomes de primeira linha da direita americana, encontramos aqueles que serão, muito provavelmente, os três nomes mais relevantes na definição da presente política externa norte-americana, logo após o próprio presidente George W. Bush: Dick Cheney, Donald Rumsfeld e Paul Wolfowitz.
Percorrendo o sítio na Internet do "Project for the New American Century" confirmamos aquilo que a pequena introdução do seu "chairman" já fazia suspeitar: estamos perante a máquina que produz – ou que, pelo menos, torna visível – o fundamental do pensamento de extrema-direita nos Estados Unidos da América, nos campos da defesa, da segurança nacional e da política externa.
Aconselho a leitura de alguns dos documentos produzidos por esta organização e pelos seus membros individualmente, em especial os que se referem ao período em que Bill Clinton ainda era presidente. Esta recomendação é particularmente dirigida a quem ainda alimenta ilusões sobre as motivações da administração Bush nas suas polémicas opções de política externa. Descobrirão facilmente, por exemplo, que é mínima a relação causal entre o 11 de Setembro e o fundamental da política belicista presentemente prosseguida por Bush, Cheney, Rumsfeld, Wolfowitz e companhia.

Publicado por Paulo Godinho em 11:48 PM | Comentários (0)

Futebol



Gosto de futebol. Desde a minha mais tenra infância. De jogar e de ver jogar. É um prazer inexplicável. Uma paixão que está do outro lado do negócio em que o futebol profissional se transformou.

Tudo o que possa acontecer de bom para o futebol português, ao nível de clubes e de selecção, é bom para mim. Logo, na minha visão "distorcida", bom para os portugueses e para o progresso do país. Parece uma visão um bocado redutora, não é? Não há volta a dar.

Por isso compreendo o projecto do Euro-2004 uma das "pesadas heranças" deste governo. O futebol é uma "fileira" da actividade económica em que Portugal é competitivo. No futebol Portugal gera talentos e tem organização. Ganha no cotejo com muitos outros países com mais elevados padrões de desenvolvimento. Dizem alguns: "terceiro mundo". Bom, mas não se pode ser "terceiro mundo" naquilo em que somos maus e "terceiro mundo" naquilo em que somos bons.

Ora vejam só o dia de ontem: selecção nacional de sub-21 - vitória (2-1) contra a Alemanha (na Alemanha), com hipóteses de apuramento para os Jogos Olímpicos; selecção nacional (julgo, de sub-20) - vitória (1-0) contra o Brasil (isso mesmo o Brasil!) no Torneio de Toulon e vitória do Farense contra o F.C. Porto (1-0) na fase final do campeonato nacional de iniciados. Aqui o Farense (o meu verdadeiro clube do coração) emparelha com o Sporting, Boavista e F.C. Porto…e ganha.

Estás a ver José Rebelo como se explicam as bandeiras nacionais que os taxistas desfraldaram. Eu por mim trago sempre uma bandeira desfraldada no meu coração quando está em causa o resultado da minha equipa predilecta. No caso do Euro-2004, a selecção.

O resto é meter golos na própria baliza…


Publicado por Eduardo Graça em 06:27 PM | Comentários (3)

A Coisa!

A coisa começou por ser imperceptível, quer dizer, apercebia-se mas não suscitava qualquer interrogação. Lombriga comprida, a coisa tomava forma. Assim parecida com aquelas trincheiras da I Guerra Mundial feitas de sacos de areia empilhados, a coisa crescia no sentido longitudinal; não que se parecesse com o muro-de-berlim, não chegou a tanto, mas intrigava. Com o andar dos meses, a coisa estendeu-se e enrolou-se numa espécie de espiral estreita, ladeada por corrimões em aço, agora mais parecida com uma mega prancha para mergulhos no vazio – para sentir a insustentável leveza do corpo –? ou uma plataforma para ovnis? ou um excêntrico helioporto? A coisa agora parou e deixou de intrigar, passou a inquietar mesmo… Para mais, ocupando um terreno que Santana Lopes, na determinação do seu início de mandato (lembram-se?), havia mandado terraplanar por ser a entrada nobre de Lisboa. É que existia, em construção no local, um edifício de renda económica que punha os nervos do recém chegado à direcção da autarquia em franja. Agora, o enigma instalou-se; ou serei eu a única pessoa a não saber do que se trata?
Já tínhamos o sanitário do Almada, do outro lado! Chegava.
A coisa situa-se na descida das Amoreiras para o Viaduto Duarte Pacheco, à direita, depois da bomba de gasolina GALP. Aceitam-se informações, esclarecimentos ou palpites. Espero com ansiedade resposta ao enigma.

Publicado por Marienbad em 06:03 PM | Comentários (0)

Ainda a espuma dos dias

O filósofo Desidério Murcho, na sua coluna "Valia a pena traduzir" no suplemento Mil Folhas do Público, escreveu no sábado passado sobre o livro de Peter Singer The President of Good & Evil: Taking George W. Bush Seriously. Às tantas, pode ler-se: Os jornais parecem obcecados com duas coisas: a informação em cima do acontecimento e sem maior profundidade do que o que se pode saber estando a assistir aos acontecimentos ao vivo; e os artigos de opinião de reputados analistas que mais não fazem do que aplicar as suas ideologias aos acontecimentos correntes, sem a mínima investigação nem reflexão.
Retenho apenas um dos aspectos interessantes desta frase: há mais para saber acerca do mundo do que "o que se pode saber estando a assistir aos acontecimentos ao vivo". Muito mais. Há um mundo para lá do que se vê "claramente visto", ali à frente dos olhos, um mundo cuja densidade espacial (geográfica) e temporal (histórica) é enorme. Aqueles que julgam o contrário - e por isso se entusiasmam tanto com aquilo a que alguns chamam "a sociedade da informação" - estão contentinhos da vida em serem espectadores omníveros. Dos que comem de tudo. E comem tudo. Qualquer coisa que esteja à mão. Mas apenas espectadores. E os outros que façam o espectáculo, não é?
Publicado por Porfírio Silva em 08:44 AM | Comentários (0)

junho 02, 2004

À portuguesa

Sempre me intrigou esta displicência dos portugueses relativamente aos símbolos nacionais. Raros são os que conhecem a letra do hino. Mais raros ainda os que conhecem o significado da iconografia da bandeira cujas cores suscitam, genérica e imediatamente, o qualificativo de foleiras. É de bom tom desvalorizar a condecoração que se recebe e as respectivas insígnias são recatadamente esquecidas no interior de um qualquer estojo. Usá-las? Que parolice...
Influenciado que sou pelas práticas sociais e culturais francesas, dou constantemente comigo a fazer comparações. E verifico o orgulho com que o francês entoa a Marselhesa. Porta a faixa que indica a sua condição de eleito. Usa, no quotidiano, a roseta vermelha da Legião de Honra. Enverga uma "T-shirt" tricolor. Faz do dia nacional uma festa popular.
Porquê tal diferença? Será que os portugueses associam os símbolos nacionais ao salazarismo?
Eis uma explicação que não me satisfaz. Com efeito, a displicência referida está socialmente massificada. E o mesmo não sucede, por mais que isso nos doa, com a rejeição do salazarismo.
A explicação deste aparente desapego é mais profunda. Descobri-la, permitir-nos-ia, talvez, compreender melhor alguns dos episódios mais relevantes da nossa história.
Porquê todo este relambório? Porque fui surpreendido com o número de táxis que, em vésperas do Euro 2004, circulam com uma bandeirinha portuguesa. O que provocou em mim uma sensação mista de ridículo e de incómodo.
Ora eu até gosto de futebol. E acho que urge elevar a auto-estima da lusa gente.
Mas não escapo a esta reacção à portuguesa. Que, ao fim e ao cabo, não sei se criticar se elogiar.

Publicado por José Rebelo em 10:33 PM | Comentários (1)

As fronteiras dos votos

Na Alemanha, em França e no Reino Unido, as oposições parecem vir a sair vencedoras nas próximas eleições europeias. O estudo da Gallup, realizado nos 25 Estados Membros da UE, entre o dia 5 e o dia 25 de Maio, com um total de 18.000 pessoas entrevistadas, é isso que evidencia.

Na Alemanha, a CDU-CSU aparece com 49% das intenções de voto, contra 25% do SPD e 11% dos Verdes. Em França, o PSF aparece com 28% dos votos, enquanto a UMP (do Presidente Chirac) se fica pelos 20%, a Front National com 12% e a UDF com 10%. No Reino Unido, os Conservadores recolhem 30% das intenções de voto; o Partido Trabalhista de Blair fica-se pelos 23% e o Partido Liberal por 20%.

Já em Espanha, o PSOE aparece com 48% dos votos, ficando-se o PP em 37%.

O voto é uma expressão de vontade, de satisfação ou de insatisfação… Também por isso, procurar separar as políticas europeias das políticas nacionais – agora discutem-se as políticas europeias, não se discutem as nacionais … - é um absurdo!

Publicado por Azul em 11:45 AM | Comentários (0)

junho 01, 2004

Aditamento à "origem de uma evolução"

Apesar do que disse na minha ultima entrada, não deixo de sublinhar o que Johannes Rau disse no seu ultimo discurso como presidente da Républica Federal da Alemanha: " É um erro pensar que podemos motivar as pessoas a trabalhar mais e melhor se estas vivem no constante medo de perder o seu emprego".
Publicado por Nuno Marques em 05:53 PM | Comentários (2)

Finalmente vamos poder malhar o ferro


1. O chamado "caso Casa Pia" toca-me de duas formas muito diferentes. Primeiro, do ponto de vista pessoal. Nesse plano, escrevi ontem noutro sítio sobre os sentimentos despertados em mim pela decisão (ainda não definitiva, cuide-se) de não pronunciar Paulo Pedroso. Segundo, do ponto de vista político: que consequências teve e terá este "caso" para a vida política portuguesa. Vejamos a vertente política.

2. O golpe de estado que consistia em conseguir decapitar um grande partido da oposição por via de uma investigação judicial conduzida sem a mínima preocupação de respeito pelo estado democrático - falhou. Tentaram prender o líder do PS e só não o conseguiram porque ele reagiu à bruta - como muitos parece que pensavam que ele não seria capaz de fazer. Tentaram manchá-lo e só não o conseguiram porque ele não se calou e denunciou os objectivos políticos da manobra. Uma parte do PS foi suficientemente ingénua para não perceber isso, ou suficientemente miserável para se tentar aproveitar mesmo percebendo. Ferro prestou, deste modo, um serviço - difícil mas irrenunciável - à democracia. Não podíamos ter deixado de o apoiar nessa ocasião, independentemente do custo eleitoral imediato associado.

3. Agora que a borrasca passou - se passou - pode finalmente falar-se do que é sério. A saber: (a) o facto de a actual direcção do PS ser nuclearmente um pequeno grupo de amigos, mal enraízado no partido, que conhece mal o partido, que dirige o partido com sentido de grupúsculo, que tem dificuldades em aproveitar todos os recursos disponíveis; (b) o facto de não se ver o PS fazer oposição concreta, de andar sempre a ver passar os comboios, de deixar o trabalho de casa ao BE; (c) o facto de o PS demasiadas vezes sugerir que está insatisfeito com o Presidente da República, como se o PR pudesse ser a muleta do PS - em vez de aproveitar a sério o que o PR diz para apresentar posições compreensíveis; (d) o facto de o próprio Ferro passar grandes temporadas invisível e, quando fala, muitas vezes não se perceber bem o que quer dizer. A decisão de entregar a Vera Jardim todos os comentários sobre o processo Casa Pia libertou Ferro Rodrigues da permanente exposição nesse dossier difícil. A ideia funcionou tão bem que Ferro Rodrigues parece ter decidido generalizá-la: agora, em vez de apenas não falar sobre a Casa Pia, não fala sobre nada - e talvez esteja à espera de que isso melhore a sua imagem. Entretanto, a ideia de governar este país à esquerda continua à espera. E tem inimigos fora e dentro do PS.

4. Na parte política deste problema também Paulo Pedroso tem responsabilidades. Dizê-lo com clareza é saudar o seu regresso anunciado à política, festejar que a sua morte cívica não se tenha consumado, trabalhar para que o consumo mediático não valha mais do que a justiça. Espera-se que a definitiva libertação de Paulo Pedroso traga normalidade política à esquerda portuguesa e possamos começar a falar livremente. Passar ao ataque. Aprofundar as alternativas. Encontrar os melhores caminhos. Mesmo que isso passe por "malhar no ferro". Ou mesmo "malhar no Paulo". Viva a normalidade!

Publicado por Porfírio Silva em 12:48 PM | Comentários (0)

Justiça...

Ontem, mais uma vez, terá sido feita Justiça. Uma Justiça apesar de tudo transitória e arrastada no tempo, como parece estar condenada a ser toda a Justiça, pelo menos em Portugal. Uma Justiça sempre pendente de recursos ou de julgamentos a realizar, passíveis, também eles, de outros recursos.
Mas há um ano e tal também se pensava estar a ser feita Justiça, quando, uma após outra, várias pessoas – umas muito mediáticas, outras nem tanto – foram sendo enviadas para prisão preventiva, sob a suspeita de terem cometido crimes horríveis. Ontem, não só se julgou desnecessária a prisão preventiva de qualquer dos arguidos como se ilibou completamente um dos que a ela estivera sujeito, ao longo de vários meses. Há um ano e tal o juiz chamava-se Rui Teixeira. Ontem o juiz chamava-se Ana Teixeira e Silva.
Para quem espera da Justiça algum rigor e alguma equidade, decorrente da letra lei, as decisões de há mais de um ano confrontadas com as de ontem provocam, no mínimo, um arrepio. Um arrepio gerado pela inevitável suspeita de que toda esta história poderia ser bem diferente se há um ano e tal o juiz se chamasse Ana Teixeira e Silva e ontem Rui Teixeira.

Publicado por Paulo Godinho em 10:36 AM | Comentários (1)