O personagem do Contra Informação baptizado de António Champôlimão, caricatura do empresário António Champalimaud, recentemente falecido, costumava referir-se a Portugal, a propósito de tudo e de nada, como "país da brincadeira". Claro está que, no contexto do conhecido programa de humor, era uma forma simples e sarcástica de acentuar a natural desconfiança do empresário em relação ao Portugal pós 25 de Abril.
Infelizmente, no mundo da informação real, começamos a ser confrontados, quase todos os dias, com situações em que a tentação de reagirmos da mesma forma que António Champôlimão se justifica plenamente. A última é de hoje mesmo. Como se sabe, procurando prevenir problemas de segurança no período em que decorre o Rock in Rio e o Euro 2004, o Governo decidiu suspender a aplicação do acordo de Schengen, passando a controlar novamente as fronteiras que nos ligam a Espanha e os passageiros oriundos do espaço Schengen. Independentemente da duvidosa utilidade da medida – pois com a sua divulgação antecipada quem quisesse evitá-la apenas teria de entrar em Portugal uns dias mais cedo – o mínimo que se esperaria era que fosse devidamente aplicada. Eis pois o meu espanto quando, numa reportagem da RTP, os jornalistas, tal como qualquer indivíduo potencialmente mal intencionado, atravessaram três de quatro fronteiras entre Espanha e Portugal, situadas em zonas menos movimentadas, sem se vislumbrar qualquer controlo fronteiriço. Possivelmente não será motivo para admiração. Se quando tínhamos uma Guarda-Fiscal a qualidade do controlo já era duvidoso, o que poderíamos esperar quando essa competência é acrescida às inúmeras que já estão a cargo dos escassos meios da GNR? Mas digam lá: dá ou não dá vontade de chamar a Portugal "país da brincadeira"?
Vital Moreira no causa nossa já disse quase tudo acerca da natureza desta "contratação" do Estado ao sector privado.
A crise do Estado, neste caso, as conhecidas dificuldades em promover, de forma eficaz, a execução de uma política fiscal credível, conduziu a uma solução muito pouco criativa tratando-se do sector administrativo do Estado. Os quadros técnicos da admistração, todos eles e, em particular, os mais qualificados e experimentados, foram humilhados. Não que não tivessem havido antecedentes.
Mas esta nomeação foi a revelação, a "ponta do iceberg", de uma política de privatização de sectores chave da administração pública que, a meu ver, tem sido promovida por este governo e de cuja dimensão a maioria dos cidadãos ainda se não deu conta.
Um dia a Senhora Ministra das Finanças afirmou que o congelamento das admissões de pessoal na administração pública tinha sido a "mais estúpida das medidas". Na verdade tenho a mesma ideia que, aliás, radica na minha experiência prática. Um dia destes publico um artigo (ou vários) que tenho preparados acerca dessa experiência.
Caso esta nomeação se confirme, receio que a senhora Ministra das Finanças ou, o mais certo, alguém que lhe suceda, seja obrigada(o) a reconhecer que a mesma foi "um desperdício, atentos os resultados alcançados e ilegal, face à legislação aplicável".
Afinal, a crise não aproveita a ninguém?
Caro José Luís Arnaut,
Acuso a recepção da sua carta, que não me tendo sido dirijida pessoalmente, foi, no entanto, destinada ao meu endereço. Lisonjeio-me com tal distinção, para mais em momento tão importante para a vida nacional. Fiquei mesmo a saber que “se trata de uma oportunidade única para a projecção internacional do nosso país”. As minhas preocupações desapareceram com a carta de Vª Exª. É que em todas as estatísticas, desde os níveis de iliteracia, passando pela média de sono dos portugueses, até à frequência de acidentes cardio-vasculares, o país ocupa invariavelmente a cauda da Europa. A depressão geral é já profunda. Mas eis que ficamos a saber que não, nada está perdido, pois o Euro 2004 constitui ainda “oportunidade única” para a projecção da “nossa riqueza humana e patrimonial e da nossa ambição”. Os meus receios dissipam-se! A partir de agora tudo vai mudar!
Daí que as “eventuais perturbações”, consequência da “festa”, sejam até motivo de regozijo. Já éramos o país com maior número de estádios de futebol per capita; agora tornámo-nos no país onde todos, por amor à pátria, seremos amantes da bola!
Aqui há alguns dias, lia-se no Público o seguinte: “A embaixada do Japão em Lisboa vai comemorar a chegada dos portugueses ao país do Sol Nascente com a construção de um jardim japonês à beira do Tejo,/…/. Nesse novo espaço verde da capital portuguesa serão plantadas 461 cerejeiras (árvores nativas do Japão), isto é, uma por cada ano de relacionamento entre os dois países.”
Só mesmo os japoneses para nos oferecerem um jardim, ou uma miríade de pássaros de papel, como os que povoavam o pavilhão nipónico na Expo 92! O cúmulo da sofisticação coincide neles, total despojamento, com o silêncio branco das suas figurinhas de papel, arte milenar, ou das cerejeiras em flor.
Paragens no turbilhão da cidade, os jardins são oásis, lugares onde é possível respirar, suspirar, suspender o ritmo, meditar, sentar; sentir a frescura de uma sombra, um raio de sol batendo de chapa no rosto, um perfume pairando no ar, um cão por perto.
Há uma tensão que esmorece: o Outro deixa de ser aquele que me vai passar à frente no trânsito ou na repartição pública, no hipermercado ou no consultório médico, para ser o semelhante que me inunda de paz ou estranheza, admiração ou o que for que o coloque face a mim: vizinho ou desconhecido. É que, num jardim, os desconhecidos deixam de fazer parte daquela massa anónima para se singularizarem. Ouvimos chamar por um nome – sorrimos. Há diálogos sussurrados, entrecortados - adivinha-se um enredo. Todos os seres são passíveis, num jardim, de se tornarem personagens do romance que os outros lhes atribuem. Que papéis já desempenhou cada um de nós, no recato silencioso de um jardim habitado? Que outras histórias teremos vivido sem delas termos sequer suspeitado?
Mas mal se abondona o jardim, quebra-se o sortilégio…Voltamos a ser autómatos nas filas infinitas por onde se esgotam as nossas vidas.
Ainda ontem, no "Causa Nossa", Vital Moreira referiu um estudo de um centro de investigação londrino, o International Institute for Strategic Studies, que conclui que a invasão do Iraque aumentou a determinação e a capacidade da Al-Qaeda. Hoje é o "Público" quem cita o último relatório da Amnistia Internacional, onde esta organização internacional de direitos humanos afirma que os Estados Unidos, com a sua "agenda global de segurança", fizeram do mundo "um local mais perigoso".
É triste mas estas conclusões são relativamente óbvias para qualquer pessoa de bom senso que não se deixe levar pelo frágil discurso da administração Bush. Por que será que só os homens da Casa Branca e do Pentágono é que parecem não perceber?
Num mundo onde o vedetismo enche as páginas das revistas e dos jornais e os ecrãs de televisão; num mundo onde o individualismo, o egoísmo e a própria ganância são erigidos como exemplos para as novas gerações, surgem, por vezes, brilhantes exemplos de como a união de esforços de indivíduos, de valor que se pensa apenas mediano, consegue ultrapassar barreiras aparentemente impossíveis e atingir objectivos aparentemente inalcançáveis. Foi um desses exemplos que o Futebol Clube do Porto deu a noite passada.
No ano em que a equipa dos galácticos do Real de Madrid, a equipa das vedetas que todos conhecem e quase todos adulam, não conquista um único título e realiza uma das piores épocas da história do famoso clube da capital espanhola, os “pobretanas”, quase desconhecidos, de um clube representativo da segunda cidade portuguesa, ganham a mais importante competição de clubes a nível mundial e demonstram como a união continua a fazer a força.
Parabéns Porto!

Guston Philip, The Studio
Os autarcas são, muitas vezes, ao mesmo tempo autarcas e dirigentes de entidades empresariais criadas, na sua maioria, pelas autarquias. Devem acumular remunerações? Na totalidade? Só em parte? Mas porque razão um Presidente de Câmara ou vereador acumula cargos e remunerações?
Se "ganham mal", na função para que foram eleitos, que haja a coragem de alterar o seu estatuto remuneratório! Que passem a ganhar mais. Mas se querem saber o que toda a gente pensa, menos os interessados, eu digo-vos: não devem acumular coisa nenhuma!
Os ministros acumulam? O PR acumula? O PM acumula? A minha conclusão vale para todo o espectro das remunerações praticadas na administração pública: que haja a coragem de realizar uma reforma tendo em vista atribuir remunerações dignas aos eleitos e aos titulares de cargos dirigentes da Administração Pública.
E que se crie, ao mesmo tempo, um modelo diferenciado, justo, equilibrado e sujeito a uma apertada fiscalização, de enquadramento das nomeações de todas os titulares dos cargos dirigentes não eleitos.
Qualquer reforma, a sério, da administração pública passa por aqui. Se já todos percebemos porque fingimos que não percebemos?
O Congresso do PSD fez-me pensar nesta capacidade inigualável da direita política para preencher a agenda pública em função dos seus interesses. Era vê-los, do cimo da tribuna, a enumerar os sucessos. Dois anos de sucessos e mais sucessos.
O desemprego aumenta? A taxa de cobertura das importações pelas exportações agrava-se? Pouco importa. Que a resposta é imediata. Não fossem as decisões tomadas pelo actual governo e muito mais aumentaria o desemprego. E muito mais se agravaria o déficite da balança comercial. Conclusão: maus resultados são a expressão de políticas acertadas.
E, com a mesma facilidade se esquecem casos de corrupção como o que levou à demissão de Isaltino de Morais. Com o mesmo despudor se resolvem irregularidades fiscais como as praticadas pela própria ministra das Finanças (a sua argumentação, estabelecendo um paralelo com o champô que o jornalista pode ter incluído nas despesas de saúde dedutíveis, é absolutamente estarrecedora). Com o mesmo esgar agastado se afasta aquele que, impertinente, ouse evocar a triste figura que Portugal, pelo seu primeiro ministro, desempenhou a propósito do Iraque. Com a mesma sobranceria se retira do espaço público questões tão nebulosas como a da Galp e a das Águas de Portugal.
As listas de espera nos hospitais são maiores do que nunca. Nunca houve tal descalabro na colocação de professores. Mas, no discurso oficial, multiplicam-se as declarações de orgulho pelos progressos registados na saúde e na educação.
Impante, Durão solicita aos portugueses que renovem a confiança em si. Para que ele possa continuar a sua obra. Aliás quem se desviar da rota por ele superiormente traçada, sobretudo agora, em vésperas do Euro 2004, não é bom português, é comunista ou influenciado pelos comunistas Soa-me a qualquer coisa já ouvida.
Entretanto surgem notícias frequentes de nomeações para altos cargos da administração pública. O Director Geral das Contribuições e Impostos, o Presidente do Instituto da Qualidade, etc, etc…Muitos dos nomeados, oriundos da "privada", são pessoas sem experiência nas respectivas áreas da administração pública mas, certamente, competentíssimas.
A nomeação e remuneração do "Director de Impostos" teve, ao menos, o mérito de evidenciar que o actual governo mergulhou numa deriva liberal que atinge a própria dignidade das instituições representativas do Estado Democrático.
Estamos, pois, a assistir a um duplo movimento na privatização do Estado: pela via da alienação de bens e serviços públicos (chamem-lhe o que quiserem) e pela via da entrega dos lugares de topo dos organismos da administração (não privatizáveis) a funcionários dos grandes grupos económicos.
Querem melhor prova de que o património e os cargos públicos, afinal, são atraentes e apetecíveis? O património público é vendido à medida dos interesses privados e da gestão do "déficit", a gestão da "coisa pública" é entregue a gestores privados pagos a preços de mercado e, finalmente, os trabalhadores têm as remunerações "congeladas".
Viva a "eficiência"!
Conclusão breve e, por isso, arriscada: nos últimos 30 anos fizeram-se remendos, e só remendos, na legislação e não se realizou qualquer mudança alicerçada numa verdadeira estratégia de modernização da justiça.
Em trinta anos o mundo mudou, a sociedade mudou, a economia mudou, tudo mudou, menos a justiça. Esta ficou parada no tempo. Os políticos eleitos foram apontados como os principais responsáveis por esta situação catastrófica. Não são eles que fazem as leis, não são eles que as aprovam e promulgam?
Os discursos do PR e do Bastonário da Ordem dos Advogados têm sido exagerados? O bastonário disse, outro dia, que não se importava de fazer, com as suas afirmações acerca do estado da justiça, a figura do "maluquinho da feira"! Quem toma em mãos o processo de realizar uma verdadeira reforma da justiça?
Um dia podemos chegar à triste conclusão que é tarde de demais. O que está em causa são simplesmente as mais importantes questões da vida do homem em sociedade: a justiça e a liberdade!
Na terra onde nos habituámos a ser todos estrangeirados por múltiplas razões históricas e actuais entre as quais se realça o défice, a iliteracia, a pedofilia, eis um italiano que quis ser português! Na terra em que até o Almada, invocando o Dantas, quis mudar de nacionalidade!
Obrigada Tabucchi. Já tínhamos apreciado a luz que deste a Lisboa, a melancolia pessoana que conferiste ao Pereira, agora ofereceste-nos o teu “sonho de sonhos”, transformando-o num sonho comum como o fizeste, entre tantos outros, para Dédalo no seu labirinto.
Juro que vamos todos procuraqr-te, ler-te, com-patriota, con-cidadão; a ti, irmão.
E quedamo-nos a pensar como a natureza é antes de mais simbólica, como a natureza não é um destino ou uma origem, mas um acto de vontade, uma acção. Haverá algo de tão natural como o naturalizar-se?
Salvo o erro, foi o saudoso José Cardoso Pires que, algures em “Alexandra Alpha”, concluiu: “Isto não é um país, é um lugar mal frequentado”.
“Sempre à Coca” regressa com pezinhos de lã, cauteloso, com receio da incompreensão do país e respectivos frequentadores, cuja “auto-estima” mergulhou no pântano, pelo menos desde o ido António Guterres, então assíduo de Portugal na modalidade de Primeiro-Ministro. Presentemente, na qualidade de alto dirigente da Internacional Socialista, ele não pára por esse mundo fora, sem ligar patavina a correligionários invejosos, ou compatriotas preocupadinhos com o Euro 2004. Vítor Melícias que se cuide, qualquer dia nem mesmo Deus tem mão no homem.
Feita esta despropositada invocação, “Sempre à Coca” manifesta patriótica solidariedade para com o cidadão Amílcar Theías, de repente e injustamente apeado do Governo, quando ainda tanto havia a esperar.
Faltou-lhe a visão acutilante de uma arguta Manuela Ferreira Leite, o pundonor defensivo de um mimoso Paulo Portas, a força anímica de um irrequieto Figueiredo Lopes, o desplante político do inenarrável Bagão Félix (não há desgraça que não aconteça ao Benfica), a “codícia” da fogosa Celeste Cardona, a lucidez e transparência do irreverente Filipe Pereira, a capacidade de intervenção e organização de um trepidante David Justino…
Amílcar, tem calma meu, o que há mais por aí são conselhos de administração de empresas públicas, fundações, agências, institutos ou vice-versa. Não te deste bem com as águas, caíram-te mal, não há problema companheiro, consulta-te com o competente Cardoso e Cunha, ele explica-te como é que se faz, com sorte até te dá uma abébia (desde que não seja a Vadia!), se não for na TAP, pode ser na Expo, na CGD, na CP, na Carris, na Transtejo, eu sei lá. Em último caso pá, podes ir dar aulas, o Justino arranja-te, do pé para a mão, um horário completo na escola básica das Ilhas Farilhões, com uma vista soberba para Portugal Continental.
O que lá vai lá vai meu, não penses mais nisso, o teu mal foi não teres seguido o conselho de outro ex-ministro do Ambiente, o Zé Sócrates, também ele “Sempre à Coca” praticante, que há alguns dias disse para quem lhe quiser dar importância: “O desafio é dizer as coisas certas nos momentos adequados”.
Estás a perceber Amílcar, ninguém entra numa capela funerária e diz “ora então parabéns!”, ninguém passa pelo Guterres e diz “olha o Durão Barroso”, ou vice-versa, ninguém se cruza na rua com a Manuela Ferreira Leite e comenta, “olha a Letícia Ortiz!”.
Percebes agora, Amílcar? Além de nunca teres dito nada certo meu, andaste sempre em locais desadequados, mal frequentados.
Amílcar amigo, “Sempre à Coca” está contigo!
ABÉBIA DE PLATINA para o mais recente CD de José Mário Branco, “Resistir é Vencer”. Pequenas “pérolas” como esta, fazem-nos acreditar que ainda é possível construir um país de jeito.
ABÉBIA “o meu tabu é maior do que o tabu do professor Cavaco”, para Santana Lopes que, mais uma vez, “entalou” Durão Barroso, em pleno Congresso do PSD.
As páginas de opinião do “Público” são uma fonte inesgotável de textos de qualidade, quer da autoria dos excelentes colunistas do jornal quer de diversas personalidades de renome internacional. Um dos últimos nomes da política internacional a expressar os seus pontos de vista, nas páginas do diário português, foi José Ramos Horta, com um artigo intitulado “Promover a Guerra para Salvar Pessoas”.
Aos que esperavam ver o Prémio Nobel da Paz opor-se à intervenção anglo-americana no Iraque o artigo deve ter provocado, no mínimo, uma enorme surpresa. Não só apoia de forma inequívoca a acção militar como critica duramente o “novo governo socialista em Espanha”, acusando-o de ceder às ameaças terroristas ao retirar as suas tropas.
Para Ramos Horta, nada distingue a intervenção no Iraque de tantas outras realizadas no passado, também à margem do direito internacional, por razões humanitárias. O que se passa no Iraque é semelhante à “invasão do Camboja pelo Vietname, em 1978, que acabou com o regime brutal do Pol Pot”, e à “invasão do Uganda pela Tanzânia no ano seguinte para derrubar a ditadura de Idi Amin”, em ambos os casos “sem a aprovação internacional ou das Nações Unidas”. Também a França não foge a ser acusada de incoerente pois no início dos anos 80, sem esperar pelo aval da ONU, os pára-quedistas franceses “aterraram na capital do Império Centro Africano e destronaram o "imperador" Bokassa, conhecido pelo seu canibalismo”.
Como exemplos mais recentes de outras intervenções que merecem aplausos, apesar de feitas à margem do direito internacional, Ramos Horta refere ainda a da NATO no Kosovo e a dos Estados Unidos no Afeganistão.
O entusiasmo de Ramos Horta com a intervenção no Iraque, que designa como “a grande visão de Washington em transformar esta nação”, chega ao ponto de referir “sondagens de opinião fiáveis” que “mostram que um grande número de iraquianos estão melhor agora do que há um ano”. Não faço ideia de onde Ramos Horta possa ter lido as tais “sondagens de opinião” e, menos ainda, de como seja possível, nos dias que correm, avaliar o estado dos iraquianos de forma “fiável”.
Sendo Ramos Horta um homem que admiro, pelo importante papel que teve no difícil processo que conduziu à independência de Timor-Leste, não posso deixar de me espantar com os argumentos que apresenta para justificar o que se passa no Iraque. Esquece, por exemplo, que a lógica que presidiu à intervenção no Iraque foi a da "guerra preventiva". O objectivo principal não era tirar o ditador Saddam Hussein do poder, para libertar o povo iraquiano e proporcionar-lhe a democracia, mas sim evitar que ele pudesse utilizar o seu “imenso arsenal de armas químicas e biológicas” contra os Estados Unidos e os seus aliados. Correr com o ditador do poder era apenas um ganho colateral.
O discurso sobre as razões para a intervenção apenas mudou quando os Estados Unidos chegaram à conclusão de que, tal como os inspectores internacionais e boa parte da comunidade internacional admitiam, não existiam as tais "armas de destruição maciça". A partir de então, tentou-se fazer esquecer que a guerra tivera objectivos preventivos inalcançáveis – dada a impossibilidade de conseguir prevenir o que não poderia acontecer – e a razão da guerra passou a ser, apenas, o "nobre objectivo" de salvar o povo iraquiano do jugo do ditador Saddam Hussein e transformar o Iraque num bastião da democracia no Médio Oriente.
É triste que um Prémio Nobel da Paz, como Ramos Horta, também aparente ter uma memória selectiva, semelhante à de Bush Jr., Rumsfeld e companhia, esquecendo, completamente, a lógica de "guerra preventiva" que presidiu à intervenção no Iraque, em busca das imaginárias "armas de destruição maciça". Até porque se há alguém com a obrigação de se recordar vivamente da lógica da "guerra preventiva" esse alguém é Ramos Horta. Ou já se esqueceu de que a invasão de Timor-Leste pela Indonésia, em 1975, também foi uma "guerra preventiva", para evitar a implantação de um "regime comunista" na antiga colónia portuguesa? E, já agora – obviamente por mera coincidência – com o apoio de quem? De um senhor chamado Henry Kissinger, o Donald Rumsfeld da altura...
Num interessante artigo, publicado no "Público" de sábado passado, Ralf Dahrendorf expressa o seu ponto de vista sobre a Al-Qaeda e sobre os métodos a que os "países livres" deverão recorrer para combater esta ameaça terrorista.
Segundo Dahrendorf, a Al-Qaeda distingue-se de tantas outras organizações, igualmente rotuladas de terroristas, por não ter "um objectivo político realizável". Não procura, por exemplo, alcançar a independência de um povo, como algumas outras organizações, limitando-se a ter "como alvo aquilo a que nos habituámos a chamar o Ocidente". Ou seja, a Al-Qaeda rejeita "uma ordem liberal das coisas, um mundo livre", e, consequentemente, faz dos Estados Unidos o seu inimigo principal como "potência mais visível que representa esse mundo livre". O objectivo da organização terrorista reduz-se, portanto, a "lutar contra a América e os seus aliados mais próximos, na Europa e no resto do mundo".
Sem rejeitar a tese, desenvolvida por Ralf Dahrendorf, com que globalmente concordo, nomeadamente quanto a alguns dos mecanismos que explicam a capacidade de mobilização de meios humanos para a Al-Qaeda, não posso deixar de estranhar que passe ao lado daquela que considero a questão fulcral para o relativo sucesso da Al-Qaeda e de tantas outras organizações fundamentalistas islâmicas: a chamada "questão palestiniana", a que seria provavelmente mais apropriado chamar a "questão israelita".
Enquanto o "mundo livre", referido por Dahrendorf, e em particular a "potência mais visível" que o representa, os Estados Unidos, não impuserem a Israel uma saída política que conduza à criação de um estado palestiniano, livre das tentações belicistas e expansionistas do fundamentalismo judaico, a Al-Qaeda continuará a ter terreno fértil para crescer.
A política de destruição de casas, o assassinato de manifestantes desarmados, incluindo crianças, para já não falar na sistemática destruição de terrenos agrícolas e na construção do novo "muro da vergonha", alimentam, dia após dia, o ódio de milhões de muçulmanos contra Israel e contra os Estados Unidos, o seu principal aliado. Por tabela, todos os "países livres" surgem associados a estes actos, por mais que os políticos europeus se esforcem por marcar a diferença nesta matéria em relação ao outro lado do Atlântico.
Resta saber, até quando estaremos disponíveis para pagar "a factura israelita"?
Paulatinamente, Lisboa vai sendo invadida por lojas chinesas. Após a vaga dos restaurantes, elas aí estão. Ocupam antigas agências bancárias, antigos cafés, situam-se a distância regular; de modo que assistimos, em cada rua, em cada bairro, em cada praça, à abertura, da noite para o dia, de mais um espaço comercial, um mini-hiper-mercado onde se vende tudo: do sabonete à túnica em jersey, da vela de cera à espada em plástico dourada, da fonte luminosa para centro de mesa aos brinquedos a pilhas para criança. Tal como as grandes superfícies comerciais, têm horário de abertura dilatado. Onde se fabricam tais objectos? que mão de obra é requisitada? Como e a que preço? Quem controla e gere este mercado florescente? Que rede está por trás destes comerciantes? Para que serve a quase totalidade da quinquilharia que nelas se vende? É que aqueles produtos são uma nova forma de poluição e deveriam trazer já o símbolo do respectivo “vidrão”.
A última em que reparei ocupa as instalações da ex Livraria Francesa, na Marquês de Tomar.
Mas basta de chinesices: o Institut Franco-Portugais acolhe, desde há uma semana, a Nova Livraria Francesa!
Na semana passada o partido socialista francês anunciou a sua intenção de apresentar uma proposta de lei "determinando as condições e as regras para o casamento homosexual". O que, na prática, significa o reconhecimento de tal acto. A 5 de Junho, o deputado ecologista Noël Mamère protagonizará o primeiro casamento entre homossexuais realizado em França. "Quatro barões do PSF apressaram-se a dar-lhe a benção", escreve-se na edição de hoje do "Público": Bertrand Delanoë, presidente da Câmara de Paris; Dominique Strauss-Kahn e Laurent Fabius, respectivamente, antigos ministro das finanças e primeiro ministro; François Hollande, actual leader do partido. Em sentido oposto pronunciou-se Lionel Jospin ao declarar que "é possível desaprovar e combater a homofobia e ser-se, ao mesmo tempo, contra o casamento homosexual, como é o meu caso".
Duas reflexões.
A primeira reflexão para sublinhar a clarividência de Lionel Jospin ao recusar a amálgama que, tantas vezes, é instrumento de estratégias manipulatórias.
A segunda reflexão para assinalar os trilhos do politicamente correcto. De um lado, encontramos quatro personalidades que aspiram, manifestamente, a exercer o poder (no caso de Bertrand Delanoë, acresce a circunstância de se assumir como homosexual). Do outro lado, do lado de quem rema contra a maré, alguém que, desde as famigeradas presidenciais de 2003, se retirou, parece que definitivamente, da política. Daí a ousadia?
A obra realizada por este casal de alemães, ao longo de 25 de anos, não é de somenos. As obras apresentadas não são de amadores (como diz a notícia do Público) mas de artistas plásticos, em muitos casos, profissionais reconhecidos. Como, por exemplo, Gunter Grass. E a actividade do Centro não se confina às artes plásticas.
O casal tem realizado uma obra cultural notável no Algarve. Uma obra consistente. Sabemos como é difícil "fazer obra" em Portugal. E ainda mais no Algarve. Conheço do que estou a falar.
As esquinas estão povoadas de gente desconfiada e invejosa. É uma doença nacional. Quem é capaz de se agigantar e realizar obra, em particular, na área cultural, é porque tem muita força interior, vontade e amor pela tarefa.
Espero que o Centro Cultural de Almansil continue. Essa será a melhor homenagem que pode ser prestada a Volker Huberts.
Pediram-me a fonte das referências estatísticas que incluí em "A justiça que temos". Aqui vai: Dores, António Pedro, (org.), Prisões na Europa, Celta Editora, Oeiras, 2003.
Nos últimos séculos os militares tiveram um peso desproporcionado na sociedade portuguesa. Mas, para falar só do Século XX, os portugueses participaram, com forças expedicionárias, em diversos conflitos armados, mas sempre fora das suas fronteiras europeias.
Esta é certamente uma perspectiva parcelar de um problema português mais profundo: a fragilidade da sociedade civil, das classes médias, das elites dirigentes e a ausência de um projecto nacional coerente de participação na construção europeia, sem sonhos atlantistas, megalomanias nacionalistas ou patriotismos serôdios.
De facto, há mais de um século que os portugueses não são confrontados com um fenómeno de guerra no Portugal europeu. Os portugueses têm sofrido e morrido em guerras longe do seu território originário: a Europa.
Não é, pois, de estranhar que se tenha criado, entre os portugueses, um estado de espírito de "general de sofá". Toca a todos comandar as tropas imaginárias. E como as guerras, hoje, são perdidas ou vencidas na TV!
Não há pedagogia que se substitua à experiência da guerra com o seu cortejo de misérias e atrocidades. Sem guerra à porta de casa, ao longo de mais de um século, nada nos indigna, a sério, na guerra. A nossa posição de princípio é a indiferença.
Temos a GNR no Iraque. Pois que fiquem! As atrocidades praticadas pelos beligerantes indignam o mundo. As perversidades dos "libertadores" indignam os congressistas dos EUA? É um problema deles! Haja fé! José Manuel Fernandes, dixi!
Se um dia destes acontecer um atentado em Portugal o estado de espírito mudará. Nessa altura entenderemos melhor o 11 de Março em Madrid, as atrocidades em Bagdad, os crimes na Palestina. Aí os portugueses, distraídos de tudo, compreenderão o que Camus escreveu no seu Caderno, em Setembro de 1941 - "Organiza-se tudo: é simples e evidente. Mas o sofrimento humano intervém e altera todos os planos".
Não desejo a guerra mas a guerra não será sempre o sofrimento dos outros e a nossa comoção indiferente e distraída. Não discuto o lado da barricada que nos competirá ocupar. O meu lado é o da democracia e da liberdade. Mas as opções políticas que condicionam o nosso papel no mundo, no Iraque, Médio Oriente ou outro lugar qualquer, são responsabilidade de quem governa. Infelizmente aos defensores das guerras de saque e conquista, de todos os tempos, escasseia a humildade onde sobra a arrogância.
Hoje, como sempre, os defensores do fanatismo, seja encarnado por Bush ou Rumsfeld e seus aliados, seja pelo islamismo radical, estão do lado errado da história. Por mais que gritem, vociferem, ameaçem e, patéticamente, invoquem a fé os arautos das guerras prosseguem objectivos bem mais prosaicos e terrenos que se esgotam na apropriação e controle das matérias primas, tecnologias, mão de obra e rotas mercantis. O resto é a fé na propaganda.

(Por favor, enviem sugestões de legendas para esta foto.)

Uma Ministra das Finanças a tentar isolar-se do mundo?
“Cidades, Esquinas” é o título, algo surpreendente, de uma das quatro exposições patentes no Forum Barcelona 2004. Pensar a cidade como espaço do viver em comum e da cidadania passa, é claro, por definir as suas configurações estruturantes. A esquina é realmente, um lugar crucial de intersecção, um lugar de encontro, um lugar de abertura ao novo, ao outro, ao cruzamento. A cidade propicia a proliferação de esquinas, porque desenvolve esse emaranhado de trajectos que se cruzam. Ora, toda a esquina im/pro-põe a dúvida, a paragem, ou, pelo menos, o abrandamento da marcha. Uma esquina dá, pois, sempre, que pensar. Dá que falar, também. As pessoas encontram-se às esquinas, e os passeios contornam-se nesse aglomerado de gente que, de repente, suspendeu o ritmo alucinado do andar para saudar o amigo que não via há anos. Uma esquina torna-se assim o próprio lugar de reencontro com o tempo.
Conta-se que uma brasileirinha do Sertão, muito lá de dentro da sua cidade natal, chegada de repente a Brasília, declarou, ao fim de um mês de tal experiência: “Quero ir-me embora! Esta cidade não tem esquinas!”
Para a organização deste Forum, pensar a cidade coincide com aquele sentir tão espontâneo.
Forum Barcelona 2004
“Sempre à Coca” andava desnorteado, sem rumo, à deriva, em busca de objectivos mínimos que lhe permitissem ser português de cabeça erguida.
“Sempre à Coca” olhava em redor e concluía: metade do país está no desemprego, outra metade está na cadeia ou em detenção domiciliária, outra metade é obrigada a fingir que vive com pensões de reforma miseráveis, outra metade passa fome ou anda subnutrida, outra metade foge aos impostos, para assim pagar uma segunda habitação e exibir o “jeep” que nunca saiu do asfalto, outra metade vive entretidinha com o futebol, outra metade entretidinha com o João Pinto e a Marisa Cruz, outra metade entretidinha com o golfinho-bébé que já consegue nadar, embora apenas com a barbatana lateral direita. As melhoras.
Tudo isto não é matematicamente certo, mas também Jesus Cristo não percebia nada de Finanças e, todavia, conseguiu legar à Humanidade umas quantas verdades.
Quase a desistir da nacionalidade, “Sempre à Coca” foi reconduzido ao caminho da lucidez, graças ao ministro José Luís Arnaut, quando lhe apontou o “exemplo de ética e de dádiva à causa pública” do luso-madeirense Alberto João Jardim.
“Graças a Deus!”, suspirou aliviado “Sempre à Coca” ao ser-lhe indicada uma referência que permita aos portugueses olhar o futuro com regozijo, felicidade, segurança, amor, cultura e educação. Tudo com muita ética, claro.
Quanto “à dádiva à causa pública”, Arnaut cometeu, seguramente sem querer, a injustiça de esquecer outros casos. Sem esforçar muito a memória, “Sempre à Coca” recorda devotos como Valentim Loureiro, Avelino Ferreira Torres, Fátima Felgueiras, Isaltino Morais e tantos outros que anonimamente (a PJ e o Ministério Público não podem estar em todo o lado) mantêm viva a “causa pública”.
“Sempre à Coca” atribui as seguintes Abébias:
ABÉBIA DE PLATINA – Para os motoristas da Carris, que se recusam a conduzir um autocarro mais de sete horas consecutivas, pondo em causa a sua saúde e a vida de milhares de passageiros que diariamente utilizam aquele meio de transporte.
Abébia “com a idade tudo nos acontece”, para Dias Loureiro por defender a transformação do País “numa imensa Madeira”. As melhoras.
À medida que os dias passam, vai-se fazendo luz sobre o que está por detrás das imagens, reveladoras da violação dos mais elementares direitos humanos, que nos chegam da já tristemente famosa prisão iraquiana de Abu Ghraib.
Apesar de se querer fazer passar a ideia de que estaremos "apenas" perante os excessos de uns quantos soldados que escaparam à cadeia de comando, a general Janice Karpinski, que chefiou as prisões iraquianas até ao rebentamento do escândalo, veio agora denunciar que os maus-tratos aos prisioneiros tiveram o seu início com a entrada em cena de um tal general Miller, que comandava anteriormente a prisão de Guantanamo, na ilha de Cuba, onde se encontram, entre outros, os prisioneiros afegãos suspeitos de ligações à Al-Qaeda.
Segundo Karpinski, Miller tinha por missão aumentar o volume de informação extraída aos prisioneiros e queixava-se de as prisões no Iraque não serem suficientemente duras, sendo necessário torná-las mais parecidas com a de Guantanamo.
As revelações da general Janice Karpinski vêm indirectamente fazer luz sobre algo de que há muito se suspeitava mas que só agora começa a ser confirmado, de forma palpável. Se no Iraque, com o envolvimento de um número elevado de tropas e a atenção permanente dos media mundiais, um escândalo como este do tratamento dos prisioneiros estaria quase inevitavelmente condenado a ser tornado público, mais cedo ou mais tarde, em Guantanamo, ao abrigo de todo e qualquer escrutínio das organizações de direitos humanos e longe dos olhares dos repórteres, estão certamente a passar-se factos tão ou mais graves do que os ocorridos no Iraque.
É evidente que as explicações dadas por Karpinski já foram rebatidas por aqueles que ela envolve, nomeadamente pelo tal general Miller. Apesar disso, não deixa de ficar a pairar no ar a triste sensação de estarmos perante uma cena típica de um filme policial de Hollywood em que os criminosos podem afirmar despudoradamente a sua inocência, seguros de que as provas que os poderiam incriminar estão ou bem escondidas ou já destruídas.
Se alguém tinha dúvidas, começam a ficar muito claras as razões que levaram o "amigo americano" a esquivar-se à jurisdição do Tribunal Penal Internacional. Só não percebo é por que continuam a insistir em dar lições sobre direitos humanos ao resto do mundo...
Uma abordagem positiva da questão da imigração leva-nos ao "envelhecimento activo" um dos grandes desafios do mundo ocidental para os próximos decénios. Uma utopia que assumiu a forma de objectivo estratégico adoptado pela "Estratégia de Lisboa". O objectivo é atingir 50% de taxa de emprego, até 2010, para as pessoas do grupo etário dos 55 aos 64 anos. A taxa actual é de 40,1%.
Este é um assunto politicamente relevante. Trabalhar até mais tarde, em boas condições físicas e mentais, é um sinal de progresso. Não é um objectivo conservador. Tem coerência social e económica num contexto de forte envelhecimento demográfico e correspondente aumento da imigração.
Este é, nos nossos tempos, um dos maiores desafios de qualquer política social realista e de progresso. Quem trata desta questão a sério no nosso País?
(Última parte do artigo publicado na edição de 7 de Maio de 2004 do Semanário Económico. Para ter acesso ao artigo completo clice Semanário Económico.)
Na década de noventa Portugal registou as mais elevadas taxas de reclusão da União Europeia (147 reclusos por 100.000 habitantes). Foi também em Portugal que a duração média das penas de prisão atingiu valores mais importantes. Em 1997, por exemplo, a duração média das penas de prisão, em Portugal, ultrapassou os 22 meses. Na Grã-Bretanha, na Holanda e na Finlândia não atingiu os seis meses. Na Itália, em França e em Espanha situou-se entre os seis e os nove meses. Portugal é, por outro lado, o país onde se verifica a maior taxa de reclusão por crimes relacionados com consumo ou tráfego de estupefacientes: 38% do total dos presos, em 1998, contra 10 a 16% na Bélgica, na Finlândia e na Grã-Bretanha, de 17 a 19% na Holanda, na Suécia e em França. No que respeita à densidade carcerária, apenas somos ultrapassados pela Grécia.
Em vésperas do Euro, e seguindo o exemplo da sua colega das finanças, talvez fosse bom que a ministra Celeste Cardona "trabalhasse" um pouco este números...
O fenómeno da imigração comporta, de facto, riscos para as regiões e países de acolhimento. É óbvio que sim. Mas vejamos, a propósito de um caso concreto e actual, como esses riscos são relativos.
O caso diz respeito ao alargamento da UE. A entrada dos dez novos países, ocorrida no passado dia 1 de Maio, representa um crescimento de cerca de 20% na população da UE que passará dos actuais 380,8 para 454,9 milhões de habitantes.
Um estudo recente da Comissão Europeia aponta para que, mesmo em caso de adopção de um modelo de livre circulação total, os fluxos migratórios provenientes do conjunto dos novos Estados membros, para o conjunto dos anteriores 15 Estados, ao longo dos próximos 5 anos, representariam cerca de 1% da população activa dos novos Estados da EU, ou seja, 220.000 pessoas, por ano, no universo dos cerca de 455 milhões de habitantes da EU.
Mostra-se assim que são infundados os receios de que venha a ter lugar uma "invasão" de imigrantes provenientes dos 10 novos países aderentes.
(2ª parte do artigo publicado na edição de 7 de Maio de 2004 no "Semanário Económico")
O estudo recente "Contributos dos Imigrantes na Demografia Portuguesa", de Maria João Valente Rosa, confirma que o "número de residentes estrangeiros registou, na década de 90, um aumento de 83%, variação que contrasta claramente com os 4% de aumento observado na população com nacionalidade portuguesa."
Esse aumento contribuiu em 22% para o acréscimo do volume populacional observado em Portugal entre 1991 e 2001. E para que não restem dúvidas foram os estrangeiros, em idade activa, dos 20 aos 54 anos, que mais contribuíram para o acréscimo da população estrangeira residente em Portugal.
A tese das correntes da direita ultra conservadora associa desemprego com imigração, e imigração com insegurança, correlações que a maior parte dos estudos sérios desmentem ou, pelo menos, não confirmam.
(1ª parte do artigo publicado na edição de 7 de Maio de 2004 no "Semanário Económico")
Reflectir sobre a emergência do mal no humano, sobre a condição humana indissoluvelmente ligada à existência e resistência do mal, não tem nada de novo. Tal reflecção sobre o mal não pode contudo descambar na banalização deste. Ora, verifica-se um resvalamento dessa inevitabilidade do mal, para uma espécie de justificação ou admissibilidade da sua manifestação. Afirma José Manuel Fernandes, no Público de ontem, referindo-se ao tratamento obsceno e humilhante perpetrado por militares americanos e britânicos contra os prisioneiros iraquianos: “Acontece porém que aquilo que distingue as democracias das ditaduras é que, nas primeiras, quando estes casos têm lugar, os seus responsáveis são identificados, investigados, julgados e condenados”, enquanto que: “Nas ditaduras, em contrapartida, a tortura é parte da sua "normalidade", não é noticiada pelos jornais e televisões e os responsáveis políticos não são chamados a dar explicações.”
Ficamos aliviados ao reconhecer que o aviltamento dos presos iraquianos se deu no quadro de um regime democrático!...

(do sítio da associação Resistência à Agressão Publicitária)
Os movimentos anti-publicidade estão activos em Paris, como refere uma reportagem no último número da Única – Expresso. Não se passa o mesmo por cá…
Há já algum tempo que os transportes públicos em Lisboa cederam às pressões publicitárias e se vestiram de marca. Tomar um eléctrico não consiste já em entrar para uma dessas carruagens amarelas, tão emblemáticas da cidade, mas antes, em introduzir-se no interior de uma garrafa de coca-cola, ou de uma embalagem de kit-kat, ou dentro de uma garrafa de wisky, ou mesmo num telemóvel. Enfim, a diversidade até poderia ser um factor de criatividade urbana, contudo trata-se de publicidade invasora, de uma ditadura da imagem publicitária que alastra por toda a cidade e não deixa um metro quadrado que seja, uma empena de casa, uma colina verde, sem cartaz, sem anúncio, sem marca. Somos constantemente hipnotizados, subjugados, cegados pelas imagens que, para além de prenderem o olhar, ofuscam o que as circunda. A cidade está, portanto, menos visível porque se impôs a (sua) imagem. O conceito de poluição sonora, adquirido e regulamentado, deveria estender-se à imagem. Porque silenciosa, a imagem é ainda mais avassaladora. A cegueira, hoje, não se define já pela incapacidade de ver, mas antes pela incapacidade de deixar de ver imagens. A imagem substitui o real e por isso a campanha da CML pode substituir, com sucesso, as suas próprias beneficiações. É que já ninguém repara nelas, só a imagem conta…
E depois, como pode um eléctrico chamar-se desejo, se o desejo se deixa consumir nos pequenos objectos? Frustrante, não?
O chamado "processo Casa Pia" teria de se transformar, inevitavelmente, num caso de grande relevo mediático, quer pelos crimes envolvidos quer pela visibilidade pública de muitos dos suspeitos. Seria, portanto, quase impossível obviar a que decorressem em simultâneo dois julgamentos: o dos tribunais, o único que deveria ser relevante, e o da "praça pública", tão ou mais importante do que o primeiro, sobretudo para os acusados que não forem considerados culpados pelos tribunais.
Apesar de diversas peripécias, a mediatização deste caso, cujo desfecho é ainda difícil de adivinhar nesta "fase do campeonato", trouxe já alguns contributos positivos. Graças a um curso acelerado em Direito Processual Penal, boa parte dos portugueses aperceberam-se da forma algo ligeira como se realizam as escutas telefónicas e se aplica a prisão preventiva, para já não falar do modo enviesado como se utiliza o famigerado "segredo de justiça".
Mas se o julgamento dos tribunais permanece, apesar de tudo, algo recatado, o da "praça pública" segue a bom gás, com um enorme contributo de toda a comunicação social. A recente mudança da medida de coacção aplicada a Carlos Cruz fez alterar, uma vez mais, a relação de forças entre os que acreditam na inocência do apresentador de televisão e os que apostam na sua culpa, apesar de, do ponto de vista jurídico, não ter mudado em nada a situação do arguido.
Curiosa é a forma como os próprios advogados de Cruz aceitam entrar neste "jogo mediático". Conscientes da importância do julgamento da "praça pública", quase tão decisivo para o futuro do apresentador quanto o julgamento dos tribunais, os advogados disponibilizam-se para desempenhar os mais diversos papéis, por mais distantes que sejam das suas funções tradicionais. Na passada terça-feira, Ricardo Sá Fernandes não hesitou em fazer de repórter colocado em local privilegiado para cobrir a notícia quando, dentro do próprio carro que transportava Carlos Cruz para sua casa, entrou em directo, via telefone, na emissão especial da RTP, relatando o estado de espírito do apresentador e o que significava para este poder regressar a casa ao fim de mais de um ano de prisão. Ao ouvir aquelas declarações e ao ver as próprias imagens de Ricardo Sá Fernandes ao telefone, enquanto o carro tentava entrar na garagem da casa de Carlos Cruz, através de uma maré de fotógrafos, tive a sensação de que a mediatização dos acontecimentos acabara de dar mais um passo em frente. Depois dos "embeded journalists" do Iraque, os repórteres que cobriram o avanço das tropas americanas e inglesas integrados nas próprias colunas militares, acabava de nascer um novo tipo de "embeded journalist": o que vai no carro do acusado que segue a caminho de casa para cumprir prisão domiciliária.
Os frequentadores do “Abébia Vadia” já perceberam que “Sempre à Coca” pensa mais com o coração do que com a razão.
Por isso, “Sempre à Coca” declara-se admirador contumaz do Presidente Jorge Sampaio, homem sóbrio, educado, informado, com ideias (e ideais!) arrumadas, praticante da cultura, modesto quanto baste, firme quanto o necessário.
“Sempre à Coca” está sobretudo solidário com o ser humano Jorge Sampaio quando, na qualidade de Presidente da República, se emociona publicamente e não contem as lágrimas, dando assim sinal de pujante revolta contra injustiças impensáveis.
“Sempre à Coca” segue, pois, com atenção a “Semana da Educação”, iniciativa com a qual o Presidente da República tem mostrado ao País a escola real e o ensino profundo.
Logo no primeiro dia desta “Semana da Educação”, a repórter de uma televisão, numa intervenção “em directo”, à porta de uma escola de subúrbio, perguntou a uma criança com pouco mais de sete anos: “Que vais tu pedir ao Presidente da República?”
Sem grande hesitação, surgiu a resposta: “Vou pedir emprego para os nossos pais, para podermos comer”.
A singularidade do desabafo confere, por si só, um significado incalculável à iniciativa do Presidente Jorge Sampaio. É que Portugal detém o recorde da UE do número de crianças/adolescentes que diariamente abandonam o ensino. Quase sempre em busca de emprego que permita equilibrar o orçamento familiar.
“Sempre à Coca” já reparou que estas e outras coisas comovem Jorge Sampaio. “Sempre à Coca” arrisca a pretensão de considerar que os homens que choram estão mais perto da perfeição.
“Sempre à Coca” atribui as seguintes Abébias:
“Abébia de Platina” para os cerca de 40 mil professores que lutam contra o “erro informático” engendrado pelo Ministério da Educação.
“Abébia já me devia ter ido embora porque sou incompetente”, para o ministro da Educação, David Justino.
Reune-se o Tribunal da Relação e decide: a medida de coacção é exagerada. E o arguido, após quinze meses de prisão, é posto em liberdade. Assim. Sem mais.
Quinze meses para se chegar a tal conclusão...
Indigna-se o arguido?
Não!
Humildemente, o arguido cala-se. Se é que não agradece.
Porque o que lhe aconteceu não prova a incompetência e muito menos a prepotência de um qualquer juiz.
Prova que a justiça funciona.

(Por favor, enviem sugestões de legendas para esta foto - ou pequenos-curtos textos que, de algum modo, nela encontrem uma boa ilustração.)
Se não me engano, isto começou com a Expo-98. Grandes relógios anunciando os meses, os dias, as horas e os segundos que nos separavam do início do acontecimento foram, então, instalados em diversos locais de Lisboa. A moda pegou. Na noite de sexta-feira, a SIC-Notícias lembrava, de trinta em trinta minutos, o tempo que faltava para se atingir as 23 horas, ou seja, 24 horas em Roma: momento em que a Europa passaria de 15 a 25 membros. Hoje, terça-feira, é a Antena 1 da RDP (não sei se outras estações também) que, desde a manhã, procede à contagem decrescente do tempo que falta para o árbitro, um célebre careca italiano chamado Collina, apitar para o começo do jogo Porto/Corunha. Desde o início de Abril que diversos órgãos de informação nos informam sobre o número de dias que teremos, ansiosamente, que ultrapassar para chegarmos, enfim, ao 12 de Junho: data da inauguração do Euro 2004. E no Diário de Notícias, páginas inteiras de publicidade a cores, sobre a parada de estrelas que dá pelo nome de "Rock in Rio", alertam-nos: "Já só faltam 25 dias para o maior festival do Mundo"; "Tem apenas 24 dias para garantir o seu lugar".
E nós lá vamos, embalados por um ritmo que nos é proposto/imposto. Enfrentamos as agruras do quotidiano, situando-nos num tempo que está para vir. O futuro como elixir do presente.
“Sempre à Coca” apresenta-se. Ou melhor introduz-se, como quem não quer a coisa, à sorrelfa, pela porta das traseiras, passa despercebido, é pseudónimo.
“Sempre à Coca” é o lado negro do “Abébia Vadia”. Desconfia da “Abébia”, admira e cultiva uma paixão platónica por “Vadia”.
“Sempre à Coca” é irresponsável, parcial, mesquinho, invejoso e acoberta-se no anonimato do Portugal profundo para exercer cidadania, por vezes ao nível do saneamento básico onde, como é sabido, habitam as justiceiras Tartarugas Ninja.
“Sempre à Coca” é substancialmente lusitano, português, patriota à mesa de café, é “tuga”, nunca diz nem torna a dizer, nunca faz nem torna a fazer, arreganha a taxa pela frente e espeta o corta-unhas (dos pés, tamanho médio) pelas costas.
“Sempre à Coca” é o “tuga” no seu melhor, deixa para a semana o que podia ter feito o mês passado, não paga hoje o que pode pagar no mês seguinte ou, melhor ainda, fica a dever porque só os “tansos” desconhecem que ninguém é preso por dívidas. Que se saiba, o Estado português nunca foi preso.
“Sempre à Coca” estará ao lado do “tuga”, cuja consternação atinge o auge quando, ao ver os telejornais, descobre os pobrezinhos, os desvalidos e outras minorias úteis ao exercício da caridade, desde que não alcancem o estatuto de maioria.
A caridade, como é internacionalmente reconhecido, está-nos na massa do sangue: Zé do Telhado roubava os ricos para dar aos pobres e a Rainha Santa Isabel, quando tropeçava num indigente (era assim que então se classificavam os sem-abrigo), escancarava o regaço de onde sacava um naco de pão com sabor a rosas. Esta ideia, aliás, de dar sabores às coisas, veio a ser aplicada com grande sucesso nos nossos dias, pela Nestlé e fábricas de anticoncepcionais.
“Sempre à Coca” não será complacente com ricos, poderosos, padres, médicos, agências funerárias, Finanças, seguradoras e construtores civis. Quando aparecem nunca é para nos dar alguma coisa.
Por fim, “Sempre à Coca” também enaltecerá e expandirá os autores e os feitos dos que melhor nos vão representado por esse mundo fora, numa diáspora levada a cabo com honra e coragem por gente em busca de pão, liberdade e, sobretudo, justiça. Saudemos gente como Fá-Fá de Felgueiras, Pedro Caldeira, Zé-Zé Beleza, o sobrinho de Isaltino Morais e tantos outros que a memória modestamente se recusa trazer até nós. Por agora.
PS (Post Scriptum, expressão latina que não quer dizer Partido Socialista)
Irregularmente, “Sempre à Coca” atribuirá “Abébias” a personalidades ou instituições que se vão distinguindo no difícil exercício da sobrevivência global.
ABÉBIA DE PLATINA – Para a cantora de fado Aldina Duarte, que acaba de se estrear no mercado discográfico com o CD o “Apenas o Amor”.
ABÉBIA DE ESFEROVITE – Para o Primeiro-Ministro, Durão Barroso, que, na impossibilidade de explicar ao Parlamento o inexplicável imbróglio Martins da Cruz/CGD, protagonizou um memorável e estridente festival de gritaria.
O "Expresso" era para muitos portugueses, e também para mim, um jornal de referência. Infelizmente, nos últimos tempos, tem revelado posições completamente incompreensíveis, boa parte delas assentes numa enorme ignorância, inesperada num jornal supostamente de referência. O mais recente exemplo é o Editorial da edição de hoje. Com que então o Tratado de Roma foi assinado em 1957 por 10 países? E só 28 anos mais tarde é que se deu o primeiro alargamento com a entrada de Portugal e Espanha? Sinceramente, é lamentável tamanha ignorância. O Tratado de Roma foi assinado por apenas seis países: Alemanha Ocidental, Bélgica, França, Itália, Luxemburgo e Países Baixos. O primeiro alargamento foi em 1973, com a entrada da Dinamarca, da Irlanda e do Reino Unido, passando-se de 6 para 9 países-membros. E, finalmente, em 1981, entrou a Grécia, chegando-se então aos 10 países que o "Expresso" diz terem sido os fundadores em 1957. Não sei o que possa dizer mais. Ou antes, posso repetir-me reafirmando que é lamentável que um jornal supostamente de referência, como o "Expresso", revele através da sua ignorância, no dia em que a Europa dá um passo decisivo para o seu futuro, quão mal preparados estão os portugueses para enfrentarem os desafios que a nova União Europeia nos vai colocar.