A partir de amanhã, 10 novos países integram a União Europeia. De 15 para 25, o que muda no retrato, em números:
+ 66% de países
+ 20% de cidadãos
+ 88% do numero de línguas oficias
+ 5% de PIB
+ 25% de produção de cereais
+ 1% de taxa de desemprego
+ 20% de pessoas entre os 25 e os 64 anos com diploma de ensino superior
Custo horário do trabalho: de 22.21€ para 19.09€
Produtividade por pessoa empregada: de 57.6 para 51.9
Numero de horas de trabalho semanal: de 38.7 para 39.2
Percentagem de jovens de 22 anos que completaram o ensino secundário: de 75.4% para 78.7% (44.9% em Portugal!)
Percentagem da população com idade entre os 18 e os 24 anos que apenas concluíram o ensino básico: de 18.8% para 16.4% (45.5% em Portugal)
Numero de carros por 100 habitantes: de 49 para 46 (dados 2001)
Numero de telemóveis por 100 habitantes: de 78 para 74 (dados 2002)
Numero de computadores pessoais por 100 habitantes: de 34 para 31 (idem)
Numero de utilizadores Internet por 100 habitantes: de 36 para 33 (idem)
Numero de médicos por 100.000 habitantes: de 363 para 348 (dados 2001)
Numero de dentistas por 100.000 habitantes: 61 para 57 (idem)
Taxa de incidência de SIDA por milhão de habitantes: de 25 para 22 (dados de 2002)
Taxa de incidência de tuberculose por 100.000 habitantes: de 12 para 15 (dados de 2001)
Alguém já reparou que Lisboa está mais bonita? Alguém já reparou que há cartazes espalhados pela cidade fazendo reparar no embelazamento da cidade? Alguém já perguntou quanto custa e para que servem estes cartazes? É que: se Lisboa está cada vez mais bonita, então é provável que o cidadão repare. Se Lisboa está a mudar, para melhor, e ninguém reparou, das duas uma, ou a mudança não é visível, ou o estado depressivo geral não permite ler e gozar essa mudança. Mas, alguém já reparou que a força do cartaz não está na constatação mas antes na performatividade da própria pergunta? Tal pergunta implica a aceitação da resposta, implica uma resposta dada à partida. Contudo, não ficamos por aqui, em matéria municipal. Um anúncio público, entretanto editado por alguns jornais, convocou uma manifestação de apoio ao presidente, frente ao edifício da CML, a propósito do diferendo do túnel das Amoreiras. O Presidente, comovido, agradeceu, e pediu encarecidamente para que tal não acontecesse…
Realmente, Lisboa está a mudar; viver em Lisboa é não parar de se surpreender…
Esta é a pergunta mais frequente por alturas das comemorações da revolução dos cravos. Porém eu ainda não existia. Não vivi o sentimento de libertação, nem os anos de censura que o antecederam. Nasci. Senti, desde pequeno, o impacto que teve para todos que estavam lá. Rodeado de gente que se preocupa pelo que se passa pelo mundo fora, fui aprendendo que tudo nos afecta neste mundo, por muito longe que esteja, por mais irrelevante que seja. Mas a maioria da minha geração, aqueles que também sempre viveram em liberdade, não cresceu de olhos abertos para tal realidade, e tomando a liberdade como garantida, não se interessam! Vêm o mundo de outra perspectiva, e creio que é esse o meu papel nesta actio mental. Contribuir com a visão de um rapaz de 20 anos e com o mundo que o engloba.
Hoje é que é!
Precisava de um tal "Atestado do direito às prestações em espécie durante uma estada num Estado membro", documento que toda a gente conhece por "E111". Nada melhor que a Loja do Cidadão. Escolhi a dos Restauradores. Entrei. A que balcão deverei dirigir-me? Respondeu-me solícita a recepcionista: "pergunte ali à minha colega". E a colega não menos simpática: "tire uma senha e aguarde". O meu rosto abriu-se num sorriso rasgado. É que, de facto, não estamos habituados a ser tratados como cidadãos. Tirei a senha. Era o Nº 408. Olhei para o mostrador. Ia no 241. Desci à terra. Ou melhor, sentei-me. O resto adivinha-se. Adivinha-se o efeito hipnótico exercido pelos números que se seguem no mostrador e cuja marcha desejamos, ardentemente, que não pare. Adivinha-se a ansiedada provocada pela funcionária que se ausenta para fumar um cigarrinho, para beber um café ou satisfazer qualquer outra necessidade. Adivinham-se os protestos dos que, como eu, para ali estão. Aparece, enfim, o 408. Levanto-me rápido, não vá passar a minha vez. Mas bastam dois minutos para saber que a espera foi vã. Para os beneficiários da ADSE só nas Laranjeiras. Saí. Em pouco mais de duas horas passara da admiração ao desapontamento. Do desapontamento ao desespero. Do desespero ao conformismo.
(P.S. Na Loja do Cidadão, às Laranjeiras, fui atendido rápida e eficazmente. Mas isto é só um aparte. Que não entra na minha estória. Senão estragava-a.)
Vasco Pulido Valente, no DN de 25-04-04, assina Imitar a Revolução. Com parangonas. Atento o motivo (a história recente de Portugal), a pretensão (um "ensaio") e a tese a defender (não houve revolução), decidi-me a ler a coisa. Vejamos.
A "tese" central. A tese central do "ensaio" reduz-se a esta frase: "O "25 de Abril foi uma revolução? Não foi." Este tema desdobra-se em variadas declarações pomposas, como sejam: "A "revolução de Abril", como romântica e fraudulentamente lhe chama a Esquerda, foi um mero pronunciamento clássico." Pronunciamento, portanto. Mas VPV fala depois de "efervescência popular". De "insurreição". De "tentativa de estabelecer um regime soviético". De "rua": "A partir de Julho [de 1975], a "rua", que antes pertencia à Esquerda e à Extrema-Esquerda, passou para o PS e para a inumerável multidão que o seguia." Da "ofensiva contra as "casas de trabalho" (as sedes) do PC", esclarecendo: "Por detrás deste movimento, em grande parte espontâneo, estava a Igreja (…)." Não se vê em lado nenhum a mais pequena tentativa de classificar seriamente o que se passou neste país naquele tempo. VPV começa por explorar um equívoco (ninguém pretende que houve uma revolução NO DIA 25-04-74) e acaba a exibir a sua incapacidade para caracterizar o PROCESSO que se seguiu. Assim, não se percebe porque faz voz tão grossa. Aqueles foram tempos de quê? Ditadura? Pacata democracia burguesa? Evolução? Como classificar todas aquelas movimentações descritas? VPV não diz. Limita-se ao seu slogan. Seriedade analítica, pouca. Haveria que explicar como classificar um processo histórico que incluiu uma ruptura "ilegal" de regime, com substituição de camadas importantes do pessoal dirigente. Maciças movimentações sociais. Profundas transformações políticas, económicas, sociais e culturais. Liberdades. Novos direitos (segurança social, saúde). Novas relações de trabalho. Profundas transformações do "quadro legal dos costumes" (família, mulher). Novo modelo económico (do corporativismo ao capitalismo banal). Etc. Incapaz desse trabalho, a "tese" de VPV não passa de uma brincadeira.
Revisionismo débil. Como VPV não explica nada disso - e teria de explicar, para se abalançar a tamanha "tese" - só posso concluir que o seu texto se limita a participar da tendência do momento para reescrever a história ao gosto de certas conveniências e ao arrepio da memória histórica viva. Essa tendência tem um nome: revisionismo. O pessoal do governo tem promovido activamente esse programa. Com tempo. Com meios. Com ferramentas de luta política que o poder de Estado fornece. Tratam de fazer vingar o seu projecto de poder imediato através da luta ideológica e cultural. São, por isso, os grandes revisionistas. VPV vem dar uma ajudazinha: débil quanto à substância, mas tingida pela auréola do intelectual. Contudo, VPV, sem os meios dos revisionistas que estão no poder, não passa de um pequeno revisionista. Uma nota de rodapé na teoria da "evolução". Ele sabe disso - e, portanto, saca de outro instrumento que tanto aprecia: o insulto.
O insulto é uma arma. Não é que surpreenda, mas VPV sente-se autorizado ao insulto. Escolho apenas um exemplo: "Melo Antunes, um homem sem formação académica ou outra, que lera o marxismo de rigor na época (principalmente a intrujice francesa) era o "intelectual" do MFA." Melo Antunes talvez não tivesse a formação que VPV estaria inclinado a carimbar como "conveniente", mas teve a suficiente para personificar a própria lucidez em todo o processo. Porque sabia o que havia a fazer para que o turbilhão não descambasse. E soube ter esse papel, porque percebia que uma "revolução", seja lá isso o que for, não é uma experiência de laboratório. Ponto que VPV, tanto tempo depois, ainda não percebeu. VPV limita-se a ser mais um "robot" na revolução (aqui explico o conceito). Há uma frase sua que explica o seu problema: "Retrospectivamente, parece impossível como não se percebeu desde o princípio a estratégia de Cunhal." Pois, "retrospectivamente". VPV parece ter dificuldade em admitir que os processos históricos não se vivem "retrospectivamente". E que o historiador que não percebe isso não passa de um novelista. Por vezes, um mau novelista. Mesmo que sirva para vender papel de jornal.
Enquanto recordamos, nas nossas próprias memórias ou nos ecrãs de televisão, esse dia único e inolvidável que foi o 25 de Abril de 1974, aproximamo-nos rapidamente de um outro dia que poderá ter consequências quase tão importantes para os nossos próximos 30 anos quanto as do 25 de Abril para os últimos 30. Refiro-me ao dia 1 de Maio de 2004, o dia em que a União Europeia dará o salto gigantesco de 15 para 25 Estados-membros.
O alargamento da União Europeia, que alguns poderão tender a menosprezar por poder ser entendido como uma mera admissão de “novos sócios” num clube do qual Portugal já é membro há alguns anos, conduzirá a médio prazo, do meu ponto de vista, a uma de duas situações: ou à construção de uma Europa federal, onde as semelhanças com o modelo "USA" se acentuarão progressivamente, ou à falência do próprio modelo da União Europeia, com consequências que não me atrevo a antever.
Quer se siga um ou outro caminho, uma coisa é certa: a Europa que hoje conhecemos irá mudar substancialmente e Portugal irá sofrer as consequências dessa mudança. Esperemos que a 1 de Maio de 2034 se possa fazer um balanço tão positivo dos últimos 30 anos quanto o feito, há alguns dias, ao celebrarmos o 25 de Abril.
O PP discorda da atribuição da Ordem da Liberdade à Isabel do Carmo. Por isso, limita a sua representação na cerimónia à ministra Celeste Cardona. No final, a condecorada revela a alguns jornalistas que foi cumprimentada por diversos membros do governo. E por Celeste Cardona? "Não, esclarece Isabel do Carmo, essa não me veio cumprimentar". "Ministra da Justiça não cumprimenta Isabel do Carmo", titula o Público na primeira página do dia seguinte. E no corpo do texto acrescenta: "a ministra da justiça fez questão de não cumprimentar Isabel do Carmo". A partir daí, um comentarista da Antena 1 parte para considerações inflamadas sobre a incapacidade dos populares viverem em democracia. Não é minha intenção analisar, aqui, os pressupostos políticos do PP. Também penso que muitos dos seus dirigentes são incapazes de viver em democracia. O que me interessa, é mostrar como uma "não acção" se converte, mediaticamente, "numa acção efectiva". Assim se constroi a notícia. Assim nasce o acontecimento.
Abébia- ajuda que se presta a alguém;auxílio; informação ou indicação boa, útil;dar uma abébia – fazer uma observação, dar uma oportunidade; prestar uma informação, ensinar algo que ajude a realizar algo (Dicionário Houaiss).
Move-nos o mesmo espírito de intervir no espaço público, dando voz à crítica, ao debate, à reflexão. Vozes múltiplas.
O José Manuel Rebelo vai ser hoje condecorado pelo Presidente da República com a Ordem da Liberdade . 30 anos depois do 25 de Abril, o reconhecimento justo e merecido do seu empenhamento. Parabéns!
A criação é uma forma de afirmação das diferenças que não das desigualdades.
Compete-nos, como cidadãos livres, encontrar um sopro de inspiração, na medida das nossas escassas forças, para combater o conformismo e o aviltamento dos valores essenciais que salvaguardam a humanidade da barbárie.
Esses valores são velhas bandeiras do pensamento humanista e liberal dos últimos séculos: direito à vida, defesa da liberdade individual e da democracia. Igualdade de oportunidade para todos no acesso aos benefícios do progresso económico, cientifico, tecnológico e social.
Na vertigem deste caminho muitas interrogações sempre se colocaram aos homens dos tempos modernos: o humanismo é um pensamento limitado? O liberalismo é um pensamento pervertido? O progresso uma aspiração antiquada?
A revolta do homem talvez aconselhasse a adoptar sempre os princípios de um pensamento que tudo tomasse em conta. Sem sublinhados nem os encargos de múltiplas heranças filosóficas ou históricas.
Mas a maioria, salvo os assassinos, que estão sempre prontos a sujar as mãos de sangue e a lançar para a valeta os corpos das suas vitimas, executadas á vista de todos os homens de boa vontade, aceitam certamente, que fiquem de pé, na luta contra a barbárie, os princípios do direito á vida, à liberdade e à justiça.
Julgo que são esses os nossos princípios.
Abriu.
(Assinaturas) Azul. Eduardo Graça. José Rebelo. Marienbad. Nuno Marques. Paulo Godinho. Porfírio Silva. Sempre à coca.

(Foto do Arquivo Electrónico do Centro de Documentação 25 de Abril)